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Archive for the ‘aventuras’ Category

Pedras do agreste alagoano

Por: Edson Struminski (Du Bois)

Conhecer um pouco do interior do Estado de Alagoas, fugir do carnaval muvuquento em Maceió, subir em alguma pedra interessante, olhar a cara e as carrancas do rio São Francisco, eram alguns dos objetivos modestos que eu tinha para o feriadão folianesco de fevereiro.

Outro objetivo seria também aproveitar a oportunidade para voltar a fazer uma viagem com meu filho Tui, com quem eu já tinha atravessado o Uruguai e que agora, com 16 anos, está naquela fase de mudanças climáticas adolescentes, onde um simples passeio, com algumas dificuldades, pode me dizer mais sobre ele do que anos de análises em psicólogos ou conversas moles de “pai para filho”.

Alagoas tem um formato de bumerangue, então teríamos que sair do lado direito dele, na região litorânea e atravessar o Estado inteiro até a região do agreste alagoano, coberto pela vegetação de caatinga, o que significaria percorrer 300 km para vermos uma paisagem que eu próprio ainda não conhecia.

Começamos atravessando a “Zona da Mata” alagoana, antiga residência de uma exuberante floresta tropical, a Floresta Atlântica e que transformou-se hoje (ou desde 1500 em diante, para ser mais exato) em um vasto tapete de cana para fabricação de álcool que embriaga a vida das pessoas e de açúcar que depois adoça a embriaguez.

A uns 80 km de Maceió aparecem alguns belos e imponentes morros de granito no município de Marimbondo, região que já tive oportunidade de explorar em uma investida anterior. Depois de uma cidade chamada Palmeira dos Índios, a “Zona da Mata”, ou melhor, os canaviais, dão lugar progressivamente a uma vegetação ressequida e baixa. A estrada, de dia, está em bom estado e chega a ser uma crueldade atravessar uma região tão árida como esta em um automóvel moderno, quando se compara o nosso conforto com as vidas secas das pessoas que vivem ou viveram nesta região: retirantes, cangaceiros, sertanejos, que tem estórias, aliás, já contadas por um ilustre alagoano, Graciliano Ramos.

Nosso primeiro destino é Santana do Ipanema, na fronteira com Pernambuco. O pessoal do grupo Escalacaju, de Sergipe, indicou um camarada que mora nesta cidade, Samuel Andrade, como um contato para as escaladas locais.

Após umas 3 horas de viagem pousamos na cidade e marcamos um cruzo com Samuel e com a esposa dele, Patrícia, no morro da caixa d´água, de onde podemos avistar a cidade e a Serra da Camonga, onde fica um dos setores de escalada.

Em Santana as opções de hospedagem são baratas, mas limitadas. Na falta de lugar melhor, nos alojamos em uma pousada cujo vizinho demonstrou ser um adepto forte da chamada “Brega Music”, uma mistura ou cópia descarada, de ritmos musicais nordestinos conhecidos e agradáveis como o forró, porém com letras pobres, repetitivas e de duplo sentido, que podem conter desde versões pornográficas de canções infantis, a plágios de autores nordestinos consagrados como Alceu Valença. A título carnavalesco, estas músicas são tocadas, via de regra, em altíssimo volume a qualquer hora do dia ou da noite em qualquer lugar: bares, restaurantes, postos de gasolina, ou na própria rua, ou seja, onde alguém possa andar de carro ou estacionar e abrir o porta-malas onde, invariavelmente estará instalado um possante conjunto de alto falantes que toca e soca, soca, soca, o ouvido das pessoas.

Sobreviver à noite próximo a alguém empolgado com este tipo de som já é uma aventura. Como eu já sou um pouco mais acostumado a situações deste tipo, sempre carrego um tampão de ouvido junto com a escova de dente, mas a busca por este tipo de EPI em Santana do Ipanema se revela inútil, assim meu filho passa uma noite de cão e acorda com oscilações entre o catatonismo e a raiva.

A melhor opção ainda é sair pra serra, pois outros adeptos deste tipo musical circulam pela cidade. Arrastamos o Tui junto com a gente até o morro da Camonga, um belo morro testemunho de arenito colorido com paredes que chegam a 60 m. Samuel que está na casa dos 30 anos e que começou a “escalar a sério” como ele diz, em 2010, nos apresenta um belo conjunto de escaladas que está aos poucos chapeleteando junto com alguns poucos companheiros, quando consegue algum no sertão alagoano, como Yuri, que tem 17 e mora em outra cidade vizinha.

Este setor ainda está em desenvolvimento e Samuel me explicou que algumas vias são mistas, com proteções fixas e móveis e em algumas é possível eliminar uma ou mais chapas com algum equipamento móvel adequado. Aproveitei, então, que estava com algumas peças e fui escalando com elas para testar esta hipótese, que se revelou verdadeira. Como estava com as pecinhas, Samuel me deu inclusive o privilégio da primeira guiada de uma via inteira em móvel que apenas tinha sido feita com corda de cima.

Inaugurando a via Bat Caverna (5°) em móvel na Serra da Camonga

Inaugurando a via Bat Caverna (5°) em móvel na Serra da Camonga. Foto: Tui Boaventura Struminski

Aos poucos o material foi rodando de mãos e para mim ficou marcado o olhar de alegria e encantamento dos rapazes ao ter a chance de usar aquele punhado de equipamentos nas vias. Atualmente com a internet, não é a falta de informação o que os impede de usar estes materiais e sim simplesmente o alto preço destes equipamentos no Brasil e a dificuldade de fazer este tipo de material chegar a este pedaço do sertão de Alagoas.

Ao mesmo tempo, a perspectiva para este lugar é bem interessante, pois em 2016 poderá sediar uma edição do Encontro de Escaladores do Nordeste, o que representa um sonho importante para ser mantido por pessoas que, como eles, moram longe do badalado e por vezes pedante, circuito principal do montanhismo brasileiro, no sul e sudeste do país, mas que mesmo assim, são apaixonados por pedra. Assim, a melhor alternativa me parece ser apoiar esta rapaziada para que possam seguir escalando com segurança e abrindo vias novas com qualidade crescente.

Curiosamente a presença de sulistas no morro parece ter estimulado São Pedro a mandar uma chuva leve e tempo fresco para o lugar. Algo que aliviou o calor do passeio. Depois de algum tempo, meu filho Tui, que estava roncando encostado em uma pedra, ressurge e se anima com a máquina fotográfica e depois com os tênis de escalada, tratando de se encaixar em alguma via.

Ao final, acabamos o dia no cume da pedra e depois descemos para a cidade para uma pizzada. No dia seguinte seguimos caminho para a segunda etapa deste passeio, felizes em termos sido bem recebidos e pelas horas partilhadas com os novos amigos.

O Velho Chico

No dia seguinte saímos em direção a Delmiro Gouveia, município alagoano que fica na divisa com a Bahia. A viagem de Santana até Delmiro é uma paisagem à parte, com vários morros e afloramentos de rocha em meio à aridez da caatinga, o que deixa explícito o potencial para a escalada em rocha na região. Por outro lado, chama a atenção o número de vilarejos e localidades com nomes relacionados à água, como Olho d´água do Casado, Olho d´água das Flores, Poço da Pedra, que claramente marcam lugares onde este líquido precioso pode ser encontrado. Para ressaltar isto, um morador a quem demos carona nos disse que para chegar à água percorria todo dia “meia légua” (três quilômetros).

Em contraste com esta secura, lá está o rio São Francisco com sua imensidão que vem desde Minas Gerais, passando pela Bahia e dividindo Alagoas de Sergipe até chegar ao mar. Em Delmiro Gouveia, Samuel nos passou um roteiro para chegar a um local chamado “Show da Natureza”, que fica na beira do rio.

O tal Show da Natureza é, na verdade, um grande restaurante e um atracadouro para barcos dos mais diversos tipos, desde canoas a remo a catamarãs, passando por jet skis, barcos a motor, lanchas velozes e pranchas, todos fazendo algum tipo de roteiro nos cânions do rio. É um movimento alucinante, pois, por conta do feriadão, o lugar está cheio de carros, turistas, lixo e, é claro, de adeptos da Brega Music.

Quando conseguimos nos afastar um pouco do movimentão e do barulho, se torna possível apreciar um pouco a grandiosidade do canion. O rio mostra água suficientemente limpa pra vez ou outra vermos algum peixe ou um camarão de água doce. As paredes avermelhadas do canion são realmente maravilhosas e fazem um contraste impressionante com a água azulada, um convite para escaladas em móvel, ou em psicobloc, como está na moda depois que alguns espanhóis passaram por aqui. Tui se empolga com o riozão e faz a travessia até a outra margem, chegando até o Estado da Bahia.

