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Archive for março \31\UTC 2011

Por Edson Struminski (Du Bois)

Uma cena como esta que descreverei já aconteceu em vários lugares: na Pedra do Baú, em Bariloche, no Pico Paraná, em alguma das vias do morro Anhangava que escalei…, como neste fim de semana.

Estou escalando em solitário em um canto qualquer de uma destas montanhas. Meus olhos  enquadrinham atentamente a parede em busca da próxima sequencia de agarras. Investigo brilhos na rocha que denunciem a umidade da chuva. Verifico alguma tonalidade diferente da pedra que sugira cristais frágeis ou um som que sugira uma placa solta. Busco grampos ou chapas. Estou escalando, enfim, imerso no mundo da rocha, examinando a linha mais interessante, mas também atento a qualquer coisa que possa afetar minha segurança.

Esta via hipotética sobe 10 metros e faz uma transversal de uns 15 metros. Tem duas chapas no trecho, é pouco pelos padrões esportivos atuais. Mas o único brilho que avisto é de um objeto estranho na parede que me chama a atenção.  Ao chegar até ele constato que trata-se de  um mosquetão com rosca abandonado na segunda chapa. Que tipo de drama ele esconde? Que tipo de história? Pode significar algum aviso para mim? Tento interpretar aquilo, tento ler as evidências: o crux da via é logo acima uns 5 metros, estará molhado a ponto de impedir a ascenção?  Será que o escalador anterior apenas não venceu a dificuldade técnica da passada e abandonou a via? Será que foi um erro de rapel?

O mais provável me parece ser a insegurança diante da possibilidade de queda longa neste trecho da escalada. Talvez, deduzo, o mosquetão seja de um escalador jovem, relativamente pouco experiente em guiar, com pouco tempo de escalada, pois o mosquetão, de duralumínio, não é de um tipo muito caro, mas é relativamente novo e está intacto, tirando o leve sinal de oxidação proveniente da chapa de ferro onde está clipado,  sinal de abandono há pelo menos alguns dias, uma fuga da dificuldade do lance… 

Depois que este mosquetão me contou sua história ele acabou tendo um dos destinos que este tipo de objeto tem: ou foi devolvido para o dono, ou foi incorporado ao meu próprio equipamento pela falta de um dono a quem eu pudesse devolver, ou foi doado para alguma pessoa que precisasse de um mosquetão para alguma coisa, ou virou objeto de museu ou ainda, recebeu outro tipo de uso fora da montanha, como pendurar rede, clipar a coleira de algum cachorro, etc.

Ele entrou para minha contabilidade junto com os outros, estimados, 100 outros objetos que eu já encontrei em paredes. Um número absurdo? Nem tanto, tres por ano, no meu caso, sem contar os anos “excepcionais”, como em 2010, quando encontrei 5 mosquetões (e mais fitas, cordas, etc), sendo tres deles em uma única parada de rapel, novos em folha. Mas nada comparável com uma brilhante safra de 15, cujo dono, imagino, pode ter tido mais do que mera distração.

Além dos mosquetões, a lista destes objetos peculiares que já encontrei pode ser engordada por outros apetrechos de escalada: aparelhos de descida, modernos ou antigos, fitas tubulares,  cordeletes, nuts, friends, fitas expressas com os dois mosquetões, fitas expressas com apenas um mosquetão (sugerindo a patética cena do sujeito sacando a expressa para costurar,  ficando com apenas um mosquetão na mão e vendo o resto cair), tênis de escalada, tocos de corda, corda inteira, estribos, grampos, martelo, talhadeira, estacas de neve, cunhas de madeira do tempo do Araril Pandorga…

A montanha é um local propício também para os excursionistas abandonarem outras bugigangas pesadas como cobertores encharcados, sacos de dormir palhões, panelas, botijões de gás, lonas, barracas, mochilas, calças, camisetas. Mas não é incomum eu encontrar um objeto valioso, que sugere escaladores descuidados: um canivete suíço, uma headlamp, um óculos bacana, uma máquina fotográfica. Meu filho mais novo se diverte com isto e sempre me pergunta o que achei de novo na montanha. Às vezes trago um celular para ele brincar.

Mas os mosquetões tem um valor simbólico para mim. Raros, caros, especiais.  Simplesmente era difícil encontrar um no Brasil para comprar quando comecei a escalar. As remessas para o Brasil eram praticamente inexistentes devido à política de contenção de importações do país naquela época. Nada de supérfluos e o que eu fazia era supérfluo. Tinha-se que recorrer a algum tipo de subterfúgio para conseguí-los: alguém viajando ao exterior, alguém trazendo materiais por baixo dos panos.

Os mosquetões são representantes peculiares do mundo da escalada, desde 1910, eu acho. Meus primeiros mosquetões, pareciam ter personalidade, não apenas uma marca. Pierre Alain, René Demaison, Choinard, Bonaiti. Não eram marcas apenas de fábricas e sim nomes de escaladores famosos, gente que eu imaginava em um dia abrindo uma via em algum paredão ríspido dos Alpes e em outro gastando pestanas na estamparia ou na fundição, para criar algum novo modelo, robusto, belo, forte o suficiente para atender as reais necessidades dos escaladores.

Além disso estes equipamentos sempre me pareceram símbolos da nossa moderna sociedade tecnológica. Matérias brutas como alumínio, ferro ou petróleo costumam ser associados com um design inovador para produzir instrumentos usados para um tipo de lazer extremamente arrojado, como este que praticamos, que embute até mesmo princípios éticos sofisticados na sua concepção, algo impensável antes do século XX. Por isto a escalada é tão emblemática de nossa contemporaneidade. Poucas atividades humanas podem ser assim tão modernas e complexas.  A complexidade, como diz Edgar Morin (1) é um dos sinônimos da modernidade.

