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Archive for junho \26\UTC 2007

Edson Struminski (Du Bois)

         O setor de escalada Interiores, no Anhangava, foi aberto em janeiro e fevereiro de 2006, sendo apresentado ao público escalador durante o Blox em sua primeira edição no Paraná, em maio daquele ano.

         Passado um ano após sua abertura, já é possível fazer uma avaliação do que ele trouxe de positivo para o Anhangava, para o montanhismo e seus eventuais impactos negativos, de modo que possamos aproveitar sua experiência em outras montanhas e setores de escalada.

         Inicialmente é importante lembrar que este setor acabou sendo alvo de uma saudável polêmica, que dizia respeito a necessidade de se manter, ou não, uma “moratória” de abertura de novas vias de escalada, ou até mesmo de colocação de novos grampos ou proteções fixas no Anhangava. Esta moratória existia em função da degradação gerada pelo excesso de problemas ambientais causados pelos escaladores, como compactação de bases de vias e platôs, erosão ou deslizamento de trilhas de acesso, ou mesmo pela simples falta de padrões de segurança ou critérios para a colocação de proteções fixas. Além disso, havia grande número de vias na época com manutenção precária.

            Lembro-me de ter comentado que a moratória poderia ser, então, entendida dentro de uma visão conservadora, ou seja como uma justificativa para não se fazer nada, ou pelo contrário, como um estímulo à ação, de modo que estes problemas pudessem ser resolvidos no tempo mais curto possível e, desta forma, fosse atingido um ponto de equilíbrio no uso do local, de forma que pudéssemos novamente usufruir o potencial que o lugar sempre teve, não só como escola de escalada, mas também como irradiador de idéias inovadoras.

Muitas atividades foram realizadas no Anhangava neste período. Trilhas foram recuperadas, ou fechadas, bases de vias ou platôs estabilizados, vias clássicas foram regrampeadas. Criou-se uma cultura de cuidado com o lugar que mantêm-se através de iniciativas individuais expontâneas. Esta cultura difundiu-se para outros lugares como Pico Paraná, Marumbi, São Luis do Purunã, Morro do Canal.

Neste período, tornou-se importante a realização de um diagnóstico ambiental em qualquer tipo de intervenção nas montanhas, bem como de ações preventivas e minimizadoras do nosso impacto, como escaladores, nestes ambientes. Também novos equipamentos fixos começaram a surgir. A empresa Bonier, de Curitiba, apresentou um sistema inovador de proteções fixas, compostos por chapeletas de uma e duas abas (para rapel) fixadas com parabolts, materiais produzidos em aço inox, adaptados para uma cultura de escalada desportiva que utiliza costuras completas (dois mosquetões e uma fita expressa) e que foram utilizados no setor Interiores.

Além de equipar várias vias, constatamos que seria importante calçar a base da parede para protegê-la contra a erosão, realizar um calçamento mais modesto do cume da parede até a rampa de pedra de acesso ao setor das Capitais (para a eventualidade dos escaladores saírem andando até aquele setor) e também realizar algumas contenções e calçamentos preventivos na trilha de acesso à base (200 metros), que seria aberta a partir da trilha que dá acesso ao bloco das Caverninhas. Foi o primeiro setor aberto no Anhangava já com estas melhorias incluídas.

Outras melhorias ambientais foram acrescentas no lugar: foram cortadas árvores de Pinus (cujos troncos foram usados nas contenções) e retiradas moitas de painas, ambas espécies invasoras deste ambiente montanhoso. Bambus e samambaias (espécies oportunistas propensas a causar incêndios) foram cortadas e usadas nas trilhas. No seu lugar foram plantadas árvores. Uma grande quantidade de lixo de décadas passadas foi retirada, lixo este fruto do descaso de visitantes que passaram na trilha normal, situada alguns metros acima na montanha. No lugar de derrubar os platôs de vegetação que estavam na linha das escaladas, houve uma retirada cuidadosa e recolocação em locais seguros desta vegetação.

A vegetação da trilha foi o componente do ambiente que adaptou-se mais rapidamente à nossa presença e com a retirada de espécies oportunistas houve até ganhos. Já as linhas de rapel afetaram alguns tufos de bromélias menores que escaladores menos cuidadosos não souberam evitar. A maior parte da vegetação da parede, porém, não foi afetada por não estar próxima nem de linhas de subida, nem de descida.

O fator novidade e a presença de duas vias “familiares”, com graduação baixa, provocou grande fluxo de escaladores nos primeiros momentos do setor. A base da parede teve de ser ampliada em uns 5 metros quadrados e calçada com novas pedras. Os calçamentos preventivos na trilha de acesso à base funcionaram e apenas dois pontos precisam de alguma manutenção. Um deles, na verdade, no trecho que vai até o bloco das Caverninhas.