Depois de uma noite de sono finalmente boa, em Delmiro Gouveia, fazemos mais um trecho de estrada até a cidade de Piranhas, também na beira do rio. O centro histórico desta pequena cidade está empilhado na própria barranca do rio, com ladeiras e escadarias pra todos os lados. Há poucos anos atrás o casario antigo da cidade foi todo recuperado e algumas construções mais importantes foram restauradas, então o conjunto arquitetônico surpreende pelas cores e pela beleza.

Depois de rodar pela parte histórica da cidade, fugimos do som alto e da onipresente muvuca e achamos um canto tranquilo para um demorado banho no Velho Chico, sem risco de sermos atropelados por alguma lancha desavisada. Do outro lado a secura da caatinga seguia pelo Estado de Sergipe, por onde andou Lampião e sua turma. Piranhas foi palco de alguns combates sangrentos entre moradores locais e parte do bando de Lampião, que rodou por vários estados do Nordeste. Após os cangaceiros serem mortos, acabaram tendo suas cabeças expostas na escadaria da igreja local. Depois disto surgiu toda uma discussão sociológica sobre o papel dos cangaceiros, ou seja, se eles foram heróis (uma espécie de versão sertaneja do Robin Hood) ou apenas bandidos. Hoje, de qualquer forma, as estórias do cangaço servem principalmente para movimentar o turismo local e vender bugigangas aos turistas.

Passando ao largo desta discussão, nos despedimos do Velho Chico e fomos comer uma deliciosa tilápia em um mirante no topo da cidade, antes de encararmos a viagem de volta, certos de que valerá a pena voltar novamente.

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Córdoba em abril

Por Edson Struminski (Du Bois)

 

27 anos se passaram desde que eu estivera no conjunto Los Gigantes, nas Sierras Grandes de Córdoba, Argentina. Na época, havia sido minha primeira incursão a um mundo de rochas diferente do meu universo particular, úmido e cheio de vegetação da Serra do Mar paranaense. Foi o local onde comecei a dar atenção à possibilidade de abrir vias em móvel, uma técnica que no Brasil ainda engatinhava.

As serras de Córdoba são acessíveis com um tirão de umas 15 ou 16 horas de automóvel de Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, onde estou morando. Tudo sem sair muito do paralelo 31. Aproveitando o feriado da páscoa e mais um tempo extra, eu e meu parceiro de escalada Fabrício Domingues encaramos a estrada para conferir as pedras do país vizinho.

Conferir a estrada significa neste caso, confrontar as imagens que eu tinha na cabeça, de 1987, com o mundo atual que encontramos no caminho. E o mundo atual é o mundo do agronegócio. A partir de Uruguaiana no Brasil, o que vemos são maquinários e plantações a perder de vista nesta Mesopotâmia moderna que é o trecho entre os rios Uruguai e Paraná (na Província argentina de Entre Rios). Cidades dinâmicas e bem cuidadas, riquezas, grandes obras. A imagem surpreendente de um navio de grande calado no porto fluvial de Santa Fé, em pleno interior do continente americano. Tudo para matar a fome do mundo, ou da China se preferirem.

Em confronto com toda esta modernidade, o eterno jogo de pega-pega com os buracos das estradas ou de esconde-esconde, com os policiais rodoviários, que pareciam mais interessados em uma alegria extra para suas páscoas, do que na segurança dos viajantes.

Outro informe, grito, protesto, desabafo, que parece perdido no tempo é aquele das placas, que voltam e meia nos informam: “Las Malvinas son argentinas”, que para quem nasceu depois de 1982 parece uma mera curiosidade. Mas não para mim. Em 1982 a Argentina, assim como vários países sul americanos, inclusive o Brasil, estava embarcada em uma ditadura militar implacável, mas que já estava fazendo água por conta da incompetência financeiro/administrativa dos generais que estavam então no comando do país. Como tentativa de ganhar popularidade a partir de um golpe de força, os militares pegaram seus navios e invadiram as ilhas Malvinas, no Atlântico Sul, um resquício do antigo Império Britânico que é reivindicado pela Argentina desde 1833 pelo menos. Em 1982, uma geração de jovens argentinos nascidos em 1962 (a minha) foi imediatamente convocada e jogada nas ilhas. O golpe deu errado e os militares argentinos foram vergonhosamente enxotados e, conforme podemos ver no documentário de 2007 “Malvinas, la retirada” do diretor Matias Gueilburt, com a honrosa exceção dos soldados que estavam nas trincheiras e de alguns aviadores pouco se salvou da derrota militar. A ditadura afundou com o peso desta derrota, da economia destroçada e do aviltamento dos direitos civis.

Em minha primeira viagem à Argentina, em 1987, as lembranças desta guerra e a sensação de alto estima abalada do povo ainda eram tão fortes que podiam se ver bandeiras nacionais esfarrapadas em vários postes nas ruas de Buenos Aires e Córdoba. Agora o que víamos, eram outros resquícios igualmente tristes, deste período da história do país.  Além destas eventuais placas que adornam algumas estradas, alguns locais, antigos centros de tortura militar, foram transformados em museus.

No fim deste primeiro dia de viagem e contrastando com o relativo vazio das estradas, chegamos à Córdoba à noite, em pleno horário do rush. Enfrentamos um alucinante movimento nas cidades serranas vizinhas, Villa Carlos Paz e Tanti, que, pelo que percebemos, servem pra extravasar as tensões urbanas dos cordobeses, com as atividades mais diversas: bares, danceterias, pistas de kart, bangalôs. Afinal Córdoba é a capital do interior argentino, uma cidade universitária e tecnológica.

Finalmente ingressamos, já no meio da noite, na longa e sinuosa estrada que percorre as montanhas em direção à Los Gigantes. Tateamos como podemos por estradas de chão mal iluminadas e com escassas placas, até batermos em um dos campings que existem no pé das montanhas, na entrada da trilha do Cerro de La Cruz. Dormimos do jeito que deu, o que quer dizer, no meu caso, dormir mal, mesmo assim, nos dias seguintes começamos a conferir a precisão, ou não, dos meteogramas para as Sierras de Córdoba.

Havia certa indicação de tempo frio, mas sem chuva, com a possibilidade de neve, se a coisa pegasse. Na verdade o que tivemos foi frio, umidade, um pouco mais de frio e chuva, quando a umidade engordava. Mesmo assim, as janelas de sol e a qualidade da rocha (granito e migmatito) compensaram o mal humor do clima e pudemos nos divertir e curtir a tranquilidade e a beleza da paisagem.

Córdoba começou a receber suas primeiras vias de escaladas em 1954. 70 anos se passaram, mas ainda é possível reconhecer as linhas mais antigas em meio à profusão de novas escaladas desportivas. Em 1987 eu próprio já havia traçado algumas linhas por lá com nuts pelas fendas, algo que hoje acredito que seja mais corriqueiro, inclusive com peças mais sofisticadas. O fato é que, com uma vasta opção de escaladas pela frente e, apesar de estar com o guia de escaladas da região à mão, a opção mais interessante foi escalar sempre com os equipamentos móveis à mão, o que nos deu uma considerável liberdade para circular nas paredes, em particular nas maiores.

À medida que fomos nos ambientando melhor no ambiente de escalada local, com suas regletes, fendas de oposições ou de entalamento e aderências,  esta liberdade se tornou mais proveitosa. Repassamos alguns dos locais mais conhecidos como Cerro de La Cruz, La Cuña, El Tio. Não sei, ao certo se chegamos a fazer alguma via completa, ou se tudo foram variantes de vias, o fato é que subimos várias paredes algumas vezes e alguns cumes e gastamos o cérebro e os dedos para colocar as peças certas nos locais certos, tratando de subir e descer tudo com segurança, olhando um pouco de tudo, do novo e do antigo.

Com exceção do primeiro dia, em que o lugar estava repleto de turistas, escaladores tendo cursos e alguns veteranos, praticamente não tivemos contatos diretos com mais ninguém em Los Gigantes, a não ser com o pessoal dos campings. Este isolamento e tranquilidade aconteceu por conta da extensão do lugar e dos inúmeros destinos de escalada que existem por lá. Nada disto nos prejudicou pelo fato de que o lugar é acessível para alguém que tenha prática em escalada neste tipo de rocha e consiga se orientar nos caminhos entre os labirintos rochosos. Alguns destes caminhos passam pelos refúgios de montanha dos clubes andinos de Córdoba e De Carlos Paz.

