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Archive for dezembro \15\UTC 2009

Conservando para o futuro

Encontro de unidades de conservação mostra velhos problemas, mas traz boas novas e um certo otimismo para o futuro.

Por Edson Struminski (Du Bois)

Na semana entre os dias 8 e 11 do mês de dezembro de 2009 aconteceu o Segundo Encontro Estadual dos Gerentes de Unidades de Conservação do Estado do Paraná. Este encontro, organizado pela Diretoria de Unidades de Conservação do Instituto Ambiental do Paraná reuniu o pessoal técnico encarregado da gerência destas unidades em todo o Estado. O encontro serviu também como uma forma de confraternização do pessoal que lida, durante o ano todo, com questões espinhosas das mais diversas, desde incêndios, problemas com visitantes, até espécies vegetais invasoras nos parques e reservas naturais do estado. O encontro aconteceu em Diamante do Norte, último município paranaense, no extremo noroeste do Estado, dentro da Estação Ecológica de Caiuá, na beira do belíssimo rio Paranapanema. Região da Terra Roxa, das perobas e jequitibás imensos, a poucos metros da divisa com São Paulo e a apenas 25 km de Mato Grosso do Sul. Apesar da distância da capital, a E.E. de Caiuá conta com uma estrutura no mínimo invejável, o que contesta aquele lugar comum de que áreas como estas, no interior do Estado, seriam naturalmente largadas ou abandonadas para serem dilapidadas. Esta estrutura compreende um Centro de Recepção com alojamentos, refeitório, sala de estudos e auditório, além de veículos como barcos e camionetes e outras estruturas de vigilância, além de um pessoal dedicado e interessado no lugar. Fora o pessoal do próprio IAP que apresentou palestras sobre planejamento, sustentabilidade financeira, questões fundiárias, etc, foram também convidadas algumas pessoas que apresentaram novidades como manejo de espécies invasoras em ambientes naturais ou um panorama de incêndios florestais no Brasil (o pessoal do Prevfogo do IBAMA fez uma leitura do que acontece no Brasil).

Houve também uma oficina de capacitação para conselhos gestores de UCs, uma atividade hoje cada vez mais vital para a sobrevivência destas unidades, que dependem do entendimento com vizinhos, ONGs, universidades, prefeituras, interessados, etc. Meu papel neste encontro foi apresentar, como convidado, uma síntese do meu estudo sobre resiliência a incêndios de ambientes de altitude (este trabalho está disponível no site http://www.pesquisaemmontanha.wordpress.com), situação particular da Serra do Mar (e de muitas montanhas no país), onde encontram-se algumas das mais bem conservadas UCs do Paraná. Este meu estudo, bastante modesto, aliás, curiosamente contestou uma informação passada pelo próprio pessoal do Prevfogo, que apóia e capacita brigadas de combate a incêndio país afora. Segundo eles a questão de incêndios no país já estaria bem resolvida do ponto de vista técnico e operacional, demandando, quando muito, mais pessoal e alguns investimentos, o que no caso das florestas e campos de altitudes nas montanhas já não me parece assim tão certo, pois, com exceção dos trabalhos da Kátia Torres no Rio e deste meu nas montanhas do Paraná, não encontrei assim tanta coisa para ter tantas certezas assim. De qualquer modo isto é apenas um problema de escala. O Prevfogo trabalha no país inteiro e eu estou me referindo a um ecossistema muito especializado, que são os ambientes de altitude. Entretanto, no caso paranaense, estas montanhas representam praticamente o único ambiente ainda contínuo (não fragmentado) do Estado. Desta forma, meu trabalho rendeu um saudável e interessante debate, já que ele se aproxima da escala de cada unidade de conservação, o que deverá levar os gerentes a pensarem mais sobre este assunto.

Café com leite

O café entrou forte na região norte e noroeste paranaense a partir dos anos 1930. Depois de devastar impiedosamente, durante o império, o Rio de Janeiro e no início da república, o interior de São Paulo, o café trombou no Paraná com uma riqueza extraordinária, que era a fertilíssima Terra Roxa derivada de um espetacular derrame de basalto que ocorreu nesta região há alguns milhões de anos atrás.

