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Archive for junho \13\UTC 2008

Face Sudeste do Pico Paraná,

O chamado selvagem, uma estranha experiência na face oculta desta montanha singular.

 

Du Bois

 

Toda a frente noroeste do Pico Paraná é amplamente conhecida. Uma grande muralha rochosa avistada da trilha mesmo que dá acesso a esta montanha, a mais alta do Paraná. Certamente uma vista que enche os olhos de quem vê este lugar pela primeira vez e, na verdade, continua enchendo os olhos nas demais vezes.

Eu já me referi, em outro artigo, da sensação que sinto de que fazer algo nesta montanha é sempre significativo. Mesmo uma mera caminhada pode ser significativa nesta montanha. Basta que alguma coisa diferente aconteça. Uma chuva de granizo, por exemplo. Tomar uma chuva de granizo no Pico Paraná, em pleno verão, pode fazer com que um simples passeio se torne uma aventura pela sobrevivência. Você de bermudas andando em uma trilha coberta com pedras de gelo, em pleno verão…

Mas como toda face sul que se preze nos trópicos, a face sudeste do Pico Paraná é úmida, fria, escura, coberta por uma vegetação densa.

Com isto ela não tem os atrativos escaladorísticos que as faces norte, leste ou oeste tem. Não possui o tipo de atrativo que tem a via que fizemos no ano passado na face leste desta montanha (https://blogdodubois.wordpress.com/2007/11/08/nova-via-em-estilo-alpino-no-pico-parana/), ou será que tem? Qual será então a atração que esta face da montanha poderia ter para mim?

A única maneira de descobrir isto é indo lá. Olhar a parede, ver seus atrativos, seu potencial como significativa aventura de montanhismo.

Vislumbro, mais do que vejo, a face sudeste do Pico Paraná em uma foto pregada na parede do quarto de uma pessoa conhecida. A imagem me prende por um instante, mas não consigo falar nada, apenas penso abismado: “já vi este lugar outras vezes, o que estou esperando para ir até lá”. Durante a semana tento achar parceiros ou parceiras. Lá pela quarta tentativa desisto. Com isto decido fazer o passeio em uma sexta feira (06/06/2008), com retorno no sábado, para fugir do tráfego pesado que acontece nesta trilha nos fins de semana.

Na sexta de manhã estou na trilha normal. Neblina, nuvens altas, garoa. Me questiono se deveria estar ali sozinho, com aquelas condições tão impróprias. Mas tento me tranqüilizar pois considero o que tenho em meu favor. Principalmente a minha condição de fazer um bivaque confortável mesmo em condições precárias, com chuva e vento. A comida que estou levando com certa fartura. A possibilidade de esticar até o domingo minha vagabundagem sadia. Uma previsão de tempo favorável. Um bom conhecimento da montanha. Uma sensação de paz de espírito. Enfim, decido continuar.

Algumas horas depois vejo as montanhas. Tudo aquilo que eu tinha passado antes, neblina, nuvens altas, garoa, representam o microclima orográfico pré-cordilheira. Ali mesmo, no coração do Pico Paraná, o clima já é outro, aberto, ainda que com um vento infernal, que mal me permite ficar de pé. Neste momento conta muito a estratégia de ação. Você pode se embrulhar no seu saco de dormir, no primeiro lugar que achar e tentar uma soneca mal humorada no meio do vento uivante ou gastar um tempinho procurando um local estratégico. Escolho um pequeno rio de altitude existente no caminho para os Camelos, formação rochosa satélite do Pico Paraná. Armo minha rede em meio a pequenas árvores de altitude e com isto consigo duas coisas essenciais. Água e fugir do vento, que zumbe acima das árvores. Noite tranqüila, com direito a um visual esplendoroso.

No dia seguinte estou lá de frente para toda a a extensa face sul e sudeste do Pico Paraná. Todos os contrafortes iniciais que vem do litoral, mais uma bela montanha chamada Tupipiá. A face sudeste representa algo como 400 ou 500 metros de desnível vertical, rampas de pedra, chaminés e mesmo assim possui uma densa cobertura vegetal. Fotografo algumas coisas, mas o principal tento memorizar: detalhes significativos da geografia do lugar, uma estimativa da declividade, rotas de acesso e fuga das paredes.

Consigo perceber um caminho até a base de todas as montanhas que avisto. Me emborco, afunilo, emburaco, no desfiladeiro que existe entre os Camelos e a face sudeste. Este trajeto esconde um risco evidente, o de se chegar ao meio e encontrar alguma parede úmida e escorregadia, como existe na parcela da própria face sudeste do PP que encosta no vale e que simplesmente pode impedir minha descida, ou, eventualmente se ultrapassada, impedir minha subida, um tipo de erro que você não pode cometer em um lugar deste. Então desço monitorando cada passo, cada movimento, cada degrau que me parece estranho. Existe alternativa? Existe fuga? Aqui é um funil? Se esta árvore quebra na minha mão onde vou parar?

