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Archive for fevereiro \20\UTC 2015

Pedras do agreste alagoano

Por: Edson Struminski (Du Bois)

Conhecer um pouco do interior do Estado de Alagoas, fugir do carnaval muvuquento em Maceió, subir em alguma pedra interessante, olhar a cara e as carrancas do rio São Francisco, eram alguns dos objetivos modestos que eu tinha para o feriadão folianesco de fevereiro.

Outro objetivo seria também aproveitar a oportunidade para voltar a fazer uma viagem com meu filho Tui, com quem eu já tinha atravessado o Uruguai e que agora, com 16 anos, está naquela fase de mudanças climáticas adolescentes, onde um simples passeio, com algumas dificuldades, pode me dizer mais sobre ele do que anos de análises em psicólogos ou conversas moles de “pai para filho”.

Alagoas tem um formato de bumerangue, então teríamos que sair do lado direito dele, na região litorânea e atravessar o Estado inteiro até a região do agreste alagoano, coberto pela vegetação de caatinga, o que significaria percorrer 300 km para vermos uma paisagem que eu próprio ainda não conhecia.

Começamos atravessando a “Zona da Mata” alagoana, antiga residência de uma exuberante floresta tropical, a Floresta Atlântica e que transformou-se hoje (ou desde 1500 em diante, para ser mais exato) em um vasto tapete de cana para fabricação de álcool que embriaga a vida das pessoas e de açúcar que depois adoça a embriaguez.

A uns 80 km de Maceió aparecem alguns belos e imponentes morros de granito no município de Marimbondo, região que já tive oportunidade de explorar em uma investida anterior. Depois de uma cidade chamada Palmeira dos Índios, a “Zona da Mata”, ou melhor, os canaviais, dão lugar progressivamente a uma vegetação ressequida e baixa. A estrada, de dia, está em bom estado e chega a ser uma crueldade atravessar uma região tão árida como esta em um automóvel moderno, quando se compara o nosso conforto com as vidas secas das pessoas que vivem ou viveram nesta região: retirantes, cangaceiros, sertanejos, que tem estórias, aliás, já contadas por um ilustre alagoano, Graciliano Ramos.

Nosso primeiro destino é Santana do Ipanema, na fronteira com Pernambuco. O pessoal do grupo Escalacaju, de Sergipe, indicou um camarada que mora nesta cidade, Samuel Andrade, como um contato para as escaladas locais.

Após umas 3 horas de viagem pousamos na cidade e marcamos um cruzo com Samuel e com a esposa dele, Patrícia, no morro da caixa d´água, de onde podemos avistar a cidade e a Serra da Camonga, onde fica um dos setores de escalada.

Em Santana as opções de hospedagem são baratas, mas limitadas. Na falta de lugar melhor, nos alojamos em uma pousada cujo vizinho demonstrou ser um adepto forte da chamada “Brega Music”, uma mistura ou cópia descarada, de ritmos musicais nordestinos conhecidos e agradáveis como o forró, porém com letras pobres, repetitivas e de duplo sentido, que podem conter desde versões pornográficas de canções infantis, a plágios de autores nordestinos consagrados como Alceu Valença. A título carnavalesco, estas músicas são tocadas, via de regra, em altíssimo volume a qualquer hora do dia ou da noite em qualquer lugar: bares, restaurantes, postos de gasolina, ou na própria rua, ou seja, onde alguém possa andar de carro ou estacionar e abrir o porta-malas onde, invariavelmente estará instalado um possante conjunto de alto falantes que toca e soca, soca, soca, o ouvido das pessoas.

Sobreviver à noite próximo a alguém empolgado com este tipo de som já é uma aventura. Como eu já sou um pouco mais acostumado a situações deste tipo, sempre carrego um tampão de ouvido junto com a escova de dente, mas a busca por este tipo de EPI em Santana do Ipanema se revela inútil, assim meu filho passa uma noite de cão e acorda com oscilações entre o catatonismo e a raiva.

A melhor opção ainda é sair pra serra, pois outros adeptos deste tipo musical circulam pela cidade. Arrastamos o Tui junto com a gente até o morro da Camonga, um belo morro testemunho de arenito colorido com paredes que chegam a 60 m. Samuel que está na casa dos 30 anos e que começou a “escalar a sério” como ele diz, em 2010, nos apresenta um belo conjunto de escaladas que está aos poucos chapeleteando junto com alguns poucos companheiros, quando consegue algum no sertão alagoano, como Yuri, que tem 17 e mora em outra cidade vizinha.

Este setor ainda está em desenvolvimento e Samuel me explicou que algumas vias são mistas, com proteções fixas e móveis e em algumas é possível eliminar uma ou mais chapas com algum equipamento móvel adequado. Aproveitei, então, que estava com algumas peças e fui escalando com elas para testar esta hipótese, que se revelou verdadeira. Como estava com as pecinhas, Samuel me deu inclusive o privilégio da primeira guiada de uma via inteira em móvel que apenas tinha sido feita com corda de cima.

