Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘relato’ Category

Por Edson Struminski (Du Bois)

Era o dia 21 de agosto de 1979 e o trem de passageiros descia chacoalhando pela estrada de ferro que liga Curitiba a Paranaguá. Eu tinha 16 para 17 anos. Estava viajando no meio de um grupo que incluía minha irmã, minha prima e mais alguns amigos. Não conhecia aquela ferrovia e, até então, a Serra do Mar no Paraná era apenas uma imagem vista através da hermética janela do carro quando ia com meus pais até o litoral. Então, aquele passeio na ferrovia era pura novidade: o trem azul, a paisagem com suas cores e cheiros, o verde da serra, os túneis, as cachoeiras e o Marumbi, a principal montanha daquele trajeto.
Na pequena estação ferroviária do Marumbi o trem fez uma parada. Saltou um punhado de gente dos vagões e uma pequena aglomeração logo se formou. Vi algumas pessoas carregadas como se fossem subir ao Everest e que logo iriam estar bebendo e desmoronando em alguma barraca, montada na primeira clareira que achassem. Havia um punhado de andarilhos que iriam subir algumas das trilhas do lugar. Vislumbrei rapidamente alguém ostentando uma corda na mochila, mas nada de muito especial.
Como outros grupos, subimos aquela que era tida como a trilha principal, um trajeto horroroso na verdade. Íngreme, cheio de pedras soltas, correntes escorregadias, vegetação meio despencando pelo peso das pessoas que passavam antes. Apesar disso, como o tempo estava bom e o dia agradável, acabei andando rápido. Depois de algum tempo cheguei a me adiantar ao meu grupo, mas isto não chegou a ser um problema, pois havia muita gente nesta trilha, subindo e descendo. Logo passei mais um grupinho e outro e outro…
Não sei a que horas cheguei ao cume de uma montanha, o cume do tal “Marumbi”. Já existiam várias pessoas espalhadas lá por cima. Vi que era um belo cume, de onde avistava várias outras montanhas da serra, cidades ao longe, estradas. O visual era realmente surpreendente e até empolgante para um adolescente tímido. Dali a algo como meia hora apareceu o grupo onde estavam minha irmã e minha prima, que ficou animada para descer de corda com um grupo que me pareceu, naquele momento, apenas um bando de exibicionistas.
O pessoal ficou ali fazendo macaquices com a corda até a hora de descer. Lá embaixo, na estação de trem, ganhei um papel simples, mas bonito, comemorativo de um tal “Centenário da Conquista do Marumbi”, algo que para mim não fazia muito sentido. Até aquele momento eu sequer sabia que estava no meio de uma comemoração.
Dias depois recebi um telefonema de alguém daquele grupo que foi comigo ao Marumbi, que disse que iria acontecer uma reunião em um “clube de montanhismo”. Com isto, o mesmo grupinho de adolescentes que subiu o Marumbi acabou se encontrando em uma garagem no bairro Prado Velho em Curitiba para a tal reunião. Reconheci o pessoal exibicionista das cordas do Marumbi que, na verdade, tinha armado o cirquinho no cume da montanha com boa intenção, ou seja arrecadar gente para um curso básico de montanhismo, o que aparentemente deu certo no nosso caso. Saí de lá embarcado no tal curso, com a providência de comprar meu primeiro calçado de escalada, um grotesco tênis da marca Kichute e alguns apetrechos que me permitissem acampar, como uma mochila de lona, um saco de dormir forrado de algodão e outras bugigangas.
O tal curso básico, aconteceu no morro Anhangava, um morro da Serra do Mar próximo a Curitiba, que na época era cheio de pedreiras e horrivelmente queimado e pelo qual eu futuramente me apaixonaria a ponto de construir a minha casa. Naturalmente, o cursinho foi o mais tosco possível. Nós básicos, algumas vias fáceis, seguidas de “simulações de quedas” e aprendizado de umas duas “técnicas de rapel”. Não havia cadeirinha de escalada, então o encordamento era feito diretamente com a corda no corpo. A corda era de poliamida, comprada em casas de camioneiros. Praticamente só usávamos mosquetões de aço, pois os feitos com ligas leves eram desconhecidos, raros ou muito caros. Na falta da cadeirinha, o rapel também era feito “no couro”, a corda laçando o corpo todo, ou como suprema concessão, usavam-se cordeletes para fabricar uma cadeirinha para a descida, que permitia um rapel menos sofrido. Um pedaço de cano de alumínio era encaixado em algum mosquetão e usado para deslizar na corda. Este sistema (magnone) fazia com que o rapel se tornasse muito rápido e algumas mãos foram queimadas nesta brincadeira. A própria segurança do segundo da cordada também era feita assim. O fato é que esta tosqueira toda foi extremamente empolgante e me vi fisgado pelo vírus da escalada.
Também fazia parte do ritual deste curso básico o iniciante ganhar um apelido logo de cara. Uma frase dita pelo novato, um adereço de roupa, uma característica física, qualquer coisa, era suficiente para alguém ganhar uma alcunha. No meu caso tive sorte, ganhei um apelido em francês que seria quase uma premonição a respeito da minha futura profissão (Du Bois, que significa “da floresta” ou “da madeira”) e depois ouviria lendas sobre o surgimento deste apelido que nem sei se são verdadeiras.
Os alunos um pouco mais habilidosos ganhavam um tutor particular para avançar no mundo da escalada, o que significava aulas no Marumbi, em algumas das vias tradicionais (que em 1979 já eram um verdadeiro museu a céu aberto, mas altamente desafiadoras) e suprema glória, acompanhar algum dos tutores na abertura de alguma via nova em algum lugar.
Como aparentemente eu era um destes alunos habilidosos, apesar dos meus escassos 50 e poucos quilos e, apesar das galhofas (hoje chamaríamos de bulling), por conta da minha magreza, logo me vi bufando nas trilhas do Marumbi, dando segurança para alguém e batendo algum grampo ou rebite de forma tosca e arriscada em algum lugar da serra.

