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Archive for agosto \15\UTC 2007

Parte 1: os pioneiros do olhar vertical
Por Márcio Bortolusso

Este artigo é uma pincelada do material que venho apresentando em eventos do montanhismo nacional, fruto de longa pesquisa para um livro futuro que me levou a descobertas fascinantes. É com grande prazer que a partir desta frase eu apresento um resumo histórico sobre as mil facetas desta incrível arte documental.

O fascínio da Humanidade pelo registro documental ultrapassa as fronteiras do imaginável. Desde os primeiros rabiscos rupestres em cavernas até a invenção da Fotografia, no início do século 19, que o Homem busca evoluir quanto ao uso de técnicas e materiais que lhe permita eternizar imagens com maior precisão.

As primeiras imagens de montanhismo que se tem registro antecedem a fotografia ou a sua popularização, foram feitas por ilustradores talentosos que se encarregaram de sagrar para a prosperidade importantes passagens dos primórdios do montanhismo, como as clássicas litografias de Gustave Dore sobre a gloriosa e trágica escalada do Matterhorn por Edward Whimper em 1865, que após alcançar “o último cume dos Alpes” perdeu 4 de seus homens na descida. Esta tragédia comoveu tanto os europeus que a Rainha Victoria cogitou proibir o alpinismo em suas terras. E foi Dore, o famoso criador da célebre imagem do Quixote de Cervantes, quem imortalizou as cenas deste importante marco do montanhismo mundial.

          A documentação de imagens de Montanha obviamente originou-se a partir do registro de Aventura, que teve suas raízes na fotografia de Natureza. Enquanto na Europa os primórdios da fotografia trataram basicamente do Retrato (técnica até então bastante complicada pelo longo tempo de exposição), na América de 1840 o paisagismo era o grande tema americano. Era a época do filósofo Emerson, tempo em que os americanos proclamavam a sua diferença e juventude valorizando a “divina mão da natureza”. E mostrar aquela paisagem bruta a ser desbravada era uma das grandes ambições norte-americana.
          E é fácil de imaginar as mil dificuldades enfrentadas pelos primeiros documentaristas de campo nesta época, com seus poucos recursos e pesados equipamentos. Eles utilizavam câmeras enormes de madeira e alguns carregavam dezenas de quilos de materiais para fotografia, que incluíam muitos químicos e pesadas chapas de vidro, que quebravam facilmente.

O primeiro modelo de câmera especial para viajantes foi criado para Roger Fenton cobrir a Guerra da Criméia, em 1850, e desta fase em diante deu-se início a busca por melhorias técnicas e recursos para facilitar o trabalho de campo. Mas os maiores problemas destes fotógrafos só foram resolvidos com a invenção do registro em folhas de celulóide e com a produção em série de umas câmeras compactas que faziam “kodak” a cada clique. Mas isto é outra longa história…

 A história da Documentação de Montanha está estritamente ligada a história da fotografia e às explorações modernas, época em que alguns intrépidos seres lançavam-se em ousadas expedições ansiando por “conquistar” os últimos pontos intocados da Terra: as mais altas montanhas, os pólos, as áreas ao qual nenhum homem civilizado havia chegado. Talvez a frase “Jamais para mim a bandeira abaixada, jamais a última tentativa”, proclamada por um dos mais notáveis exploradores polares, Sir Ernest Shackleton, resuma bem o sentimento da época.

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         Ao findar do século 19 e início do 20, os fotógrafos ansiavam por documentar o que poucos viram com os próprios olhos e os exploradores necessitavam de uma espécie de prova sobre as suas realizações, tanto para assegurar a veracidade de seus feitos como para obter sucesso na divulgação das Conquistas, o que às vezes significaria a garantia da próxima empreitada. E assim foi sendo, nas décadas que precederam as conquistas do Pólo Norte e Sul, do Everest, ou mesmo, as grandes travessias pelos mares e desertos da Terra – a pé, de trenó ou em pequenas jangadas.
          Durante o desenrolar do século 20, podemos generalizar que todas as expedições não partiam sem um fotógrafo ou uma câmera para registrar os grandes momentos da jornada: o cume, as roubadas, as possíveis descobertas.
         Talvez um dos exemplos mais famosos seja o da lendária expedição do próprio Shackleton à Antarctica, em 1914, quando toda a tripulação do Endurance ficou presa por 22 meses no gelo. E é claro que esta expedição não teria a repercussão que teve se não houvesse na tripulação a figura de Frank Hurley, talentoso e ousado fotógrafo que continuou a documentar mesmo durante todas as adversidades enfrentadas neste período de sobrevivência, o que permitiu que toda a saga desta expedição chegasse ao conhecimento do grande público.

Márcio Bortolusso é Documentarista de Montanha da PHOTOVERDE Produções® (photoverde.com.br) e Montanhista patrocinado pelas marcas SOLO®, WiNDSTOPPER®, GORETEX® e SNAKE®. Membro do Centro Excursionista Gravatá, adotou o montanhismo como estilo de vida há 15 anos.

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