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Archive for setembro \21\UTC 2010

Morando em uma caverna urbana

Por: Edson Struminski (Du Bois)

Há um bom tempo não escrevo neste blog porque houve uma mudança importante na minha vida. Depois de 17 anos, uma pequena vida, portanto, saí de minha casa da montanha, fechei a porta e …, fui morar em uma cidade. No caso Ponta Grossa, a mais ou menos 100 km de Curitiba e a uns 130 da minha casinha no morro Anhangava.

Acabei aceitando um convite de um colega meu do doutorado para participar, por um ano, de um projeto de pesquisa no curso de geografia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e trazer algo sobre vegetação e florestas (fitogeografia) para os cursos de mestrado e graduação em geografia e biologia desta universidade, além de auxiliar alunos, orientar algumas pesquisas e, quem sabe, criar algo novo, trazer um olhar novo para uma universidade ainda jovem, pelo menos mais jovem do que eu.

Na verdade esta mudança já estava ensaiada desde o ano passado, antes mesmo de ter minha experiência amazônica. A intenção inicial era mesmo a de me vincular a uma instituição de pesquisa naquela região, que me pareceu muito carente de pessoas com conhecimentos científicos na área de florestas. Mas depois de um ano e meio e umas dez ou mais tentativas de contatos com um punhado de instituições diferentes, todos frustrados ou sem resposta, acabei sendo surpreendido pelo convite para vir até Ponta Grossa.

 Caverna urbana

Eis então que meu espaço reduziu-se de 150 para 25 m2. Uma caverna urbana, que é como eu chamo estes pequenos apartamentos (kitintes) onde as pessoas passam à noite.

Não há nada de muito atraente nesta minha caverna. Para poder usufruir um pouco do mínimo espaço que disponho acabei me desfazendo de um monte de coisas, empacotei outras e trouxe alguns objetos que estão hoje, na caverna, acomodados em móveis, que aliás são móveis mesmo, tem rodinhas ou são desmontáveis (cadeiras, mesa, prateleiras, etc), para facilitar o trabalho de limpeza da caverna e o transporte.

Também tive de usar minha criatividade para resolver problemas que esta falta de espaço gera. Desmontei a porta do banheiro e consegui encaixar uma máquina de lavar roupa lá dentro. Com alguns truques eletrotécnicos e hidráulicos, posso conectar e desconectar a lavadora e o chuveiro na mesma instalação hidráulica e elétrica. Se quiser até o lap top pode entrar na jogada. Na hora que consegui a proeza entendi que alcancei a tal da hiperconectividade de que se fala tanto por aí…

Também a cortina da janela tem este perfil. Ora ela é cortina, ora é varal de roupa. Desta minha janela, aliás, não avisto mais uma montanha ou uma floresta como na minha casa no morro. Mas vejo dois tico-ticos que montaram seu ninho embaixo das telhas da casa do vizinho, à revelia do monte de cachorros urbanos que impregnam a vizinhança com seus latidos irritantes. Nos primeiros dias que passei aqui houve um incêndio em um terreno baldio nas vizinhanças. Penso que ele sequer entrou na conta dos 40 mil que já aconteceram este ano no Brasil pelo tamanho, mas estava empesteando o ar. Vizinhos ficaram indignados, bombeiros vieram dar uma olhada, mas acabei foi mesmo apagando sozinho o fogo com uma tábua que usei como abafador.

O campus da UEPG fica perto da minha caverna, basta atravessar uma rua. Mas ele é grande (116 hectares) e levo um bom tempinho entre minha caverna moradia e outra caverninha de trabalho que me cederam na geografia. No caminho, quando vou a pé, ou de bicicleta, passo por áreas com pastagens mal cuidadas que volta e meia são incendiadas junto com algumas árvores (há projetos de expansão de construções nestas áreas), plantios de eucaliptos, ou por árvores usadas para arborização urbana, algumas muito bonitas, como o ipê-amarelo, a erva-mate ou o pinheiro, que são espécies nativas desta região, mas a maioria é mesmo exótica, vinda de lugares diversos como Estados Unidos, Austrália, Japão, Argentina, Índia, Europa, ou de ecossistemas brasileiros distantes do nosso, como o Cerrado.

Isto pode parecer bacana à primeira vista, pode parecer que dá um certo ar cosmopolita aos lugares, mas na verdade simplificar uma natureza tropical como a nossa e virar às costas para as nossas espécies nativas, não representa nada de tão interessante.

Com isto penso que as pessoas, particularmente os estudantes universitários, estão gradativamente perdendo a noção de quais são as árvores nativas do lugar onde estudam e qual foi a importância destas árvores para a formação e riqueza desta cidade, pois qualquer coisa, tendo folhas, vinda de qualquer lugar, serve.

Além disso, tenho a sensação de que as árvores aqui são como menores abandonados: mal cuidadas, meio abandonadas, jogadas na rua para sobreviverem sozinhas. Isto não é, obviamente, problema do campus ou de Ponta Grossa. Praticamente todas as cidades que eu conheço sofrem deste problema, algumas mais, outras menos. Neste momento estou podendo olhar com mais cuidado para isto.

Aliás, vejo que de modo geral as pessoas perderam também a noção de que árvores são serem vivos, que precisam de água, alimento, espaço, cuidado e carinho. Na medida do possível tenho feito este trabalho, cuidando de algumas árvores, mostrando para alguns alunos mais interessados como fazer com que uma árvore cresça forte e saudável e não fique parecendo um arbusto raquítico e malemolente. Talvez esta seja uma das minhas funções aqui, praticar uma jardinagem sofisticada.