Rever estes refúgios de montanha em Córdoba me remete ao impacto inicial causado pela visão destas construções em 1987. Naquele momento foi como se algo que eu vagamente conhecia, pelos livros ou por colegas mais viajados, se materializasse na minha frente, que era a tal “cultura de montanha”.

Até o surgimento da internet e das academias de escalada, falar para alguém que você era um “montanhista” era o mesmo que dizer “Marte” ou outra palavra qualquer vaga e distante. Um refúgio construído e mantido por montanhistas e para usufruto de todos os viajantes da montanha era algo que eu não conhecia no Brasil, a não ser pela sugestão de algumas construções abandonadas no Parque Nacional de Itatiaia que tinham este nome. Na primeira vez que estive em Los Gigantes o refúgio do Club Andino Carlos Paz estava recém sendo concluído e eu pude usufruir não só do inusitado conforto que aquela modesta construção proporcionava, como também do “ambiente de montanha”, charlas, comidas, escaladas em comum, com os montanhistas que estavam trabalhando naquela construção.

Nesta viagem de abril, já não encontramos ninguém nos refúgios por conta do 21 de abril, feriado apenas no Brasil (Tiradentes). No entanto, apesar da paz e da tranquilidade que desfrutamos nestas montanhas, não foi possível deixar de perceber que aparentemente existe uma surda disputa de espaços entre uma visão mais comercial do lugar e outra mais ambiental. O lugar vem sendo usado desde sempre para a criação de gado, que assume ares semi-selvagens, assim como desde sempre também vem trazendo junto destruição da vegetação, erosões, deslizamentos. Uma visão mais conservacionista vem tentando mostrar, inclusive no lugar, que sem as vacas o lugar pode ser mais verdejante.

A região dos refúgios dos clubes andinos, foi isolada do gado e tornou-se uma amostra de como poderia estar a vegetação natural sem a presença destes animais. O tabaquillo (Polylepis australis) uma arvoreta típica do local que já conhecia desde 1987 tomou conta do pequeno vale onde se situam os refúgios, formando uma paisagem de Shangrilá em meio à vegetação pastejada em volta.

Me pareceu que com relação ao turismo a visão é semelhante. Praticamente só encontramos turistas na trilha que sai do primeiro camping, incluindo uma pequena multidão fazendo cursos de escalada na região do Cerro de La Cruz. já o segundo camping parece ter sido eleito pelos montanhistas. Cada um deles dá acesso a um setor diferente destas montanhas, ambos muitos bonitos de qualquer modo.

 

Tirando estas sutilezas, pouco parece ter mudado ao longo dos anos em Los Gigantes. A rocha permanece maravilhosa para escalar, os caminhos bonitos, a paisagem harmoniosa. Um passeio que, mesmo com frio, chuva ou canseiras, sempre valerá a pena ser feito.

Setor “El Tio” em Los Gigantes, Córdoba (Ar)

 

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Casa de Pedra – RS, nova via

Por Edson Struminski (Du Bois)

             Desde o início do ano estou morando aqui em Santana do Livramento na fronteira sul do Brasil, a umas quatro quadras do Uruguai.

Esta região da metade sul do Rio Grande do Sul apresenta uma paisagem típica do Pampa gaúcho, com campos e coxilhas intermináveis, mas às vezes surpreende o visitante com algumas visões inusitadas. A duas horas e meia de onde moro, na direção do Brasil (norte), a região de Casa de Pedra em Bagé apresenta uma destas visões. Um antigo fundo de lago em um passado remoto que hoje apresenta-se na forma de afloramentos de conglomerado, uma rocha de origem sedimentar formada por fragmentos arredondados de rochas preexistentes, unidos por um cimento de arenito endurecido. As pedras são esculpidas pela ação dos ventos e das águas e tem as formas mais inusitadas e surpreendentes. Não bastasse isto, a região de Casa de Pedra tem um aspecto de “natureza selvagem”, tanto quanto isto é possível dentro do bioma Pampa, ou seja, vegetação pouco alterada, animais selvagens, gado semi selvagem entremeado entre as pedras, pouca ou nenhuma gente…

Junto com meus companheiros Fabrício Domingues e Miriam Chaudon temos frequentado a região de Casa de Pedra desde o início do ano. Já foi possível experimentar um pouco de tudo: escaladas clássicas do lugar, vias em móvel, escaladas desportivas, caminhadas com sol, com chuva, com frio de lascar ou calor, marimbondos e estrelas.

Depois de vários meses me adaptando a este tipo de rocha, Fabrício me provoca para tentarmos abrir algo novo em Casa de Pedra. Já estávamos partilhando o esforço de equipar o Cerro Palomas, um belo morro testemunho de arenito em Santana do Livramento que se tornou nosso point de escalada, local de aperfeiçoamento de materiais, testes e treinamento, como pode-se ver em dois vídeos que montamos para o youtube (http://www.youtube.com/watch?v=KsIZMV6EHVI e http://www.youtube.com/watch?v=fcpTzDTEl2w). Porém, sentimos que estava na hora de tentar algo nos conglomerados.

O primeiro passo foi definir qual seria o estilo que usaríamos para a nova via. Como no Cerro Palomas as vias são curtas (20 m) geralmente desportivas, com chapas ou material móvel, sentíamos a vontade de buscar uma linha maior, com pelo menos duas cordadas, que é o tamanho das maiores pedras de Casa de Pedra. Também preferimos buscar uma nova linha um pouco mais distante do conjunto principal, que pudesse acrescentar um componente aventuresco adicional à escalada e que fizesse jus à tradição local de vias neste estilo. Também buscávamos algo inovador em termos de vias maiores, que por exemplo, somasse algo à tendência que existe hoje no lugar, de mesclar a escalada com chapas com passagens que incluíssem material móvel. Finalmente, considerando a beleza que algumas das pedras deste local tem, ficava o desafio de encontrar uma linha de grande beleza estética em uma face norte, pois estávamos em pleno inverno, que neste ano de 2013 foi bem rigoroso no sul do país.

Com tantos requisitos, pareceria um desafio e tanto encontrar a tal linha, mas felizmente ela existia e fica a aproximadamente uns 40 minutos de caminhada (com mochilas pesadas) do local de acampamento, em uma bela pedra chamada Ninho das Águias.

Então, estavam lá esperando por nós as tais duas cordadas, com uma fissura de erosão de uns 15 metros no meio da parede, que poderia ajudar a ganhar tempo e dar um tempero extra à via, além de um gigantesco buraco esculpido na rocha, com um platô de uns 300 metros quadrados, que só de pensar já deixava a boca salivando e, finalmente, uma crista. Bem, quem é que já não se enxergou escalando em uma crista de pedra, quem é que nunca sonhou em abrir uma via em crista ou aresta até um cume? Mais clássico que isto impossível.

Foram três investidas, a primeira, em pleno inverno, com as mãos congelando, serviu para o ajuste dos equipamentos: broca, furadeira, cliffs, parabolts, chapeletas. Colocamos apenas duas chapas e fizemos um monte de fotos, que serviram para que ficássemos sonhando acordados com os próximos movimentos da escalada, além de tomar contato com uma característica não muito simpática da rocha. Ao contrário do conglomerado a que estávamos acostumados no restante da Casa de Pedra, com os seixos bem destacados em relação ao arenito, nesta parede o arenito ainda se desprendia em placas, formando agarras tenebrosas e inseguras para enganchar os cliffs, mas ideais para uma floresta de bromélias se desenvolver. Então tivemos que escolher uma linha que simplesmente zigzagueasse as bromélias, buscandos os claros da pedra.

Bem, esta tensão, agarras que quebram, um certo esfarelamento, cliffs inseguros, pés doloridos, bromélias aterradoras, foi acompanhando a segunda investida, ainda na primeira cordada, que surpreendentemente apresentou ainda uma formação incomum neste tipo de rocha, que foi uma delicada rampa de aderência antecedendo a fissura, a qual, para meu alívio, permitiu a colocação de umas três peças e abriu acesso ao super platô.

Na terceira investida já estávamos no início da primavera, ou no último dia de inverno, dependendo do ponto de vista. Fazia frio, fazia calor, os marimbondos ora se encolhiam, ora se ouriçavam, eu havia refeito os lances iniciais já chapeleteados, passado pela fissura em móvel, feito mais uma costura com duas peças equalizadas em móvel e agora estava sentado esperando meu parceiro em uma ancoragem natural, uma árvore robusta no fim da primeira cordada, o mega platô estava a meros 5 metros acima, mas nada indicava que tivesse qualquer tipo de parada natural. Eu especulava quanto mais de tempo, esforço e risco teria ainda pela frente. Pensava nos meus 51 anos recentemente feitos, na distância até a casa da Miriam em Livramento, até a casa dos filhos no Paraná, na Miriam sozinha em baixo da parede, no risco dela ficar embaixo com o tanto de pedras que caíam sem muito controle. Se afinal, fazia sentido subir mais ainda…

Fabrício chega e interrompe meus pensamentos. Subimos ao gigantesco platô, árido e belo ao mesmo tempo. Pedras soltas, cactus, marimbondos dormindo. Montamos uma parada com duas chapas de aba dupla para um rapel de emergência. A primeira parada fixa desta parede. Depois disto lá iria eu, pela bela crista de pedra que havíamos enxergado do chão.

