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Archive for fevereiro \21\UTC 2011

Esfinge, 25 anos

Por Edson Struminski (Du Bois) 

Ainda hoje lembro da sensação.

Havia aberto uns 40 metros em uma antipática e instável parede com vegetação na vertical e passagens em artificial que haviam me levado até a base de um negativo, o qual apenas prometia outro artificial. Só trabalho e pouco prazer.

Então, contrariando as regras de que transversais são “atraso de vida”, quando se trata de subir uma parede, resolvi apostar em uma com a esperança de encontrar um local onde pudesse franquear o negativo. Foram mais 20m de incertezas e horizontes horizontais limitados e que marcariam a pouca lógica desta parede, como pode-se ver na magnífica imagem que o fotógrafo Lineu “junior” capturou, até que…

Até que surgiu uma escultura de rocha. Naqueles anos, 1985, 86, em que estava me iniciando no mundo das grandes paredes, o que meus olhos viam eram isto, uma escultura de rocha: rampas, fendas, fissuras, negativos e um pequeno e tentador teto no final. Um grande bloco saltado, um caroço na Esfinge, Marumbi. Uma sensação tão impressionante, que compensou as incertezas anteriores.

Eu estava ali sozinho porque havia recebido o desprezo, o desinteresse, até mesmo a chacota dos sócios do clube de escalada do qual participava em Curitiba, naquela última reunião em que participei como sócio e onde fui pedir ajuda para concluir aquela via. Vendo isto hoje até me parece compreensível. Poucos eram os escaladores aptos a entrar em uma parede grande, menos ainda os interessados naquela montanha em particular. Apenas eu estava disposto a pagar o preço pela abertura daquela via. Apenas eu e minha inexperiência, arrogância, estupidez de iniciante, mas um iniciante apaixonado por uma grande parede.

Na reunião seguinte, no mês seguinte, eu já não estaria presente, estaria pendurado na parede, com martelos, grampos, rebites, chapeletas, estaria olhando para aquela impressionante massa de pedra, era o primeiro a fazer isto. Por isto estava particularmente sensibilizado com o que via.

Esta escalada se tornou importante porque marcou um ponto de inflexão, já que depois de décadas de estagnação no montanhismo havia surgido uma via que já não era uma grande chaminé, ou um grande artificial, era a primeira grande via moderna em parede  do Marumbi.

Mas esta via não foi só uma grande parede para mim. Foi minha primeira grande parede e enfrentar este tipo de escalada em solitário não era recomendável e, na verdade, eu não recomendaria uma escalada deste tipo para ninguém com pouca experiência, como a que eu tinha na época.

O fato é que eu realmente tinha me apaixonado pela forma escultural da rocha e isto tinha tornado minha permanência na montanha inevitável, custasse o que custasse e o custo foi alto…, olhando os diários escritos na época vejo cansaço, riscos desnecessários, medo e, felizmente, um final feliz para mim e para esta parede que tornou-se um clássico no Marumbi, uma espécie de referência para as novas vias que viriam.

A Caroço da Esfinge não foi a única via que abri no Marumbi, não foi a mais longa ou a mais difícil que abri na vida. Tampouco foi a única que abri em solitário, ou mesmo a via em que mais me arrisquei, pois não dá para imaginar o que teria acontecido em alguma das vias que solei caso caísse.

Mas foi uma via de aprendizado, um tipo de aprendizado duro, perigoso até, em um momento pouco consolidado do esporte, em que os recursos e técnicas eram limitados ou mesmo toscos. Mas eu entendia que mais do que abrir uma via de escalada, estava abrindo uma via de comunicação comigo mesmo, um caminho próprio, em um mundo em que, eu iria descobrir ao longo da vida, a aceitação das diferenças é muito pouco comum e a Esfinge mostrou que eu era diferente.

Os enigmas que eu decifrei na Esfinge de pedra do Marumbi guardei para mim. A via do Caroço é um dos meus legados para os escaladores de qualquer tempo.