A rocha da parede foi o componente do ambiente mais visivelmente afetado. A base da parede é composta por um granito muito intemperizado, com grande quantidade de agarras e cristais quebradiços. As escaladas afetaram esta parcela da rocha e a passagem humana é bem visível por ali. Já as partes superiores da rocha praticamente não apresentam mudanças. A quantidade de lixo deixada no lugar por estes escaladores é, no entanto, insignificante. No Anhangava é um tipo de visitante que costuma deixar os lugares mais limpos do que quando encontrou.

O material de inox colocado na parede tem resistido bem ao tempo. Não provocaram manchas na rocha e sua visibilidade facilita as escaladas. Após alguns meses alguns parabolts tiveram suas porcas reapertadas e tiveram incluídas arruelas de pressão.

Atualmente o setor já está incorporado como roteiro de escaladas no Anhangava. Não houve um “boom” de abertura de novas rotas, como se temia, pelo fato de ter sido aberto um setor com um número de vias tão amplo. A maioria dos escaladores parece simplesmente estar interessada em usufruir do lugar sem maiores preocupações em abrir vias ou em ter de se incomodar com manutenções pesadas em trilhas. Sentem-se agradecidos por alguém fazer o trabalho pesado, de modo que eles possam usufruir seu lazer em paz. O setor inclusive brinda estes escaladores com uma paisagem interessante e calma.

         Mesmo assim o setor Interiores acabou criando alguns novos conceitos no Anhangava que ainda estão sendo assimilados: a abertura de um setor com todas as vias possíveis de serem abertas já devidamente equipadas. Isto incomoda alguns escaladores que gostariam de deixar vias em aberto. Ele também trouxe a idéia de que o ambiente do lugar merece cuidados tão importantes quanto a segurança dos escaladores. Isto significa desprender um esforço extra em atividades que não necessariamente serão percebidas pelos demais frequentadores do local, como calçar trilhas ou remover lixo.

         De modo geral o resultado foi positivo para o lugar. Os benefícios foram grandes para o esporte e para a montanha e os impactos negativos são minimizáveis.

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Edson Struminski (Du Bois)

Pega Leve, é uma iniciativa voltada para a educação ambiental do CEU, Centro Excursionista Universitário, de São Paulo e do WWF, ong ambientalista de origem norte-americana, sendo dedicada a orientar procedimentos de visitantes de áreas naturais. Para estas instituições, pegando leve você estará ajudando a proteger o meio ambiente, dando maior prazer a sua visita e prevenindo acidentes.

Estas instituições definem esta iniciativa como uma “ética do mínimo impacto”, cujos princípios estão disponíveis através de publicações ou de site na internet.

Pega Leve apresenta virtudes e alguns problemas. Este artigo analisa aspectos positivos e negativos do Pega Leve e pretende trazer uma contribuição para o aperfeiçoamento desta ferramenta educativa.

OS FUNDAMENTOS DO PEGA LEVE!

Pega Leve, segundo um texto que aparece na Revista de montanhismo Headwall (2003), é “dedicado a construir a conscientização, apreciação e o respeito pela biodiversidade”. Os autores de Pega Leve consideram que “a ética e as práticas de mínimo impacto estão sendo adotadas em todo o planeta”, comentam ainda que estão apresentando uma base voltada para os principais biomas brasileiros, para esta ética de mínimo impacto.

Podemos perceber no discurso de Pega Leve diversos valores. Encontramos o valor humanista (“seja cortês”, “ou cuide das trilhas”), o estético (“aprecie sua beleza no local”), ou mesmo o valor negativista (“animais podem transmitir doenças”). O principal valor, que permeia boa parte do discurso pegalevista é, porém, o naturalista, aquele que prega o convívio com a natureza de modo que o ser humano não quebre a “harmonia dos ambientes naturais”.

Há uma tentativa, nesta ética de mínimo impacto, de fazer vale-la para diferentes atividades realizadas na natureza como montanhismo e canoagem (que possuem, de fato, ética bem embasada neste sentido), espeleologia (com sólidos princípios científicos) e corridas de aventura (uma atividade na natureza recente e voltada para a competição). 

Com isto, surgem perguntas que este artigo tentará responder: Pega Leve é mesmo universal? Representa, de fato, uma nova ética? Suas propostas são, de fato, aplicáveis?

Para entender os fundamentos do Pega Leve, realizou-se a leitura do livro “Ética e educação ambiental”, de Mauro Grün (1996). Esta obra mostra as visões humanas da natureza sob o enfoque de duas formas de pensamento, que estão presentes no Pega Leve. A primeira derivada da chamada doutrina cartesiana, que enxerga a natureza através de um viés utilitarista ou dominionístico.

