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Archive for novembro \28\UTC 2007

Edson Struminski (Du Bois)

Concorrer com o mundo da informação, seja ampla ou especializada, que hoje passa pela internet e por uma pujante produção editorial é uma tarefa inglória. Mas é a esta tarefa que há vinte anos a revista Superinteressante, da Editora Abril se propôs a fazer e de modo geral vem se saindo razoavelmente bem. Mas quando o assunto é montanhismo, quanta pisada na bola… Quem já teve a oportunidade de pesquisar sobre este tema na coleção impressa, ou mais apropriadamente na coleção de CDs da revista1 (tenho a que vai de 1987 a 2004), que possui um programinha de pesquisa, vai se defrontar com textos que variam do cômico ao correto, passando pelo abertamente desinformativo e porque não dizer, superdesinteressante. A Super já publicou vários textos sobre montanhismo e escalada, mas é no item alpinismo, um termo praticamente sem sentido no Brasil, ou que explica apenas um tipo de montanhismo praticado nos Alpes europeus, que encontramos o maior número de links para matérias (17). Termos como andinismo, montanhismo, FEMESP, FEMERJ (ou seja, as federações de montanhismo), necas! Também esqueça Mozart Catão (que aparece na super com uma escalada no Mc Kinley), Alexandre Portela (escalada na Babilônia), Luis Makoto (escalada solo), Silvério Nery, André Berezoski ou outros. Embora sejam montanhistas citados em matérias, o buscador da revista não os encontra. No buscador da Super, espaço garantido mesmo apenas para Waldemar Niclewicz. Em alguns casos a Super exagera na jogação de confete. Algumas notas da revista são meras propagandas de sites do Waldemar, embora as matérias publicadas por ele na revista sejam de boa qualidade. A ausência de um consultor fixo em montanhismo (como na National Geographic Magazine, por exemplo) gera alguns deslizes impagáveis. Veja alguns micos da Superinteressante.

MICOS DA SUPER

Março de 1998, em uma matéria nesta edição, nem a presença de Alexandre Portela e principalmente de Waldemar foi garantia de que erros grosseiros e micos (ou seriam concessões jornalísticas?), ficassem de fora naquela que seria a “Matéria” sobre montanhismo. A Super caprichou, infográficos pavorosos e desinformativos convivem com textos com o quilate dos seguintes: “Como o poder é a meta do político e o aplauso é o sonho do cantor, pisar os picos mais altos é a ambição dos alpinistas” (quem ganha aplauso é o esportista de competição), ou ainda “Mas eles também não desdenham montanhas menores. Mesmo o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, de apenas 398 metros, pode ser um respeitável desafio. A redução na altura não significa, de jeito nenhum, uma redução de adrenalina. Pelo contrário. Só vence o Pão de Açúcar quem é cobra na escalada de rochas” (a turma que escala na Urca todo fim de semana vai lá “vencer” a montanha?). Quando fala dos equipamentos de escalada, a informação da revista chega a ser ambígua como em: “os equipamentos com a tecnologia apropriada não podem faltar. São eles que garantem a segurança. Na escalada de um paredão não é incomum o alpinista ficar pendurado por mais de 10 minutos num ganchinho do tamanho de um dedo, tão fino quanto uma régua (o clif), enquanto parafusa um grampo na rocha. Quem é que toparia fazer isso se não tivesse total confiança naquela peça minúscula?” Pior que isto são as definições dos equipamentos. “Mosquetão: parece aqueles chaveiros que se prendem no passador do cinto. É a ligação entre o alpinista e qualquer ponto de apoio, para rocha e gelo” (provavelmente após esta matéria os chaveiros passaram a apresentar um texto avisando que não servem para escalada), ou ainda “Coperhead: lâmina fina que serve para extrair nuts e pitons da rocha” (não é lâmina e nem serve para extrair nada) e ainda “Friend: equipamento que se enrosca nas fendas da rocha para ajudar na subida” (usar um friend assim certamente é uma enrascada). Se a revista achou difícil definir equipamentos técnicos para os leigos, mostrou total e imperdoável desintonia com a evolução do esporte, além de desinformar os leitores ao afirmar; “com as principais façanhas consolidadas, a técnica passou a perna no romantismo e o esporte foi se tornando mais radical. Nos anos 80, o equipamento era levado só por segurança. A progressão era feita na unha. Hoje, a maioria dos praticantes prefere a chamada escalada artificial, com equipamentos móveis, que não descaracterizam as rochas”.

FIXAÇÃO PELA IDÉIA DO RISCO

Outro mico é a idéia fixa do risco na escalada, que fascina os editores da Super desde sempre. Na edição de setembro de 1994 da revista, aparece uma nota sobre um escalador francês chamado Alain Robert, que pratica “a chamada escalada solo, um esporte radical mesmo, que tem apenas uma dúzia de adeptos (ou malucos) no mundo todo” (de onde apareceu este número tão pequeno de “malucos”?). Levariam alguns anos até a Super perceber que o assunto não merecia um tratamento assim tão vulgar e voltar atrás nesta opinião preconceituosa. Em abril de 2000 finalmente aparece uma matéria que tenta explicar “por que alguns atletas radicais arriscam a vida por um instante de prazer”, ou mais sobriamente, porque existe o fascínio pelo perigo (e qual é afinal sua importância para a evolução humana). Após entrevistar psicólogos e esportistas como o Makoto, a matéria conclui que “nem todo mundo que enfrenta perigo por opção própria é tachado de louco” (como aliás eles mesmos haviam tachado antes). Ufa, salvou-se a pele dos escaladores solo! Mesmo assim, em dezembro de 2000 a Super voltou a bater na mesma tecla. Risco, emoção, adrenalina. Esportistas “radicais” foram comparados a apostadores de bolsas de valores. Na matéria, montanhistas treinam executivos pois são acostumados a correr riscos. Tudo isto porque “o risco traz benefícios econômicos, psicológicos e uma sensação de prazer”.

