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Archive for janeiro \17\UTC 2011

Revivendo conglomerados

Por Edson Struminski (Du Bois)

A estrada entre Santana do Livramento e Porto Alegre estava lotada de argentinos fazendo loucuras ao volante, loucos, provavelmente para aproveitar e atopetar alguma praia paradisíaca de Santa Catarina, mas quando fazemos o desvio para Caçapava do Sul tudo fica muito mais tranquilo. Atravessamos a pacata cidade do centro sul rio grandense e descobrimos que somos os únicos visitantes no Galpão de Pedra, um camping nas imediações da Pedra do Segredo, pontos de referência para os escaladores locais. É a minha volta aos conglomerados gauchos, depois de mais de duas décadas.

Uruguaizinho

Eu teria pouco tempo de folga neste início de 2011, então pensei em uma viagem curta, algo que incluísse visitar algum lugar onde pudesse apreciar alguma faceta cultural marcante, que me proporcionasse passeios em lugares bonitos e também, é claro, onde eu pudesse usufruir um pouco de escalada em pedra, enfim, algo que pudesse servir para encher os olhos e recarregar as baterias. O sul do Rio Grande do Sul me pareceu ideal neste sentido porque existem lugares de escalada conhecidos por lá como Bagé ou Caçapava do Sul e existe a proximidade com o Uruguai, caso eu quisesse fazer uma rápida exploração neste nosso pequeno país vizinho (bom, poucos países não ficam pequenos perto do Brasil). Poderia ser uma oportunidade para manter meu castelhano. Em Santana do Livramento mora a pessoa que seria minha parceira nesta viagem, Miriam Chaudon. Ela é de Niterói, mas vive com os dois filhos em Livramento. Sua recepção carinhosa e seu apoio seriam fundamentais para que eu pudesse aproveitar o pouco tempo que eu teria. Ela se dispôs a me ciceronear nos passeios que faríamos.

Livramento faz fronteira seca com o Uruguai e, mais do que isso, é uma aglomeração urbana única com a cidade uruguaia de Rivera, o que significa, na prática, que seus habitantes vivem aquele tipo de curiosa situação bilíngue, de convivência com duas (ou mais) moedas (o dólar continua ciscando por aí), de intercâmbio, hoje felizmente pacífico, entre duas culturas, que pode ser observado já nos dois lados da praça central das duas cidades, onde vemos de um lado o Brasil e do outro lado, o Uruguai.  

O desconcerto com esta situação é maior quando atravessamos de automóvel as duas cidades em direção à aduana uruguaia, local onde damos entrada oficial no país vizinho. Como a Aduana fica algumas quadras já dentro de Rivera e as ruas são contínuas com as de Livramento, só percebo que estamos no Uruguai porque as placas das ruas e das lojas começam a aparecer escritas em espanhol e existem automóveis com numerações diferentes das brasileiras. É um jeito, digamos, engraçado de fazer uma viagem internacional.

Após uma rápida passagem pela Aduana, viajamos em direção a uma vila chamada Tranquera. Ao contrário das estradas brasileiras cheias de argentinos babando antecipadamente pela areia branca das praias catarinenses, as estradas uruguaias estão vazias. É possível apreciar a paisagem sem um louco encostado no paralama do seu carro. Depois que abandonamos o asfalto passeamos por estradas pedregosas na região do Valle del Lunarejo (lugarejo, vilarejo), formado por pequenos morros pedregosos (cerritos) e por um rio pedregoso, no qual exercito minha fabulosa técnica de fazer pedrinhas quicarem na água (7 quicadas). Não havia nenhuma tranqueira por ali, era tudo calmo, pequeno e bonito como este país, o Uruguaizinho, como carinhosamente começamos a chamar o lugar. É claro que via potencial para escalada em um ou outro lugar, além da possibilidade de subidas em alguns daqueles cerritos. Mas a minha curiosidade já estava momentaneamente satisfeita e como meu objetivo ali não era abrir vias, era hora de buscarmos um lugar mais consolidado para escalar. 