Em cima da Terra Roxa existia uma floresta exuberante, a Floresta Estacional Semidecidual, a floresta tropical por excelência do interior do Brasil, que possui algumas das árvores “madeiráveis” de melhor qualidade do país, como ipê-roxo, louro, pau-marfim (aquele das casas brancas do jogo de xadrez), cedro-rosa, jequitibá (tida como a árvore mais longeva do Brasil) e é claro, a peroba-amarela, uma árvore que dá uma madeira durável e tão dura que até para colocar um prego é difícil. Vi algumas casas velhíssimas desta madeira na região. Fotografei algumas destas tábuas que viraram protetor de tela do meu computador. O fato da maioria de vocês só conhecerem estas árvores de nome, quando muito, apenas reflete o que aconteceu com a floresta desta região. Foi queimada afoitamente, na maior parte, para a implantação do café, a “riqueza” então na moda na época. As árvores não chegaram a formar um mercado madeireiro, eram só um detalhe incômodo na implantação da monocultura cafeeira. Não se plantaram perobas para o futuro, foram queimadas. Não havia, de modo algum, uma cultura florestal de nativas no Brasil da época, aliás, ainda não temos. Anos depois, as supersafras, as supergeadas, erros de manejo, erosão galopante (embaixo do basalto estava o arenito, superfrágil) praticamente acabaram com o café a partir dos anos 1970. Hoje o gado de corte e algum para leite, predominam na região.

Áreas como a E.E. Caiuá são raridades. 1.600 ha de floresta estacional com árvores em cima. Andei com o pessoal da estação em algumas trilhas com perobas gigantes e também de barco pela represa de Rossana (que produz energia para São Paulo), além de circular na região com o pessoal que está trabalhando na zona rural com a remoção de espécies exóticas (árvores e capins) em áreas de preservação permanente. A estação (tem quinze anos de idade) está doente, tem cipós por todo o lado, os vizinhos criam gado. O capim colonião, plantado até a beira do rio, polui a represa e invade áreas da estação. É dificílimo de retirar. Mas isto não representa um desafio insolúvel, um desafio que está sendo enfrentado por técnicos de ONGs e do IAP, gente competente, conforme pude constatar andando com eles na região.

De qualquer forma, problemas internos e externos, como este que citei, às unidades de conservação fazem parte, então, do cenário negativo, das más notícias destas unidades no Paraná, embora haja um horizonte onde chegar. De todos os problemas, a falta de pessoal da instituição ambiental é o mais crítico. Décadas se passaram e o órgão ambiental paranaense continua com o mesmo pessoal, gente, aliás, que aos poucos se aposenta. Eles tem uma carência em torno de 600 pessoas para suprir minimamente estas unidades. O IAP procura suprir esta falta através de parcerias com prefeituras, consórcios municipais, ONGs, universidades, mão de obra voluntária, estagiários. Mas não há, no curto prazo, um cenário de mais gente qualificada permanente ingressando neste órgão (concursos), que, aliás, lida com todas as questões ambientais públicas, não só com unidades de conservação.

As notícias boas correm por conta da regularização de áreas e sua passagem para o estado, do manejo iniciado em várias unidades e também da possibilidade, bastante concreta, de que, no ano que vem as unidades possam se constituir, de fato em um sistema (e não de um amontoado de unidades com siglas diversas). Isto deverá acontecer gradativamente, através da regularização das reservas do Estado e da aplicação de medidas legais em áreas privadas, como a implantação de Reservas Legais e de Áreas de Preservação Permanente (que protegem margens de rios e topos de morros), que gradativamente vem sendo cobradas dos produtores rurais, o que deverá conectar as unidades, gerando corredores biológicos e, trazer com isto benefícios amplos e evitar uma série de problemas, através da redução de enchentes, proteção de rios contra agrotóxicos, redução do risco de deslizamentos, entre outras coisas. Também está aumentando o número de RPPNs, que são reservas privadas que estão se integrando na rede de conservação.