Ou pensei que iria. A crista de pedra se estendendo parede acima e eu empacado ali, nos primeiros 2 m. As melhores agarras de pé já tinham quebrado, as melhores agarras de mão em um gradativo esfarelar, até que chegou o temível momento sempre solitário da escalada, no qual seus amigos podem apenas assistir e que é aquele em que você estima que tudo o que havia para quebrar ou esfarelar já quebrou ou esfarelou e tem de fazer o próximo movimento, ficando por um lapso de segundos em apenas 3 apoios precários, torcendo para que nenhum destes apoios quebre e que a próxima agarra que você encontrar resista. Simplificadamente isto se chama de “crux” da cordada.

Bem, os apoios não quebraram e a próxima agarra resistiu. Assim eu subi mais alguns metros acima deste crux para uma pequena sessão de tortura, que foi a colocação de mais duas chapas crista acima, momento em que a rocha parecia cada vez mais dura e a furadeira cada vez mais mole, ou ambas as coisas…

Depois da colocação destas duas chapas, um alívio para meus companheiros tanto quanto para mim, percebi que as chances de chegar ao cume naquele dia (mais duas chapas) se esvaneciam, a menos que as baterias da furadeira fossem recarregadas ou que eu próprio recarregasse as minhas. Assim, voltei ao platô para descansar, enquanto Fabrício ia fazer um resgate de comida e água na base da via.

O efeito da comida e do descanso foi tudo naquele momento. Voltei até a última chapa colocada e subi, subi, subi, até bater no cume. Chamei o Fabrício que colocou uma chapa intermediária e depois de alguns engenhosos enjambres elétricos entre baterias e furadeira, conseguimos colocar dois parabolts para uma parada de fim de via.

Voltamos no dia seguinte para uma sessão final de aperto de chapas e de montagem da parada dupla definitiva no final da via, já com o calor da primavera, que teria sido cruel se tivesse acontecido no dia anterior. Como a pedra é chamada de Ninho das Águias a escalada acabou virando a Via dos Gaviões. Percebi que estava ali vivendo, ainda que em pequena escala, tudo aquilo que o montanhismo sempre representou na minha vida: a aventura da descoberta, o próprio privilégio do descobrimento e também a alegria e a emoção da chegada a um cume.

Para cada um de nós que esteve ali naqueles dias, Miriam, Fabrício e eu, certamente esta escalada trouxe algo diferente. Vivendo ali, naquele lugar, as emoções da cabeça da cordada e da abertura de uma nova via, estava, no meu íntimo, como que me reencontrando com um amigo que me mostrou estes lugares pela primeira vez, que foi o João Giacchin, hoje uma lenda do montanhismo gaúcho. De minha parte esta escalada é dedicada a ele.

Dados técnicos:

Via dos Gaviões (Ninho das Águias – Bagé – RS)

Graduação sugerida: 5o (60)

Equipamento móvel sugerido: Dragons Cams (DMM) do 0 ao 6, ou equivalentes

Rapel pela via normal do Ninho das Águias

Fotos: Miriam Chaudon

Agradecemos ao apoio de:

Conquista Montanhismo (http://www.conquistamontanhismo.com.br/)

Alto Estilo (http://www.altoestilo.com/)

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Bagélança!

Por Edson Struminski (Du Bois)

A paisagem e a cultura do Rio Grande do Sul são marcadas pela presença do “pampa”, uma formação natural de suaves colinas (coxilhas) com vegetação campestre a perder de vista. De fato, o pampa (e outras áreas planas correlatas) é uma grande planície que cobre boa parte do Uruguai e entra Argentina adentro, até emendar-se com a planície patagônica. Nestas regiões ainda é possível encontrar um pouco da cultura tradicional destes tres países, como as “campanhas” (fazendas de gado), “canchas retas” (pistas de corridas de cavalo) e seu tipo humano mais característico, o “gaúcho”, que faz suas lides no campo. Tudo isto em uma paisagem ainda relativamente vazia do ponto de vista da ocupação humana, o que tem consequencias importantes para quem viaja por esta região como seria o meu caso e o de Miriam Chaudon, minha carinhosa companheira nesta viagem.

A região de Bagé, no centro sul do Estado rompe dramaticamente com este determinismo. Pelo menos com a parte geográfica.  Assim como Caçapava do Sul, município vizinho, a respeito do qual já contei histórias aqui neste blog, Bagé também apresenta notáveis formações rochosas de conglomerado, rochas de base arenítica caprichosamente esculpidas pela água em meio ao pampa.

No começo dos anos 1990 a escalada em conglomerado e arenito no Rio Grande experimentou um renascimento com base na escalada livre. Acompanhei este evento por conta do contato com um excepcional escalador da época, João Giacchin, que influenciou, direta ou indiretamente, toda a escalada que ocorreria neste Estado, pelo seu estilo ousado e arrojado de escalar.

Depois dos arenitos em volta de Porto Alegre e do conglomerado em Caçapava do Sul, que cheguei a conhecer na época, Bagé entrou na rota de Giacchin que abriu algumas vias na região e explorou áreas até então inexploradas para a escalada neste vasto mundo de enormes pedras. Ele foi um pioneiro, com tudo o que isto significa em termos de esforço físico e psicológico, mas também de benefícios. Ele abriu o horizonte de Bagé aos escaladores gaúchos.

Cidade de Pedra

Juntamos algumas informações sobre o lugar disponíveis em blogs ou a partir de contatos com escaladores gaúchos, mas a grande dificuldade continuaria sendo o acesso, pois o ponto de partida dos escaladores geralmente é pelo norte, por Porto Alegre e o nosso seria pelo sudoeste, por Santana do Livramento e, como falei, o “vazio humano” e a ausência de placas indicativas poderiam facilmente nos induzir a erros na estrada.

Com isto, as grandes ferramentas que usamos nesta busca foram os “googles” da vida (earth e maps). Com eles conseguimos fuçar a região, achar referências, calcular distâncias, estimar o tempo de viagem e reduzir a margem de erro na busca da entrada certa para uma espécie de paraíso para a escalada em rocha gaúcha, chamado “Cidade de Pedra”. Contaríamos, também, é claro, de uma dose de sorte e bom senso.

Começamos a viagem com alguns quilos extras de água no carro por conta da extrema seca que o sul do Rio Grande sofria no início de 2012. A água iria servir para tudo: cozinhar, beber, lavar as coisas, banhos de gato. O tal paraíso para a escalada tinha este grande inconveniente: os rios estavam secos e a pouca água existente era disputadíssima (e contaminada) pelo gado, não servindo nem para escovar os dentes.

Após algumas horas de incertezas por estradas de asfalto, apareceram pedras no horizonte monótono do pampa. Apostamos em uma entrada. Seguimos 10 km de chão batido e encontramos um lugar que correspondia à descrição de play ground dos escaladores desportivos gaúchos: pedras enormes com negativos, caminhadas fáceis, sombra, chapeletas, grampos.  Havia pouco lixo, que tratamos de recolher e a vegetação mostrava um predomínio de árvores não muito altas, com um capim ou quando muito, um pasto baixo que curiosamente pareceu aparado sempre à mesma altura (mais tarde descobriríamos que era isto mesmo). Armamos nossa barraquinha e não veríamos vivalma nos próximos dias que seriam dedicados às caminhadas e escaladas neste pequeno recanto do sul do Rio Grande.

Como comentei, com alguns minutos de caminhada fácil a partir do campo-base já era possível começar a ver as diferentes vias que estão disponíveis para os escaladores. Vias fortes, negativas e aéreas, que tem sido responsáveis por colocar o Estado no mapa da escalada desportiva brasileira. Mais alguns minutos e topamos com vias mais tradicionais e acessíveis. Dos cumes das pedras foi possível descobrir a razão de tanta facilidade nas caminhadas. Toda a região, inclusive embaixo das árvores, é um imenso pasto para o gado bovino e principalmente para as cabras, que perambulam em todos os cantos, comendo tudo que alcançam. Por outro lado, demonstram, um desempenho invejável nas pedras.