RISCO, ENFRENTAMENTO E VITÓRIA, VISÕES LIMITADAS DA SUPERINTERESSANTE

De modo geral nas matérias produzidas pela Super, o que passa é a sensação de “risco”, “enfrentamento” e “vitória” sobre a natureza. Mas mesmo diante destes lugares comuns a Super produziu matérias inteligentes sobre montanhismo e afins, como seria de se esperar. Em novembro de 2003, por exemplo, foi escrito um número especial sobre os tais “esportes extremos”, incluindo rapel, canoying e escalada desportiva, suficientemente informativo para orientar minimamente os neófitos a irem buscar as informações nos lugares certos. Já as grandes altitudes sempre geraram assuntos interessantes na revista. Em agosto de 93 foi escrito um artigo razoável sobre os 40 anos da primeira subida ao Everest e em outubro daquele mesmo ano surgiu outro interessante artigo sobre efeitos da altitude no organismo. Era também a época das primeiras expes de brasileiros ao Himalaia e este assunto começou a chamar a atenção do público. Porém, dez anos depois, em setembro de 2003, a Super já havia deixado para lá sua visão científica e mostrou como era “fácil” subir o Everest. Ainda que mostrasse alguns perigos, a matéria deixava explícito que “alguns milhares de dólares bastam para que o cidadão tenha uma boa chance de voltar para casa cheio de histórias”. Não sei que tipo de histórias. Na verdade, apesar desta afirmação parecer tosca, a matéria mostrava sintonia com a atualidade himalaiana, mostrando um lado comercial que não deixa de ser parte de uma realidade vivida hoje naquela região. As matérias “Waldemar” também foram de boa qualidade (K2, março de 2001; Trango outubro de 2001 e sete cumes, novembro de 2003), com fotos altamente ilustrativas. Mesmo neste caso, a ênfase continua sendo “risco”, “enfrentamento” e “vitória”. De modo geral parecem matérias deslocadas em uma revista de divulgação de temas de ciência.

OUTRAS VISÕES DO MONTANHISMO

Certamente, a idéia de “risco”, “enfrentamento” e “vitória” sobre a natureza, é algo inerente às histórias de montanhistas, é claro, mas reflete apenas uma visão de domínio sobre a montanha que é bastante parcial nas relações dos montanhistas com a natureza, conforme um artigo que eu próprio escrevi há anos atrás2. Representa um ideal do ser humano no centro do universo, que surgiu com o renascimento europeu e que vive hoje seu ocaso em meio à bandalheira ambiental criada pelo próprio ser humano. O predomínio desta visão na grande maioria das matérias publicadas pela revista mostra que ela se encontra alheia ao próprio sentido do montanhismo. Calegari3, esclarece que o montanhismo é a projeção concreta de um ideal que pode variar bastante e não se resume simplesmente a uma mescla de atividades atléticas, ou ao resultado do aprendizado mecânico de certas técnicas, como sugerem algumas matérias da Super que dão ênfase aos aspectos “radicais” do esporte. O montanhismo vem sendo praticado há séculos em vários continentes com motivos que variam da busca por um ambiente espiritual mais isolado e elevado a razões científicas (vide a famosa viagem de Humbolt aos Andes) No circuito da escalada em rocha a idéia de confronto com a montanha foi dominante até o fim dos anos 1950, explicando o auge das grandes expedições himalaianas e da escalada artificial naquela época e não em período mais recente como sugere a revista (março de 1998), isto porque “como” escalar passou a assumir um papel cada vez mais importante em contraposição a “o que” escalar4. Esta visão naturalista da escalada, que inclui a escalada solo (pouco compreendida pela revista), também não é recente, mas foi recuperada nos anos 1960 e segue sendo o principal motor da ética atual do montanhismo (incluindo a criação de equipamentos que não agridem a montanha, coisa que os redatores das matérias aparentemente não perceberam). O domínio “radical” ou “extremo” da natureza, como sugere a revista, não é seguramente uma visão predominante no montanhismo, basta ler as dezenas de matérias escritas pelos escaladores nacionais e internacionais. Mesmo a escalada artificial de hoje, com equipamentos móveis, é uma variação deste ética naturalista, de respeito e não da domínio da natureza. Também tem surgido uma nova visão ecológico-científica que tem se amparado na experiência e no sucesso dos movimentos ambientalistas e nas pesquisas científicas e que tem se somado a uma visão humanista para proporcionar ações em prol da conservação das montanhas, como o nosso bem conhecido Adote uma Montanha. Assim, se é no aspecto informativo que encontramos os deslizes mais freqüentes da revista, é na compreensão dos valores humanos que envolvem a prática do montanhismo que a revista mais peca. Pode-se dizer, no entanto, que isto não é um privilégio desta revista em particular. Seguramente uma passada de olhos em matérias escritas por outros orgãos da imprensa, não especializados em montanhismo, revelariam as mesmas deficiências e visões limitadas do esporte. Certamente uma revista como a Superinteressante se tornaria mais completa se explorasse estes outros mundos do montanhismo. Esperamos que um dia ela faça isto.

Leituras superinteressantes:

1Coleção completa Superinteressante. CDROM. 2005.

2 STRUMINSKI. E. A ética no montanhismo. Curitiba: Revista Desenvolvimento e Meio Ambiente, p125 – 134, 2003.

3 Calegari, P. La Psicologia del alpinista. In: ZOTTO, G. (org). Alpinismo moderno. Barcelona: Editorial Hispano Europea, 1975, p. 31-55.