Maria Fumaça, via aberta no morro Anhangava em 1981, com Ivan Veríssimo, foto Simone Struminski

Eu não tinha muita noção naquele primeiro momento, mas o fato é que o montanhismo paranaense vivia, naqueles anos, um período de renascimento depois de uma longa e arrastada decadência e aqueles poucos novatos e mais alguns “veteranos”, apenas um pouco mais velhos que nós, representavam um esforço no sentido de modernizar o esporte no Paraná.
Na cidade onde morava na época (Curitiba), falar em montanhismo era o mesmo que falar em Marte, algo distante e sem maiores referências no mundo real. Rapidamente devorei as publicações disponíveis sobre escaladas ou montanhismo na Biblioteca Pública do Paraná, que incluía pérolas como história sobre a Via dos Austríacos (um artificial no Rio de Janeiro), publicada na falecida revista Manchete, alguma coisa primeiromundista sobre paraísos de escaladas norte americanos ou matérias de personagens que ainda refletiam no mundo alpino como o italiano Walter Bonatti, ou o andinista Domingos Giobbi (do Clube Alpino Paulista). Lembro-me de ter lido também uma matéria sobre um acidente espantoso que ainda assombrava a comunidade montanhista brasileira, a morte de uma escaladora (Marizel), asfixiada pelo tal encordoamento de corpo após uma queda na travessia dos Olhos do Imperador, na Pedra da Gávea, em 1975. Quanto aos livros, a publicação mais espetacular disponível era La montagne, um livro de 1956 de Maurice Herzog, um personagem que, na época, eu sequer imaginava a importância que tinha no montanhismo mundial.
Sem muita coisa para ler, com material escasso ou raro e poucas vias, o jeito era improvisar. Não só canos viravam aparelhos de rapel, como pedaços de antena de tv viravam estribos. Kichutes eram “envenenados” com sola de colarinho de pneu de caminhão para melhor a aderência e cadeirinhas eram feitas com cintos de segurança comprados em ferro velhos, um local, aliás, que era uma mina para a busca de materiais para “novos” equipamentos. A criatividade dos escaladores da época não tinha limites e esta carência deu origem às primeiras confecções e oficinas de montanhismo, algumas com marcas ainda hoje no mercado.
Este primeiro momento da minha vida de montanhista durou uns dois anos. Aprendizado, improvisações, passeios, ideias mirabolantes. Metade do tempo estávamos brincando, com coisas inacreditáveis como guerras de lama na montanha, enfim, algo que seria de se imaginar entre um bando de moleques, mas que, entre as brincadeiras, estavam descobrindo as montanhas, sem muitas regras ou parâmetros. Um bando de guris felizes soltos na Serra do Mar.
A minha fase seguinte na montanha seria igualmente fascinante: viveria o florescimento da escalada natural, mas isto é outra estória….

Read Full Post »

Uruguai Vertical

Por Edson Struminski

Fronteras que nos unem y límites que nos separan” é um livro do sociólogo Enrique Mazzei que repousa na estante e que fala um pouco das boas coisas e das vicissitudes em viver na região da fronteira Brasil-Uruguai.

No mundo do montanhismo percebi, ao longo do tempo, que limite é uma linha que separa algo e que subentende uma série de formalidades, regras, exigências, controles ou até disputas, muitas vezes estéreis, que são realizadas entre os montanhistas, ou seja, os limites impostos por outros montanhistas não serviram para me unir a eles, ou sequer para melhorar o meu montanhismo, ao passo que toda vez que um montanhista me mostrou uma fronteira, isto significou uma região ao redor do limite, uma área à frente, de transição ou experimentação entre ideias, valores morais e éticos, onde a escalada precisa ser mais criativa e solidária …

Nestes 35 anos que completo em 2014 praticando montanhismo, me defrontei com ambos, fronteiras e limites, espaços e linhas indefinidos ou bem marcados, tanto pelo ego e pela vaidade humana, como pela generosidade e boa vontade das pessoas.

Aqui neste lugar onde estou vivendo, no sul do Brasil, na divisa com o Uruguai e com a Argentina, me defrontei com um duplo sentido de fronteira e de limite. De um lado o limite formal entre estes países, que exigem registros migratórios, cobram taxas, fazem restrições alfandegárias e monetárias ou pedem outras formalidades, toda vez que eu e meus companheiros buscamos explorar as pedras que estão dentro de uma “fronteira geográfica” onde estão as montanhas que nos interessam.

De outro lado limites criados por outros montanhistas ou escaladores no Brasil, Uruguai ou Argentina, todos ciosos em regular e manter sob controle seus pequenos espaços de escalada, através de seus grampos, chapas, trilhas ou regras enquanto expandíamos as fronteiras da nossa imaginação montanhística, ou seja, muitas vezes vimos serem criados limites para separar os escaladores em grupos e não ações para uni-los, como em uma fronteira amiga.

Com isto, o que me surpreendeu foi o improvável Uruguai. Até não muito tempo atrás a ideia que eu fazia deste país vizinho do Brasil era a de uma grande e monótona planície, com campos a perder de vista, onde seria mais fácil enxergar uma vaca que uma pessoa, onde existia uma grande e velha cidade, Montevidéu, cheia de carros antigos, um balneário badalado, Punta del Leste, usado por estrangeiros e pronto. Visões estereotipadas é verdade, construídas pela nossa falta de informações sobre a natureza e o povo deste país.

