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Archive for the ‘história ambiental’ Category

Por Márcio Bortolusso 

Alguns nomes se destacam na produção de imagens de montanha a partir dos anos 1960, a começar por Piero Nava, que em 60 anos produziu uma dezena de filmes e colaborou com diversas publicações, além de ter realizado mais de 500 ascensões nos Alpes, Patagônia, Karakoran, África, Groelândia, Peru e Himalaia.

Ao final desta década surgem as produções de Lothar Brandler e Gerhard Baur, dois dos maiores cineastas de montanha de todos os tempos.

Brandler produziu mais de 130 documentários e alguns longas, que na época revolucionaram a arte das montanhas, com destaque para Direttissima (1958), audaciosa escalada à Face Norte da Cima Grande di Lavaredo; Una Cordata Europea (1964), que revolucionou o cine de montanha quando foi lançado, três escaladores experts encarando a temida Tre Cime di Lavaredo; e Eiger 69: La via dei Giapponesi (1971), sobre uma árdua “tentativa” de repetição por um time germânico da via dos Japoneses.

Bauer lançou cerca de 60 grandes obras, que conquistaram não apenas o público, mas os júris dos mais importantes festivais de cinema do planeta. Bauer filmou em 1975 a primeira ascensão da “terceira maior”, o Kanchenjunga (8.579 m), participou de duas expedições ao Nanga Parbat (em 70, a fatídica para Günther Messner, e outra em 2004) e foi cameraman no épico filme No Coração da Montanha (Cerro Torre: Schrei aus Stein, 1991), de Werner Herzog, um dos melhores longas produzidos, que relata a competição de dois alpinistas na escalada do Cerro Torre. Destaque para os seus espetaculares documentários sobre a Face Norte das Grandes Jorasses (“o último grande problema dos Alpes” nos anos 30) e sobre as trágicas primeiras investidas à traiçoeira Face Norte do Eiger (conhecida na época como “a impossível” dos Alpes).

Desde que participou como documentarista em 1954 da expedição pioneira de Ardito Desio ao Chogo Ri (ou K2), ajudando a produzir o filme Itália K2, que Mario Fantin nunca mais parou. Participou de 33 expedições (20 alpinas), realizou 47 filmes e publicou cerca de 20 livros.

Com o passar dos anos os equipamentos de filmagem e de escalada tornaram-se consideravelmente mais leves, de menor volume e maior qualidade. A documentação de montanha tornou-se mais fácil por um lado, porém mais ousada.

E falando em ousadia, quem não pode deixar de ser mencionado é o cineasta suíço Fulvio Mariani, que desde os anos 80 realizou uma quinzena de incríveis documentários, rodados em regiões como África, Tibete, Índia, Paquistão, Sibéria Patagônia e Cáucaso. Em 1985 acompanhou o fenômeno Marco Pedrini na primeira escalada “em estilo solitário” do temido Cerro Torre. E Mariani era tão bom em filmar quanto em escalar, voltando outras duas vezes ao gelado cume do Torre apenas para realizar novas tomadas para o seu belíssimo filme Cumbre. No total, fizeram 22 bivaques no Ombro e 9 na parede. Com certeza trata-se de um dos maiores clássicos cinematográficos da Patagônia, com cenas incríveis, como as de Pedrini escalando apenas de camiseta e sapatilhas e brincando de motociclista sobre o compressor abandonado de Maestri, a mais de mil metros do chão, ou mesmo do impressionante solo sem estribos pelos apodrecidos grampos da headwall da parede. Mariani foi responsável pela fotografia de No Coração da Montanha (de Herzog), em 96 documentou a expedição Shisha Pangma-Everest e participou também da expedição internacional de Reinhold Messner à face sul do Lhotse, em 1989, produzindo o documentário Lhotse, l’année noire du serpent, com a participação de feras como Jerzy Kukuczka, Hans Kammerlander e Christophe Profit.