A paisagem, tanto dos cumes, quanto das paredes ou das caminhadas é mesmo o principal atrativo da região. A cada 5 m algo novo aparece e surpresas podem ser encontradas nas rochas moldadas  pelo tempo.

Tantos espaços abertos e convidativos podem nos induzir ao erro durante as caminhadas, então acabo adotando uma marcação “ecológica” dos caminhos, com totens de pedra ou setas de galhos quando aparece algum trajeto mais longo. Estas marcações naturais, que fazia na ida e desfazia na volta acabam sendo essenciais para agilizar as caminhadas embaixo do sol calorento que não deu tréguas.

Apesar das cabras e das vacas, o lugar é surpreendentemente bem povoado por animais silvestres: mamíferos, aves, repteis, que avistamos tanto de dia quanto de noite, além é claro, dos marimbondos, muitos deles, interditando vias ou pedras inteiras. É quase inevitável algum encontro com estes bichos, que nos proporcionam a grata oportunidade de experimentar o uso terapêutico do seu veneno para combater a artrite (pelo menos é o que eu ouvi falar).

Após alguns dias maravilhosos, uma surpresa adicional nos aguarda na volta: o carrinho enguiça na deserta estrada para Santana do Livramento, mas o que é um grande azar, em um primeiro momento, acaba se revertendo em sucessões de lances de sorte e tudo é resolvido de maneira surpreendentemente rápida. Acabamos passando horas agradáveis na noite da simpática cidade de Dom Pedrito, que está tomando feição de cidade universitária por conta de um campus da Unipampa.

Cerro Palomas

Miriam me levou para passear na bela zona rural vinícola de Livramento e também em andanças em Rivera (Uruguai), onde já é possível encontrar alguns equipos de caminhada e montanha de marcas que ainda não estão disponíveis no Brasil.

No Cerro Palomas, que virou também uma espécie de play-ground em basalto nestas passagens minhas pelo sul do nosso país (ver https://blogdodubois.wordpress.com/2011/09/21/fronteira-sul-o-ultimo-setor-de-escalada-do-brasil/), aproveitamos para fazer 360 graus de caminhada pela base das paredes (o morro, em forma de meseta é redondo). Encerro minha estada no sul do país abrindo mais algumas linhas, belas e difíceis linhas por sinal, em chaminé, oposição, teto, parede, diedro, nas paredes basaltianas, com pedras soltas do tamanho de um forno de microondas, ou maiores ainda, suficientes para achatar qualquer vaca que ande embaixo delas.  E assim segue minhas andanças nas paredes do sul do país.

 

 

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Por Edson Struminski (Du Bois)

Talvez de todas as escaladas, viagens e expedições que eu tenha participado nesta vida de montanhista, esta tenha sido, até o momento, a mais singular, pelo menos das que fiz mais recentemente.

A Serra de Curicuriari (ou Bela Adormecida) é um belo conjunto de montanhas a alguns quilômetros de São Gabriel da Cachoeira no alto rio Negro, no noroeste do Estado do Amazonas. Está dentro de terras indígenas, o que demanda licenças e conversas com as mais diferentes pessoas. Isto é até compreensível, pois depois de centenas de anos apanhando, os indígenas daqui tiveram finalmente direito a terras, que são grandes (mais de 80% do município que é grande, como falei no artigo anterior), mas até onde percebi eles tem o interesse mesmo é em manter estas terras preservadas para os filhos e, não para madeireiros, garimpeiros, traficantes, terroristas, etc.

Vim para cá a convite da Secretaria de Meio Ambiente e Turismo do município e indiretamente da própria comunidade indígena onde se localizam estas montanhas para elaborar um projeto que possa reforçar e ver a viabilidade de uso das trilhas destas montanhas para uma modalidade de ecoturismo indígena, ou seja, que envolva esta comunidade.

Mas à parte estes aspectos técnicos e científicos (no trajeto da trilha aparecem tipos de vegetação raras para a Amazônia, além de existirem vários componentes antropológicos significativos no que diz respeito à cultura indígena), o que me parece interessante contar para vocês leitores, (imagino que na maior parte composta por pessoas que praticam alguma modalidade de atividade em montanhas), é o que representa uma subida a uma montanha na Amazônia, sua logística e dificuldades e sobre as pessoas que fazem isto por aqui.

Mundos paralelos 

Os rios são estradas aqui nesta região. Então é pelo rio Negro, de voadeira, um tipo de barco rápido, que eu e meus companheiros de viagem iniciamos a viagem até a serra de Curicuriari.

São dois sargentos e um capitão que servem em São Gabriel e vem de diferentes lugares do Brasil: Paraná, Rio Grande do Sul e Piauí. Estão de folga e fazem este passeio não como militares e sim como turistas também pela primeira vez, um tanto quanto sedentos pela oportunidade de fazer esta caminhada pelas montanhas, pois a vida deles aqui é bastante limitada e regrada pela vida do quartel e o acesso ás terras indígenas é complicado. Também faz parte desta viagem uma funcionária da Secretaria de Meio Ambiente da cidade, que está levando uma oficina de artesanato de arte Baniwa e vai ficar em uma das comunidades que estão no trajeto da voadeira.

A voadeira nos deixa no início de uma trilha que leva até a aldeia Enebo. Somos guiados por uma senhora e um menino muito sagaz que fazem esta trilha junto com a gente. Após um calor infernal, uma chuva amazônica nos pega no meio do caminho e serve como “tempero” para este primeiro dia na floresta.

Passamos algum tempo na aldeia Enebo e depois, molhados como estamos, acabamos pegando novamente a voadeira, já no rio Curicuriari, em direção à outra comunidade, São Jorge, que é base para a nossa caminhada.

Como são culturas muito diferentes, pode parecer chocante entrar em uma aldeia destas pela primeira vez. Embora a gente veja antena parabólica, placa solar, gerador a diesel, luz elétrica, TV, computador e crianças brincando de vôlei, as casas (cada família tem uma) são de madeira e teto de palha, sem piso, torneiras ou banheiro. Há muito lixo espalhado, incluindo um monte de pilhas altamente tóxicas apodrecendo no chão, além é claro de muitas moscas e mosquitos diversos, que adoram turistas.

Somos recebidos em uma casa comunitária, que é um misto de salão de reuniões, local de uma TV comunitária, sala de aula, refeitório comunitário. Na verdade parte substancial da vida destas pessoas gira em torno da comunidade: escola, alimentação, jogos, caça, pesca, roça (para produção de merenda escolar, não a familiar, que é particular), decisões que afetam a vida das pessoas, etc, em uma espécie de comunismo primitivo, que seduz e faz a delícia dos pesquisadores das ciências sociais.

Após assistir a uma longa assembléia onde o pessoal discutiu muitas e muitas coisas ligadas à comunidade, incluindo uma eleição para a associação dos moradores (às quais a gente ficava alheio, pois era tudo na lingua local), fizemos nossa apresentação, sendo aprovada nossa permanência ali e definidos nossos guias, Adão e José. Finalmente todos nós improvisamos nossas redes para finalmente comer algo, se secar direito e dormir umas poucas horas.

Pode parecer estranho este relativo e aparente desinteresse pelo bem estar dos visitantes (na verdade nós éramos um assunto importante ali), uma vez que a comunidade já havia sido avisada da nossa chegada, mas pelo fato de já ter trabalhado com vários tipos de comunidades rurais, como assentados, pescadores, mateiros, cortadores de pedra, etc, alguns destes morando em baixo de lonas, percebo que fiquei menos chocado com este comunitarismo e democratismo todo e com a aparente ausência de uma estrutura de recepção, do que meus companheiros de viagem, mais acostumados à hierarquia. Como eu iria perceber ao longo da minha permanência por lá e também na volta a São Gabriel, eram apenas visões diferentes de mundo. Afinal de contas, quando um indígena chega numa cidade dos brancos, pela primeira vez, mesmo em São Gabriel, o que ele encontra e tromba é com o formalismo, a burocracia, os jogos de aparências, o militarismo explícito, a exploração da ingenuidade, o mercantilismo, os desperdícios, desinteresses e futilidades, que devem igualmente parecer muito estranhos para eles.

No dia seguinte estávamos embarcados, desta vez numa instável canoa de tronco com motor de rabeta (uma hélice adaptada a um motor de motoserra), rumo ao rio Arabo, um pequeno afluente do rio Curicuriari, que deságua em sua foz na forma de uma pequena e simpática cachoeira.

