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Archive for maio \22\UTC 2014

Córdoba em abril

Por Edson Struminski (Du Bois)

 

27 anos se passaram desde que eu estivera no conjunto Los Gigantes, nas Sierras Grandes de Córdoba, Argentina. Na época, havia sido minha primeira incursão a um mundo de rochas diferente do meu universo particular, úmido e cheio de vegetação da Serra do Mar paranaense. Foi o local onde comecei a dar atenção à possibilidade de abrir vias em móvel, uma técnica que no Brasil ainda engatinhava.

As serras de Córdoba são acessíveis com um tirão de umas 15 ou 16 horas de automóvel de Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, onde estou morando. Tudo sem sair muito do paralelo 31. Aproveitando o feriado da páscoa e mais um tempo extra, eu e meu parceiro de escalada Fabrício Domingues encaramos a estrada para conferir as pedras do país vizinho.

Conferir a estrada significa neste caso, confrontar as imagens que eu tinha na cabeça, de 1987, com o mundo atual que encontramos no caminho. E o mundo atual é o mundo do agronegócio. A partir de Uruguaiana no Brasil, o que vemos são maquinários e plantações a perder de vista nesta Mesopotâmia moderna que é o trecho entre os rios Uruguai e Paraná (na Província argentina de Entre Rios). Cidades dinâmicas e bem cuidadas, riquezas, grandes obras. A imagem surpreendente de um navio de grande calado no porto fluvial de Santa Fé, em pleno interior do continente americano. Tudo para matar a fome do mundo, ou da China se preferirem.

Em confronto com toda esta modernidade, o eterno jogo de pega-pega com os buracos das estradas ou de esconde-esconde, com os policiais rodoviários, que pareciam mais interessados em uma alegria extra para suas páscoas, do que na segurança dos viajantes.

Outro informe, grito, protesto, desabafo, que parece perdido no tempo é aquele das placas, que voltam e meia nos informam: “Las Malvinas son argentinas”, que para quem nasceu depois de 1982 parece uma mera curiosidade. Mas não para mim. Em 1982 a Argentina, assim como vários países sul americanos, inclusive o Brasil, estava embarcada em uma ditadura militar implacável, mas que já estava fazendo água por conta da incompetência financeiro/administrativa dos generais que estavam então no comando do país. Como tentativa de ganhar popularidade a partir de um golpe de força, os militares pegaram seus navios e invadiram as ilhas Malvinas, no Atlântico Sul, um resquício do antigo Império Britânico que é reivindicado pela Argentina desde 1833 pelo menos. Em 1982, uma geração de jovens argentinos nascidos em 1962 (a minha) foi imediatamente convocada e jogada nas ilhas. O golpe deu errado e os militares argentinos foram vergonhosamente enxotados e, conforme podemos ver no documentário de 2007 “Malvinas, la retirada” do diretor Matias Gueilburt, com a honrosa exceção dos soldados que estavam nas trincheiras e de alguns aviadores pouco se salvou da derrota militar. A ditadura afundou com o peso desta derrota, da economia destroçada e do aviltamento dos direitos civis.

Em minha primeira viagem à Argentina, em 1987, as lembranças desta guerra e a sensação de alto estima abalada do povo ainda eram tão fortes que podiam se ver bandeiras nacionais esfarrapadas em vários postes nas ruas de Buenos Aires e Córdoba. Agora o que víamos, eram outros resquícios igualmente tristes, deste período da história do país.  Além destas eventuais placas que adornam algumas estradas, alguns locais, antigos centros de tortura militar, foram transformados em museus.

No fim deste primeiro dia de viagem e contrastando com o relativo vazio das estradas, chegamos à Córdoba à noite, em pleno horário do rush. Enfrentamos um alucinante movimento nas cidades serranas vizinhas, Villa Carlos Paz e Tanti, que, pelo que percebemos, servem pra extravasar as tensões urbanas dos cordobeses, com as atividades mais diversas: bares, danceterias, pistas de kart, bangalôs. Afinal Córdoba é a capital do interior argentino, uma cidade universitária e tecnológica.

Finalmente ingressamos, já no meio da noite, na longa e sinuosa estrada que percorre as montanhas em direção à Los Gigantes. Tateamos como podemos por estradas de chão mal iluminadas e com escassas placas, até batermos em um dos campings que existem no pé das montanhas, na entrada da trilha do Cerro de La Cruz. Dormimos do jeito que deu, o que quer dizer, no meu caso, dormir mal, mesmo assim, nos dias seguintes começamos a conferir a precisão, ou não, dos meteogramas para as Sierras de Córdoba.

Havia certa indicação de tempo frio, mas sem chuva, com a possibilidade de neve, se a coisa pegasse. Na verdade o que tivemos foi frio, umidade, um pouco mais de frio e chuva, quando a umidade engordava. Mesmo assim, as janelas de sol e a qualidade da rocha (granito e migmatito) compensaram o mal humor do clima e pudemos nos divertir e curtir a tranquilidade e a beleza da paisagem.