Dentro desta ótica, a natureza é ausente, distante, tem valor de uso (recursos naturais) ou tem valor negativo (poluição, degradação, impacto). O humanismo cartesiano prega o domínio humano sobre todas as coisas e criaturas, consequentemente sua separação da natureza. Com isso, todo um corpo de saberes ecologicamente sustentáveis é deixado de lado por não ser científico. Ele foi criado em um momento (século XVII) em que a sociedade precisava conhecer melhor a natureza (através da ciência) para melhorar a qualidade da vida das pessoas, que neste período era bem precária. O grande paradoxo e entrave deste enfoque é a supervalorização da ciência, em última análise a grande responsável pela degradação ambiental do mundo atual.

A segunda forma de pensamento vem da escola naturalista (uma reação ao cartesianismo surgida no início do século XIX), que é antropomórfica, holística, orgânica, nostálgica, feminista (mãe-natureza), antimodernista, hipermodernista, sobrevivencialista e alienada. Nesta visão a natureza é supervalorizada ao ponto de excluir o ser humano, que é considerado o “cancer do planeta”.

O professor Carlos Diegues, vai mais longe. Para ele, este naturalismo reativo exerceu grande influência nas políticas e estratégias de proteção à natureza, particularmente na criação de unidades de conservação, que seriam então grandes áreas reservadas e colocadas à disposição das populações urbanas para recreação. As áreas naturais protegidas (inclusive as brasileiras), seguiram este modelo, criado em meados do século XIX nos Estados Unidos.

Mesmo que não se concorde integralmente com estas teses, pode-se constatar que são faces da mesma moeda. Assim, quando Pega Leve explica a que veio, elas fazem sentido, vejamos: “nesses locais (parques, etc) onde a natureza precisa ser tratada com cuidado e respeito, não é possível realizar trabalhos de limpeza e recuperação como acontece nas cidades”. Um discurso onde fica claro que o lugar do ser humano é no meio urbano, onde aconteceriam (?) os tais trabalhos de limpeza e recuperação, sendo a natureza algo idílico, distante, para lazer, mas que não se recupera se for degradada, o que não é verdadeiro.

Uma terceira doutrina ou forma de pensamento que pode ser identificada em Pega Leve relaciona-se com a busca pela regulamentação da liberdade do visitante das áreas naturais, o que é demonstrado pelo aspecto normativo que esta iniciativa apresenta.

Esta forma de tratar o convívio humano com a natureza deriva do chamado Positivismo, uma das doutrinas que fundou a sociologia e passou a dominar o pensamento típico do século XIX.

O positivismo leva a um mundo de certezas, em que nossas convicções provam que as coisas são somente como as vemos e não existe alternativa para aquilo que nos parece certo.

Como o individualismo é limitado, os atos da vida são estreitamente regulados e toda a liberdade moral severamente reprimida, pois que é incompatível com a ordem social.

O PIOR DO PEGA LEVE!

Apesar do seu fundamento naturalista, Pega Leve resvala às vezes para a estranheza com a própria natureza como em: “animais silvestres podem transmitir doenças graves”. Este fato, se não é de todo falso, revela no mínimo uma inverdade. Afinal não tem sido os animais os principais perdedores nos contatos com os humanos? Cartesianamente falando, o recado é claro: afaste-se dos animais, nós somos humanos!

Já ao tratar do espinhoso tema do próprio convívio humano, Pega Leve mostra dificuldades difíceis de superar por quem pratica esta ética: “evite viajar para áreas populares durante feriados e férias”, recomenda-se, mas não seriam estas áreas as que mais precisariam de divulgadores do mínimo impacto? “Trate os moradores da área com cortesia e respeito… comporte-se como se estivesse visitando uma casa alheia”, mas afinal, o visitante está ou não visitando casa alheia? E assim por diante.

Vejamos finalmente a seguinte frase: “fogueiras empobrecem o solo, enfeiam os locais de acampamento e representam uma grande causa de incêndios florestais”. Independente da verdade contida nestas afirmações, talvez seja esta a frase que melhor defina o que é o Pega Leve. Fogueiras são feias (?), lavar panelas no rio é errado, camisetas coloridas “quebram a harmonia dos ambientes naturais”. Ora, o certo e o errado, o bonito ou o feio presentes nestas ações corriqueiras são domínio daquilo que poderia ser chamado de moral, bons costumes, um resultado mais modesto frente a pretensão da criação de uma nova “ética de mínimo impacto”.

Finalmente, Pega Leve nos diz que as atitudes apresentadas são genéricas e muitas escolhas dependem do seu bom senso o que é muito bom. No entanto na tentativa de criar uma “ordem” dentro do uso de áreas naturais surgem afirmações bem pouco genéricas como: “viaje em grupos de até 10 pessoas”, “acampe a pelo menos 60 m de qualquer fonte de água”, “tenha em sua mochila um plástico ou tecido laranja de pelo menos 2 m2” (para emergências),“ cave um buraco de pelo menos 15 cm a pelo menos 60 m de qualquer fonte de água” (para suas necessidades) e assim segue… São recomendações cuja objetividade é duvidosa, pois são pouco práticas e conforme a circunstância, nada recomendáveis.