No ano de 2010 e 2011 as UCs paranaenses deverão contar com um orçamento mais folgado, uma novidade que é produto de recursos provenientes de multas, ajustes de conduta e de outras fontes. Mesmo com pouco pessoal será uma oportunidade de “sair da mendicância”, como disse um técnico do IAP meu amigo e partir para um planejamento consistente e digno, com ações mais efetivas de manejo, algumas, se bem conduzidas, poderão ter efeitos duradouros para estas unidades e valorizar o esforço deste reduzido grupo de técnicos que cuidam de algumas das jóias da natureza paranaense, muitas vezes remando solitariamente contra a maré da devastação e da incompreensão humanas.

É torcer para dar certo.

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Por: Rafael Zenni

Foi um encontro curioso. Sempre e praticamente só encontro o Du Bois na montanha, mas desta vez encontrei-o em pleno centro de Curitiba. Mais do que um encontro casual, este encontro aconteceu justamente na semana em que eu voltei de uma temporada de um ano na África do Sul. Papo vem, papo vai fui convidado a escrever um pouco sobre minhas vivências e impressões quanto ao montanhismo e escalada no Brasil e na África do Sul. Espero fazer jus ao convite e proporcionar a vocês, leitores, o mesmo alto nível intelectual das reflexões propostas pelo Du Bois.

Durante 2008 tive a oportunidade não só de visitar parques sul-africanos, mas como também de trabalhar em um deles por seis meses. Escalei em diversos picos, alguns em áreas protegidas (parques ou reservas) e outros em propriedade particulares. Subi montanhas também, algumas em áreas protegidas, outras não. Estudei também.

Para meu deslumbramento, não encontrei nenhuma unidade de conservação criada e não implementada. Todas tinham lá seus portões, guaritas, funcionários e alguma infra-estrutura. A entrada nunca era gratuita, embora alguns acessos para escaladas fossem feitos por vias “secundárias” por onde entrávamos nos parques sem passar pela sede. Não fazíamos isso para burlar o esquema, mas simplesmente porque alguns setores de escalada ficavam muito longe das entradas oficiais e isto inviabilizava o contorno. A administração do parque sabia e até certo ponto tolerava tal situação. Explico melhor: a recomendação oficial é que se avise com antecedência a administração do parque sobre sua intenção de escalar em tal setor em tal dia, por e-mail mesmo.  Eles então lhe enviam uma autorização de acesso para esta tal área neste tal dia. Pernoites fora das áreas de camping eram expressamente proibidos. Desta forma, a situação ficava sob controle, pois a administração do parque poderia ficar tranqüila por saber o que se passava na área e o escalador poderia escalar tranqüilo porque ninguém o importunaria.

Claro que nem tudo funcionava tão harmoniosamente e áreas de escalada eram fechadas porque alguns escaladores achavam desnecessário ou demasiado trabalhoso enviar um e-mail avisando sobre seus planos e eram pegos pela fiscalização do parque sem as autorizações. Nestes casos havia revolta geral e pessoas esbravejando indignadas, cada qual com seus motivos e razões. Ou porque não poderiam mais escalar em determinado setor, ou porque teriam que ir na mais absoluta surdina, ou porque isso ou aquilo era ilegal e não devemos fazer o que é ilegal e toda esta conversa que não precisamos cruzar o Atlântico para conhecer.

Algumas áreas protegidas são muito bem estruturadas por sinal e por uma boa razão, que não é para que as pessoas não entrem sem passar pela portaria, mas para que elefantes, leões, leopardos, hipopótamos, rinocerontes, antílopes, entre outros, não saiam. Nestes parques, porque não são em todos que esta fauna é encontrada, as pessoas não são autorizadas a saírem dos seus veículos fora das áreas de camping devidamente cercadas e protegidas e todos os guardas-parque (rangers) trabalham armados. As armas servem para defesa pessoal e dos visitantes contra os animais, mas também servem para defesa dos animais contra caçadores e contrabandistas de troféus (cabeças, mãos, pés e chifres de animais).