Adão Sampaio e José Lelis, nossos guias são da etnia Desano. Ambos são poliglotas, ou sejam, falam algumas das várias línguas existentes na região, além do portugues. O mais experiente deles, Adão, já teve oportunidade de guiar alguns grupos na região. Ambos são colombianos naturalizados brasileiros e pessoas esclarecidas, em especial Adão, que é líder da comunidade e muito preocupado em fazer com que este roteiro que estamos pondo no papel se torne um produto da comunidade e do seu povo, algo que já foi prometido a ele em outras ocasiões e esquecido. São montanheses, tem ritmo próprio para andar nestas terras, conhecem as montanhas, se deslocam bem.

Consegui reduzir substancialmente minha mochila para esta caminhada, sem saco de dormir (desnecessário), apenas um casaco leve e uma muda seca de roupa para dormir. Alimentos leves, água para a caminhada, repelente de insetos. Para o grupo foi levado um fogareiro e umas duas panelas. Além de comida. O que fez diferença substancial entre o peso da minha mochila e a dos militares foi a enorme e estrambótica rede de selva deles, que deve pesar em torno de 4 quilos de cordinhas, fitas e muito nylon, ao passo que a minha, que construí há uns 18 anos atrás é extremamente minimalista (mais muito mais prática), pesa algo como 900 gramas, incluindo toldo e mosquiteiro, além de proteger a mochila da chuva e das assustadoras formigas.

O calor terrível, por volta dos 30 e tantos graus, é mais suportável do que na cidade por conta da sombra da floresta, mas como estamos fazendo uma caminhada pesada, ele nos faz suar e beber sofrivelmente, o que produz mais suor e mais vontade de beber. É bem contraproducente, então há que se controlar até que o corpo se aclimate a esta situação de radiador fervendo, o que leva tempo…, em alguns casos vale o truque de manejar a mochila, soltando as alças para deixar o peso na cintura nas descidas e ventilar as costas, puxando alças apenas na subida, o que minimiza o calor.  Mas todos enfrentam a situação com bom humor.

O equipamento dos nossos guias é igualmente minimalista, farinha, anzol, espingarda, rede, toldo de plástico, fumo, isqueiro para acender o fogo da pesca ou da caça. Coisas que vão encaixadas no jamashi, o funcional cesto/mochila criado para transporte de carga na testa ou nas costas.

Este primeiro dia de caminhada é praticamente em terreno plano, em meio a um trecho de floresta amazônica bem aberto, com árvores enormes e igarapés rasos, com exceção de um trecho de campinarama, um tipo de vegetação que lembra o cerrado brasileiro. Avançamos rápido no trajeto, que se é exaustivo do ponto de vista do calor, também é tranquilo no terreno. Porém gastamos um tempo adicional para desenhar o roteiro que no final deverá ficar com o pessoal da aldeia, afinal é uma “tecnologia social”, criada por eles, como dizem meus colegas das ciências sociais.

Acabamos o dia em um acampamento base no próprio rio Arabo que havíamos visto no início da caminhada, um típico rio de montanha tropical, com grandes matacões, água transparente e alguns peixes que Adão e José habilmente pescam para completar o jantar. Só falta agora montar a rede e negociar com as formigas e pernilongos uma noite de sono tranquila…

Subindo montanhas amazônicas 

No dia seguinte, após a travessia do Arabo já pegamos trecho íngreme montanha acima. Varias horas de matacões, pequenos desfiladeiros, passagens íngremes ou úmidas aqui e acolá. Calor, chuva, frescor, frio, neblina. Fazemos dois cumes, o dedinho e a mão da Bela Adormecida. São subidas simples, mas trabalhosas, com encostas íngremes em alguns trechos e necessidade de alguma habilidade, situações parecidas com caminhadas que já havia realizado na Serra do Mar no Paraná, Rio de Janeiro, São Paulo, etc, com a diferença que à distância, nada de cidades, estradas ou lavouras, apenas o rio Negro e mais e mais florestas. A natureza em sua forma mais plena e primitiva possível. Não dá para torcer o pé ou levar uma mordida de cobra em um lugar destes. Meus dedos, no entanto ficam todos feridos pelo atrito da bota em lugares onde, por mais que usasse repelente de insetos, levei mordida de mosquitos do tipo “pólvora”.

Aqui e acolá belas, íngremes e grandes paredes rochosas esperando ascensões (calorentas e desidratantes, certamente). Este mundo primitivo tem toda uma vegetação peculiar adaptada a esta nova condição amazônica, que é o de uma montanha em meio a esta exuberante floresta.

No cume as árvores são anãs, adaptadas a míseros 10 cm de solo que é o que consegue se manter por ali. Há toda uma beleza no lugar, sem ser espetacular. De qualquer modo meus objetivos foram atingidos e é para isto que eu tinha feito esta viagem toda, para ascender estas montanhas e ver um pouco da sua beleza.

Verdes e olivas

Na volta ao acampamento base percebo que o ritmo lento que vínhamos mantendo estava sendo mais prejudicial aos meus pés e acabo me afastando com um dos guias (José) um pouco mais rapidamente em direção ao acampamento, pois minha intenção era tomar um banho no igarapé e dar um alívio aos pés antes do anoitecer, coisa que no meio da floresta acontece por volta das 6 da tarde. Como Adão, o outro guia, era mais experiente naquele trecho da trilha, não vi inconvenientes de me separar do grupo, aliás, já tinha feito trechos longos sozinho em meio a esta imensa e verde floresta, após entender a lógica do caminho. Isto produziu algumas cenas curiosas. Após uma boa meia hora de caminhada, já longe dos demais do grupo, José finalmente se dá conta de que só estamos caminhando em dois. Tranquilizo-o explicando que Adão dará conta de levar os demais ao acampamento. Isto de certa forma explica um pouco o modo de agir extremamente autônomo daqueles homens. A floresta é, de fato, a casa deles. Viveram a vida inteira ali e é difícil para eles imaginarem que precisam conduzir homens adultos como se fossem crianças através da casa deles. Mas na verdade é o que terá que acontecer no futuro, caso eles comecem a conduzir turistas na região. Não necessariamente todos os que aparecerem por lá serão montanhistas.

Logo em seguida outra situação curiosa. Ouvimos pessoas abaixo de nós, o que neste lugar é absolutamente insólito. Como veríamos logo adiante, tratava-se de um grupo de soldados de um destes grupos de selva aqui da Amazônia, paramentados para guerra com tudo o que tem direito e estatelados com o peso disto tudo no meio da subida, junto com um guia indígena.

Os militares, me pareceu, continuam bastante doutrinados nesta ideia de que a Amazônia vai ser invadida amanhã por algum grupo guerrilheiro ou tomada por alguma potência estrangeira, por isto o tenente que comandava o grupo já começou me interpelando em inglês. Bom, fiquei no converserê mineiro com ele algum tempo, mas senti que ele não se convenceu muito quando disse que dois sargentos e um capitão estavam mais para trás (bem mais na verdade, o que certamente não condizia com a minha frágil condição de civil), além disso, aparentemente oficiais mais graduados não são chegados a este tipo de atividade (o que certamente aumentou o prestígio do capitão que nos acompanhava), com isto acabei abreviando a conversa, pois tinha um igarapé me esperando e no momento sentia que não estava representando nenhuma ameaça à segurança nacional. Na verdade este grupo tinha a missão de subir à testa da Bela Adormecida, algo que simplesmente não tinha como acontecer por ali, pois estávamos no trecho das mãos da Bela, portanto o caminho deles era outro, era outro o conjunto de montanhas que eles procuravam. Mas enfim, isto era coisa para ele resolver com o chefe dele depois…

Mais tarde fiquei curioso em entender o que levava jovens como aqueles que eu tinha conhecido até então, a abandonar confortos e facilidades que os centros urbanos oferecem para vir até uma espécie de “exílio na selva”, pois com exceção dos soldados, na maioria indígenas, os demais, sargentos, tenentes e daí para cima são voluntários na Amazônia.

Conversando com meus parceiros de caminhada, percebi que para muitos jovens como este tenente ou mesmo para eles que me acompanhavam, faz mais sentido existir forças armadas aqui, uma imensa e vazia floresta que faz parte do país onde eles nasceram e com uma população, que bem ou mal, acaba sendo assistida por eles, do que ficar lustrando botas em algum quartel no Rio de Janeiro.

Aqui neste trecho da Amazônia, onde tudo é muito precário, eles representam um serviço público federal, que é singular na sua capacidade de organização (recursos financeiros, engenharia, transportes, comunicação, assistência médica, etc), coisa que Icmbio, Polícia Federal, universidades, não tem, o que não é pouco. Então eles são importantes aqui e sabem disto.

