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Archive for setembro \09\UTC 2009

Por Edson Struminski (Du Bois)

Um leitor, Mauro Linhares, pergunta qual é minha opinião e a de meu velho parceiro de aventuras em montanhas, Alexandre Lorenzetto (Sassá) em relação à conquista de vias em áreas de preservação permanente (mais especificamente em áreas intangíveis de uma unidade de conservação). Ele referiu-se a abertura de uma via no Morro Espinhento, área restrita ao uso público (na prática proibida pelo plano de manejo) do Parque Estadual Pico do Marumbi e que está descrita na internet em http://amontanha.com.br/posts/agua-de-vina/

Para Mauro, o pessoal que abriu esta via está apenas consumindo a paisagem, com o agravante de uma postura ego-idolatra. Ele também nos pergunta se está errado em se incomodar com este assunto.

Certamente Mauro não está errado em se incomodar com este assunto. Porém, existem diferentes aspectos sobre os quais abordar estas questões, pelo qual me comprometi com ele a escrever este artigo. Um é o da experiência pessoal do escalador, outro da significância de uma escalada para o montanhismo (houve uma contestação no site em questão por um leitor) e um terceiro ponto de vista é aquele que fala sobre o ambiente natural, o qual pode, ou não, estar sendo regido por uma legislação de uma unidade de conservação.

Para abordar estes temas e como não fui lá repetir a via, eu prefiro me abster de enaltecer ou condenar a via em questão. Entendo que isto seria uma postura previsivelmente moralista, e pouco didática. Assim, eu farei uma leitura de aspectos éticos ligados à abertura desta via, o que pode ser útil para qualquer um que queira, um dia, abrir uma via em lugares remotos nas montanhas.

Particularmente sou um adepto do livre acesso, sou bastante favorável que montanhistas abram vias em locais remotos. Que eles busquem na experiência do “mundo selvagem”, um aperfeiçoamento da ética, o que inclui materiais de escalada que não causem dano à rocha, bivaques leves (redes, portaledges, etc), escaladas alpinas, escaladas na forma livre (não artificial), não abertura de trilhas, ou seja, tudo o que permita que o escalador passe por estes frágeis ambientes naturais das montanhas, deixando o mínimo de rastros, no menor tempo possível (o que por si só é sinônimo de mais segurança e menos impacto). Estas posturas éticas virtualmente garantiriam o acesso dos montanhistas a qualquer montanha, a qualquer tempo. Seria uma segurança, para os orgãos ambientais que administram unidades de conservação, de que montanhistas estariam usufruindo da natureza sem causar danos irreparáveis, seja para a fauna, seja para a flora que encontrem durante uma ascensão.

A princípio não foi a impressão que eu tive ao ler o texto em questão. Ao comentar acampamentos com barraca e uso de “equipamento móvel” (as próprias estacas da barraca) para tornar a via “mais ecológica”, o texto torna-se ambiguo.  Um jogo de estacas de ferro de barraca estilo canadense não é equipamento móvel, é apenas uma improvisação perigosa, ou seja, os escaladores se arriscaram e, conscientemente, expuseram-se a um risco e a possibilidade de que seus “equipamentos moveis” improvisados falhassem, implicando talvez na necessidade de um resgate externo, com tudo o que isto implica em sacrifícios e danos ao ambiente. Então, eu prefiro pensar nesta via como uma possibilidade para um aprendizado pessoal para estes escaladores. É possível que, futuramente, eles aliem a experiência do “selvagem”, do primitivo, tão bem expressa na região “intangível”, deste parque estadual, com a modernidade representada pelo equipamento móvel (de verdade) e por tudo o que ele representa em termos éticos.

Ao abrir a via em estacas de barraca os escaladores deram, de certa forma, a medida de importância da via. O que deverão fazer os próximos escaladores? Usar abridores de lata? Embora esta via possa ser, como imagino que seja, uma aventura interessante para os escaladores em questão, dificilmente será repetida na forma como foi feita, justamente por ser pouco significativa a abertura de uma via com equipamentos improvisados, frente à avalassadora concorrência de vias de alta importância no conjunto Marumbi, em móvel, com proteção fixa, em natural ou artificial, algumas destas vias, inclusive, estão sendo abertas neste exato instante em áreas onde a escalada já é reconhecida como uma atividade fim desta unidade de conservação. Um dos leitores do texto, aliás, acabou jogando uma ducha de água fria, ao comentar que esta via já havia sido aberta em natural em 1984 e repetida na década de 90.

Como comentei antes, sou um adepto do livre acesso dos montanhistas às áreas de montanhas, mesmo a aquelas que a legislação define como “zonas intangíveis”, pois a intangibilidade é uma ficção nos dias de aquecimento global de hoje, embora como profissional da área da conservação da natureza, entenda todas as razões ambientais que levam os técnicos (como eu mesmo) a colocar restrições de acesso do público a estas áreas. Este é um assunto muito técnico e creio que não vale a pena ser exposto aqui, em um artigo voltado a um público basicamente de escaladores, mas que está exposto nos planos de manejo das unidades de conservação.

Apesar disto, penso que os montanhistas devem ser, antes de tudo, parceiros na conservação das montanhas, independentes delas estarem em unidades de conservação ou não, em zonas intangíveis ou abertas ao público. Eles devem se aperfeiçoar materialmente e eticamente para serem dignos das maravilhosas paisagens que estão tendo o privilégio de ver, do respeitável sacrifício (que não é pouco) que fazem para ter acesso a estas paisagens maravilhosas, de usufruírem destas paredes remotas.

Pessoalmente já desisti de continuar uma escalada apenas por constatar que haviam ninhos de aves acima de mim (no Chile, tendo exatamente o privilégio de escalar com o Sassá). Descobrimos que não havia nenhuma restrição oficial para escalar onde estávamos, mas simplesmente mudamos de pedra. Os albatrozes tinham aquela pedra como casa, nós poderíamos atrapalhar irremediavelmente a vida deles.

O que posso dizer ao Mauro e ao pessoal que abriu a via no morro Espinhento, é que o aperfeiçoamento da nossa ética como escaladores e como montanhistas pode levar tempo. Às vezes acabamos por colocar grampos indignos em paredes dignas, apenas para depois pensar melhor sobre o que fazemos.

Desejo sorte a estes escaladores.

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