Greg Epperson é outro que se garante na hora de fotografar, já solou Big Walls cascudos, guia passagens de A4 e manda lances de até 5.12 em busca de suas imagens (gregepperson.com).

E o que dizer do fotógrafo austríaco Heinz Zak? Curiosidades à parte, após imortalizar Wolfgang Güllich em 1986 durante uma de suas escaladas mais impressionates, o solo dos seis metros fendados do teto da rota Separate Reality, no Yosemite, decidiu fazer o mesmo. 19 anos depois o renomado fotógrafo realizou a primeira repetição deste feito, escalando novamente sem corda e a 200 metros do chão esta mítica via de 5.12. Foi Zak que acompanhou Güllich em sua famosa viagem pelo Rio de Janeiro, em 87. O austríaco abriu a via Gutes Ding braucht Weile (7c, na Parede dos Ácidos), a via Speed (7b, na Pedra do Urubu) e é o autor da famosa foto do “alemão” mandando a sua recém aberta Southern Comfort, o primeiro décimo grau brasileiro (heinzzak.com).

E a lista de documentaristas que mandam muito é grande. Por exemplo, lembram-se da duríssima rota Afanassieff no Fitz Roy, repetida após 27 anos com muita classe pelos brazucas Ed Padilha e Val Machado e pelo Hermano Gabriel Otero? Então, um de seus autores, o esplêndido escalador Jean Afanassieff, dentre várias outras façanhas, já realizou dezenas de célebres documentários desde os anos 1980.

 Kurt Diemberger

Mas o consagrado gênio da documentação de montanha moderna é o cineasta autríaco Kurt Diemberger, “figuraço” pioneiro das explorações e dos documentários sobre o Himalaia, sendo o único alpinista vivo com duas subidas a cumes virgens de 8 mil metros, apenas citando alguns gigantes de seu currículo, ele já escalou o Chomolungma (Everest), o Chogo Ri (K2), o Gasherbrum II (K4), o Makalu, o Faichan Kangri (Broad Peak ou K3) e o Dhaulagiri. Em 1986 ele teve que bivacar acima de 8 mil metros no Chogo e acabou escapando da montanha como um dos dois únicos sobreviventes do trágico Verão Negro. Realizou mais de 20 expedições pelo planeta desde os anos 50 e ainda está na ativa. O seu filme La Grande Cresta di Peuterey – Monte Bianco (1964), sobre uma longuíssima e terrível escalada no Mont Blanc, se tornou um marco do Cine de Montanha. Excepcional fotógrafo, infelizmente uma de suas fotos mais famosas é a clássica imagem das pegadas de seu companheiro Hermann Buhl rumo a cornija que o engoliu para sempre, durante a primeira ao Chogolisa, no Karakoran em 57. 

Márcio Bortolusso é documentarista de montanha da PHOTOVERDE Produções® (photoverde.com.br) e montanhista patrocinado pelas marcas SOLO®, WiNDSTOPPER®, GORETEX® e SNAKE®.

Membro do Centro Excursionista Gravatá, adotou o montanhismo como estilo de vida há 15 anos.

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 DOCUMENTAÇÃO DE IMAGENS DE MONTANHA Parte 5: tempos modernosPor Márcio Bortolusso 

Pus o olho no visor e na mesma hora toda a paisagem em volta se transformou… vi naquele momento que um fotógrafo de cinema, um cinegrafista, podia redefinir o mundo, investindo uma cena tanto com a realidade da paisagem quanto com as definições visuais que sua imaginação porventura tivesse… percebi que poderia explorar tanto o mundo visível quanto minha imaginação com uma câmera… vi minha experiência das montanhas adquirir uma dimensão totalmente nova”. David Breashears em High Exposure (1999), descrevendo sua iniciação com a Fotografia de Montanha, no Half Dome em 1977, na assistência a Greg Lowe e Tom Frost.  