O norte do Uruguai acabou se revelando uma “frontera amiga” no sentido humano e na escalada. Descendo pela traquila Ruta 5, uma estrada que vai de Rivera a Montevidéu e que é uma continuação da BR 158, que vem de Porto Alegre e apenas uma hora após atravessar o limite entre os dois países, surgem, em meio a reflorestamentos de eucalipto e ao bucolismo rural da paisagem, vários cerros de arenito, formando grandes mesetas ou torres de pedra com paredes verticais repletas de fendas, rachaduras, tetos, diedros e outras formações que estavam ali, esperando a criatividade exploratória de algum escalador que se dispusesse a testar as possibilidades que estas rochas oferecem.

Estas formações rochosas formam continuidade com outras existentes no lado brasileiro da fronteira. Já tive a oportunidade, por exemplo, de contar aqui um pouco da aventura da abertura de vias no Cerro Palomas, no município de Santana de Livramento (RS).

Os principais locais de escalada que encontramos (eu, Miriam Chaudon e Fabrício Domingues) estão próximos à pequena vila de Minas de Corrales, um pouco antes da cidade de Tacuarembó. São comuns as paredes abruptas e mesetas isoladas, que mudam totalmente a paisagem da região. Alguns destes cerros como o Miriñaque, o Cuñapiru, o Cerro do Meio, o Batovi e algumas “cuestas” ao redor são repletos de fendas e fissuras, que proporcionaram a abertura de vias em móvel ou, eventualmente, com corda de cima, de uma maneira mais leve e rápida, algo bom para nós e para o lugar.

Como uma pequena metáfora deste país, as paredes são modestas e curtas, mas a beleza da paisagem dos campos altos, a tranquilidade do meio rural e a boa recepção das pessoas foi sempre um grande atrativo para voltarmos. Do ponto de vista da escalada, as vias demonstraram ser bem verticais, percorrendo uma rocha de boa qualidade, assim as escaladas foram atraentes o suficiente para justificar algumas viagens para quem mora do lado brasileiro, pois invariavelmente pudemos abrir um punhado de escaladas novas a cada passeio. Existe a possibilidade de uso de vários tipos de equipamentos móveis, desde os mais tradicionais como os nuts, até os mais elaborados, como os diferentes tipos de friends, o que significou um exercício mental muito produtivo para se criarem escaladas limpas.

Em um sentido mais amplo, a cada viagem estivemos reconhecendo o que existia de comum entre nós e a língua, usos e costumes das pessoas neste pedaço do Uruguai. Entre a natureza e a paisagem desta região e aquela onde estamos vivendo. Assim, ao subir estes cerros e abrir vias no Brasil e no Uruguai de forma semelhante, acabamos por ampliar, de uma forma bem particular, um pouco mais o sentido de “fronteira” que esta região possui e, com isto, nos sentindo mais unidos a ela.

 

P1140164

P1140500

Read Full Post »

Por Edson Struminski (Du Bois)

Niterói

Apesar de passado algum tempo destes acontecimentos que irei narrar, acho importante publicar este artigo no blog.

Pouco mais de um mes após a Semana Brasileira de Montanhismo, que aconteceu no Rio de Janeiro no fim de abril e início de maio estive em terras fluminenses de volta no início de junho. Fui fazer um concurso em uma universidade federal que existe em Niterói e fui recebido carinhosamente nesta cidade pela família Chaudon (Gláucia, Lilian, Henrique), que moram em Icaraí, uma praia ultra urbana e agitada que rivaliza com as cariocas em prédios, mas que possui uma inigualável vista da baía da Guanabara, com o Pão de Açucar ao fundo. Os Chaudons me mostraram um pouco da parte histórica da cidade e das belezas naturais deste lado menos conhecido da baía. Fiz um tour pela orla marítima da cidade, que possui a mesma conformação de relevo do Rio, ou seja, montanhas de granito ou migmatito, bastante íngremes, intercaladas por praias planas e belas. Chamou minha atenção o aspecto ainda preservado da vegetação das escarpas do morro do forte de Santa Cruz (1632), um dos tantos que os portugueses construíram para fechar a baía do lado niteroiense. Também em Niterói está um dos ícones arquitetônicos modernistas de Niemeyer, o MAC, Museu de Arte Contemporânea, que parece suspenso no ar, conseguindo, com isto, quebrar a monotonia da voraz arquitetura residencial e comercial de Icaraí.

Rio

Depois que minhas atividades no concurso se encerraram acabei me transferindo para o Rio, para a casa de Vanessa Machado, que havia conhecido durante a Semana de Montanhismo. A estilosa e simpática casa de Vanessa fica em uma íngreme ladeira no bairro de Itanhangá, situado nas encostas do grande maciço da Pedra da Gávea e curiosamente um lugar mais tranquilo do que onde estava em Niterói. Apesar do cansaço, Vanessa se mostrou uma disposta parceira para agilizar caminhadas ou escaladas para mim, com ela ou com o pessoal do Graal, um grupo informal que surgiu a partir de uma destas peculiaridades cariocas: alunos de um mesmo instrutor de escalada que combinam seus passeios e escaladas a partir da internet, sem a estrutura de um clube formal.

Apesar da informalidade, as meninas, meninos (e outros graalenses não tão jovens), parecem conhecer satisfatoriamente a história do montanhismo no Rio e, até onde percebi, valorizam alguns dos componentes que fazem a riqueza e a ética do esporte, como a aventura, o aperfeiçoamento técnico visando a escalada livre, a preocupação ambiental, ainda que isto tudo me pareça um tanto diluído no meio urbano, onde tudo (trilha, escalada, montanha, vegetação das paredes) é um tanto quanto acessível e fácil de consumir, para qualquer tipo de público, seja o turista de chinelo na trilha, seja o aluno do curso de rapel, seja o escalador, grupos que se misturam em certos momentos.