Com todo este tipo de cuidado em mente desço este desfiladeiro e chego até uma altura que me satisfaz, ou seja, um local onde posso começar a andar costeando a face sudeste da montanha e explorar este grande universo que tinha visto lá de cima.

Minha intenção era seguir ciscando no pé dos gigantes até o Tupipiá, mas na verdade eu me impus um limite de horário. Para minha própria segurança eu não pretendia andar mais do que 2 horas neste terreno desconhecido, sem trilhas, sem possibilidades fáceis de resgate caso algo desse errado, sem uma volta fácil.

É muito estranha esta sensação de fragilidade. Estava ali, em uma montanha hiper conhecida, mas em um terreno assustadoramente perigoso, bastou sair pouco mais de 1 hora do caminho mais próximo e tudo é arriscado, logo, todo o seu ser se torna puro instinto. Claro, estava ali com meu “kit de sobrevivência” em uma mochila sem bolsos, adaptada para este tipo de terreno. Tinha alimentos leves. Se precisasse ficar uma noite ali ficaria. Se anoitecesse e eu não me machucasse, faria um bivaque suportável. Além disso, deixei amigos avisados. Mas mesmo assim, os amigos me achariam ali? Me tirariam dali se algo desse errado? Certamente que sim, eu próprio já tive de fazer isto. Tirar pessoas de enrascadas em lugares horríveis. Mas justamente aí é que mora o perigo. Contar que alguém vai ter que arriscar a vida por conta da tua imprudência.

Foi aí que consultei meu instinto e ele me apontou para uma imagem que eu tinha visto do alto dos Camelos: a face sudeste do Pico Paraná. Uma via vertical de subida, sem dúvida, mas inteira vegetada, com pequenas árvores. Um local onde eu seria visto caso alguém eventualmente se aproximasse dos Camelos à minha procura. Uma forma de ascensão que me dava mais tranqüilidade do que subir um desfiladeiro úmido. Enfim, o instinto me dizia “suba mais um pouco, vá até onde se sentir seguro, você tem tempo para voltar se quiser”. Assim fui e, uma hora depois, em meio a uma janela nesta estranha escalada vegetal eu percebo que estou na altura mesmo dos Camelos, estou bem, tranqüilo, com energia sobrando.

É claro que isto não é tudo. Nestas montanhas tropicais, a parte mais alta das encostas é onde se aloja a vegetação mais intrincada, miúda, difícil de ultrapassar, aquela que te agarra, fere, te dá raiva se você não se controlar, te cobra rações extras de energia, que exige uma técnica própria de caminhada que eu apelido de “nado de peito” e que não deixa marcas da sua passagem.

Tudo isto eu já sabia de antemão, assim eu simplesmente fiz objetivos pequenos. Chegar até aquela árvore branca a dez metros daqui e descansar, agora se aproximar daquela pedra, agora ultrapassar esta chaminé. Assim para minha alegria, 2 horas depois de sair da base cheguei à crista da montanha. Uma ascensão vertical, rápida, estranha, diferente de tudo o que fiz até hoje, que me deixou na pilha para novos passeios na região. Possivelmente a primeira ascensão desta face da montanha, ou quando muito, uma ascensão bem pouco usual desta parede.

Depois disto mais algumas horas de trilha normal até o carro, mais algumas horas de viagem de automóvel. Uma curiosa e satisfatória sensação de energia sobrando.

Esta face do Pico Paraná me mostrou que é possível realizar uma aventura com grande significado na montanha, mesmo que a parte mais glamorosa de uma escalada fique em segundo plano. Isto se deve em determinado sentido a um certo “chamado selvagem”, que como no livro homônimo de Jack London, aborda a luta pela sobrevivência. Este livro, publicado em 1903, quando ele tinha apenas 29 anos e é considerada a obra-prima dele, tem como personagem principal um animal (husky siberiano) que, ao mesmo tempo, reúne características humanas e instintos primitivos.  Um estranho clássico de aventuras de um autor que misturava Marx, Darwin e Nietzsche. Este “instinto primitivo” de que tanto fala London nos livros dele, aparece nas situações mais inesperadas no meio de uma aventura desta. Graças a ele que estou escrevendo aqui hoje.

 

Veja mais:

 

O chamado selvagem, Jack London, Ediouro, 2008.

 

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