Aqueles meus primeiros parcos mosquetões com seus nomes sonoros tinham um efeito mágico sobre mim. Eu me sentia participante do mundo da montanha apenas por imaginar que praticava, no distante Brasil, na distante sul América, algo que se assemelhava com aquilo que aqueles escaladores experientes faziam em algum paredão rochoso dos Alpes.  De algum modo, através do meu pensamento, eles me ligavam a uma estranha irmandade montanhística. Eram o meu elo com o mundo fantasioso das grandes aventuras nas montanhas. Com isto, o abandono de um equipamento deste na montanha tinha algo de sacrilégico.  Não por acaso meus treinamentos na montanha incluíam, como incluem ainda hoje, a desescalada como uma alternativa ao abandono de objetos na montanha.

Contrastando com o alto simbolismo que estes objetos tinham para mim, está aquela fita ou mosquetão abandonado em uma parede, perdido em meio à vegetação, esquecido em cima de alguma pedra. Eles sugerem uma abundância (igualmente um traço da modernidade?) que contrasta com meus primeiros tempos de privação, um desleixo ou até mesmo a depreciação do ato de escalar, pois podem ser abandonados facilmente se as coisas não estão convenientemente arranjadas para o escalador subir a parede, se o escalador não está devidamente preparado, não está à altura da via. Então tchau Demaison, Choinard ou Bonaiti. Fique para os próximos a tarefa de resgatar um mosquetão imprestável da parede, retirar aquela fita ou cordelete podre que atrapalharão a costura do próximo escalador, de sacar aquele nut duvidoso da pedra.

Montanhistas e escaladores em geral, já percebi, são bastante materialistas, marcam sobremaneira as montanhas, já tive a oportunidade de comentar isto em meu blog em alguma ocasião anterior.  É, de fato, um tema digno de reflexão que possamos, ao longo de nossa vida como frequentadores de montanha pincelá-las com nossos desejos e dejetos.

“(…) Vi todas as coisas e
 maravilhei-me de tudo,

Mas tudo ou sobrou ou foi
pouco, não sei qual e eu sofri.
 
 Álvaro de Campos
 
 Veja mais em:
 (1) MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento  Complexo. Lisboa, Instituto Piaget, 1991

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Por Edson Struminski (Du Bois)

Já tive a oportunidade de comentar, neste meu blog, sobre percepções que tenho tido a respeito do desenvolvimento do montanhismo.  Embora eu entenda que os centros tradicionais deste esporte como Curitiba, São Paulo ou Rio de Janeiro sempre terão um papel importante no esporte, me parece mais ou menos claro que em muitos pontos no interior do país estaremos cada vez mais vendo surgir, do dia para a noite, por assim dizer, novos polos para a prática do esporte, que poderão competir com os tradicionais em atrativos.  Apenas para citar alguns locais que tem este perfil no sul do país, eu relacionaria Londrina e Ponta Grossa no interior do Paraná, Caçapava do Sul e Bagé no Rio Grande do Sul, São Francisco e Alfredo Wagner em Santa Catarina.  Nestes lugares é possível constatar a descoberta de locais de escalada, uma rápida organização de grupos de escaladores, abertura de número expressivo de vias e geração de subprodutos como espaços de divulgação na internet, catálogos de escalada, encontros de escaladores e uma estruturação mínima para atender estas pessoas, como clubes, camping, trilhas, etc.

Rio dos Cedros, uma cidade situada na serra catarinense entre Blumenau e Jaraguá do Sul é também um lugar que se enquadra nesta categoria.

O acesso um pouco difícil por estradas não muito seguras às áreas de escalada de Vale dos Ventos acaba compensando pela beleza e singularidade da rocha do morro do rio Bonito, uma formação dupla, uma espécie de bolo com cobertura de creme, em que uma base granítica é coberta por uma capa de arenito que forma um grande teto e que permite a escalada em móvel mesmo em dias de chuva. É possível, com um pouco de imaginação, vislumbrar um momento, em que a ação da chuva e dos rios irá provocar a corrosão completa desta capa de arenito até que só reste o granito em uma forma muito pouco diferente da atual, que é o que já aconteceu no litoral de Santa Catarina.

Na realidade, atualmente estas belas e singulares formações rochosas são a borda de um grande planalto interior, então quando a gente sobe suas paredes ou trilhas o que se vê mesmo é uma grande massa florestal, um grande interior a perder de vista e não um cume particular.

Nesta época do ano (verão) chove muito em Santa Catarina (de meia em meia hora chove 15 minutos). Os rios estão cheios, transbordantes, as trilhas um pouco enlameadas e seja lá o que você vai fazer no lugar, escalar ou caminhar, terá de contar com esta possibilidade. Mas é possível escalar em muitas vias por conta do teto de arenito e também fazer belas caminhadas, fruto do esforço de nossos parceiros catarinenses nas pedras. De qualquer modo acho importante respeitar a ética local. As escaladas em móvel valorizam a preservação da beleza das linhas da rocha

Escaladores são bem vindos na região. Belas cachoeiras,  uma floresta bem conservada e paredes belas e atraentes são os motivos para deixar o comodismo de lado e se aventurar no Vale dos Ventos.

Cachoeira do morro do rio Bonito vista do meio das paredes

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