4 GSCHWENDTNER, S. Escalada Libre. Barcelona: Ediciones Martínez Roca, 1986.

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Quer resgate? Chama o Cosmo! Ouvi pela primeira vez esta frase lá pelos  idos de 1996/97, quando o Cosmo, Corpo de Socorro em Montanha dava seus primeiros passos. A frase, na época foi dita em tom de zombaria, pois estávamos justamente no meio de um resgate noturno no nosso campo escola no Anhangava (Pr), ao qual um membro do Cosmo, via rádio, havia se recusado em participar…Participar de um resgate, organizar um resgate ou até mesmo ter de providenciar um auto resgate é algo que eu sempre entendi como inerente a vida de um montanhista. Na verdade, mesmo que você não seja montanhista, não faz mal nenhum ter noções básicas de primeiros socorros e atendimento a emergências. Na verdade, minha vida profissional me conduziu para aprendizados diversos nesta área: como atender colegas que sofreram uma descarga elétrica,  praticar resgate em alto mar, combater incêndios em áreas industriais, combater incêndios florestais, etc. Em viagens pela Argentina e Chile participei de atividades como cursos rápidos, onde fui apresentado a técnicas simples e valiosas como o nó Marchand e a acoplagem segura de equipamentos de rapel, além, é claro, do valor do capacete. Acabei conhecendo os Grupos de Socorro Andino dos quais tanto ouvi falar bem como mal. Como em outros grupos de resgate pelo mundo, haviam elogios e críticas a estes grupos.De minha parte, pelas minhas contas, foram cerca de 60 pessoas atendidas ao longo da vida de montanhista. Parece muito mas não é, cerca de 2 pessoas por ano, que sofreram pequenas torções de pé e não podiam levar seu equipamento embora, aranhões após pequenas quedas, gente alcoolizada, em choque; novatos, veteranos. Houve também alguns acontecimentos graves. Bacia quebrada, costelas partidas, busca de mortos. Resgates noturnos e diurnos, com chuva, com sol, com maca improvisada ou apropriada, cadeirinha, mochila. O público destes acontecimentos é variado: famílias, caminhantes, escaladores, voadores, enfim aquele universo de situações e de pessoas sujeitas a emergências em montanha. Se eu fosse incluir acontecimentos como busca a perdidos e incêndios o número de atendimentos duplicaria. Mesmo assim, se você for conversar com algum montanhista mais experiente é altamente provável que ele tenha vários casos para contar, geralmente envolvendo voluntarismo e equipamentos próprios. Minha estória então não é excepcional.Em 1995 chegamos a criar alguma estrutura para emergências no morro Anhangava, onde moro, dentro de um projeto que estávamos tocando na época. Isto envolveu equipamentos para incêndio e resgates, incluindo um sistema de rádio-amador muito eficiente. Algumas destas coisas existem até hoje e são eventualmente utilizadas, como a maca que foi acionada após a queda de um garoto durante uma escalada sem corda na metade do mês de setembro deste ano (justamente quando estávamos atendendo a um incêndio no monte Caratuva), mas o desgaste fez a gente aposentar alguns equipamentos e a situação do Anhangava, mesmo depois de virar parque, ainda hoje é bastante precária. Na época o Anhangava tinha grande visitação e era comum tanto um resgate como um incêndio por mês, uma situação bastante tensa.  

O AMADURECIMENTO DOS GRUPOS DE RESGATE 

Por tudo isto ficou bastante evidente que um serviço de resgate em montanhas, um pouco mais organizado, tinha de existir. E ele existe no Paraná desde 1996, é o Cosmo, que atuaria no Parque Estadual Pico do Marumbi e “área de entorno na Serra do Mar”1, uma expressão vaga e indefinida que de certa forma explica a fase maldosa que meu colega proferiu a respeito do grupo. Ou seja, naquele momento o Cosmo não estava se comportando como Corpo de Socorro em Montanha e sim como um Corpo de Socorro do Marumbi, que é apenas uma das montanhas da serra, mas isto, para quem estava no meio de um resgate, era apenas uma desculpa fajuta, uma atitude anti-ética. Naquele momento, como vimos, o relacionamento do Cosmo com os demais montanhistas não foi dos melhores, havia um verdadeiro desencontro. Surgiu uma espécie de “elite” invertida no montanhismo paranaense. Enquanto uns ficavam treinando resgate no Marumbi, com uma grande quantidade de equipamentos, outros nem tinham tempo de treinar, tinham que ficar fazendo resgates com corda e mosquetões e apagando fogo no Anhangava, na época o local mais frequentado da Serra do Mar paranaense. De qualquer modo, eu entendo isto como o início do grupo e fatalmente ele teria de amadurecer.   Na verdade eu penso que com o passar dos anos o grupo amadureceu. Foram obrigados a conviver com críticas e situações desconfortáveis “extra-Marumbi”, fizeram buscas e resgates exitosos, outros nem sempre bem sucedidos, com seria de se esperar. Mas o Cosmo começou a dar uma contribuição sutil à segurança do esporte. Banalidades como o uso do capacete ou a difusão do nó Marchand, que começaram a aparecer com alunos do grupo. Degraus de ferro melhor desenhados começaram a aparecer no Marumbi e em várias trilhas perigosas da Serra do Mar, substituindo correntes e cordas improvisadas. Alguns tradicionalistas reclamaram, pois surgiram algumas “vias ferratas” mas os acidentes diminuíram. A meu ver o trabalho de prevenção de acidentes paga qualquer iniciativa neste sentido.Em nosso país, o maior desafio de grupos como o Cosmo no Paraná ou de outros que Frederico de Vasconcelos cita em uma matéria na Headwall2, caso do RESMONT (Pedra do Baú), ou UERE (Belo Horizonte) continua sendo o reconhecimento oficial, algo que afeta a autonomia destes grupos, seus recursos e o modo como o pessoal envolvido se relaciona com a sociedade, que é quem, no final, paga as contas do equipamento usado pelos grupos. Ernesto Figueira, um dos coordenadores do Cosmo escreveu uma matéria também na Revista Headwall em 20023 que mostrava as dificuldades de criar e manter um grupo de resgates. É uma matéria muito lúcida que desmonta um pouco do glamour exagerado que existe em cima desta atividade, principalmente no Brasil. Ele comenta que não há nenhum mérito especial em fazer parte de um grupo destes, quanto muito existe aquela sensação de dever cumprido, além de muito trabalho e paciência. Ernesto explica que mesmo com todo o treinamento, seu grupo sempre age em conjunto com o Corpo de Bombeiros, que é a instituição que tem por atribuição legal realizar atividades de busca e resgate. Além disso, o Cosmo tem de estar atrelado ao Instituto Ambiental do Paraná, para ações de operacionalização e manejo do Parque Marumbi. Isto deixa os grupos voluntários de resgate em posição ambígua, pois os montanhistas tem ampla condição de estar melhor preparados para resgates em montanha (sendo, no caso do Marumbi, conhecedores e frequentadores da região), ao passo que bombeiros e orgãos ambientais tem de enfrentar uma gama imensa de demandas, atendendo desde incêndios a inundações, acidentes de trânsito e também a buscas e salvamentos em montanhas, além de emergências ambientais, ou seja, tem de estar onde as coisas acontecem e, para eles, seguramente não é possível estar apenas fazendo plantão no Marumbi, como acontece com o Cosmo. Assim se acontece um acidente no Marumbi, eles certamente terão de estar lá. Mas se uma aeronave cai no Marumbi (como já aconteceu) então surge uma terceira entidade que é a aeronáutica e assim por diante. Agora imaginemos uma situação análoga no Itatiaia. Se hipoteticamente um militar da Aman sofre um acidente no parque a quem caberia o resgate, a montanhistas de um hipotético “cosmo” local, aos bombeiros de Resende, ao Ibama, ou ao pessoal da Aman?Isto nos trás perguntas: se os grupos de resgate em montanha precisam de uma cobertura legal para atuar, não seria melhor o próprio Estado investir diretamente, aumentando seu próprio pessoal, com treinamento e equipamento para atuar em resgate em montanha, podendo agir assim em qualquer lugar? Mas isto não traria uma inevitável burocracia e lentidão a uma atividade onde a rapidez faz toda a diferença? Por outro lado, grupos como o Cosmo não poderiam ser profissionalizados e receber equipamentos e atribuições para ampliar seus serviços?  