Assim, como seria a aplicação do Pega Leve? Imaginemos um grupo de excursionistas conscientes realizando uma longa travessia (6 a 7 dias) pelas nossas montanhas tropicais onde seriam usados caminhos naturais como rios e cristas de montanhas para caminhar e os pernoites seriam feitos sem a necessidade de abrirem-se clareiras porque seriam utilizadas redes postas em árvores nas margens dos rios no lugar de barracas, ou bivaques em terrenos rochosos.

Imagine-se agora um pegalevista junto. Para manter suas convicções, ao final de 6 dias este personagem teria produzido algo como 100 cm de buracos abertos para suas necessidades e realizado entre 400 a 2400 metros a mais de caminhada (e trilhas abertas em lugares instáveis), com o risco de perturbação dos tais animais perigosos, apenas para atividades como lavar panelas, acampar, fazer necessidades, etc. Enfim, pelo desconhecimento da forma como o ambiente absorvia sua presença e também pela rejeição ao modo como o grupo de montanhistas ao qual estaria agregado se relacionaria com o ambiente, o nosso excursionista pegalevista poderia se tornar uma inesperada fonte de degradação ao ambiente frágil que estaria frequentando e risco aos colegas, tudo aquilo do qual Pega Leve é, afinal, contra.

Ao final da aventura, mesmo com estas evidências, o pegalevista estaria convicto de que teria feito o certo, pois teria seguido tudo o que o Pega Leve prescreve. O restante do grupo , ao contrário, teria se valido da sua percepção e experiência para deixar o menor impacto possível e pouquíssimos traços da sua passagem.

Pode-se argumentar, entretanto que Pega Leve se destina a excursionistas com menos prática ou com formação deficiente em termos de trânsito em ambientes naturais. Vamos imaginar então 100 excursionistas acampando em uma área natural. Mesmo neste caso, porém, pode-se imaginar que os resultados finais da universalização da aplicação das práticas prescritas no Pega Leve levariam o caos a este lugar, com danos ambientais e a uma progressiva alienação dos excursionistas em relação ao ambiente que frequentam, cada dia mais degradado. Uma simples intervenção “cartesiana” (a construção de um banheiro rural), esteticamente menos agradável, seria, porém, infinitamente menos degradante.

O MELHOR DO PEGA LEVE!

Uma das grandes contribuições do Pega Leve é, sem dúvida, desmontar direta ou indiretamente, alguns mitos consagrados, como o de que o turismo em áreas naturais é “uma indústria limpa”, ou de que o montanhismo ou outros esportes na natureza não causam impacto.

Isto abre a possibilidade de buscarmos, de fato, construir um turismo que respeite o enorme patrimônio natural do nosso país sem degradá-lo ou desfigurá-lo. Pega Leve sugere corretamente também que esta forma de turismo se realiza através de uma rede integrada virtuosa, que inclui, em uma ponta, o próprio turista e na outra guias, populações locais, pesquisadores, etc. O turismo passaria então, de mais um mero produto de consumo, a uma experiência de vida.

Uma segunda e importante contribuição do Pega Leve está em agrupar alguns princípios naturalistas (ou de mero bom senso) que possam nortear a experiência dos visitantes de áreas naturais. Excluindo-se os excessos que foram comentados anteriormente, pode-se dizer que planejar as excursões, trazer o lixo de volta ou respeitar os animais, entre outros princípios sugeridos pelo Pega leve são válidos e úteis e devem mesmo ser difundidos.

Finalmente e isto é muito importante, Pega Leve estimula e incorpora (embora não como um princípio) recentes visões humanistas com relação à natureza, o que abre espaço para a formulação de uma ética “humanista-naturalista”, que reúna os melhores valores que estas duas visões da natureza possuem. Isto significa apoiar as ações voluntárias que movem céus e terras para recuperar trilhas, limpar montanhas ou apagar incêndios em áreas naturais, tudo isto em prol da manutenção de atividades em harmonia com a natureza, mesmo que, ironicamente, estas atividades sejam aquelas onde mais se pega pesado, pois reúnem dezenas de pessoas na forma de mutirões. Porém, são pessoas que refletiram sobre o uso dos ambientes naturais e exercem sua cidadania.

CONCLUSÕES

Pega Leve não representa necessariamente uma ética de mínimo impacto (ou qualquer ética nova), simplesmente porque esta ética já existe de fato, é a chamada ética “naturalista”, cuja origem remonta aos gregos antigos e vem sendo reformulada ao longo do tempo.