Desde 1995, após ter o maior insight de minha vida, que venho dedicando cada segundo, gota de suor e centavo em prol da documentação de atividades ao ar livre, em especial do montanhismo, lutando pela consolidação deste segmento. Resumidamente: apesar das dificuldades, acho que hoje já podemos comprovar a existência de um mercado de produção de imagens nacional.Nas edições passadas falei sobre os pioneiros do olhar vertical, os primeiros montanhistas e documentaristas que registraram com extraordinária competência parte de nossa história, com imagens dos primórdios do montanhismo até o conturbado período da Segunda Grande Guerra. A partir de agora, apresentarei os maiores nomes e acontecimentos dos tempos modernos da documentação de montanha, período em que lentamente ocorre a profissionalização desta incrível arte documental.Primeiramente, terei que recapitular as raízes do cinema de montanha, com detalhes não relatados nos textos anteriores.Muito mais que o enfoque desportivo, na primeira metade do século passado os filmes de montanha possuíam um caráter poético, eram carregados de dramaticidade e simbolismos. O escalador era retratado como um romântico, por vezes como um herói e com forte ideologia nacionalista.Os primeiros filmes de montanha são na verdade pérolas da “sétima arte”, pois foram alguns dos primeiros da história do cinema, lançados poucos anos após a invenção do cinematógrafo pelos irmãos Lumière, em 1895. Cervin, de 1901, acredita-se que produzido por um suíço, é considerado o primeiro filme de montanhismo da história. Outros clássicos são, o filme do alpinista americano Frank Ormiston-Smith, sobre o Mont Blanc, de 1903 e a produção de Vittorio Sella, L’expédition du duc des Abruzzes au K2, o primeiro filme da história sobre o Himalaia, de 1909.Nas primeiras décadas do séc. XX foram os italianos que dominaram o cine de montanha, com destaque para filmes sobre o afamado Matterhorn e para as produções de Mario Piacenza, como as obras Ascension à la Dent du Géant e Ascension au Cervin (rodado à 4 mil metros com os escassos recursos tecnológicos da época), ambos de 1911.

Nos anos 20 e 30 a montanha se destacou como cenário para grandes produções cinematográficas, de intrigas amorosas nas alturas a filmes de “Bang-Bang” (consegue imaginar um caubói sem as torres de Utah como pano de fundo?). Neste período foram os alemães que conquistaram o público, pelo forte apelo dramático dos filmes, como visto nos trabalhos dos pioneiros Arnold Fanck e Luis Trenker. Sob influência italiana, o que temos de mais representativo neste período são os filmes das primeiras tentativas dos ingleses ao Topo do Mundo, em especial o da fatídica tentativa de Mallory e Irvine em 1924, realizado pelo cinematografista John Noel. Apenas dando um exemplo da determinação e pioneirismo de Noel como documentarista do Himalaia, em 1913, época em que o Tibete estava fechado aos estrangeiros, ele, com o rosto pintado de preto, chegou ilicitamente a 95 quilômetros do Chomolungma (montanha que os “invasores” rebatizaram de Everest).E falando de imagens, vale lembrar que o corpo de Irvine se mantém desaparecido, com alguns experts do Himalaia afirmando que ele pode estar com a Kodak de bolso da dupla, talvez com os negativos milagrosamente conservados pelo frio e pela falta de umidade desde 1924, quem sabe revelando alguém no topo do Chomolungma trinta anos antes de Hillary e Norgay.Praticamente uma arte européia, a produção de filmes de montanha deu uma brusca freada durante as grandes guerras.