GRUPOS DE RESGATE, UMA POSIÇÃO AINDA AMBÍGUA 

No Marumbi o trabalho do Cosmo é voluntário, sendo uma associação civil sem fins lucrativos mas também presta cursos particulares pagos (como uma empresa especializada), como forma de se manter, o que na prática gera uma situação estranha e tem gerado atritos com o Estado, que mantém a estrutura do grupo e do parque estadual onde os cursos do Cosmo acontecem. Robson Flores em um artigo sobre responsabilidade civil em montanhas4, mostra que isto fomenta complicadas relações jurídicas, pois a jurisprudência e a doutrina sobre a responsabilidade civil em escaladas é ainda muito pobre no Brasil. Se acontece um acidente justamente em um curso do Cosmo, o que prevalece, o espiríto solidário Estado-Cosmo na divisão de responsabilidades ou o Código de Defesa do Consumidor?Assim, como se vê, não são perguntas fáceis nem imediatas de se responder.No entanto, é muito claro que grupos de atendimento a emergência em montanhas, altamente organizados e ostensivos, tem de existir em vários lugares do Brasil. Principalmente em lugares de maior frequência de público como por exemplo, na Pedra do Baú, que com sua sinistra escadaria é um convite para acidentes, ou no tranquilo, atraente e gélido Itatiaia, onde uma noite pode matar alguém por hipotermia e assim por diante, Urca, Salinas, etc.Com tudo o que eu escrevi, é fácil constatar que a mera existência de um Cosmo, com tudo o que isto significa em termos de prevenção de acidentes representa uma tranquilidade adicional para quem frequenta as montanhas, principalmente no Marumbi. Mesmo assim eu não me canso de cobrar mais de uma instituição como esta. Por que o Cosmo não poderia manter em seu site um serviço de informações com estatística sobre acidentes e emergências em montanhas, onde os visitantes do site se tornassem usuários e pudessem preencher formulários com informações que seriam úteis para todos?Claro que é bastante evidente que a experiência do Cosmo poderá ser valiosa para outros grupos que venham a surgir no país. Esperamos que quando isto venha a acontecer as perguntas que eu formulei aqui estejam melhor respondidas e as ambiguidades sanadas. 

Veja mais: 