Uma leitura mais atenta sugere inclusive que Pega Leve apenas represente um código de regras morais (certo ou errado, bonito ou feio), que refletem uma visão urbana idealizada da natureza, um conjunto de normas de conduta para ambientes naturais com formulação técnica as quais gerariam um suposto mínimo impacto. Isto é problemático pois representa um enorme presente para as instituições formais governamentais que regulam e restringem o acesso das pessoas aos ambientes naturais. Estas instituições não terão, assim, de realizar a antipática tarefa de produzir sozinhas estas regras e impô-las aos visitantes, pois as organizações não governamentais já estariam fazendo este trabalho desagradável por elas.

Embora a intenção de Pega Leve em orientar o uso de áreas naturais seja a melhor possível, suas contradições podem torná-lo, não só inócuo, como inclusive fonte de degradação da própria natureza que pretende proteger e alienação dos humanos com relação à natureza, razão pela qual deveria ser melhor discutido antes de ser adotado em escala mundial, como se pretende.

Como aspectos positivos do Pega Leve, está a admissão de que o turismo, ao contrário do que se vende por aí, é de fato uma indústria impactante (e que por isso demanda novos princípios). Pega Leve também apresenta uma formulação de princípios e fundamentos éticos valiosos, que uma vez aperfeiçoados, poderão fundamentar a presença humana em áreas naturais.

Como na verdade Pega Leve sugere que as atitudes propostas por ele sejam genéricas e muitas escolhas dependem do bom senso dos visitantes, pode-se deduzir que está aberto à avaliação constante e às éticas locais. Isto é muito mais importante do que normas fixas e pode transformar o Pega Leve na principal iniciativa para transformar o turismo em grande aliado da conservação de áreas naturais, caso incorpore este espírito local.

VEJA TAMBÉM!

CEU, WWF. Montanhismo de Mínimo Impacto. Revista Headwall, São Paulo, no 8, novembro/dezembro 2003.

CEU, WWF. Mínimo Impacto em Ambientes Naturais. (fouder).

Grün, M. Ética e educação ambiental. Campinas: Editora Papirus, 1996.

DIEGUES, A.C. O mito moderno da natureza intocada. São Paulo: Hucitec, 2001.

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Edson Struminski (Du Bois)

As corridas de aventura surgiram no universo dos esportes na natureza há cerca de 20 anos tanto no Brasil como no exterior. Inicialmente tinham forma amadora e despretensiosa, mas logo adquiriram uma evidente conotação comercial. Rapidamente tornaram-se uma importante tendência de mercado e hoje existem diversas publicações, sites na internet, empresas que organizam corridas ou fabricam equipamentos especializados, enfim, existe todo um universo aventurista, que inclui atletas e equipes organizadas com patrocinadores e uma vasta e diversificada agenda, que explora a diversidade de ambientes naturais do país e no mundo.

O que atrai as pessoas a estas atividades? Em uma leitura das diferentes publicações do gênero podemos encontrar diferentes motivações para as pessoas participarem destas atividades: o fortalecimento do ego, o trabalho em equipe, a superação de limites, a busca da liberdade, a prática de atividades físicas intensivas na natureza, o aprendizado para lidar com medos, o sentimento de conquista, enfim, aparentemente as corridas são utilizadas como motivadoras para a vida destas pessoas.

Poderia-se argumentar, então, que excetuando a presença da natureza como cenário, as corridas de aventura em nada se diferenciam de outros esportes competitivos praticados em estádios ou em ambientes controlados. Na verdade a mescla de motivações nos remete aos desafios que as pessoas já encontram em ambientes competitivos encontrados nas suas vidas corriqueiras. Isto sugere que pessoas poderiam participar destas corridas para compensar aquelas frustações do dia a dia tão comuns. Mas imagino que neste caso o saldo seria positivo, pois ao procurar um grupo afinado para competir, um participante poderia estar dizendo a si mesmo “eu posso trabalhar em equipe”.

Por outro lado estas corridas possuem, de fato, uma tendência organizacional muito forte, para padronizar as provas e fazer com que os competidores só disponham de liberdade limitada ao usar sua criatividade para vencer obstáculos, ao contrário do que ocorre em outros esportes praticados na natureza que exigem também uma performance respeitável, mas principalmente muita criatividade. Assim o participante é, na verdade, bastante limitado individualmente, ainda que haja um ganho associativo, na percepção de pertencimento a um grupo social ou equipe.