Por outro lado percebi que provavelmente eu devo estar na categoria de “montanhista casca”, uma terminologia que eu não conhecia e que é usada para classificar aquele tipo de montanhista que se enfia em lugares remotos para fazer suas escaladas aventurescas ou coisa parecida, como é o meu caso e que no Rio urbano, não é tão comum.

Mas a vida é a arte do encontro, como diz o Samba da Benção, então foram estes encontros que me permitiram fazer vias no morro da Urca, na Babilônia (com uma pouco comum saída pelo cume) e uma subida na Pedra da Gávea (depois de algumas décadas), o que não foi pouca coisa considerando o tempo incerto, um tanto quanto úmido nos dias em que estive por lá. Foram estes encontros que me permitiram ter contato com pessoas que conseguem ser saudáveis e alegres dentro desta malha urbana densa e caótica que é o Rio de Janeiro hoje, o que também não é pouca coisa considerando as dificuldades do trânsito no Rio, aliás, lotado adicionalmente pelo pessoal que veio salvar o planeta, de novo.

Rio mais 20

Os belos jardins de Burle Marx no Aterro do Flamengo viraram um disputadíssimo espaço para ONGs de grife ou para as pés de chinelo e também para empresas, sindicatos, cooperativas, grupos de adolescentes, idosos, ripongas e índios, muitos índios (mais do que vi na Amazônia) além das manifestações pró ou contra alguma coisa na chamada Cúpula dos Povos, evento paralelo ao Rio mais 20, encontro oficial onde compareceram vários chefes de Estado (menos aqueles que realmente interessam, claro).

Seguramente muitas linhas bem qualificadas devem estar e serão escritas sobre estes dois eventos, então não vou gastar muito tempo de vocês leitores com minhas vagas impressões. No caso do evento do Aterro, posso dizer é que chamaram minha atenção alguns aspectos, digamos “externos” ou alheios ao evento, mas totalmente vinculados à discussão sócio ambiental: o esforço considerável dos catadores de lixo reciclável para tentar tirar algum trocado da concentração incomum de pessoas no local e o onipresente cheiro de esgoto da baía da Guanabara, que invadia de tempos em tempos as tendas do encontro.

Ou como diz um realista slogan que resume um pouco este tipo de evento: “todos querem salvar o mundo, ninguém quer ajudar a mãe a lavar a louça”.

 

Read Full Post »

Viva a latureza

Por Edson Struminski (Du Bois)

Quando vim morar na cidade de Ponta Grossa, eu me referi a uma curiosidade que era o fato de que o acesso aos lugares turísticos e de escalada era fácil, era “só seguir as latinhas”, que era um modo como eu tentava demonstrar a relação das pessoas com o lugar.

O post mostrava a descontração que as pessoas sentiam ao sair de um núcleo urbano denso, regrado e carregado como Ponta Grossa e sua expansividade ao chegar na zona rural (com suas plantações de pinus, eucalipto e soja) e, em particular, em ambientes naturais não “ruralizados” onde podiam extravasar nas cachoeiras, rios, canions e paredes da região. O extravaso era tão grande que coisas saíam pela janela afora dos carros, ou para fora das mochilas: celulares, calçados, óculos, material para rapel e latinhas, muitas latinhas. Na cidade, se você joga fora uma lata logo aparece um catador e recolhe. O Brasil é um país onde a reciclagem de latas é forte, algo como 95%, mas na zona rural e nestes ambientes naturais este pessoal nem sempre chega. Então são latas, vidros e pets por  estradas, trilhas e cachoeiras da região.

Cada ida minha a estes lugares fazia com que eu trouxesse de volta algo como umas 70 latinhas,1 kgde alumínio, além de garrafas, plásticos, vidros, etc. Como comentei naquele artigo, em Ponta Grossa eu me sentia regredindo aos anos 1980, quando comecei a ir para as montanhas em volta de Curitiba e as pessoas ainda eram muito descuidadas com a natureza.

A viagem que o alumínio faz é longa e custosa entre a dura extração do minério da bauxita e o abandono em uma cachoeira ponta grossense. A bauxita é o terceiro mineral mais abundante na natureza. O Brasil tem grandes fontes desta que é a matéria prima mais usada para a produção do alumínio, então não teria porque a gente ficar se preocupando em reciclagem deste produto leve e ultraversátil, pois afinal toda reciclagem consome energia, gera poluição, resíduos, etc. Mas a bauxita tornou-se uma recurso natural muito valorizado, pois seu processo de refino continua sendo muito caro e dispendioso. São necessárias 5 toneladas de bauxita para produzir 1 tonelada de alumínio, além de uma portentosa quantidade de energia gasta no refino do mineral.

Se eu reciclo as latas eu pulo toda esta parte, pois a coisa toda resume-se no derretimento do metal já refinado, o que é muito menos dispendioso e consome muito menos energia do que produzir o alumínio pela  mineração e refino de bauxita, que requer enormes gastos de eletricidade, diesel, etc, enquanto que a reciclagem requer apenas 5% da energia para produzi-lo. Por isto, a reciclagem tornou-se uma atividade importante. O que estamos reciclando, na verdade, é a energia gasta na produção do alumínio a partir do minério.

A reciclagem de uma única lata de alumínio, pode economizar a energia necessária para manter seu computador ligado durante umas 3 horas. Durante um ano e meio eu coletei algo como 4000 latinhas (58 kg), que é como se 4 mil pessoas simplesmente despejassem este tipo de lixo nestes lugares e fosse embora sem se importar com toda a viagem que o alumínio fez até chegar nas mãos delas. É como se como 4000 computadores pudessem ficar 3 horas passeando na internet, inclusive no meu blog.