Inclusive  aqui dentro do campus da universidade vejo que as pessoas também não tem como ter a noção do que é uma floresta. Em função de um mapa de vegetação do campus que fiz, descobri que apenas 6,5% do campus tem algum tipo de árvore, metade eucaliptos que vão acabar sendo queimados para aquecer a piscina do setor de educação física. A maioria das demais vem daquele monte de países que falei.

Há um reflorestamento de pinheiros com 40 anos aqui do lado da geografia que estou tentando transformar em algo parecido com uma floresta de verdade, assim como uma capoeira de uns 6 anos e outro reflorestamento abandonado de 17 anos com frutíferas nativas (araçá, pitanga, uvaia, goiaba). Tudo muito mal cuidado. Esta capoeira iria virar um estacionamento e será preservado em função do mapa que mostra que ela é quase tudo de vegetação nativa que sobrou por aqui (0,05%).

Embaixo dos reflorestamentos e da capoeira apareceram mudas de árvores nativas que dei um jeito de marcar com estacas. Podem servir para algum aluno estudar regeneração natural da vegetação, mas principalmente permitiram que estas mudas fossem preservadas, pois poucos dias depois o capim que crescia em volta foi roçado mecanicamente, o que não é o ideal em se tratando de regeneração da futura floresta, mas que foi melhor do que aconteceu com as mudas existentes embaixo de um eucaliptal vizinho, que simplesmente foram queimadas junto com o capim alto, há uns poucos dias.

 Mas também sou um usuário das árvores. No meu trajeto diário aproveito exatamente  a existência das árvores para treinar. Há um punhado destas árvores, cedros europeus, na educação física, que estão enfileirados bem próximos. É onde pratico movimentos de escalada diariamente pela manhã, como uma forma de manter minha condição física.

 Neste meu trajeto observo que há muito lixo voando pelo campus, vindo de fora ou de dentro mesmo, pois são milhares de pessoas circulando todo dia neste lugar e nem todos, mesmo os de nível universitário, são muito cuidadosos com o destino do seu lixo. Eu diria que, na verdade, as pessoas parecem indiferentes ao lixo que circula por aqui. Assim como com a vegetação, a gestão do lixo no campus parece deficitária, pois parte do lixo acaba sendo espalhado por carrinheiros que fazem uma separação grosseira do lixo reciclado na mesma cacimba que abriga outros tipos de lixo. Penso que futuramente a universidade irá acabando criar um espaço mais digno para estas pessoas fazerem este mesmo trabalho (reciclagem), que realmente é muito importante.

Enquanto isto não acontece, muitas vezes acabo juntando um pouco do lixo pelo caminho e geralmente sou obrigado a fazer uma pequena limpeza dos locais que uso para os treinamentos de escalada, pois o lixo abandonado pode incluir coisas perigosas como vidros quebrados ou pedaços de ferro de construção.

Na verdade este tipo de natureza, um pouco descuidada, mas com grande potencial de melhora, tem sido um dos meus temas de trabalho por aqui. É ela que me fez entrar em contato com personagens dos mais diversos no campus desta universidade. Do pessoal que faz as roçadas, ao pró-reitor de planejamento. Da coordenação do mestrado em geografia à turma que cuida do viveiro. Todas estas pessoas tem sido atenciosas comigo. Na verdade tenho descoberto que a melhor parte de Ponta Grossa são estas pessoas.

Por outro lado tenho me divertido com os alunos de geografia e biologia com quem convivo, ou os mestrandos, pois eles parecem um pouco surpresos com o fato de que o campus da universidade também é um local interessante e que merece ser olhado com mais atenção. No meu entender é a extensão da casa deles, da minha caverna. Às vezes lembro-me de outros campus que conheci, da UFPR, da USP, da UFMT entre tantos. Os problemas são um pouco parecidos.

 Essencialidades

Antes de sair da montanha passei por algumas situações muito simbólicas. Descobri que posso ser considerado invasivo apenas por ser espontâneo na minha própria casa, o que me fez pensar que para algumas pessoas a forma continua sendo mais importante que o conteúdo. Também ouvi que como cidadão do município onde morava eu era considerado “uma pessoa não grata”, o que não chega a ser uma novidade para mim. Mas, em contrapartida pensei que existem lugares tão intelectualmente pobres que ficaria incomodado se me tornasse um “pessoa grata” neles. Por outro lado descobri que tenho mais portas abertas do que eu esperava com meus vizinhos do morro. Recebi solidariedades inesperadas.

“O Anhangava mora no meu coração”, ouvi de um rapaz que escalava em um boulder. Adotei esta frase como muito oportuna que define o lugar que esta montanha tem na minha vida.

Depois de alguns anos olhando para as montanhas da Serra do Mar, como um grande quintal, estou novamente olhando para uma cidade, para as pessoas que estudam, trabalham e vivem nela. Então tive que pensar nas pessoas, coisas, lugares, que são essenciais para mim, o que valia a pena carregar comigo, nas minhas mão, no meu interior.

Mudanças são importantes na vida da gente pelo que trazem de novidades, é claro, mas também pelo que descobrimos que não muda na nossa vida com a mudança. São as nossas essencialidades.

Não foi sem surpresa que descobri que são poucas as minhas essencialidades. Os mais atentos descobrirão que parte delas perpassam este texto. É pouco aquilo que eu considero importante. Percebi que a maior parte daquilo que gravitava em torno do meu mundo é realmente supérflua. Que muito do que eu acumulava pode simplesmente ser dispensado ou deixado de lado por um tempo, um bom tempo e eu poderei simplesmente não sentir falta.

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