E foi no período pós-guerra dos anos 40 aos 60 que consolidou-se a escola francesa, libertando o cine de montanha de sua fase expressionista, tornando-o mais realista e narrativo que a escola alemã.E o mestre incontestável do cine de montanha, considerado o precursor deste segmento como arte, foi o revolucionário Marcel Ichac. O francês foi admirado em seu país por tudo que fez, como cineasta, fotógrafo, esquiador, alpinista e explorador. Escreveu importantes livros e realizou dezenas de documentários de prestígio durante cerca de 35 anos de carreira, que lhe renderam premiações nos mais importantes festivais de cinema do mundo, incluindo Cannes e o Oscar da academia holywoodiana. Participou das primeiras expedições francesas ao Himalaia (Gasherbrum e Annapurna), de explorações submarinas com o oceanógrafo Jacques Cousteau, de produções na Groenlândia, seu filme Soundeurs d´abîmes é considerado o primeiro da espeleologia, entre vários outros feitos. Alguns de seus melhores filmes são: Karakoram (1936), sobre as primeiras expedições ao Himalaia, marco antológico das grandes expedições da época, com toneladas de equipos, 700 carregadores, etc. Incrivelmente, foi remontando pelo autor por conta do 50º aniversário da expedição; A L´Assaut des Aiguilles du Diable (1942), sobre a primeira repetição do Mont Blanc du Tacul pelo célebre guia Armand Charlet; Victoire sur l’Annapurna (1950), sobre a ascensão do primeiro oito mil da história; Les Etoiles de Midi (1958), considerado “o maior clássico das montanhas”, sobre a fantástica primeira de Terray, Vaucher e Desmaison ao Grand Capucin, no Mont Blanc. Ichac revolucionou a documentação de montanha ao utilizar câmeras alemãs portáteis, que possibilitaram acompanhar os alpinistas durante as escaladas, proporcionando mais ação nas tomadas, tornando as imagens mais verídicas, em uma época em que eram usadas pesadas câmeras movidas a motores elétricos, dependentes do “kit-trambolho” baterias, filmes e tripé.

Com enorme conhecimento e amor pela arte documental e pelas montanhas, Ichac fez escola devido ao seu profissionalismo e à autenticidade obtida com seu trabalho. Foi o primeiro cineasta com exigências sobre a escrita cinematográfica dos filmes de montanha (preocupado com enquadramento, cenário, etc) e sempre se empenhou com a perfeita “continuidade” de cada cena. O seu método de “câmera subjetiva” influenciou inclusive outros alpinistas das gerações seguintes a se aventurar na cCinegrafia de montanha, caso de dois dos maiores expoentes da história do alpinismo: Lionel Terray e Gaston Rébuffat.Durante os anos 50 os gigantes do Himalaia e alguns cumes “impossíveis” da Patagônia foram escalados e a passos lentos ocorria a profissionalização do segmento. Hollywood ainda não tinha absorvido os ensinamentos franceses e desenvolvia-se seguindo o dramático olhar alemão. Um bom exemplo disto é o filme Third Man on the Mountain, produzido pelos estúdios Disney em 1959. Baseado no livro Banner in the Sky, narra a verdadeira história de um jovem que tenta realizar a escalada do Mattehorn (o Cervino dos italianos) em memória de seu pai que morreu na mesma montanha. Muito do sucesso do filme foi graças à perfeita atmosfera criada. Foi filmado na genuína fotografia alpina e teve como diretor de fotografia da Unidade de Montanha, nada mais, nada menos, que o próprio Rébuffat, o notável escalador da equipe que realizou a dramática primeira ascensão ao Annapurna.

Gaston ainda participou da produção de outros dois episódios da Disney para a tv (Banner in the Sky: The Killer Mountain e To Conquer the Mountain) e ampliou seu sucesso com o filme Perilous Assignment, de 1959, onde fez o seu próprio papel, como o guia que tinha o objetivo de instruir um novato no intrincado mundo do montanhismo.

Poucos sabem, mas Rébuffat tinha o mesmo talento para o montanhismo quanto para documentá-lo, foi um grande conferencista, fotógrafo, cineasta e escritor: algumas de suas fotos se tornaram históricas, produziu documentários de prestígio e escreveu alguns dos maiores clássicos do montanhismo, que descrevem muito mais que perigo, mas a fantástica energia da escalada. O seu filme Etoiles et Tempêtes (1957), é fantástico, trata de seu enorme feito, quando se tornou o primeiro a escalar todas as Grandes Faces Nortes dos Alpes: Eiger, Dru, Cervino, Grandes Jorasses, Piz Badile e Cima Grande di Lavaredo, as escaladas mais temidas de seu tempo.