Então faça uma pequena parte nesta estória, recicle uma lata hoje!

Read Full Post »

Alerta! Escorpiões!

Por Edson Struminski (Du Bois)

Estava em uma via no setor de escaladas em uma pedreira abandonada do Bugre, um local a respeito do qual já escrevi há tempos atrás: um lugar que lembra a cordilheira dos Andes, com uma parede alta em concha semelhante a um circo glacial, efeito realçado por um belo lago artificial e pela presença de coníferas (pinus) que invadiram o lugar. Só falta a neve.

A rocha azulada de filito ou xisto tem pouca aderência. As paredes verticais são trabalhadas com regletes, fissuras, agarras invertidas. Há um ou outro diedro, microtetos. As rochas são quebradiças ou soltas em vários pontos, mas sempre é possível encontrar linhas viáveis em muitos lugares.

O lugar é calmo. É muito raro ver alguém por ali, embora sempre encontre algum lixo que denuncia a presença de pessoas que buscam o lago para banhos. Este lago impede o acesso à base da parede, assim, costumo rapelar e escalar com a corda de cima, pois como comentei, a pedreira ainda não é totalmente estável, existem muitas pedras soltas, dos mais diversos tamanhos

Não sei até quando esta pedreira vai continuar abandonada, servindo como meu playground particular de escalador, então trato de aproveitar.

Há um diedro particularmente bonito, bem definido com um negativo ao seu no final, que chega, neste ponto, a uns 50 metros do chão. A parede esquerda deste diedro é toda fraturada e apesar do aspecto estéril desta rocha, alguma vida animal se adaptou a este ambiente. É possível encontrar nestas fissuras uma morada para morcegos. Posso sentir o cheiro deles.

Para acessar o diedro, um das minhas escaladas favoritas neste lugar, tenho de subir uns 25 metros de uma parede vertical, com agarras invertidas e posições difíceis que finalizam em uma agarra chave, onde se inicia outra sequência.

Mas a agarra chave, como tantas outras neste lugar, era apenas uma laca e quebra em sua maior parte, deixando apenas uma pequena porção, que ainda pode ser usada.

Bem, nesta porção que sobrou, ou seja, escondido abaixo da agarra que quebrou, apareceu um pequeno escorpião amarelado. Já é a segunda vez que avisto este tipo de animal por ali, embora em um prazo extenso (5 anos).

Os escorpiões são artrópodes invertebrados, que pertencem à classe dos aracnídeos. Existem 1600 espécies (e subespécies) de escorpiões catalogadas em todo o mundo. No Brasil, são encontradas cerca de 140 espécies. Possuem hábitos noturnos, vivem em locais escuros, quentes e úmidos. Na região urbana, são encontrados em locais com entulhos, pedras, dentro de sapatos, junto a roupas, etc. O avistamento deste bicho aconteceu apenas uma semana depois de eu saber, que na mesma região (escarpa de São Luis do Purunã), um outro escalador foi picado por um animal deste, mas sem consequências graves.

Dos escorpiões, o escorpião amarelo (Tityus serrulatus), é um dos de maior incidência e o mais perigoso. É um escorpião típico do Sudeste do Brasil, com cerca de 6 cm de comprimento, que apresenta coloração amarelada especialmente nas patas. Comenta-se que esta espécie não seria nativa do Paraná e teria vindo por meio de mudanças ou escondida em cargas. Nos sites que eu consultei consta que a periculosidade da picada é responsável pela maioria dos acidentes escorpiônicos no Brasil.

O veneno de todos os escorpiões tem efeito neurotóxico, ou seja, age no sistema nervoso. A picada é extremamente dolorosa, provoca dor intensa no local afetado e se dispersa por todo o corpo, levando a vítima a um estado de hiperestesia, ou seja, fazendo com que o doente fique extremamente sensível ao menor toque em todo o corpo. A ação neurotrópica da peçonha age sobre a região do encéfalo que controla os movimentos respiratórios e cardíacos, além dos movimentos peristálticos, mas sua ação é específica sobre a região do bulbo controladora da respiração, o que faz com que a vítima possa morrer por parada respiratória. O detalhe é que esse escorpião por natureza nos ataca ao se sentir ameaçado.

Em caso de picada de um escorpião, deve-se lavar o local com água e sabão e levar a pessoa até um posto de saúde ou hospital. Mas ainda não existe vacina. A pessoa deve ficar em observação. Se algum escalador ou montanhista souber de mais alguma local onde se encontre este animal, por favor relate aqui.

Veja um blog com dicas sobre escorpiões da UFMG :

http://www.ufmg.br/naondadavida/?p=658

Read Full Post »

Sob o céu de Tacuarembó

Por Edson Struminski (Du Bois)

Meu filho mais novo está com 12 anos e passou boa parte da vida dele em chácaras em volta de Curitiba. Nos últimos dois ou tres anos, porém, pela necessidade de estar mais perto da escola, ele foi morar em Campo Largo, a uns 15 km da capital paranaense. Com isto ele virou um urbaninho, em uma cidade que não tem lá muitas opções a oferecer a ele, que tem muita vivacidade e inteligência.

Ele é muito ligado a mim e eu a ele, mas hoje é um menino da internet, que oferece a ele a oportunidade de ter seu blog, MSN, facebook e sei lá mais o que. Um mundo virtual, enfim, muito bem explorado por um garoto vivaz como ele. Morando longe eu não posso estar diariamente com ele.