1 http://www.cosmo.org.br/ 

2 VASCONCELOS, F.F. Montanhas, resgates e o papel dos guias. In: São Paulo,  Headwall, n. 9, 2004, p. 64. 

3 FIGUEIRA, E. Resgate em montanha a experiência paranaense. In: São Paulo,  Headwall, n. 4, 2002, p. 62-63. 

4 FLORES, R. Responsabilidade civil do guia de montanha. In: São Paulo,  Headwall, n. 4, 2002, p. 30-31. 

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CONTRATAÇÃO DE MONITORES AMBIENTAIS: UM TEMA QUE AINDA RENDERÁ MUITO PANO PARA MANGA.
Um tema que vem circulando nas listas de discussões de montanhismo e que ainda deverá render muito pano para manga é o da contratação obrigatória de monitores ambientais para ingresso em unidades de conservação, como são os parques. Este assunto deverá ser tema de mesa redonda dentro do II Encontro Interdisciplinar de Ecoturismo em Unidades de Conservação, que vai acontecer em Itatiaia em novembro.
Sobre este assunto, João Allievi, advogado e professor do SENAC e que irá coordenar um Grupo de Trabalho, já manifestou sua opinião. Para ele, a contratação compulsória desse serviço, além de não ter amparo legal, pois é contrária ao preceito da liberdade de escolha,  ainda fere o Código do Consumidor, pois obriga o visitante a pagar por  aquilo que não quer. Já Milton Dines do CEU chama esta obrigatoriedade de incongruente, ou seja pode ser contraditório ter de contratar um guia que talvez seja menos experiente que você. Assim parece que o tema está resolvido, basta criar e assinar um manifesto e pronto.
No entanto, porque não podemos encarar o assunto como encerrado? Este assunto não se encerra porque existe uma conhecida tendência do Estado em intervir, por razões sociais, quando acha que o mercado estaria produzindo “distorções”. No caso dos monitores turísticos, estas distorções aconteceriam em áreas onde as populações locais estivessem apenas recebendo as rebarbas dos benefícios da vizinhança de unidades de conservação, enquanto que o grosso dos valores e benefícios estariam ficando na cadeia turística responsável por trazer o turista ao lugar (aviões, hotéis, agências internacionais). Por estas razões sociais, o Estado intervém e pode criar uma reserva de mercado ou autorizar até mesmo um monopólio. A intenção, no caso é boa, gerar uma maior distribuição de renda.
Porém, a reserva de mercado, como é de muito conhecido, é paradoxalmente a que menos beneficia a população local. Induz a falta de qualidade e a ausência de competição, pela formação de cartéis, onde os primeiros, ou mais bem colocados (que não necessariamente são nativos do local), cobram o preço que querem e acabam estimulando a informalidade ou restrições, algo que eu próprio tive oportunidade de ver em Pucon, no Chile, quando tentamos subir o vulcão Vilarrica sem guia.
Quando um monitor ou guia tem de batalhar pelo cliente, deve oferecer algo que efetivamente este cliente não obterá por meios próprios ou na cadeia turística que o trouxe até ali, caso contrário o turista, que não é bobo, simplesmente pode cair fora, que foi o que fizemos naquela ocasião no Chile, quando fomos subir outras montanhas na vizinha Argentina.
O estímulo à qualidade e a um serviço realmente diferenciado é o que pode fazer com que a cadeia turística comece a deixar mais valores para as populações locais. Atualmente empresas de aviões, hotéis, grandes agências ficam com a maior parte do bolo do negócio do turismo simplesmente porque oferecem mais produtos e serviços com maior valor agregado ao pacote turístico.
Normalmente, quando o Estado deseja limitar em curto prazo o efeito nocivo desta situação, ampliar a distribuição de renda e estimular o produtor local, usa uma forma conhecida de atuar, que é através de subsídios. Eles funcionam por um tempo, podem auxiliar, assim como a reserva de mercado, quem está tentando se estabelecer, mas acabam um dia e, na verdade, como na reserva, todos nós pagamos a conta pelo serviço ruim.
Uma outra razão utilizada para justificar o uso de guias locais é ambiental. Guias locais corretamente instruídos teriam capacidade  de transmitir noções de mínimo impacto que os turistas, desconhecedores da região, só teriam condições da aprender com estes guias. Com isto estaria garantida a conservação do patrimônio natural.
Ainda que verdadeira em alguns aspectos, esta afirmação vai contra a história da maioria das unidades de conservação, geralmente depredadas pelas suas populações vizinhas que acabam enxergando estas áreas como meros depósitos de matérias primas e fontes de renda: extração de madeira e produtos florestais, pasto para gado, retirada de produtos minerais. Isto não se deve necessariamente, a que as populações vizinhas de unidades de conservação sejam más por natureza e sim ao processo histórico de criação destas unidades e ao seu uso atual. Muitas unidades de conservação foram criadas no passado sem um vínculo com a população local, desapropriando áreas sem indenização e servindo como meros “empecilhos ao desenvolvimento”, acabando, com isto, por gerar até mesmo instabilidades sociais. Uma população que se vê impedida de pescar em um rio ou usar uma estrada que atravessava uma área que hoje é parque dificilmente será seduzida por idéias de “preservação ambiental”.
A idéia de que guias locais possam auxiliar a preservar áreas naturais dentro das unidades de conservação é louvável e obviamente deve ser estimulada. Existem muitas destas pessoas que são detentoras de um saber ambiental e histórico inestimável, muitas vezes pessoas com um passado “predatório”, como caçadores ou palmiteiros, que hoje empregam seu conhecimento no turismo. Entretanto, não necessariamente o conhecimento destas pessoas pode ser automaticamente repassado para o turista.
Na prática a melhor maneira do Estado estimular a atividade turística em uma região que já tenha atributos naturais relevantes é exercendo suas finalidades clássicas, ou seja, oferecendo educação de qualidade voltada para a vocação turística do local e infra-estrutura de apoio (bons hospitais, estradas transitáveis, segurança), além, é claro, de demonstrar preocupação sincera com a manutenção de um ambiente natural equilibrado (incluindo o investimento em unidades de conservação) e com a manutenção do patrimônio histórico. Com isto ele estará oferecendo condições para que a população local veja o Estado como parceiro, enxergue as boas oportunidades e gere, com isto, renda e empregos.
Fora estas funções clássicas, o Estado deve investir no diálogo. Estimular e fomentar a criação de entidades que representem a diversidade de pensamentos sobre o turismo em dada região. Associações de moradores, de guias, de entidades de classe, de montanhistas, enfim de todos os que de alguma forma tenham algum interesse e possam acrescentar para a formação de um fórum interessado na sustentabilidade do bem coletivo representado por um atrativo turístico. Este fórum é quem deve decidir sobre coisas, como contratação obrigatória de guias, monopólios, ou reservas de mercado

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José Bonifácio: ambientalista de dois mundos

:: 2007-10-17 Por Edson Struminski*  * Eng. florestal e Dr. em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Subtítulos da responsabilidade de Ciência Hoje Portugal on line 

Já tive a oportunidade de comentar aqui, na Ciência Hoje on-line a respeito do surgimento da crítica ambiental no Brasil durante o período pombalino. Tratava-se, na verdade, da repercussão do preparo, na Europa, de estudiosos brasileiros que seriam os administradores da colónia portuguesa e que se defrontariam, no Brasil, com métodos primitivos de uso da natureza que sua sofisticada formação rejeitaria. Destes brasileiros, um nome ganharia destaque não só na análise da exploração da colónia brasileira mas também na dos métodos de trabalho da própria metrópole portuguesa: José Bonifácio de Andrada e Silva. Típico representante do período iluminista, com toda a versatilidade que isto representava na época, José Bonifácio construiu carreira no Estado português e também, por breve período, no Brasil, como administrador, cientista, político e estadista. José Bonifácio acabaria se mostrando como um zeloso representante da nova mentalidade do governo português em diversas facetas, inclusive em questões ambientais. Em seu primeiro texto: “Memória sobre a pesca das baleias” (In: CALDEIRA, 2002), podemos ler uma síntese do típico modo de pensar científico da época, onde o conhecimento gera a crítica sobre o mau uso de um dado recurso e finalmente se sintetiza em possibilidades de ganhos a partir de um uso mais racional da natureza. Ao mesmo tempo ele se mostrava particularmente preocupado com a conservação desta mesma natureza, preocupação que revelaria em outros textos. Se hoje este tipo de raciocínio é comum, certamente era inovador em 1790. A partir deste texto Bonifácio angariou prestígio e partiu para um longo período de estudos pela Europa, uma concessão rara na época.

Tema reccorrente 

A conservação das florestas era outro tema recorrente para José Bonifácio. Em uma “Memória sobre a necessidade e utilidades do plantio de novos bosques em Portugal” (In: CALDEIRA, 2002), ele faz um alerta sobre a situação do ambiente natural na metrópole portuguesa e uma ampla e sofisticada leitura das mazelas provenientes da ausência de florestas, incluindo problemas na regulação do clima e na manutenção da fertilidade do solo, bem como lembra o efeito da produção vegetal na captura do carbono, tema actualmente em grande voga. Neste texto, ao contrário do anterior sobre a pesca das baleias, que era basicamente um estímulo à livre iniciativa bem ao gosto do pensamento liberal da época, o que aparece é um chamamento à acção do Estado, que deveria agir como “vigilante sisudo” sobre os proprietários privados, cuja ignorância “foi quem na Europa conduziu a mão temerária do lavrador ignorante para despojar os montes do seu natural ornamento”. Contra isto ele sugeria novos regulamentos e uma administração fundamentada em conhecimentos científicos e na experiência, algo que na prática só começaria a acontecer a partir do surgimento de governos republicanos com fundamentação positivista.