Córdoba começou a receber suas primeiras vias de escaladas em 1954. 70 anos se passaram, mas ainda é possível reconhecer as linhas mais antigas em meio à profusão de novas escaladas desportivas. Em 1987 eu próprio já havia traçado algumas linhas por lá com nuts pelas fendas, algo que hoje acredito que seja mais corriqueiro, inclusive com peças mais sofisticadas. O fato é que, com uma vasta opção de escaladas pela frente e, apesar de estar com o guia de escaladas da região à mão, a opção mais interessante foi escalar sempre com os equipamentos móveis à mão, o que nos deu uma considerável liberdade para circular nas paredes, em particular nas maiores.

À medida que fomos nos ambientando melhor no ambiente de escalada local, com suas regletes, fendas de oposições ou de entalamento e aderências,  esta liberdade se tornou mais proveitosa. Repassamos alguns dos locais mais conhecidos como Cerro de La Cruz, La Cuña, El Tio. Não sei, ao certo se chegamos a fazer alguma via completa, ou se tudo foram variantes de vias, o fato é que subimos várias paredes algumas vezes e alguns cumes e gastamos o cérebro e os dedos para colocar as peças certas nos locais certos, tratando de subir e descer tudo com segurança, olhando um pouco de tudo, do novo e do antigo.

Com exceção do primeiro dia, em que o lugar estava repleto de turistas, escaladores tendo cursos e alguns veteranos, praticamente não tivemos contatos diretos com mais ninguém em Los Gigantes, a não ser com o pessoal dos campings. Este isolamento e tranquilidade aconteceu por conta da extensão do lugar e dos inúmeros destinos de escalada que existem por lá. Nada disto nos prejudicou pelo fato de que o lugar é acessível para alguém que tenha prática em escalada neste tipo de rocha e consiga se orientar nos caminhos entre os labirintos rochosos. Alguns destes caminhos passam pelos refúgios de montanha dos clubes andinos de Córdoba e De Carlos Paz.

Rever estes refúgios de montanha em Córdoba me remete ao impacto inicial causado pela visão destas construções em 1987. Naquele momento foi como se algo que eu vagamente conhecia, pelos livros ou por colegas mais viajados, se materializasse na minha frente, que era a tal “cultura de montanha”.

Até o surgimento da internet e das academias de escalada, falar para alguém que você era um “montanhista” era o mesmo que dizer “Marte” ou outra palavra qualquer vaga e distante. Um refúgio construído e mantido por montanhistas e para usufruto de todos os viajantes da montanha era algo que eu não conhecia no Brasil, a não ser pela sugestão de algumas construções abandonadas no Parque Nacional de Itatiaia que tinham este nome. Na primeira vez que estive em Los Gigantes o refúgio do Club Andino Carlos Paz estava recém sendo concluído e eu pude usufruir não só do inusitado conforto que aquela modesta construção proporcionava, como também do “ambiente de montanha”, charlas, comidas, escaladas em comum, com os montanhistas que estavam trabalhando naquela construção.

Nesta viagem de abril, já não encontramos ninguém nos refúgios por conta do 21 de abril, feriado apenas no Brasil (Tiradentes). No entanto, apesar da paz e da tranquilidade que desfrutamos nestas montanhas, não foi possível deixar de perceber que aparentemente existe uma surda disputa de espaços entre uma visão mais comercial do lugar e outra mais ambiental. O lugar vem sendo usado desde sempre para a criação de gado, que assume ares semi-selvagens, assim como desde sempre também vem trazendo junto destruição da vegetação, erosões, deslizamentos. Uma visão mais conservacionista vem tentando mostrar, inclusive no lugar, que sem as vacas o lugar pode ser mais verdejante.

A região dos refúgios dos clubes andinos, foi isolada do gado e tornou-se uma amostra de como poderia estar a vegetação natural sem a presença destes animais. O tabaquillo (Polylepis australis) uma arvoreta típica do local que já conhecia desde 1987 tomou conta do pequeno vale onde se situam os refúgios, formando uma paisagem de Shangrilá em meio à vegetação pastejada em volta.

Me pareceu que com relação ao turismo a visão é semelhante. Praticamente só encontramos turistas na trilha que sai do primeiro camping, incluindo uma pequena multidão fazendo cursos de escalada na região do Cerro de La Cruz. já o segundo camping parece ter sido eleito pelos montanhistas. Cada um deles dá acesso a um setor diferente destas montanhas, ambos muitos bonitos de qualquer modo.

 

Tirando estas sutilezas, pouco parece ter mudado ao longo dos anos em Los Gigantes. A rocha permanece maravilhosa para escalar, os caminhos bonitos, a paisagem harmoniosa. Um passeio que, mesmo com frio, chuva ou canseiras, sempre valerá a pena ser feito.

Setor “El Tio” em Los Gigantes, Córdoba (Ar)

 

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