Como eu teria uns 10 dias de folga, pensei em fazer uma viagem diferente com este garoto, algo que unisse diversas experiências: uma viagem de avião (que está relativamente barato), uma bicada em um país vizinho, um pouco de ambientes urbanos, um pouco de ambientes naturais, um pouco de aventura. Na medida do possível algo novo para mim também, embora  a prioridade do passeio fosse para ele.

10 dias. Bem, o roteiro mais interessante me pareceu um avião até Porto Alegre, um ônibus até Santana do Livramento, daí passeios pela região e depois uma internada no Uruguaizinho, até onde conseguíssemos ir.

Com 10 dias anda-se muito no Uruguai, um país que é possível atravessar em 10 horas, mas também pode ser pouco tempo para se conhecer seus detalhes, pois as atrações podem estar escondidas e as informações distantes.

Cerros chatos

Em Livramento encontramos nossas companhias de viagem, Miriam, que tem sido minha parceira em muitos e belos passeios e Sofia sua filha, que tem 16 anos e com sua paciência zen seria uma espécie de babá, amiga e consultora de assuntos fronteiriços, free shopistas e gastronômicos do Tui, pois os dois adoram comer aquelas comidas horrorosas de adolescentes. Por outro lado eu confiava na inteligência do Tui e na sua capacidade de comunicação, que o torna um garoto expansivo e interessante de conversar.

Mas também seria importante que a viagem não ficasse só no gafanhotismo dos free shops de Rivera (cidade uruguaia geminada com Livramento) e em suas engordativas pizzas quadradas (uma especialidade uruguaia). Um dos meus objetivos era conhecer o potencial de escalada de um local próximo a Livramento, o Cerro Palomas, um morro testemunho de basalto, com topo plano e paredes verticais, um tipo de formação rochosa que aparece também no Uruguaizinho adentro.

Então arrastamos os adolescentes preguiçosos morro acima, apenas para constatar que sim, o lugar tem um potencial a ser desenvolvido, com muitas paredes, para iniciantes e veteranos, desportivos, etc, muito embora a fixação de proteções  venha a exigir algo mais do que improvisações para rappeis,  como furos profundos e alguma cola química. Claro que depois os reclamões adoraram o passeio, que foi inédito e diferente para todos… Depois disto fomos a um complexo eólico (Cerro Chato),  que aproveita o incansável vento Minuano para gerar energia limpa para a região. As gigantescas torres de energia proporcionam uma visão futurista em meio à neblina…

Uruguai em poucas horas

Tacuarembó, no Uruguai, é a terra natal da maior estrela do tango argentino, Carlos Gardel, assim este uruguaio, argentino, cidadão do mundo na verdade, ganhou um pequeno e bonito museu em plena zona rural deste departamento uruguaio, que guarda a memória e alimenta um pouco o patriotismo dos uruguaios, algo que naquele momento em que estivemos por lá estava em alta por conta de uma competição de futebol, a Copa América, que por sorte foi ganha por eles,  o que garantia uma dose menor de mal humor e eventual simpatia com estrangeiros por parte dos habitantes do país.

Na verdade foi ali em Tacuarembó que eu comecei a entender um pouco mais isto, a discrição dos habitantes do país, um relativo desinteresse pelo mundo exterior e até mesmo um certo mal humor por parte dos habitantes.

O tango é tão argentino quanto uruguaio. Mas o Uruguai não tem aquela abundância de terras e exuberância de paisagens como seus vizinhos Brasil e Argentina. A Argentina tem uma região de pampa enorme, uma cordilheira enorme com montanhas enormes e sua capital, Buenos Aires, fica na Europa, como todo mundo sabe e o Brasil, bom o Brasil é o maior país do mundo, melhor futebol do mundo, etc…

A população do Uruguai é a mesma que Curitiba, uma metrópole de tamanho médio brasileira e claramente a gente avista mais vacas, ovelhas ou até emas do que uruguaios. Tacuarembó, capital departamental tem algo como 50 mil habitantes,  a população que tinha Curitiba…, há 100 anos atrás.

Depois de algumas horas caminhando atrás de uma frustrada cachoeira, ouvindo constantes reclamações dos meninos, o que vi realmente foi o Uruguai, uma sucessão de coxilhas altas, vazias e ventosas, com rios discretos se encaixando em pequenos cânions. Nada muito impressionante para adolescentes, mas muito significativo se você quer entender o espírito de um povo criado em meio a um deserto verde com campos a perder de vista, com poucas cidades, poucas referências naturais e, um convite inegável à liberdade, a continuar andando sem preocupação com cercas, delimitações formais, ou mesmo fronteiras, o tal espírito gaucho, que é cultivado em tres países diferentes e que permeia o modo de pensar das pessoas da região.

E assim fomos atravessando o país. Pequenas cidades, rodovias vazias, poucas placas, muitas vacas.

Em Colonia del Sacramento, já no litoral uruguaio (Rio de la Plata), a menos de 50 km de Buenos Aires (avistada do outro lado do Plata), encontramos um museu que é uma espécie de play ground para colecionadores e todo o tipo de gente que fica alucinado com objetos como lápis e chaveiros, que é o Museo Arenas de Las Coleciones, mantido particularmente e com registro no Guiness por conta dos seus milhares de objetos, que foram particularmente fascinantes para nossas crianças, muito embora seja praticamente impossível ficar indiferente aos milhares de objetos, muitos deles lembrando minha própria infância (a coleção começou nos anos 50), que pudemos avistar ali.