 

.clássico registo de Rebuffat

Márcio Bortolusso é documentarista de montanha da PHOTOVERDE Produções® (photoverde.com.br) e montanhista patrocinado pelas marcas SOLO®, WiNDSTOPPER®, GORETEX® e SNAKE®. Membro do Centro Excursionista Gravatá, adotou o montanhismo como estilo de vida há 15 anos.

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José Bonifácio: ambientalista de dois mundos

:: 2007-10-17 Por Edson Struminski*  * Eng. florestal e Dr. em Meio Ambiente e Desenvolvimento. Subtítulos da responsabilidade de Ciência Hoje Portugal on line 

Já tive a oportunidade de comentar aqui, na Ciência Hoje on-line a respeito do surgimento da crítica ambiental no Brasil durante o período pombalino. Tratava-se, na verdade, da repercussão do preparo, na Europa, de estudiosos brasileiros que seriam os administradores da colónia portuguesa e que se defrontariam, no Brasil, com métodos primitivos de uso da natureza que sua sofisticada formação rejeitaria. Destes brasileiros, um nome ganharia destaque não só na análise da exploração da colónia brasileira mas também na dos métodos de trabalho da própria metrópole portuguesa: José Bonifácio de Andrada e Silva. Típico representante do período iluminista, com toda a versatilidade que isto representava na época, José Bonifácio construiu carreira no Estado português e também, por breve período, no Brasil, como administrador, cientista, político e estadista. José Bonifácio acabaria se mostrando como um zeloso representante da nova mentalidade do governo português em diversas facetas, inclusive em questões ambientais. Em seu primeiro texto: “Memória sobre a pesca das baleias” (In: CALDEIRA, 2002), podemos ler uma síntese do típico modo de pensar científico da época, onde o conhecimento gera a crítica sobre o mau uso de um dado recurso e finalmente se sintetiza em possibilidades de ganhos a partir de um uso mais racional da natureza. Ao mesmo tempo ele se mostrava particularmente preocupado com a conservação desta mesma natureza, preocupação que revelaria em outros textos. Se hoje este tipo de raciocínio é comum, certamente era inovador em 1790. A partir deste texto Bonifácio angariou prestígio e partiu para um longo período de estudos pela Europa, uma concessão rara na época.

Tema reccorrente 

A conservação das florestas era outro tema recorrente para José Bonifácio. Em uma “Memória sobre a necessidade e utilidades do plantio de novos bosques em Portugal” (In: CALDEIRA, 2002), ele faz um alerta sobre a situação do ambiente natural na metrópole portuguesa e uma ampla e sofisticada leitura das mazelas provenientes da ausência de florestas, incluindo problemas na regulação do clima e na manutenção da fertilidade do solo, bem como lembra o efeito da produção vegetal na captura do carbono, tema actualmente em grande voga. Neste texto, ao contrário do anterior sobre a pesca das baleias, que era basicamente um estímulo à livre iniciativa bem ao gosto do pensamento liberal da época, o que aparece é um chamamento à acção do Estado, que deveria agir como “vigilante sisudo” sobre os proprietários privados, cuja ignorância “foi quem na Europa conduziu a mão temerária do lavrador ignorante para despojar os montes do seu natural ornamento”. Contra isto ele sugeria novos regulamentos e uma administração fundamentada em conhecimentos científicos e na experiência, algo que na prática só começaria a acontecer a partir do surgimento de governos republicanos com fundamentação positivista.