Além disso, eles me explicaram que há também toda uma mística aventuresca na Amazônia, o que também não é pouco em pleno século XXI e isto parece trazer mais sentido à vida deles e mais prestígio junto aos demais militares do país.

Existem atritos aqui, entre indígenas, Icmbio, prefeitura, militares, turistas que entram nos lugares sem autorização, mas nada que se compare aos países vizinhos, onde infelizmente a ameaça já se concretizou de fato, seja na forma de espertalhões que exploram sistematicamente as riquezas da floresta, em detrimento dos seus legítimos moradores, seja nos traficantes ou nos guerrilheiros que raptam crianças para transformá-las em soldados mirins ou que maltratam os indígenas (Adão fugiu da Colombia por este motivo). Certamente os militares que passam por aqui saem com outra visão do país e de suas carências, o que é bom para eles.

Agora atenção, se você é sensível e gosta de bichinhos, pule esta parte do artigo!

Mesmo entendendo um pouco mais o pensamento dos militares, foi mesmo com os nativos, que são montanheses, que eu consegui fazer uma interação maior. Tanto em conversas, em desempenho na montanha, como em atitudes. Só não participei da caçada de queixadas deles porque não tenho este tipo de habilidades.

Aliás, esta foi uma parte interessante do meu passeio. A única vez que eu tinha participado de uma caçada foi quando era adolescente em Itararé, quando fui visitar parentes do meu pai.

Na época um tio meu e um primo, pessoas pacatas e calmas, me convidaram para uma caçada, na qual eles levaram, cada um, uma espingarda e um cachorrão enorme, para caçar umas aves minúsculas (codornas). Como não podia deixar de ser, na hora que o instinto de caçador batia, os dois se transfiguravam. Depois de apanharem um punhado daquelas aves inofensivas, todos, inclusive os cachorros, acabaram se atracando com um tatu, que foi capturado e guardado na oficina de tratores do meu tio. Pois bem, o tal tatu cavou um buraco enorme por baixo da oficina e conseguiu fugir.

Não foi o caso da queixada. Um bando com uns 20 porcos selvagens destes cruzou na frente do Adão, que não quis conversa: acertou o bicho que foi ainda pra frente uns bons metros. Todos os outros queixadas começaram a ficar raivosos (batem os maxilares, com um ruído forte, daí o nome). Um dos nossos amigos militares sacou uma pistola e começou a dar tiros a esmo. A bicharada toda ficou bastante alvoroçada (a queixada é um animal bem agressivo quando acuado), mas não avançaram pra cima da gente.

Alguns metros adiante o Adão já estava arrastando o bicho, uma fêmea, para a beira de um igarapé, onde ele começou a cortar o bichão, para tirar uma bolsa (glândula) responsável por exalar mal cheiro, que é uma defesa do animal e destripar as víceras (que ficaram por ali). Depois disto cortou a cabeça, os pernis e partes do corpo (para levar). Finalmente, ele retalhou em dois o bicho, para dividir a carga com o José, lavou as partes que ia levar e embrulhou em sacos plásticos que demos para ele. Foi tudo para o Jamashi, que por isto estava vazio.

Tudo isto foi feito rapidamente, com bastante habilidade, assim como faz o açougueiro que destrincha a vaca, a galinha ou o porco que você leva da prateleira do supermercado. A diferença, no caso deles, é que esta carne (uns 15 a 20 kg) vai alimentar a aldeia toda naquela noite, na refeição comunitária e não apenas um jantar de namorados em um restaurante bacana. Depois percebemos que deve ter algumas centenas de queixadas destas por aqui, pois passamos por mais quatro bandos.

Amazonidades: humanidades amazônicas

Adão, como o nome sugere, é um destes homens primordiais aqui da Amazônia. É um líder de uma comunidade, responsável por um grupo de pessoas, como alguns que eu já conheci em Superagui (litoral do Paraná), em Carajás (no Pará) ou em outros lugares. Está preocupado em manter vivo um papel que ele ganhou dos brancos que diz que a comunidade dele é proprietária de um pedaço de terra onde estão estas montanhas onde ele e mais um punhado de pessoas caça para alimentar a comunidade. No rio Negro ele me mostra o lugar onde o irmão mais novo dele morreu afogado quando a canoa afundou, pergunta quanto custa o GPS, a bota, o canivete, se mostra admirado com minha rede, pergunta se os turistas vão achar ruim se ele caçar enquanto estiver levando eles para passear, pergunta se dá para fazer um projeto para construir uma escola de alvenaria na aldeia porque a de madeira e palha é muito quente. Diz que já veio gente fazer a trilha, que prometeu deixar um desenho dela para ele poder mostrar para a comunidade e nunca mais voltou (eu fiz um croqui da trilha no computador da comunidade e imprimi para eles). Ele me mostra um monte de ervas medicinais que diz que nunca mostra para os americanos, está preocupado com o filho ainda de colo, que está com conjuntivite, me chama de professor porque acha que eu sei de muita coisa, mas é um notável prático no trecho pedregoso do rio Curicuriari. Se admira que eu não esteja cansado, diz que não dá para julgar pelas aparências, se mostra incomodado com o lixo dos soldados, diz que a placa solar poderia funcionar melhor, mas o conserto sai por 4 mil reais. Organiza uma pequena apresentação das crianças da comunidade para nós. Se espanta em saber quanto custa criar um filho na cidade. Explica que com 10 anos todo menino e menina já sabe tudo que um homem ou uma mulher precisa para sobreviver no mundo deles.

Assim me despeço dele, cada qual, imagino, curioso e um pouco embasbacado com o mundo do outro.

 

Apoio: Conquista montanhismo

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Por Edson Struminski (Du Bois)

Como escrevi em um post anterior, chegar em São Gabriel da Cachoeira, algo que só pode ser feito por via fluvial ou pelo ar, já representa uma aventura e uma dificuldade adicional a um viajante. A cidade tem uma estrutura precária de serviços, com asfalto caindo aos pedaços, poucas calçadas, lixo abundante pelas ruas, energia elétrica fornecida por um gerador a diesel, que volta e meia sobrecarrega. Isto lembra os percalços que eu vivi na infância, em um ou outro lugar do Paraná nos anos 60 do século passado e, em um certo sentido, é neste mundo que esta fronteira da Amazônia ainda vive.

Em outros estamos como em qualquer lugar do Brasil do século XXI: antenas parabólicas, celulares, lap tops, mas o lugar tem uma série de peculiaridades, algo como 90% da população de 37 mil habitantes, segundo dizem, é composta por indígenas das mais de 20 etnias que existem na área urbana  e em mais de seiscentas comunidades espalhadas nas calhas do rio Negro, Waupés, Içana, Ayari, Tiquié, Xié, Cauaburis e seus afluentes. Há tres linguas oficiais no município além do português:  nheengatú, tukano e baniwa.

São Gabriel está na Bacia do Alto Rio Negro. Se vocês derem uma olhada em um mapa do Amazonas, perceberão uma região parecida com uma “Cabeça do Cachorro”, que é como este território é chamado pelos militares. O município é cortado pela linha do Equador e limita-se ao norte com a Colômbia e Venezuela.

A extensão territorial de São Gabriel da Cachoeira é uma das maiores do país: 109. 185,00 km². O que isto significa? Um grande vazio populacional, pois essa área é superior a de vários estados brasileiros como o Rio de Janeiro (43.910,01 km²),  Santa Catarina (95.346,18 km²) ou Pernambuco (98.311,62 km²) e obviamente de alguns países também. Parte do seu território é abrangido pelo Parque Nacional do Pico da Neblina, fechado para visitação, além de terras indígenas demarcadas e regularizadas (cerca de 80% do território municipal). Parte das terras indígenas está dentro do parque.

Por estar na complicada faixa de fronteira entre Brasil, Colômbia (hoje sede do grupo guerrilheiro FARC) e Venezuela (hoje casa do Hugo Chavez e de seus aviõezinhos russos) e inserir-se em região de grande interesse nacional e internacional, já em 1968, ainda nos tempos da ditadura, o município foi incluído em Área de Segurança Nacional, o que intensificou a presença do exército e da aeronáutica no município e, atualmente também da marinha do Brasil. O exército mantém o Comando de Fronteira do Rio Negro. No município, encontra-se sediada, atualmente, a Segunda Brigada de Infantaria de Selva, o Quinto Batalhão de Infantaria de Selva, a 21ª Companhia de Engenharia de Construção do exército brasileiro e o Destacamento do Controle do Espaço Aéreo de São Gabriel da Cachoeira.