Um novo olhar sobre os conglomerados 

Demorei muitos anos para me aproximar dos conglomerados e arenitos, esta última uma rocha muito comum no Paraná, mas curiosamente meu primeiro contato mais sério com estas duas rochas aconteceu no Rio Grande do Sul em 1989 ou 1990. A escalada neste Estado estava vivendo um renascer e ela tinha nome e sobrenome: João Giacchin, um rapaz pobre, com pouquíssima instrução formal, mas com uma gana formidável por subir em pedras. Um verdadeiro príncipe das montanhas, que é como eu costumo chamar este tipo de pessoa. Sozinho Giacchin abriu, naquela época, muitas das vias existentes nos morros de arenito nas imediações de Porto Alegre e depois descobriu os conglomerados de Caçapava do Sul. Giacchin havia passado uma temporada no Paraná e escalado com os melhores escaladores da época, como Bito e Chiquinho. Bito sugeriu que Giacchin me procurasse para aprender algo a mais sobre escalada em solitário, algo que eu fazia já há algum tempo.

Em 89 passei um mês no Rio Grande. Conheci pessoas como Edgar Kitellmann, um dos pioneiros da escalada na região. Dei um curso para alguns escaladores, acompanhei os malabarismos do dia a dia de Giacchin, escalei com ele na região de Porto Alegre, ajudei-o a entender graduações e questões relacionadas à proteção das vias. Fomos até Caçapava, onde ajudei-o a abrir uma das primeiras vias modernas da região, a “Sem medo de ser feliz”, 120 metros no arenito e conglomerado da Pedra do Segredo. Mais tarde ajudei Giacchin a montar um projeto que mudaria a vida dele: escaladas na Itália e Espanha, onde existem grandes formações de conglomerado. Depois disto ele conseguiria cidadania italiana e passaria a viver na Europa, mas os gaúchos souberam preservar a história dele no Estado (1).

Eu tinha uma curiosidade natural de ver o rumo que a escalada tinha tomado depois da passagem do Giacchin. Assim Caçapava acabou virando um opção natural depois do passeio no Uruguaizinho.

Era noite quando chegamos no Galpão de Pedra, uma chácara adaptada para camping nos pés da Pedra do Leão. Fomos recebidos por Seu Manuel, proprietário da chácara, que se tornou, nos últimos 15 anos, personagem chave do montanhismo em Caçapava do Sul, pois seu camping se tornou a base segura para as escaladas na região, além de ponto de encontro de escaladores e sede de eventos anuais de abertura da temporada de escalada. Manuel é uma figura tão peculiar e expansiva no seu jeitão gaucho que vale o tempo investido na conversa com ele, apenas para conhecer alguns dos “causos” que ele tem para contar, alguns dignos de qualquer montanhista veterano. Imagino que depois de algum tempo observando meu ritmo: acordar cedo, subir para a montanha, escalar e dormir cedo, ele constatou que eu realmente era um dos pioneiros da região, na verdade alguém digno da história que o Giacchin deixou neste lugar. Além de tudo eu nasci em um dia 20 de setembro, uma das datas mais significativas do Rio Grande do Sul!

Foi uma semana das mais intensas da minha vida, escalando e caminhando em lugares desta cordilheira do interior gaúcho como Pedra do Sorvete, Pedra do Leão, Pedra do Segredo, Pedra da Abelha, Cachoeira do Cari, um excepcional afloramento rochoso (provavelmente riolito). Eu quase podia ver Giacchin pendurado em alguma daquelas pedras. Notável a paciência, carinho e bom humor de Miriam, que não podia escalar por um problema no joelho e mesmo assim suportou as caminhadas sem reclamar e teve a paciência de me dar segurança nas vias que quis fazer. Maravilhosa a hospitalidade de Manoel e da sua família, muito além de um meros proprietários de camping.

Depois de alguns dias deslumbrantes e tranquilos nas pedras de Caçapava, voltamos para Livramento. Vi os brasileirinhos gafanhotando nos free shopps do Uruguai, tomei um sorvete maravilhoso (feito com pedaços de fruta de verdade) na Heladeria Martinez e voltei para o Paraná. Percebi que o legado de Giacchin frutificou em vias de qualidade, em pedras e montanhas preservadas, que os gaúchos estão de parabéns por respeitarem seus pioneiros. 

PS: Durante esta viagem soube do acidente com o Bernardo Collares no Fitz Roy. Não conhecia Bernardo pessoalmente, mas lembro que quando ingressei na lista de discussão da Femerj (da qual saí alguns anos depois) ele foi a primeira (e única) pessoa que me saudou, que me tratou de maneira cavalheiresca. Depois ao ver os tipos de comentários que ele fazia, tinha por mim que se tratava de um conciliador, uma pessoa importante, enfim. Senti tristeza por ele ter desaparecido assim, mas imaginei que pelo menos ele conseguiu realizar um sonho maravilhoso.

(1) http://montanhismogaucho.blogspot.com

Miriam e o por de sol na Cordilheira Gaúcha

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