A presença da natureza nesta corridas, no entanto, necessita de uma avaliação mais complexa. Embora a natureza apareça como diferencial motivador para seus praticantes, o ambiente natural tende a ser totalmente “humanizado”, ou seja controlado pela organização dos eventos. Os participantes devem caminhar, correr, subir e descer paredes, cruzar rios, remar, pedalar, mas não da forma como bem entendem, pelo tempo que quiserem ou com os recursos de que disponham. Assim a experiência da natureza é necessariamente limitada pela “organização”, uma entidade superior e mais ou menos abstrata que toma as principais decisões pelo participante e cria necessidades artificiais ou regalos para eles. Os praticantes devem, por exemplo, ter de subir um paredão rochoso, mas não necessariamente pela pedra, como fariam os montanhistas e sim por uma longa escada de cordas fixada antecipadamente.

Assim, a visão dos organizadores influencia diretamente o evento. Uma organizadora de corridas declarou, de maneira bastante maternal para a revista Aventura e Ação, que a preocupação dela era transmitir felicidade para os participantes, o que incluía a distribuição de chá quente nos pontos considerados “frios” das provas, como na etapa do remo. A empresária declarava também que havia feito uma arrecadação de material escolar a título de contribuição para a comunidade. No entanto, aparentemente uma visão mais humanista destas provas não é unânime. Não são incomuns críticas e autocríticas pesadas de danos e impactos destas corridas, tanto ambientais quanto sociais.

ALGUMAS POLÊMICAS ÉTICAS

Em um artigo publicado na revista Nez Adventure no ano 2000, Demetrius Alexandre, um organizador de corridas associado a uma entidade chamada Eco Sistema, lucidamente chamava a atenção para o pouco que havia sido feito, de fato, para implementar ações que contemplassem a sustentabilidade destas atividades tanto do ponto de vista social como econômico e ambiental. Passados 3 anos Márcio Bortolusso, outro observador privilegiado destes eventos, ressaltava os danos destes eventos e insistia em outro artigo publicado nesta revista, que este esporte necessitava mesmo era de uma boa revisão de conceitos éticos.

Mas quais são os conceitos éticos da corrida de aventura? À primeira vista o aspecto competitivo é o que prevalece nas matérias relacionadas a este assunto, assim, a vitória mediante o domínio de obstáculos é o principal mote para a realização destas atividades. Vitória sobre os demais competidores ou sobre a natureza (ou ambos). Assim o valor humanista cooperativista (trabalho em equipe, contribuições sociais), acaba sendo camuflado ou reduzido pelo ideal competitivo. Para uma sociedade que prima pela competição, incensa os (poucos) vencedores e prega o domínio e uso da natureza (“competir contra o próprio ambiente” ou “rasgar o mato”, diz um atleta), este tipo de competição é, assim, o ideal. A natureza passa a ser mais um pista de obstáculos (um rally humano no dizer de outra atleta) do que propriamente um cenário a ser visto, apreciado e compreendido e de onde podem se tirar lições valiosas. Por outro lado, a caridade que surge em algumas competições parece surgir apenas como uma forma de aplacar a consciência, pois não geram mudanças sociais duradouras. Mas para aqueles que como Bortolusso, tem uma formação bem fundamentada como montanhista e, por isso, apresenta maior preocupação com o patrimônio coletivo, este tipo de ideal já não satisfaz. Daí surgirem estas dúvidas sobre a sustentabilidade do esporte.

Isto explica a permanência de pendências e polêmicas relacionadas às corridas de aventura. Uma corrida poderá ser tanto mais alienada ambiental e socialmente quanto forem seus organizadores e participantes. Meu colega Hebert Sato revisou recentemente a relação Homem-Natureza a partir do montanhismo, mas o estudo dele trouxe algumas leituras que podem ser úteis também no caso das corridas de aventura. Ele utilizou como referência Herbert Marcuse, filósofo da conhecida Escola de Frankfurt, que discute profundamente a questão da alienação. Marcuse sugere que nas sociedades modernas a natureza é vista como objeto a ser dominado, sendo-lhe negada potencialidades ou qualidades intrínsecas. Esta dominação é estendida à sociedade e à cultura, determinando necessidades ao ser humano além das naturais e que hoje se exprime no consumo da tecnologia, a forma mais marcante de relação do ser humano com a natureza, mas que gera um ser alienado da realidade.

Marcuse afirma que o ser humano tem necessidade de provar sua capacidade em todos os sentidos (seu desempenho). Isso acaba gerando formas de domínio na medida em que o homem tem de estar sempre ultrapassando limites, dominando o mundo a seu redor. Mas isto é feito de modo inconsciente, sendo o homem alienado do contexto sob o qual ele está imerso, seja natural ou social.

ALIENAÇÃO OU FELICIDADE?