Mas é das áreas de interesse de escaladores que eu gostaria de tratar neste relato, porque é aqui que entra um ponto que me chamou atenção e que acredito estar muito relacionado ao constante debate do papel do montanhista na montanha. Seguimos assim:

Lá, o montanhista e o escalador são puramente visitantes da unidade de conservação. Não são mais ou menos do que qualquer outro visitante, mesmo aquele tiozão que vai com a farofa para um piquenique. Não são eles que definem as regras, que dizem o que é certo ou o que é errado, que impõem as normas de conduta (sejam elas de mínimo impacto ou não), que fazem o manejo de unidades de conservação abandonadas pelo Estado. Sem dúvida que eles também fazem seus mutirões e dão seus palpites, mas não são eles os responsáveis pela execução das ações. Quem gerencia e define as regras da unidade de conservação são profissionais contratados e capacitados para realizar tal função, sem que o fato de ser montanhista, escalador ou amante dos bichos e das plantas seja um pré-requisito.

Setores de escalada são fechados sazonalmente porque as paredes viram pontos de nidificação de aves, escaladores só entram depois das 6h da manhã e devem sair do parque até às 18h como todos os outros visitantes. Precisam andar nas trilhas pré-definidas e não podem sair grampeando a rocha sem prévia autorização da gerência do parque e, como no caso do Table Mountain National Park, precisam estar cadastrados como montanhistas e escaladores e pagar uma taxa anual para manutenção de áreas especiais de visitação, ou seja, para que o parque mantenha em bom estado áreas de uso exclusivo de praticantes destas atividades. Paragliders, mountain bikers e outros também pagam suas taxas especiais.

Observando isso tudo e tentando fazer um paralelo com a nossa realidade brazuca e paranaense, entendi que UM PESO É TIRADO DAS COSTAS DOS MONTANHISTAS!! De agora em diante montanhista, você não precisa mais se preocupar com os destinos da unidade de conservação porque de agora em diante profissionais capacitados vão cuidar disso. Sei que soa meio ridículo, mas é como na sua casa: você até pode realizar pequenos consertos e reformas, mas uma hora terá que contar com a ajuda de um eletricista ou de um encanador, ou seja, de um profissional para garantir o pleno funcionamento do sistema. Porque o que eu vejo acontecer em diversos locais e principalmente na Serra do Mar brasileira é justamente o oposto: os montanhistas são os responsáveis pela conservação de unidades de conservação esquecidas pelo Estado.

As unidades de conservação não são criadas para que tal e tal fulano possam escalar lá sem que ninguém os perturbe. Elas são criadas para que as presentes e futuras gerações tenham um meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida assegurado, para a preservação da biodiversidade e dos recursos naturais. Elas são criadas para o bem estar de todos e os montanhistas que lutam por isso sem o apoio do Estado ou da sociedade são verdadeiros altruístas, porque enxergam o bem estar coletivo à frente do bem estar individual, porque entendem que todos serão beneficiados.

Montanhistas são pessoas que gostam de visitar as montanhas, seja caminhando, acampando, escalando etc., mas não são intrinsecamente dotados de capacidade técnica para gerir unidades de conservação ou outros ambientes naturais. São quase sempre apaixonados pela natureza, gostam de admirá-la, mas não são necessariamente os mais preparados para tomar decisões acerca da gestão de ambientes naturais. Alguns acumulam o gosto pelas montanhas e escaladas com a formação técnica e científica para gestão de ambientes naturais, mas isso não é a regra. Não quero montanhistas gerindo unidades de conservação, quero profissionais treinados e capacitados.

Aprendi na África do Sul que montanhistas não são mais do que visitantes, intrinsecamente passageiros, das montanhas e das áreas de escalada. Que ações do passado que comprometem o bem estar futuro não devem ser repetidas. Isso vale para todas as recorrentes discussões sobre colocação e retirada de degraus aqui e ali, sobre construção e demolição de abrigos aqui e lá, sobre travessias que são feitas lá e acolá, sobre quem taca fogo aonde e quem os apagará, sobre espécies invasoras dos campos e das florestas. De nada resolve ficar esbravejando e culpando um ou outro. Maior do que o direito do indivíduo de caminhar pelas montanhas é o direito da natureza de ter seu espaço, e das presentes e futuras gerações de desfrutarem de tamanha riqueza e beleza como nós fazemos. Sejamos montanhistas sem sermos egoístas.

Ao Estado fica a pergunta: porque o Brasil não consegue implementar e gerir suas unidades de conservação? Por mais que eu procure, não encontro uma justificativa aceitável.

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