Sacramento foi fundada em 1680 pelo império português. Tem um centro histórico belíssimo que é um Patrimônio da Humanidade reconhecido pela UNESCO. É a  cidade mais antiga do Uruguai. Seu centro histórico mostra um forte, com canhões antigos e um belo farol, de onde se pode avistar Buenos Aires, com quem o império português fez fronteira com o espanhol por um certo tempo. É uma pequena e charmosa cidade com atrativos para vários tipos de públicos. Tui e Sofia encontraram um ateliê de um fotógrafo de Porto Alegre muito talentoso e foi muito impressionante ver como o menino discutia detalhes da produção deste rapaz de igual para igual. Sofia ficou deslumbrada com as fotografias.

Estrelas em Tacuarembó

Foi ainda lá, em uma caminhada noturna, sob o céu estrelado de Tacuarembo, que encontrei uma metáfora viva do nosso papel e das nossas limitações como pais. O céu estrelado e limpo que avistamos convidava a um passeio para longe das comodidades da pequena pousada onde estávamos.

Logo nossos dois adolescentes se cansaram do passeio, do escuro e do frio e quiseram voltar.  Eu havia ajudado meu filho a comprar uma pequena lanterna de boa qualidade nos free shops de Rivera e disse que eles poderiam inaugurar a lanterninha e voltar sozinhos e assim eles fizeram, de braços dados, tropeçando nas pedras da estrada, um pouco inseguros. Eu fiquei iluminando o começo da caminhada deles, mas logo minha luz já foi insuficiente.

E assim são nossos filhos, podemos iluminar um pouco do caminho deles, mostrar uma direção entre tantas, dar algumas dicas, mas o caminho eles terão de fazer sozinhos, enfrentando, seguros ou não, os tropeços que virão. Eles tem olhares próprios para o mundo. Tem seu brilho próprio. Nossas estrelas não podem sufocar as deles.

Nestes dias que passamos na fronteira e no Uruguai nós formamos uma espécie de família ambulante. Uma combinação bonita que, com um pouco de bom humor, improvisação e paciência, no final, deu certo. Gostei muito.

Read Full Post »

Por Edson Struminski (Du Bois) 

A BR 373, que liga Ponta Grossa a Prudentópolis está tomada pela neblina e, felizmente para mim, o movimento nesta estrada está na medida certa, nem excessivo a ponto de testar os nervos, nem tão baixo a ponto de fazer com que a monotonia da paisagem esbranquiçada me leve a um sono perigoso nesta estrada de mão dupla, que apesar de bem conservada (é pedagiada) tem lá suas armadilhas e desta vez estou sozinho.

Alguns quilômetros antes de chegar à esta cidade, dou uma guinada em uma estradinha rural, que cruza um faxinal. Hoje já aprendi a entender os sinais sutis que caracterizam este singular uso da terra típico desta região do centro sul paranaense: mata-burros na estrada, animais soltos em meio às áreas florestais, cercas praticamente ausentes entre as propriedades, um certo ar bucólico na paisagem.

Andar em busca dos saltos dos rios da região exige uma navegação múltipla. É necessário usar alguns mapas precários, ficar de olho nas placas indicativas, quando existem, regular a quilometragem e perguntar para as pessoas, mais de uma vez, pois as informações podem ser contraditórias. Você pode se guiar também pelas latinhas que os visitantes jogam pela estrada, algo que, como já comentei em um artigo anterior aqui no blog (https://blogdodubois.wordpress.com/2010/11/11/livre-acesso-ao-salto-sao-jorge-ate-quando/), é uma espécie de marcador extra-oficial do turismo alienado que acontece nestas regiões.

Cruzo o rio dos Patos, volumoso e tranquilo, que nada sugere do que vem pela frente. E o que vem pela frente é o salto Barão do Rio Branco, que cai em mais um degrau portentoso que a geologia da região aprontou para os rios da região, no inevitável caminho das águas em direção às terras mais baixas.

Andando pelas estradinhas esburacadas da região, neste pedaço do Brasil que sugere um pouco da Ucrânia, com suas antigas picapes Willis, crianças loiras e casas de madeira, modestas e bem cuidadas, percebo que nada na paisagem sugere estas impressionantes alterações que os rios provocam no relevo. De fato, de cima do salto Barão do Rio Branco o que vejo é um impressionante cânion modelado pelo rio e coberto pela vegetação densa e úmida, que contrasta com as pedras escuras do rio. Uma sensação de natureza em construção, como havia visto em minha visita anterior a esta região (https://blogdodubois.wordpress.com/2011/04/26/prudentopolis-escalando-na-originalidade/)

Falar em geologia sempre nos lembra eras remotas da Terra, períodos antigos. Na verdade a geologia é algo dramaticamente vivo e marcante ali, na mudança do Terceiro para o Segundo Planalto Paranaense. Um dos processos de evolução do cânion parece ser o próprio trabalho da água erodindo e rompendo diretamente a rocha. Mas não o único, o relevo é incrivelmente dinâmico, como aliás eu veria dali a instantes.

Mas naquele momento, em cima de um platô plano do topo do salto, o que eu vejo é o belíssimo cânion do rio, um coalhado de pedras negras arrancadas das paredes rochosas e a vegetação tentando ocupar ao máximo a riqueza do solo gerado pela decomposição daquela pedra basáltica. Esta visão fascinante, um trecho de natureza que não tem como ser modificado, é o que tem justificado minhas visitas a estes lugares.

Também vi uma bela cachoeira vertical, com volume bem menor de água, mas que misteriosamente desapareceu minutos depois (este mistério eu descobriria depois), além de uma inusitada construção, uma robusta casa de pedra a algumas dezenas de metros da base da cachoeira.