Os mesmos problemas

Anos depois no Brasil, José Bonifácio se defrontaria com os mesmos problemas, assinalando, porém, que a destruição do meio natural poderia gerar repercussões sociais muito amplas, inclusive a desagregação das comunidades, pela desorganização das actividades produtivas e da vida civil, que, na visão dele, requereriam estabilidade territorial e demográfica, conforme pode-se deduzir do parágrafo a seguir retirado da sua viagem mineralógica à então província de São Paulo, de 1820 (DEAN, 1997): “Todas as antigas matas foram barbaramente destruídas com fogo e machado e esta falta acabou em muitas partes com os engenhos. Se o governo não tomar enérgicas medidas contra aquela raiva de destruição, sem a qual não se sabe cultivar, depressa se acabarão todas as madeiras e lenhas, os engenhos serão abandonados, as fazendas se esterilizarão, a população emigrará para outros lugares, a civilização atrasar-se-á e o apuramento da justiça e a punição dos crimes experimentará cada vez maiores dificuldades no meio dos desertos”. Assim, não por acaso, para um intelectual atento como José Bonifácio, a independência do Brasil em 1822 e a primeira Assembleia Constituinte de 1823 foram, de fato, as primeiras oportunidades, depois de mais de 300 anos de escravidão e de degradação dos recursos naturais do país, de se discutir uma pauta de modernização e “progresso” para a nova nação soberana. Segundo PÁDUA (2002, 147), José Bonifácio propunha um discurso então novo, de política geral de protecção dos recursos naturais do país, que considerava como trunfo do Brasil para seu progresso futuro.

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Superação do modelo agrícola

Tal política passava pela superação do modelo agrícola colonial latifundiário, monocultural e destrutivo, ou pelo modo de vida tradicional dos índios, visto como parasitário, através da reforma agrária e de métodos agronómicos modernos e mais ambientalmente equilibrados. Em seu texto, “Necessidade de uma academia de agricultura no país” (In: CALDEIRA, 2002) e em outros similares, fica claro que a visão de Bonifácio sobre este assunto é mais ampla do que pode se imaginar à primeira vista. Bonifácio defendia a criação de instituições científicas com um cunho inédito então no Brasil. Tratava-se, como ressalta PÁDUA (2002, 154), de uma cosmovisão sofisticada e integrativa, fundada no que havia de melhor na filosofia natural do seu tempo. As “academias”, de José Bonifácio deveriam envolver estudos e ensino de geografia, economia, política, história, biologia, zoologia, urbanismo, hidrologia, mineralogia, química, enfim, todo o leque de conhecimentos que ele estudou durante sua estadia na Europa. Tamanha capacidade de inovação fez com que José Bonifácio acabasse por chocar-se com o pensamento conservador, tanto em Portugal como no Brasil. Ainda em seu período como responsável por várias instituições portuguesas, ele defrontou-se com inúmeros obstáculos causados pela burocracia e pela passividade de funcionários desinteressados em mudanças.

Ideias inovadoras

No Brasil, como um dos dirigentes políticos da mudança maior, a independência do país, teve de enfrentar oposições e resistências a seus projectos sociais e políticos como a supressão da escravidão, a incorporação dos indígenas e o próprio uso racional da natureza, que batiam de frente contra traficantes de escravos e proprietários rurais que eram a base das fortunas e do poder liberal conservador do início da monarquia brasileira. Na verdade, as ideias de José Bonifácio seriam consideradas inovadoras em qualquer país da América naquele momento, mesmo o governo norte-americano levaria décadas até excluir a escravidão da sua vida social. Apenas poucos meses após propor estas ideias na Assembleia Constituinte de 1823 ele saiu do governo, para um exílio forçado em Paris por 6 anos. Voltaria em 1829, para assumir sua cadeira de senador, onde assistiria a derrocada de Pedro I, primeiro governante do país e assumiria o papel de tutor do seu filho, o jovem Pedro II, até ser novamente afastado em 1833. José Bonifácio passou os seus últimos anos de vida na ilha de Paquetá, olhando para um pedaço da floresta virgem que tanto apreciava. Acabou por se tornar a referência moral do século XIX e das lutas sociais e ambientais que aconteceriam durante todo o império brasileiro. BIBLIOGRAFIACALDEIRA, J. José Bonifácio de Andrada e Silva. Colecção Formadores do Brasil. São Paulo: Editora 34, 2002.

DEAN, W. A ferro e a fogo, a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. 484 p.

PÁDUA.J. A. Um sopro de destruição, pensamento político e crítica ambiental no Brasil esclavagista (1786 – 1888). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2002. 318p.