 

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Por Edson Struminski (Du Bois)

Até os anos 1990 eram raros os títulos no mercado editorial brasileiro voltados para temas de montanha ou montanhismo escritos em português e quando apareciam às vezes eram tão toscos que não valiam o investimento neles. Geralmente quem tinha interesse em se aperfeiçoar procurava títulos em inglês ou espanhol, que apresentavam uma didática mais elaborada e atualizada. Nesta era pré-internet, estes livros importados podiam ser conseguidos, com algum esforço, em algumas livrarias ou (no meu caso), faziam parte dos gastos que, mesmo em detrimento de algum equipamento, eu fazia quando viajava a algum de nossos vizinhos de continente.

Um dos livros mais didáticos que tive oportunidade de adquirir, em Curitiba mesmo e consultar muitas vezes, foi escrito em alemão, uma lingua que compreendo muito pouco. O fato é que Alpine Felstechnik, de Pit Schubert, um livro de bolso do fim dos anos 1980, é tão amplo, completo e bem ilustrado que dispensa até o entendimento profundo desta lingua. Continua sendo um livro que consulto até hoje.

O livro de Pit Schubert é de certa forma um clássico, por demonstrar o que um livro que se pretende didático em montanhismo tem de apresentar, ou seja, uma sequencia evolutiva de técnicas e procedimentos, do básico ao avançado, variedade de assuntos, recomendações importantes, tudo recheado com muitas, muitas ilustrações.

Escale melhor e com mais segurança, uma resenha

Didática é a receita também de “Escale melhor e com mais segurança”, segunda edição de um manual de técnica de escalada e montanhismo escrito por Flavio e Cintia Daflon, do Rio de Janeiro. 

Um livro estilo “manual de escalada” escrito no Brasil, por montanhistas brasileiros, revela, de certa forma, uma fase diferente do amadurecimento deste esporte no Brasil, pois já dispomos de vários títulos, em português, de montanhistas que contam suas aventuras, ou livros que são roteiros de viagem em montanhas ou guias de escalada de determinados locais, ou ainda que apresentam montanhas como resultado de algum estudo científico.

Assim, um livro deste gênero necessita igualmente de um amadurecimento pessoal e não apenas do esporte no local  onde o livro foi produzido, algo que pode ser entendido como plenamente satisfeito no caso de Flavio e Cintia e do Rio de Janeiro, assim, as observações que farei a respeito deste livro visam apenas o aperfeiçoamento para uma edição posterior.

“Escale melhor” inicia com um histórico do montanhismo mundial e outro brasileiro, ou melhor regional, pois o Rio de Janeiro e, em particular, a cidade do Rio é tratada com mais detalhes neste capítulo, o que de certa forma simplifica em demasia a complexidade do crescimento do esporte no Brasil. É um capítulo importante mas, de certa forma, pouco instrutivo para um leitor de São Paulo, do interior do rio Grande do Sul ou do Ceará.  As histórias regionais ou locais estão sendo contadas hoje em guias de escalada ou mesmo na internet e nem sempre terão relação direta com aquilo que é contado no capítulo inicial deste livro.

Os capítulos seguintes tratam de aspectos básicos e importantes para o iniciante em escalada.  Há um capítulo sobre modalidades de escalada que é bem adequado, embora o leitor possa ser induzido a ficar com a impressão de que a escalada em Big Wall seja apenas realizada em artificial.

O capítulo sobre equipamentos é um desafio, devido à constante inovação neste setor, exigindo, dos autores, a tarefa adicional de decidir sobre o que é “modismo” em matéria de equipamentos novos e o que é permanente. De modo geral os autores se saíram bem, mas este seria também um bom local para apresentar equipamentos nacionais inovadores que já atendem, há muitos anos, os escaladores brasileiros, como chapeletas de aço inox de aba simples e dupla (para rapel), que inexplicavelmente estão ausentes no livro, cadeirinhas e calçados de escalada, entre tantos outros equipamentos nacionais que já atendem padrões de qualidade bem exigentes, ou que no mínimo mereceriam uma avaliação comparativa em um manual do estilo “Escale melhor”.