Desempenho crescente, superação de limites, domínio do mundo, são palavras comuns no discurso dos atletas das corridas de aventura. Mas será que isto leva necessariamente à alienação? Sato comenta que inicialmente os montanhistas que entrevistou tinham uma relação igualmente alienada com a natureza, mas que com o tempo ocorreram mudanças e, mesmo mantendo o desempenho, eles desenvolveram um elo afetivo com os locais de escalada, ou até uma “filosofia de vida”, ou como Marcuse afirma, transcenderam a busca alienadora pelo desempenho, por uma busca pela felicidade. Mas os montanhistas de Sato tinham invariavelmente um longo tempo de convívio (de no mínimo 10 anos a mais), com as montanhas, com idades que iam dos 26 aos 43 anos . Tempo suficiente para desenvolver esta “filosofia de vida” mais elaborada. Já um ex-atleta de corridas de 36 anos, entrevistado pela revista Aventura e Ação revelou que praticou o esporte por apenas 6 anos e abandonou para não “chegar aos 40 com artrose e todo arrebentado”, migrando depois para atividades esportivas menos competitivas e mais contemplativas.

Assim, se a corrida de aventura, por um lado, exige um alto desempenho e juventude, brindando com a vitória, de outro cobra um preço alto de seus praticantes, por um curto espaço de tempo. Com isto, aparentemente impede que seus praticantes amadureçam e abandonem a busca alienadora pelo desempenho, dentro do esporte, com tudo o que isto possa significar em termos de danos ambientais e sociais, por uma busca pela felicidade. O grande paradoxo das corridas de aventura parece residir aí: quando as pessoas amadurecem e progressivamente podem deixar de ser alienadas, acabam tendo de abandonar o esporte (ou será que acabariam com o esporte?). Daí fica uma pergunta no ar? É possível a corrida de aventura deixar de ser uma atividade alienante?

VEJA TAMBÉM!

SATO, H.H. Pensando a relação homem-natureza a partir do montanhismo, um estudo de caso no morro Anhangava – Pr. Monografia de especialização em Educação, Sociedade e Tecnolocia. Curitiba, 2006. Universidade tecnológica Federal do Paraná.

MARCUSE, H. Eros e a civilização. Campinas. Editora Papirus. 1999.

LACOMBE, M. A mulher mais resistente do mundo. Aventura e Ação, no 78, agosto de 2000.

PORTELA, C. Corrida de aventura: você tem o perfil? Aventura e Ação, no 117, maio de 2004.

ALEXANDRE, D. Adventure Racing. Nez Adventure, no 17, 2000.

BORTOLUSSO, M. Mínimo impacto em corridas de aventura. Adventure, no 48, 2003.

ABRANCHES, E. É ela quem manda. Aventura e Ação, no 120, agosto de 2004.

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Edson Struminski (Du Bois)

         A estiagem que está se tornando comum nos  últimos invernos em Curitiba, capital do Estado do Paraná, fez aparecer algumas peças do quebra-cabeças metropolitano desta cidade. Uma das menos conhecidas é o Parque Estadual da Serra da Baitaca, em Quatro Barras e Piraquara. Criado em 2002 por decreto estadual, em uma área com cerca de 3.000 ha de ambiente de Floresta Atlântica, o parque deveria ter sido desapropriado e entregue ao Estado como compensação pelo impacto do Contorno Leste da BR-116, obra do Dnit que tirou o tráfego pesado de Curitiba e aproximou-o da serra. A obra foi feita e liberada, mas a compensação não veio e a dívida com o Paraná persiste.

         Instituições não-governamentais e empresas ligadas à Serra do Mar financiaram um estudo sobre o parque que revelou alguns fatos importantes. O parque é peça-chave no abastecimento público. Duas represas em funcionamento (Piraquara 1 e Iraí) e mais uma em construção (Piraquara 2) recebem água da região. Além disso algumas das nascentes do parque abastecem a represa do Capivari (energia elétrica). O estudo gerou o “Dossiê Baitaca”, onde foram levantados usos públicos e projetos governamentais, não governamentais e da iniciativa privada recentes relacionados ao parque, bem como foram identificados os problemas e algumas de suas demandas.