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DOCUMENTAÇÃO DE IMAGENS DE MONTANHAParte 4: imagens brasileiras Por Márcio Bortolusso Assim como lá fora, a história da Documentação de Montanha brasileira também está relacionada com a da própria evolução da fotografia e do Montanhismo em nossas terras, atividades que nasceram quase que juntas no início do século 19, seguindo praticamente o mesmo croqui evolucionário de outros países: com as primeiras ascensões técnicas que se tem registro, a necessidade de alguns escaladores em registrar suas empreitadas e, até mesmo, as dificuldades técnicas enfrentadas e a evolução dos conceitos e equipamentos.Em geral, as primeiras ascensões montanhísticas em terras tupiniquins são da primeira metade do século 19, inicialmente de pioneiros que buscavam o simples sabor da aventura ou fins de pesquisa (levantamentos topográficos, catalogações de espécies, etc), como os registros da subida de ruralistas do período do café em morros cariocas, de aventureiros à Pedra da Gávea (1828), do botânico britânico George Gardner à Pedra do Sino (1841), da inglesa Enrieta Carstiers e alguns anônimos ao Pão de Açúcar (1817, mas alguns apontam 1871) ou mesmo do Monte Roraima pelo inglês Everard Im Thurn (1884). Os primeiros registros de montanhismo técnico no Brasil são atribuídos à algumas emblemáticas ascensões e tentativas, como da maior montanha brasileira da época, o Itatiaiaçu (ou Agulhas Negras de Itatiaia), em 1856 por José Franklin Massena, em 1878 por André Rebouças, em 1898 por Horácio de Carvalho e em 1919 pela dupla Joseph Spierling e Oswaldo Leal, estes últimos os primeiros que comprovaram atingir o Cume Principal desta montanha. Com mérito similar, um grupo liderado por Joaquim Olímpio de Miranda alcançou o ponto culminante do Pico do Marumbi em 1879 e, com pioneirismo inigualável, em 1912 o pernambucano José Teixeira Guimarães e seus bravos companheiros abriram uma das primeiras vias de escalada técnica do Brasil, até o bloco mais alto do Dedo de Deus. Os relatos e as fotos destas aventuras são considerados como os primeiros marcos da Documentação de Montanha nacional.Os registros de nosso passado foram produzidos pelos próprios escaladores, mas infelizmente eu ainda não consegui identificar qual seria a imagem de escalada mais antiga do Brasil. Em geral, estes registros datam do meado do século passado, com algumas exceções mais antigas.Tentar levantar quais seriam os principais marcos da Documentação nacional é uma tarefa ingrata, mas podemos afirmar que o embrião dos registros brasileiros surgiu nos Clubes, que possuem um papel importantíssimo nesta história, pelo incentivo à prática do Montanhismo em seus primeiros anos e por ações que estimulavam o registro das atividades de cada grupo. Tanto que muito da história nacional está guardada em seus acervos. Só dando um exemplo, o Centro Excursionista Brasileiro foi fundado em 1919, sendo o mais antigo da América do Sul, e em 1926 lançou a primeira publicação dedicada ao montanhismo no país, O Excursionista (que mais tarde virou boletim interno). Em seu valioso e impressionante acervo, relatos e imagens das primeiras ascensões ao Escalavrado, Nariz do Frade, Pico Menor de Friburgo, Garrafão, Agulha do Diabo e Face Leste do Dedo de Deus. Como o CEB, outros clubes surgiram e gradativamente a nossa história foi sendo escrita e registrada para a prosperidade, com destaque para o Centro Excursionista Rio de Janeiro (fundado em 1939) e o Clube Excursionista Carioca (1946).Bom, e pouco a pouco a Comunidade da Montanha foi se estruturando e não tardou a valorização das imagens, inicialmente por meio de simplórios informativos e exposições fotográficas sobre as excursões dos Clubes para passeio e abertura de vias.Para mim, como Documentarista de Montanha, acho que o que temos de mais representativo de nosso passado documental se deve a uma pessoa em especial: Renato José Sobral Pinto, fotógrafo que ainda nos brinda com sua presença e que completou Bodas de Ouro com suas Imagens de Montanha. Márcio Bortolusso é Documentarista de Montanha da PHOTOVERDE Produções® (photoverde.com.br) e Montanhista patrocinado pelas marcas SOLO®, WiNDSTOPPER®, GORETEX® e SNAKE®. Membro do Centro Excursionista Gravatá, adotou o montanhismo como estilo de vida há 15 anos. 

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DOCUMENTAÇÃO DE IMAGENS DE MONTANHA
Parte 3: viagens às montanhas extremas
Por Márcio Bortolusso

Um exemplo clássico dos primeiros marcos da Documentação de imagens de Montanha talvez esteja ligado a maior delas. A Inglaterra, após fracassar nas conquistas dos dois Pólos, sabia que o seu último grande triunfo poderia vir do Chomolungma, conhecido também como terceiro pólo (ou Everest, para quem aceita). Um reconhecimento clandestino foi feito em 1913, duas malogradas expedições em 21 e 22 e uma derradeira e trágica em 1924 entraram para a história do montanhismo mundial, muito antes da primeira expedição que comprovou ter alcançado o seu cume, em 1953.
Mas com certeza muito disto se deve aos esforços do cinegrafista John Noel, que documentou para o mundo todos os pormenores das primeiras tentativas, inclusive tendo filmado as últimas imagens de Mallory e Irvine antes de desaparecerem rumo ao cume.
E talvez Noel tenha se antecipado ao seu tempo, sendo o primeiro profissional assumido deste segmento de Documentação, consciente do valor de suas imagens para o público e para a história e, inclusive, tendo fundado o que acredito ser a primeira produtora especializada em imagens de Montanha, a Explorer Films, no início do século passado.
Um nome que não pode ficar de fora dos primórdios da Documentação de Montanha é o do padre italiano Alberto Maria De Agostini, considerado por muitos como o último dos grandes exploradores das solitudes austrais. Fotógrafo e cinegrafista, De Agostini chegou na região sul da Patagônia em 1910 e por quase 30 anos batizou glaciares, escalou montanhas e, sobretudo, registrou os costumes dos últimos povos indígenas locais, antes de serem exterminados pelos europeus.
Para quem não conhece, De Agostini foi quem consagrou para o mundo o Monte Sarmiento, montanha que é o grande pano de fundo do filme Extremo Sul, o primeiro longa metragem sobre montanhismo do Brasil (ou ao menos que fala sobre). Após tentar escalar esta montanha em 1913 e 1914, o padre organizou outra expedição em 56 que obteve sucesso, apesar de que ele já estava com 73 anos, sem condições para fazer cume. Mas o legado documental de Agostini, que inclui 22 livros, representa um dos mais importantes documentos visuais sobre a história do Andinismo e das culturas da América do Sul.

Márcio Bortolusso é Documentarista de Montanha da PHOTOVERDE Produções® (photoverde.com.br) e Montanhista patrocinado pelas marcas SOLO®, WiNDSTOPPER®, GORETEX® e SNAKE®. Membro do Centro Excursionista Gravatá, adotou o montanhismo como estilo de vida há 15 anos.

