Feeds:
Posts
Comentários

Archive for novembro \25\UTC 2013

Casa de Pedra – RS, nova via

Por Edson Struminski (Du Bois)

             Desde o início do ano estou morando aqui em Santana do Livramento na fronteira sul do Brasil, a umas quatro quadras do Uruguai.

Esta região da metade sul do Rio Grande do Sul apresenta uma paisagem típica do Pampa gaúcho, com campos e coxilhas intermináveis, mas às vezes surpreende o visitante com algumas visões inusitadas. A duas horas e meia de onde moro, na direção do Brasil (norte), a região de Casa de Pedra em Bagé apresenta uma destas visões. Um antigo fundo de lago em um passado remoto que hoje apresenta-se na forma de afloramentos de conglomerado, uma rocha de origem sedimentar formada por fragmentos arredondados de rochas preexistentes, unidos por um cimento de arenito endurecido. As pedras são esculpidas pela ação dos ventos e das águas e tem as formas mais inusitadas e surpreendentes. Não bastasse isto, a região de Casa de Pedra tem um aspecto de “natureza selvagem”, tanto quanto isto é possível dentro do bioma Pampa, ou seja, vegetação pouco alterada, animais selvagens, gado semi selvagem entremeado entre as pedras, pouca ou nenhuma gente…

Junto com meus companheiros Fabrício Domingues e Miriam Chaudon temos frequentado a região de Casa de Pedra desde o início do ano. Já foi possível experimentar um pouco de tudo: escaladas clássicas do lugar, vias em móvel, escaladas desportivas, caminhadas com sol, com chuva, com frio de lascar ou calor, marimbondos e estrelas.

Depois de vários meses me adaptando a este tipo de rocha, Fabrício me provoca para tentarmos abrir algo novo em Casa de Pedra. Já estávamos partilhando o esforço de equipar o Cerro Palomas, um belo morro testemunho de arenito em Santana do Livramento que se tornou nosso point de escalada, local de aperfeiçoamento de materiais, testes e treinamento, como pode-se ver em dois vídeos que montamos para o youtube (http://www.youtube.com/watch?v=KsIZMV6EHVI e http://www.youtube.com/watch?v=fcpTzDTEl2w). Porém, sentimos que estava na hora de tentar algo nos conglomerados.

O primeiro passo foi definir qual seria o estilo que usaríamos para a nova via. Como no Cerro Palomas as vias são curtas (20 m) geralmente desportivas, com chapas ou material móvel, sentíamos a vontade de buscar uma linha maior, com pelo menos duas cordadas, que é o tamanho das maiores pedras de Casa de Pedra. Também preferimos buscar uma nova linha um pouco mais distante do conjunto principal, que pudesse acrescentar um componente aventuresco adicional à escalada e que fizesse jus à tradição local de vias neste estilo. Também buscávamos algo inovador em termos de vias maiores, que por exemplo, somasse algo à tendência que existe hoje no lugar, de mesclar a escalada com chapas com passagens que incluíssem material móvel. Finalmente, considerando a beleza que algumas das pedras deste local tem, ficava o desafio de encontrar uma linha de grande beleza estética em uma face norte, pois estávamos em pleno inverno, que neste ano de 2013 foi bem rigoroso no sul do país.

Com tantos requisitos, pareceria um desafio e tanto encontrar a tal linha, mas felizmente ela existia e fica a aproximadamente uns 40 minutos de caminhada (com mochilas pesadas) do local de acampamento, em uma bela pedra chamada Ninho das Águias.

Então, estavam lá esperando por nós as tais duas cordadas, com uma fissura de erosão de uns 15 metros no meio da parede, que poderia ajudar a ganhar tempo e dar um tempero extra à via, além de um gigantesco buraco esculpido na rocha, com um platô de uns 300 metros quadrados, que só de pensar já deixava a boca salivando e, finalmente, uma crista. Bem, quem é que já não se enxergou escalando em uma crista de pedra, quem é que nunca sonhou em abrir uma via em crista ou aresta até um cume? Mais clássico que isto impossível.

Foram três investidas, a primeira, em pleno inverno, com as mãos congelando, serviu para o ajuste dos equipamentos: broca, furadeira, cliffs, parabolts, chapeletas. Colocamos apenas duas chapas e fizemos um monte de fotos, que serviram para que ficássemos sonhando acordados com os próximos movimentos da escalada, além de tomar contato com uma característica não muito simpática da rocha. Ao contrário do conglomerado a que estávamos acostumados no restante da Casa de Pedra, com os seixos bem destacados em relação ao arenito, nesta parede o arenito ainda se desprendia em placas, formando agarras tenebrosas e inseguras para enganchar os cliffs, mas ideais para uma floresta de bromélias se desenvolver. Então tivemos que escolher uma linha que simplesmente zigzagueasse as bromélias, buscandos os claros da pedra.