Esta construção é uma casa de máquinas de uma PCH, uma central hidrelétrica construída em um período em que a geração e distribuição de energia nas áreas rurais no Paraná era algo remoto. Isto mudou, claro, mas a PCH continua em funcionamento, sendo usada por uma fábrica de cartões e embalagens. É uma complexa e pesada estrutura, mas que ainda assim representa uma forma de aproveitamento energético muito menos agressiva ao ambiente que as grandes centrais hidrelétricas, estas sim monstruosas e altamente impactantes. O fato é que o salto continua lá, apenas parte da água é desviada para a PCH e depois volta para o rio livre. O restante desce pelo degrau do salto Rio Branco.

Armo um rapel a partir de árvores e aproveito, mais uma vez um dos meus achados, um pedaço de mangueira que encontrei nos arenitos de Ponta Grossa, que uso para proteger a corda e que é obrigatório nestes ambientes angulosos. Eu sabia que as possibilidades de escalada nesta parede eram, naquele dia, praticamente nulas, pois a base da cachoeira estava totalmente encharcada pelo respingo da água, mas me interessava ver que tipo de vegetação se agarra às rochas, ver um pouco da diversidade de vida vertical desta parede, conhecer um pouco mais desta rocha, então desço pela parede.

Apenas 6 ou 7 metros abaixo do  platô plano do topo do salto aparece um primeiro teto e logo depois um segundo, formado recentemente. Lá pela metade da corda faço um pêndulo e consigo me agarrar aos galhos de um Guaperê (Weinmannia sp) , uma arvoreta que cresce ali, em meio a um caos de pedras soltas.

Deduzo que esta parte do cânion está sendo formada a partir “de baixo”, com a desagregação da rocha a partir da base da cachoeira, que se decompõe e sobrecarrega trechos mais altos até chegar ao topo do platô, ali mesmo onde amarrei a corda. Neste momento falta desabar apenas aqueles 6 ou 7 metros acima do teto que ultrapassei, mas há locais ali ao lado onde a espessura já é bem menor, coisa de 50 cm.

Agora que minha porção “científica” já havia entendido este novo processo de evolução do cânion, era hora de cair fora, sem derrubar nada, sem fazer movimentos bruscos, sem precisar assistir ao desabamento ao vivo. Armo, então, uma subida em ascensores e sigo jumariando parede acima, um tipo de manobra tensa, em que sempre tento resistir a tentação de pensar em quanto a corda parece fina, em que tenho que me concentrar nos meus próximos movimentos, em não cometer erros que possam ser difíceis de consertar, em não derrubar coisas das mãos, em torcer para que o rio não resolva, por um motivo qualquer, encher exatamente naquele momento…

Para quebrar a tensão aproveito a oportunidade para fotografar a vegetação, as rochas e a água do salto deste ângulo incomum e assim vou até chegar a um trecho em que posso subir escalando, testando novamente pés e mãos no basalto. 

Resta a curiosidade sobre a PCH. Recolho o material e vou em busca de alguma trilha que dê acesso à base da cachoeira e à casa de máquinas. Encontro o canal de desvio de água do rio e muito, mas muito lixo mesmo, recolhido pelo pessoal que faz manutenção da PCH nas telas de filtragem da água que desce até as turbinas. De onde vem tanto lixo? Esta é a pergunta inevitável. Ao longo do curso deste rio, zonas rurais e urbanas certamente devem usar rios como este como despejo de lixo, fora, é claro, aquilo que os turistas gentilmente despejam quando aparecem para ver esta maravilha natural. Assim, em meio ao selvagem, sinais da cidade.

Mas há toda uma complicada engenharia pelo caminho. O canal de desvio acaba e a água entra por imensos canos que descem até a casa de máquinas. Em cima dos canos corre um trilho e vagonetes que servem para transporte de materiais. Uma longa escadaria de ferro, mais de 400 degraus vai em direção à casa. Há também registros que esgotam a água do canal de desvio para as rochas e para o rio, a misteriosa cachoeira temporária que havia visto quando cheguei.

A casa de máquinas é uma sólida construção antiga e é possível sentir a vibração das turbinas na própria escadaria de ferro.

A montagem de toda esta complicada estrutura é fascinante e não deixa de ser um pouco decepcionante você visitar um lugar como este e não encontrar nenhuma informação visível, seja em relação ao salto, ao rio ou à esta casa de força. Nada que valorize a história do lugar, o esforço humano para produzir energia a partir da força bruta da natureza, nada que nos fale da forma como a vida se adaptou a este ambiente inóspito.

Carrego um tanto de lixo de volta para a cidade e saio em busca de outro salto. O salto Sete.

Outra estrada rural, outros caminhos, ausência de informações. O faro funciona mais que as indicações confusas e me vejo em uma área particular degradada, aparentemente sendo preparada para um “turismo sofisticado”, leia-se, urbanóide, com pouca integração na história local.

Desta vez estou no meio do vale, do cânion. Vejo os saltos pelo caminho da floresta, experimento a verticalidade da vegetação se agarrando aos lugares e vislumbro a cachoeira apenas pelas frestas entre as árvores. Mas o tempo passa e desta vez não terei o tempo necessário para explorar esta região também.

Na volta não resisto e paro em um pequena e simpática igreja com arquitetura ucraniana, toda colorida e cuidada de forma carinhosa pelos moradores da região que permitem que eu visite e fotografe os detalhes arquitetônicos que sempre me fascinam nestas construções.

Assim, visitando esta singela construção é que percebi que é preciso manter a sensibilidade aguçada, não se concentrar apenas na limitada descarga de adrenalina que uma mera descida de corda provoca, que é o que lemos nos blogs das pessoas que passeiam na região . Em detalhes delicados ou paisagens majestosas, é que esta região pode manter o fascínio para nós.

 

Read Full Post »

Older Posts »