Os mesmos problemas

Anos depois no Brasil, José Bonifácio se defrontaria com os mesmos problemas, assinalando, porém, que a destruição do meio natural poderia gerar repercussões sociais muito amplas, inclusive a desagregação das comunidades, pela desorganização das actividades produtivas e da vida civil, que, na visão dele, requereriam estabilidade territorial e demográfica, conforme pode-se deduzir do parágrafo a seguir retirado da sua viagem mineralógica à então província de São Paulo, de 1820 (DEAN, 1997): “Todas as antigas matas foram barbaramente destruídas com fogo e machado e esta falta acabou em muitas partes com os engenhos. Se o governo não tomar enérgicas medidas contra aquela raiva de destruição, sem a qual não se sabe cultivar, depressa se acabarão todas as madeiras e lenhas, os engenhos serão abandonados, as fazendas se esterilizarão, a população emigrará para outros lugares, a civilização atrasar-se-á e o apuramento da justiça e a punição dos crimes experimentará cada vez maiores dificuldades no meio dos desertos”. Assim, não por acaso, para um intelectual atento como José Bonifácio, a independência do Brasil em 1822 e a primeira Assembleia Constituinte de 1823 foram, de fato, as primeiras oportunidades, depois de mais de 300 anos de escravidão e de degradação dos recursos naturais do país, de se discutir uma pauta de modernização e “progresso” para a nova nação soberana. Segundo PÁDUA (2002, 147), José Bonifácio propunha um discurso então novo, de política geral de protecção dos recursos naturais do país, que considerava como trunfo do Brasil para seu progresso futuro.

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Superação do modelo agrícola

Tal política passava pela superação do modelo agrícola colonial latifundiário, monocultural e destrutivo, ou pelo modo de vida tradicional dos índios, visto como parasitário, através da reforma agrária e de métodos agronómicos modernos e mais ambientalmente equilibrados. Em seu texto, “Necessidade de uma academia de agricultura no país” (In: CALDEIRA, 2002) e em outros similares, fica claro que a visão de Bonifácio sobre este assunto é mais ampla do que pode se imaginar à primeira vista. Bonifácio defendia a criação de instituições científicas com um cunho inédito então no Brasil. Tratava-se, como ressalta PÁDUA (2002, 154), de uma cosmovisão sofisticada e integrativa, fundada no que havia de melhor na filosofia natural do seu tempo. As “academias”, de José Bonifácio deveriam envolver estudos e ensino de geografia, economia, política, história, biologia, zoologia, urbanismo, hidrologia, mineralogia, química, enfim, todo o leque de conhecimentos que ele estudou durante sua estadia na Europa. Tamanha capacidade de inovação fez com que José Bonifácio acabasse por chocar-se com o pensamento conservador, tanto em Portugal como no Brasil. Ainda em seu período como responsável por várias instituições portuguesas, ele defrontou-se com inúmeros obstáculos causados pela burocracia e pela passividade de funcionários desinteressados em mudanças.

Ideias inovadoras

No Brasil, como um dos dirigentes políticos da mudança maior, a independência do país, teve de enfrentar oposições e resistências a seus projectos sociais e políticos como a supressão da escravidão, a incorporação dos indígenas e o próprio uso racional da natureza, que batiam de frente contra traficantes de escravos e proprietários rurais que eram a base das fortunas e do poder liberal conservador do início da monarquia brasileira. Na verdade, as ideias de José Bonifácio seriam consideradas inovadoras em qualquer país da América naquele momento, mesmo o governo norte-americano levaria décadas até excluir a escravidão da sua vida social. Apenas poucos meses após propor estas ideias na Assembleia Constituinte de 1823 ele saiu do governo, para um exílio forçado em Paris por 6 anos. Voltaria em 1829, para assumir sua cadeira de senador, onde assistiria a derrocada de Pedro I, primeiro governante do país e assumiria o papel de tutor do seu filho, o jovem Pedro II, até ser novamente afastado em 1833. José Bonifácio passou os seus últimos anos de vida na ilha de Paquetá, olhando para um pedaço da floresta virgem que tanto apreciava. Acabou por se tornar a referência moral do século XIX e das lutas sociais e ambientais que aconteceriam durante todo o império brasileiro. BIBLIOGRAFIACALDEIRA, J. José Bonifácio de Andrada e Silva. Colecção Formadores do Brasil. São Paulo: Editora 34, 2002.

DEAN, W. A ferro e a fogo, a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. 484 p.