Esta sobreposição entre territorialidades de segurança nacional, vastas terras indígenas e unidades de conservação em São Gabriel coloca grandes desafios para o planejamento e gestão territorial local. Implica na convivência de  diferentes atores sociais e institucionais, com respectivos interesses e formas de atuação no território, pois envolve distintos entes da federação. Atritos sempre aparecem.

São Gabriel está somente a 90 metros de altitude, o que significa que o Amazonas e seus afluentes tem um desnível baixíssimo em relação à foz, se formos considerar seus milhares de quilômetros de comprimento, o que faz com que as montanhas da região se destaquem ainda mais. Além do Pico da Neblina, a Serra do Cabari, o Morro dos Seis Lagos e a Serra Curicuriari ou Bela Adormecida que emoldura a paisagem de São Gabriel são outras montanhas que dão um ar “pouco amazônico” a esta região.

É sem dúvida uma região de natureza belíssima, com praias de areia super branca e água super escura, da cor da coca cola, que devia montar uma fábrica aqui para economizar corante. Existem abundantes ilhas fluviais e muitas montanhas também. Embora a distância, geralmente através de algum transporte fluvial, seja longa. A produção artesanal: remos, cestos, objetos decorativos e utilitários, com palha ou cerâmica é belíssima.

A dificuldade aqui é o calor equatorial (definitivamente não é um balneário de férias) e a precariedade da estrutura e dos serviços da cidade, que fazem com que o lugar esteja longe de ser atraente. Passar pelo caos urbano da cidade faz parte da experiência necessária para escalar suas montanhas…

 

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Por Edson Struminski (Du Bois)

Aqueles que por ventura acompanham com certa regularidade este meu blog talvez estranhem este post, em relação ao anterior, que contava de minhas andanças na fronteira sul do país, um ponto do mapa brasileiro de onde se avistava nosso país vizinho, o Uruguai.

De fato, assim como Santana do Livramento é um dos últimos municípios brasileiros ao sul, São Gabriel da Cachoeira, milhares de quilômetros acima, é um dos últimos ao norte, mais especificamente no noroeste do Amazonas, fazendo fronteira com a Venezuela e Colômbia. E acabei vindo para cá apenas dez dias depois de passar algum tempo mirando a fronteira sul.

Na verdade, como muitos de vocês já sabem, este trajeto, o espaço físico entre o sul e o norte do país pode ser coberto em questão de horas, pelo menos entre as capitais. Então este é o tempo entre estar tomando um mate em Porto Alegre e provando um suco de graviola em Manaus, na beira do rio Amazonas.

Manaus como toda capital ou metrópole brasileira que se preza, concentra grande parte da população do seu estado, o Amazonas e tudo o que isto significa nos dias atuais no Brasil, em termos de riqueza, mazelas urbanas, obras monumentais e infra estrutura caótica sendo reformada apressadamente para a copa do mundo, com suas inevitáveis denúncias de corrupção, etc, etc,…

Copa do mundo à parte, a cidade é uma construção moderna em meio à floresta tropical e em certo sentido, tirando um pequeno centro histórico da época do ciclo da borracha (final do século XIX e início do século XX), encontro nesta cidade o mesmo frenesi da modernidade que vi em algumas das capitais nordestinas que conheci: Salvador, Natal, São Luis e se formos estender um pouco, é o mesmo frenesi que encontro também em Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio, Brasília. O fato é que a modernidade, com seus shoppings, grandes viadutos, avenidas largas, trouxe soluções despersonalizantes fartamente utilizadas em nossas grandes cidades. Variando apenas o clima mais ou menos abafado, mais ou menos seco, mais ou menos frio…

Então é preciso buscar no ambiente natural e nos regionalismos, como a música ou a culinária algo que distinga Manaus das demais cidades.

E embora seja menos óbvio do que parece, pois é preciso atravessar uma muralha de prédios e um labirinto de avenidas e ruas para fazer isto, somente quando provo um Tucunaré (peixe típico amazônico) em um modesto restaurante na beira no rio Amazonas e embarco em um transporte que vai subir o Rio Negro é que consigo distinguir e mesmo avistar a cidade de Manaus, queimando embaixo de um sol equatorial e escondida do rio atrás de seus prédios modernos com ar condicionado. O grande rio é de fato, a razão do surgimento desta cidade em um ponto estratégico, algo que a modernidade acaba por reduzir.

Apenas a alguns quilômetros adiante, este ponto estratégico faz sentido, pois o rio Amazonas se divide nos seus dois mais famosos afluentes: os rios Solimões e Negro, cada qual seguindo para alguns dos confins do Brasil.

Subindo o rio Negro

Algo entre 23 a 27 horas separam Manaus de São Gabriel da Cachoeira por um barco. O tempo de viagem varia conforme a condição do rio, se está mais ou menos cheio, se a correnteza está forte ou fraca, se as chuvas atrapalham a navegação, etc.

Esta é, de fato, minha segunda investida na Amazônia. Na primeira, que contei numa série chamada “Cartas Amazônicas”, mostrava minhas andanças pela região da Serra de Carajás, no Pará, um dos trajetos do “arco do desmatamento” da Amazônia, região onde o boi e o pasto já tomaram o lugar da floresta em muitos lugares e a mineração criou uma dinâmica econômica tão grande a ponto de provocar a proposta de criação de um novo estado, o Estado do Carajás, embora algumas regiões, como as montanhas onde Carajás se situa ainda estejam preservadas.

No Amazonas o mundo é outro, a paisagem é uma vasta e monótona planície coberta por uma densa floresta e cortada pelos rios, exatamente como aparece na televisão. Aqui e muito acolá uma pequena casa de ribeirinhos, mas muito raramente. O Amazonas tem de fato, 80 ou 90% de sua cobertura vegetal ainda intacta. Um país verde. Então aí está. Este é, em essência, o grande deserto humano que é o sonho dos ambientalistas em seus devaneios na Avenida Paulista ou nos prédios modernosos de Brasília.

Como há uma sazonalidade pronunciada no regime de chuvas na Amazônia, estamos no período de secas no momento em que escrevo. O período é quente e seco e os rios, inclusive o Amazonas, estão baixos, coisa como 4 metros abaixo do nível normal. Assim, apesar de algumas centenas de metros de largura, o rio Negro, com sua água com a cor da coca cola, baixa também muito na época da seca e afloram muitas pedras, o granito primordial do continente brasileiro.

O barco no qual estou viajando, uma lancha como dizem aqui, é, na verdade, um grande ônibus convencional para 120 pessoas. Viaja o tempo todo lotado. É quente e desconfortável. Na tentativa de minimizar este desconforto, algumas pessoas se esparramam pelo chão tentando dormir um pouco. Espaços na proa são disputados pelo ar fresco. Mesmo assim é um barco rápido se formos considerar que um transporte mais lento leva em torno de 2 a 3 dias e embarcações de carga podem levar até 7 dias (balsas) para fazer este mesmo trecho.

Barcelos e Santa Izabel são as duas únicas localidades que o barco atinge neste trajeto. Pontos no mapa. São Gabriel da Cachoeira é o fim deste trajeto, pois acima daí começam corredeiras fortes e somente com voadeiras e barcos menores. O rio é tudo então para estes lugares, caminho, fonte de energia, de alimentos, de contatos com o mundo. São Gabriel tem aeroporto (mas poucos voos) Se o rio seca demais os barcos já não sobem e os problemas começam.

São Gabriel é a maior cidade do rio Negro. Assim como Carajás, talvez em um futuro não muito distante este trecho do Estado do Amazonas se separe em uma unidade nova da federação brasileira. A maior parte da população de 40 mil pessoas faz parte de alguma etnia indígena da região. A cidade tem tres línguas oficiais, o português é uma delas, as demais são de origem indígena, além de vários dialetos falados por diversas etnias. O outro contingente importante de pessoas é de militares das tres armas, que tem certos benefícios em servir na Amazônia e vem com suas famílias. Além de guarda da fronteira com nossos inquietos vizinhos, Colômbia e Venezuela, eles fazem trabalhos de engenharia, medicina, sendo as principais instituições governamentais nesta região.

Por conta do granito, o rio Negro é mais ácido que o Amazonas, isto significa menos peixe, uma água menos palatável, mas também menos insetos do que em outras regiões amazônicas.

Existem algumas montanhas, praticamente no fim desta viagem. Elas demoram a aparecer. São Gabriel é o ponto de partida para o Pico da Neblina, atualmente em um parque fechado pelo Icmbio. Porém, algumas horas antes da chegada em São Gabriel, aparece uma outra bela cadeia de montanhas de granito, objetivo desta minha viagem, a Serra da Bela Adormecida…

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