Inaugurando a via Bat Caverna (5°) em móvel na Serra da Camonga

Inaugurando a via Bat Caverna (5°) em móvel na Serra da Camonga. Foto: Tui Boaventura Struminski

Aos poucos o material foi rodando de mãos e para mim ficou marcado o olhar de alegria e encantamento dos rapazes ao ter a chance de usar aquele punhado de equipamentos nas vias. Atualmente com a internet, não é a falta de informação o que os impede de usar estes materiais e sim simplesmente o alto preço destes equipamentos no Brasil e a dificuldade de fazer este tipo de material chegar a este pedaço do sertão de Alagoas.

Ao mesmo tempo, a perspectiva para este lugar é bem interessante, pois em 2016 poderá sediar uma edição do Encontro de Escaladores do Nordeste, o que representa um sonho importante para ser mantido por pessoas que, como eles, moram longe do badalado e por vezes pedante, circuito principal do montanhismo brasileiro, no sul e sudeste do país, mas que mesmo assim, são apaixonados por pedra. Assim, a melhor alternativa me parece ser apoiar esta rapaziada para que possam seguir escalando com segurança e abrindo vias novas com qualidade crescente.

Curiosamente a presença de sulistas no morro parece ter estimulado São Pedro a mandar uma chuva leve e tempo fresco para o lugar. Algo que aliviou o calor do passeio. Depois de algum tempo, meu filho Tui, que estava roncando encostado em uma pedra, ressurge e se anima com a máquina fotográfica e depois com os tênis de escalada, tratando de se encaixar em alguma via.

Ao final, acabamos o dia no cume da pedra e depois descemos para a cidade para uma pizzada. No dia seguinte seguimos caminho para a segunda etapa deste passeio, felizes em termos sido bem recebidos e pelas horas partilhadas com os novos amigos.

O Velho Chico

No dia seguinte saímos em direção a Delmiro Gouveia, município alagoano que fica na divisa com a Bahia. A viagem de Santana até Delmiro é uma paisagem à parte, com vários morros e afloramentos de rocha em meio à aridez da caatinga, o que deixa explícito o potencial para a escalada em rocha na região. Por outro lado, chama a atenção o número de vilarejos e localidades com nomes relacionados à água, como Olho d´água do Casado, Olho d´água das Flores, Poço da Pedra, que claramente marcam lugares onde este líquido precioso pode ser encontrado. Para ressaltar isto, um morador a quem demos carona nos disse que para chegar à água percorria todo dia “meia légua” (três quilômetros).

Em contraste com esta secura, lá está o rio São Francisco com sua imensidão que vem desde Minas Gerais, passando pela Bahia e dividindo Alagoas de Sergipe até chegar ao mar. Em Delmiro Gouveia, Samuel nos passou um roteiro para chegar a um local chamado “Show da Natureza”, que fica na beira do rio.

O tal Show da Natureza é, na verdade, um grande restaurante e um atracadouro para barcos dos mais diversos tipos, desde canoas a remo a catamarãs, passando por jet skis, barcos a motor, lanchas velozes e pranchas, todos fazendo algum tipo de roteiro nos cânions do rio. É um movimento alucinante, pois, por conta do feriadão, o lugar está cheio de carros, turistas, lixo e, é claro, de adeptos da Brega Music.

Quando conseguimos nos afastar um pouco do movimentão e do barulho, se torna possível apreciar um pouco a grandiosidade do canion. O rio mostra água suficientemente limpa pra vez ou outra vermos algum peixe ou um camarão de água doce. As paredes avermelhadas do canion são realmente maravilhosas e fazem um contraste impressionante com a água azulada, um convite para escaladas em móvel, ou em psicobloc, como está na moda depois que alguns espanhóis passaram por aqui. Tui se empolga com o riozão e faz a travessia até a outra margem, chegando até o Estado da Bahia.

Depois de uma noite de sono finalmente boa, em Delmiro Gouveia, fazemos mais um trecho de estrada até a cidade de Piranhas, também na beira do rio. O centro histórico desta pequena cidade está empilhado na própria barranca do rio, com ladeiras e escadarias pra todos os lados. Há poucos anos atrás o casario antigo da cidade foi todo recuperado e algumas construções mais importantes foram restauradas, então o conjunto arquitetônico surpreende pelas cores e pela beleza.

Depois de rodar pela parte histórica da cidade, fugimos do som alto e da onipresente muvuca e achamos um canto tranquilo para um demorado banho no Velho Chico, sem risco de sermos atropelados por alguma lancha desavisada. Do outro lado a secura da caatinga seguia pelo Estado de Sergipe, por onde andou Lampião e sua turma. Piranhas foi palco de alguns combates sangrentos entre moradores locais e parte do bando de Lampião, que rodou por vários estados do Nordeste. Após os cangaceiros serem mortos, acabaram tendo suas cabeças expostas na escadaria da igreja local. Depois disto surgiu toda uma discussão sociológica sobre o papel dos cangaceiros, ou seja, se eles foram heróis (uma espécie de versão sertaneja do Robin Hood) ou apenas bandidos. Hoje, de qualquer forma, as estórias do cangaço servem principalmente para movimentar o turismo local e vender bugigangas aos turistas.

Passando ao largo desta discussão, nos despedimos do Velho Chico e fomos comer uma deliciosa tilápia em um mirante no topo da cidade, antes de encararmos a viagem de volta, certos de que valerá a pena voltar novamente.

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