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Escalando um ícone do Marumbi

Edson Struminski (Du Bois)

O Marumbi, por si só um ícone do montanhismo paranaense, sempre foi palco de significativas aventuras para os escaladores das diversas gerações que tem freqüentado esta montanha desde o século XIX, quando uma primeira trilha foi aberta na região.
A partir dos anos 1940 as paredes começaram a atrair os olhos dos primeiros escaladores e até os anos 70, as vias abertas eram em chaminés, fendas ou artificiais, que refletiam as possibilidades materiais e técnicas destas épocas.
A partir dos anos 80 surgiram novos equipamentos e as técnicas evoluíram para as escaladas livre e limpa. Grande número de novas paredes começaram a ser abertas e novos escaladores ingressaram no esporte. Abrolhos, Esfinge e Torre dos Sinos, com grandes paredes, viram escaladores em solitário, como eu, ou em pequenos grupos investindo seriamente na abertura de novas vias.
A via Los Encardidos é uma destas vias que foram abertas no fim dos 80 no Marumbi por José Luis Hartmann (Chiquinho), Bito Meyer e Júlio Nogueira. Inicialmente fez uso de um imenso tapete vegetal na base da parede, mas ao longo dos anos recebeu modificações, que deixaram esta via praticamente na rocha. Tem mais de 400 metros que discorrem sobre placas de pedra, fendas, fissuras, passagens sobre a vegetação, culminando em um maravilhoso teto em artificial móvel. Enfim, é um resumo de um pouco de tudo o que há no Marumbi em matéria de técnicas modernas de escalada, além de incluir uma curiosa cordada em artifical da via “Face Norte”, concluída no início dos anos 60.
Como se não bastasse tudo isto, a Los Encardidos é um ícone devido a um acontecimento fortuito que foi a publicação, em janeiro de 1993, de uma matéria sobre as vias que estavam sendo abertas, na época, na Torre dos Sinos. Tratava-se da revista Solo, editada em Curitiba e que, como muitas revistas de montanha, teve vida curta, com apenas 2 números, mas apresentou uma inovação que foi a publicação, nas suas páginas centrais, de um pôster sobre algum assunto de montanha.
O número zero da Solo mostrava uma cordada em plena ação na Los Encardidos, o que foi suficiente para promover esta bela via a condição de ícone. Por anos a fio o pôster alimentaria a imaginação dos escaladores em relação a esta escalada, mas como seria de se imaginar, a via teve poucas repetições. Provavelmente o próprio Chiquinho se tornaria o principal freqüentador desta parede, vislumbrando e pondo em prática modificações que dariam à esta escalada um aspecto cada vez mais “rochoso”, técnico e, consequentemente, mais bonito.
Em um destes feriados do início de junho formou-se, sem maiores planejamentos, um grupo para escalar a via. Edmilson Padilha (o Ed da Conquista), havia convidado um colega de São Paulo (Wagner) e acabei sendo convidado pelo amigo Ermínio Gianatti para repetir a escalada.
Tinha dúvidas em relação a minha capacidade (com 44 anos) de encarar uma via tão exigente. Principalmente em relação aos joelhos, que sempre são as peças mais exigidas, depois de alguns anos, em grandes aventuras. Mas também não tinha nada a perder. Após milhares de aventuras em montanhas, não precisaria ter vergonha de desistir de uma parede, se fosse obrigado.
Formaríamos duas cordadas independentes, mas próximas. Nosso amigo paulista chegou de viagem em Campo Largo (alguns quilômetros depois de Curitiba) e de lá seguiu com Ed até o Anhangava, antes de Curitiba, onde Ermínio e eu moramos. Na mesma noite fomos para Engenheiro Lange, estação de trem próxima do Marumbi. Meia noite estávamos na casa de nosso amigo Irivan, no Marumbi, onde tiramos uma soneca e às 4 da manhã acordamos de novo para começar o caminho para a base da via.
O tempo excepcionalmente seco facilitou a caminhada, mas a subida no escuro, com grande quantidade de material era um dificultador. Me perco do grupo e levo um tempo para encontrar os demais. Amanhece e começamos a subir as primeiras cordadas, uma rampa de pedra difícil em meio à densa vegetação da base. Ermínio e eu vamos nos revezando na cabeça da cordada. Ed (que já conhecia a via) e Wagner nos seguem. A partir da 3a cordada já é possível vislumbrar a parede a partir de um maravilhoso platô. A visão nos enche de entusiasmo e também de apreensão, pois é uma autêntica parede marumbina, com toda a beleza, desafio e riscos que isto implica. Seguem-se cordadas delicadas em móvel, mistas, com passos delicados em vegetação, passagens delicadas em móvel. Tudo mais ou menos delicado na verticalidade da parede. Há revezamentos, autoajudas. O grupo reunido fortuitamente (onde sempre há chances de alguém atrapalhar os demais) se mostra singularmente digno de uma grande empreitada.
los1.jpg   fim-da-via.jpg

Passa o tempo, o sol bate forte na parede, a água começa a acabar e quase não comemos. Às 4 da tarde chegamos à onda, a cordada do teto. Reunimos e grupo e resolvemos curtir o pôr de sol no imenso platô ali existente. A última cordada é feita de noite e consequentemente a cansativa e enervante seqüência de rapeis. Tentamos nos manter acordados e minimamente atentos para a longa descida, conferindo-nos mutuamente se estamos seguros. O cansaço gera pequenos erros e trapalhadas, mas estamos descendo. Cordas presas, sede, cansaço. Chegamos ao chão e ao cantil reserva. 3 horas da madrugada finalmente caímos na cama, 23 horas de atividade.
Já fui um rato do Marumbi em época passadas, um bergvagabunden, um “vagabundo das montanhas” enfurnado nas paredes, seja conquistando, seja para repetir uma via. Tratava-se de um ideal romântico do tipo “um homem, uma montanha”. Por outro lado as informações, naquela época eram tão escassas que praticamente a única chance de eu repetir uma via qualquer era esbarrando na base dela. Praticamente não haviam croquis e os antigos criavam “mitos” sobre as escaladas, com o intuito, talvez, de testar nossa perseverança. Havia ainda preconceito contra escaladores solitários pouco interessados na vida social da vila do Marumbi.
Hoje os tempos são outros e meu tempo também já é outro para estas coisas. Fizemos uma belíssima via com um croqui cedido gentilmente pelo próprio Chiquinho que está finalizando um guia sobre o Marumbi. Se por um lado o Marumbi chegou a perder aquela aura mágica, em função do desgaste que tive com o “social” local, permaneceu o fascínio por estas grandes paredes, principalmente porque já tive chances de freqüentá-las um dia.
De modo geral a atitude do pessoal do Marumbi foi respeitosa com o grupo e acabei descobrindo que meus parceiros de escalada são pessoas que também tem um currículo excepcional. Depois que a historinha se espalhou recebi vários cumprimentos pela aventura. Mas acho que o cumprimento deve ser estendido a todos aqueles, que um dia vislumbraram um via no Marumbi e a abriram.

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