PÁDUA.J. A. Um sopro de destruição, pensamento político e crítica ambiental no Brasil esclavagista (1786 – 1888). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2002. 318p.

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DOCUMENTAÇÃO DE IMAGENS DE MONTANHAParte 4: imagens brasileiras Por Márcio Bortolusso Assim como lá fora, a história da Documentação de Montanha brasileira também está relacionada com a da própria evolução da fotografia e do Montanhismo em nossas terras, atividades que nasceram quase que juntas no início do século 19, seguindo praticamente o mesmo croqui evolucionário de outros países: com as primeiras ascensões técnicas que se tem registro, a necessidade de alguns escaladores em registrar suas empreitadas e, até mesmo, as dificuldades técnicas enfrentadas e a evolução dos conceitos e equipamentos.Em geral, as primeiras ascensões montanhísticas em terras tupiniquins são da primeira metade do século 19, inicialmente de pioneiros que buscavam o simples sabor da aventura ou fins de pesquisa (levantamentos topográficos, catalogações de espécies, etc), como os registros da subida de ruralistas do período do café em morros cariocas, de aventureiros à Pedra da Gávea (1828), do botânico britânico George Gardner à Pedra do Sino (1841), da inglesa Enrieta Carstiers e alguns anônimos ao Pão de Açúcar (1817, mas alguns apontam 1871) ou mesmo do Monte Roraima pelo inglês Everard Im Thurn (1884). Os primeiros registros de montanhismo técnico no Brasil são atribuídos à algumas emblemáticas ascensões e tentativas, como da maior montanha brasileira da época, o Itatiaiaçu (ou Agulhas Negras de Itatiaia), em 1856 por José Franklin Massena, em 1878 por André Rebouças, em 1898 por Horácio de Carvalho e em 1919 pela dupla Joseph Spierling e Oswaldo Leal, estes últimos os primeiros que comprovaram atingir o Cume Principal desta montanha. Com mérito similar, um grupo liderado por Joaquim Olímpio de Miranda alcançou o ponto culminante do Pico do Marumbi em 1879 e, com pioneirismo inigualável, em 1912 o pernambucano José Teixeira Guimarães e seus bravos companheiros abriram uma das primeiras vias de escalada técnica do Brasil, até o bloco mais alto do Dedo de Deus. Os relatos e as fotos destas aventuras são considerados como os primeiros marcos da Documentação de Montanha nacional.Os registros de nosso passado foram produzidos pelos próprios escaladores, mas infelizmente eu ainda não consegui identificar qual seria a imagem de escalada mais antiga do Brasil. Em geral, estes registros datam do meado do século passado, com algumas exceções mais antigas.Tentar levantar quais seriam os principais marcos da Documentação nacional é uma tarefa ingrata, mas podemos afirmar que o embrião dos registros brasileiros surgiu nos Clubes, que possuem um papel importantíssimo nesta história, pelo incentivo à prática do Montanhismo em seus primeiros anos e por ações que estimulavam o registro das atividades de cada grupo. Tanto que muito da história nacional está guardada em seus acervos. Só dando um exemplo, o Centro Excursionista Brasileiro foi fundado em 1919, sendo o mais antigo da América do Sul, e em 1926 lançou a primeira publicação dedicada ao montanhismo no país, O Excursionista (que mais tarde virou boletim interno). Em seu valioso e impressionante acervo, relatos e imagens das primeiras ascensões ao Escalavrado, Nariz do Frade, Pico Menor de Friburgo, Garrafão, Agulha do Diabo e Face Leste do Dedo de Deus. Como o CEB, outros clubes surgiram e gradativamente a nossa história foi sendo escrita e registrada para a prosperidade, com destaque para o Centro Excursionista Rio de Janeiro (fundado em 1939) e o Clube Excursionista Carioca (1946).Bom, e pouco a pouco a Comunidade da Montanha foi se estruturando e não tardou a valorização das imagens, inicialmente por meio de simplórios informativos e exposições fotográficas sobre as excursões dos Clubes para passeio e abertura de vias.Para mim, como Documentarista de Montanha, acho que o que temos de mais representativo de nosso passado documental se deve a uma pessoa em especial: Renato José Sobral Pinto, fotógrafo que ainda nos brinda com sua presença e que completou Bodas de Ouro com suas Imagens de Montanha. Márcio Bortolusso é Documentarista de Montanha da PHOTOVERDE Produções® (photoverde.com.br) e Montanhista patrocinado pelas marcas SOLO®, WiNDSTOPPER®, GORETEX® e SNAKE®. Membro do Centro Excursionista Gravatá, adotou o montanhismo como estilo de vida há 15 anos. 