Bem, esta tensão, agarras que quebram, um certo esfarelamento, cliffs inseguros, pés doloridos, bromélias aterradoras, foi acompanhando a segunda investida, ainda na primeira cordada, que surpreendentemente apresentou ainda uma formação incomum neste tipo de rocha, que foi uma delicada rampa de aderência antecedendo a fissura, a qual, para meu alívio, permitiu a colocação de umas três peças e abriu acesso ao super platô.

Na terceira investida já estávamos no início da primavera, ou no último dia de inverno, dependendo do ponto de vista. Fazia frio, fazia calor, os marimbondos ora se encolhiam, ora se ouriçavam, eu havia refeito os lances iniciais já chapeleteados, passado pela fissura em móvel, feito mais uma costura com duas peças equalizadas em móvel e agora estava sentado esperando meu parceiro em uma ancoragem natural, uma árvore robusta no fim da primeira cordada, o mega platô estava a meros 5 metros acima, mas nada indicava que tivesse qualquer tipo de parada natural. Eu especulava quanto mais de tempo, esforço e risco teria ainda pela frente. Pensava nos meus 51 anos recentemente feitos, na distância até a casa da Miriam em Livramento, até a casa dos filhos no Paraná, na Miriam sozinha em baixo da parede, no risco dela ficar embaixo com o tanto de pedras que caíam sem muito controle. Se afinal, fazia sentido subir mais ainda…

Fabrício chega e interrompe meus pensamentos. Subimos ao gigantesco platô, árido e belo ao mesmo tempo. Pedras soltas, cactus, marimbondos dormindo. Montamos uma parada com duas chapas de aba dupla para um rapel de emergência. A primeira parada fixa desta parede. Depois disto lá iria eu, pela bela crista de pedra que havíamos enxergado do chão.

Ou pensei que iria. A crista de pedra se estendendo parede acima e eu empacado ali, nos primeiros 2 m. As melhores agarras de pé já tinham quebrado, as melhores agarras de mão em um gradativo esfarelar, até que chegou o temível momento sempre solitário da escalada, no qual seus amigos podem apenas assistir e que é aquele em que você estima que tudo o que havia para quebrar ou esfarelar já quebrou ou esfarelou e tem de fazer o próximo movimento, ficando por um lapso de segundos em apenas 3 apoios precários, torcendo para que nenhum destes apoios quebre e que a próxima agarra que você encontrar resista. Simplificadamente isto se chama de “crux” da cordada.

Bem, os apoios não quebraram e a próxima agarra resistiu. Assim eu subi mais alguns metros acima deste crux para uma pequena sessão de tortura, que foi a colocação de mais duas chapas crista acima, momento em que a rocha parecia cada vez mais dura e a furadeira cada vez mais mole, ou ambas as coisas…

Depois da colocação destas duas chapas, um alívio para meus companheiros tanto quanto para mim, percebi que as chances de chegar ao cume naquele dia (mais duas chapas) se esvaneciam, a menos que as baterias da furadeira fossem recarregadas ou que eu próprio recarregasse as minhas. Assim, voltei ao platô para descansar, enquanto Fabrício ia fazer um resgate de comida e água na base da via.

O efeito da comida e do descanso foi tudo naquele momento. Voltei até a última chapa colocada e subi, subi, subi, até bater no cume. Chamei o Fabrício que colocou uma chapa intermediária e depois de alguns engenhosos enjambres elétricos entre baterias e furadeira, conseguimos colocar dois parabolts para uma parada de fim de via.

Voltamos no dia seguinte para uma sessão final de aperto de chapas e de montagem da parada dupla definitiva no final da via, já com o calor da primavera, que teria sido cruel se tivesse acontecido no dia anterior. Como a pedra é chamada de Ninho das Águias a escalada acabou virando a Via dos Gaviões. Percebi que estava ali vivendo, ainda que em pequena escala, tudo aquilo que o montanhismo sempre representou na minha vida: a aventura da descoberta, o próprio privilégio do descobrimento e também a alegria e a emoção da chegada a um cume.

Para cada um de nós que esteve ali naqueles dias, Miriam, Fabrício e eu, certamente esta escalada trouxe algo diferente. Vivendo ali, naquele lugar, as emoções da cabeça da cordada e da abertura de uma nova via, estava, no meu íntimo, como que me reencontrando com um amigo que me mostrou estes lugares pela primeira vez, que foi o João Giacchin, hoje uma lenda do montanhismo gaúcho. De minha parte esta escalada é dedicada a ele.

Dados técnicos:

Via dos Gaviões (Ninho das Águias – Bagé – RS)

Graduação sugerida: 5o (60)

Equipamento móvel sugerido: Dragons Cams (DMM) do 0 ao 6, ou equivalentes

Rapel pela via normal do Ninho das Águias

Fotos: Miriam Chaudon

Agradecemos ao apoio de:

Conquista Montanhismo (http://www.conquistamontanhismo.com.br/)

Alto Estilo (http://www.altoestilo.com/)

Image

 Image

Read Full Post »