         A área do parque foi decretada zona bloqueada para mineração, mas as mineradoras vizinhas apresentam, segundo a Mineropar, orgão dedicado à pesquisa mineral do próprio governo do Estado, alta sonegação da produção e, conseqüentemente, de impostos recolhidos, o que levaria à concentração de renda à mão de poucos e a degradação do ambiente para todos. As mineradoras estão nas nascentes, fora do parque, mas no caminho da represa do Iraí. Por outro lado, mineram um produto que é considerado básico e mesmo essencial para o pleno crescimento das cidades: a pedra brita.         As mineradoras ajudam a tocar a economia de Quatro Barras, pequena cidade na constelação da Região Metropolitana de Curitiba e que paga o preço de ser vizinha da metrópole. Uma das tradições locais é a subida anual ao morro Anhangava, cume do parque, para uma missa campal. Anos atrás a missa se resumia a 100 romeiros que subiam para um terço sem maiores consequências para o lugar. Nos últimos anos o evento foi incluído no calendário turístico municipal e a mídia explorou o acontecimento. Resultado: uma explosão de gente e conflito garantido com órgãos ambientais. De um lado políticos locais afrontando o governo do Estado, degradação em áreas sensíveis de montanhas e riscos assustadores de acidentes. De outro, o Estado impondo multas e proibições e colocando a população potencialmente favorável ao parque em posição inamistosa. Ao longo dos anos as negociações foram difíceis pois o parque só está no papel. Somente em 2007 as negociações avançaram e a missa foi realizada na serra, porém em um cume secundário e com o número de pessoas limitado pelos orgãos ambientais.         Porém o próprio Estado gerou um projeto polêmico na região, a revitalização turística do caminho histórico do Itupava. Um dos principais sítios arqueológicos do Estado, o Itupava, após anos de abandono evidentemente necessitava de obras de recuperação e restauro. Porém, um programa chamado Pró-Atlântica investiu um milhão de reais de forma pouco comprometida com o futuro do caminho, do parque ou da população local. O projeto poderia catalizar interesses para o parque, integrando a população e rompendo a letargia do turismo como fonte de renda em contraposição à mineração. Poderia agregar e incrementar projetos das ONGs que atuam no local e fortalecer a estrutura física do Estado na área. Entretanto, o projeto foi um futuro que ficou no passado. Praticamente ignorou as ONGs, foi indiferente com a população que desconheceu o projeto (a quem limitou-se a apresentações formais), além de não deixar para o Estado todas as obras prometidas, com pontes e Centros de Visitantes em locais estratégicos.

         Mesmo com as obras não completadas, a visitação do caminho vem sendo incrementada com a propaganda, obrigando o Instituto Ambiental do Paraná a pôr o pé na área, de forma voluntariosa, mas improvisada, em um trailer e em uma casa alugada. O risco de incêndios é grande na região e o Corpo de Socorro em Montanha relatou três acidentes com mortes após a inauguração do caminho. Com tudo isto, infelizmente, a gestão pública do Itupava e do próprio parque estadual pode ser considerada, um milhão de reais depois, completamente deficiente e precária.

         Por outro lado, algumas ações realizadas no parque já o consideram um bem coletivo digno de proteção há muitos anos. É o caso de projetos de montanhistas que adotaram o parque e recuperam trilhas, salvam acidentados, prevêem acidentes e combatem incêndios. Trata-se do conhecido Programa “Adote uma Montanha”, mantido pelas federações de montanhismo do país. Na contramão deste programa foi avaliado um projeto privado para construção de uma estrada para asa deltas, que gerou vários danos ao local e deixou um grande passivo, que ainda está longe de ser sanado.

         Um outro objetivo do estudo foi sugerir propostas para a consolidação do parque como área de conservação do patrimônio histórico e natural, bem como para seu uso público equilibrado. Para isto os estudos foram divulgados na imprensa e em sites da internet e cópias preliminares e parciais foram disponibilizadas para um grupo inicial de cerca de 30 pessoas que puderam sugerir modificações a serem incorporadas aos documentos. Posteriormente, em fins de fevereiro de 2007, uma versão preliminar do dossiê com cerca de 50 páginas foi também disponibilizada para consulta pública, sendo para isto criado um blog na internet. Além destes documentos, reuniões periódicas ocorreram em Quatro Barras, Piraquara e Curitiba, com o intuito de debater o andamento do estudo e discutir temas a serem pesquisados. Um debate parcial foi realizado na Pontifícia Universidade Católica do Pr (PUC), em 15 de março de 2007. A apresentação final foi na Semana da Montanha, em maio de 2007.

Este documento teve raiz no montanhismo como parcela organizada da sociedade. Os montanhistas costumam ser apresentados como essencialmente individualistas, ou até mesmo alienados, muito interessados em atingir seus cumes e seus objetivos particulares, mas pouco preocupados com o mundo que vislumbram. No entanto, este estudo serviu como um catalisador de interesses em prol de um objetivo comum, que é o de viabilizar a implantação do Parque Estadual da Serra da Baitaca, uma área de prática do montanhismo por excelência, mas altamente relacionada com a sustentabilidade da Região Metropolitana de Curitiba. Por isto, na prática constatou-se que o estudo seria inviável sem a participação de grande número de pessoas, às quais devem ser creditadas principalmente o interesse e a preocupação a respeito do Parque da Baitaca.

A história deste parque mostra desencontros, resolução de conflitos que exigem consensos, boa vontade para o que está dando certo, humildade para os erros. Mas principalmente uma grande dívida para com o Paraná e a necessidade de espírito público (nem sempre presente) por parte de quem toma as decisões.

PARA VER MAIS:

STRUMINSKI, E. Dossiê Baitaca. Associação Caiguava de Pesquisas. Curitiba: 2007.

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