Os capítulos sobre nós, encordamentos, asseguramento e descida (rapel) são bem simples, instrutivos e satisfatórios para o leitor iniciante no tema. Da mesma forma, o capítulo que apresenta as técnicas de escalada são voltados para suprir as necessidades deste leitor iniciante.

Os capítulos mais substanciais deste manual são aqueles que tratam de técnicas mais avançadas e que permitem verificar o conhecimento dos autores sobre o tema e, de certa forma, estimular os leitores a buscar mais informações. É o caso dos temas, “guiando”, “auto-resgate” e “escalada artificial”, tratados em capítulos, em geral, bem escritos e bem ilustrados.

O livro conta ainda com capítulos igualmente bem escritos sobre treinamento e alimentação (nutrição), escritos por especialistas, o que acrescenta mais densidade a temas, que note-se, são bem vastos. Proteção contra acidentes também é outro tema que por si só vale o livro inteiro. O capítulo sobre meio ambiente e ética é na verdade uma compilação de códigos de conduta em montanha, não havendo nenhuma informação relevante sobre ecossistemas de montanha. Há também uma apresentação, inevitável eu diria, sobre as diferentes escalas de graduação de escaladas vigentes no mundo e no Brasil.

Sugestões para uma futura edição 

Como comentei no início desta resenha, na fase atual do amadurecimento do montanhismo no Brasil ainda são necessários grandes manuais de escalada como este, que procuram abarcar todo o universo do conhecimento do montanhismo nacional em uma só publicação.  Com isto temas de diferentes importâncias para os diferentes estágios que os montanhistas se encontram (iniciante, intermediário, veterano) acabam recebendo um tratamento mais ou menos uniforme, ou ocupando um número similar de páginas. Por exemplo, temas de interesse típico de iniciantes (técnicas básicas de escalada) dividem seu espaço com  técnicas de escalada artificial, que já são temas interessantes para escaladores mais avançados.

Para as próximas edições, que espero que possam continuar acontecendo, sugiro que todo o livro passe por uma revisão formal antes de ser impresso, para melhorar sua organização, evitando que assuntos que só são tratados no final, sejam referidos de passagem no meio do livro, por exemplo o grau de exposição das vias, o que pode confundir o leitor.  Também qualquer sugestão de leitura citadas nos capítulos deveria ser apresentada como bibliografia recomendada no final. Este tipo de revisão é feita por editoras ou profissionais da área.

Alguns temas tratados no atual manual estão defasados ou incompletos (história do montanhismo) ou ausentes (meio ambiente de montanha) e necessitariam de uma apresentação muito mais extensa, feita por profissionais da área, ou então, deveriam ser simplesmente excluídos, pois não chegam a ser fundamentais para uma publicação que se destina a melhorar a capacidade de uma pessoa de escalar melhor e com mais segurança. São temas que podem ser buscados em outras fontes.

Com isto tudo ressalto que Flávio e Cintia Daflon demonstram grande capacidade e vocação didática ao publicar um livro ambicioso e valioso como este e que como comentei, é válido no momento atual do montanhismo e da escalada no Brasil. É um livro muito recomendável, portanto.

Penso que a tendência futura é que grandes manuais cedam espaços para publicações menores, onde o potencial didático encontre espaço cada vez mais. Basta lembrar da coleção de pequenos manuais da Editora Desnivel da Espanha, cada um tratando de um assunto  diferente, como ancoragens de escalada, rapel, montagem de muro de escalada caseiro, etc. Neste sentido Flávio e Cintia já estão bem à frente.

Recomendo a leitura!

“Escale melhor e com mais segurança, manual de técnicas de escalada ”  segunda edição. 2010. Companhia da Escalada.

http://www.companhiadaescalada.com.br/livraria/escalemelhor/escalemelhor.htm

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