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DOCUMENTAÇÃO DE IMAGENS DE MONTANHA
Parte 3: viagens às montanhas extremas
Por Márcio Bortolusso

Um exemplo clássico dos primeiros marcos da Documentação de imagens de Montanha talvez esteja ligado a maior delas. A Inglaterra, após fracassar nas conquistas dos dois Pólos, sabia que o seu último grande triunfo poderia vir do Chomolungma, conhecido também como terceiro pólo (ou Everest, para quem aceita). Um reconhecimento clandestino foi feito em 1913, duas malogradas expedições em 21 e 22 e uma derradeira e trágica em 1924 entraram para a história do montanhismo mundial, muito antes da primeira expedição que comprovou ter alcançado o seu cume, em 1953.
Mas com certeza muito disto se deve aos esforços do cinegrafista John Noel, que documentou para o mundo todos os pormenores das primeiras tentativas, inclusive tendo filmado as últimas imagens de Mallory e Irvine antes de desaparecerem rumo ao cume.
E talvez Noel tenha se antecipado ao seu tempo, sendo o primeiro profissional assumido deste segmento de Documentação, consciente do valor de suas imagens para o público e para a história e, inclusive, tendo fundado o que acredito ser a primeira produtora especializada em imagens de Montanha, a Explorer Films, no início do século passado.
Um nome que não pode ficar de fora dos primórdios da Documentação de Montanha é o do padre italiano Alberto Maria De Agostini, considerado por muitos como o último dos grandes exploradores das solitudes austrais. Fotógrafo e cinegrafista, De Agostini chegou na região sul da Patagônia em 1910 e por quase 30 anos batizou glaciares, escalou montanhas e, sobretudo, registrou os costumes dos últimos povos indígenas locais, antes de serem exterminados pelos europeus.
Para quem não conhece, De Agostini foi quem consagrou para o mundo o Monte Sarmiento, montanha que é o grande pano de fundo do filme Extremo Sul, o primeiro longa metragem sobre montanhismo do Brasil (ou ao menos que fala sobre). Após tentar escalar esta montanha em 1913 e 1914, o padre organizou outra expedição em 56 que obteve sucesso, apesar de que ele já estava com 73 anos, sem condições para fazer cume. Mas o legado documental de Agostini, que inclui 22 livros, representa um dos mais importantes documentos visuais sobre a história do Andinismo e das culturas da América do Sul.

Márcio Bortolusso é Documentarista de Montanha da PHOTOVERDE Produções® (photoverde.com.br) e Montanhista patrocinado pelas marcas SOLO®, WiNDSTOPPER®, GORETEX® e SNAKE®. Membro do Centro Excursionista Gravatá, adotou o montanhismo como estilo de vida há 15 anos.

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Parte 2: os anos dourados

Por Márcio Bortolusso

Acho impossível listar os principais acontecimentos dos anos dourados da Documentação de Montanha. Em cada canto do mundo indivíduos detentores de grande determinação e ousadia escreveram parte desta história, inicialmente pelo desejo dos escaladores de registrar suas aventuras, que contribuiu em muito na história mundial, tanto deste segmento de Documentação como do próprio montanhismo. Dentre alguns destes anônimos, destaque para G. A. Fowkes (com imagens raras de 1900) e do ávido escalador Guido Rey, que após iniciar-se na fotografia recebeu do Clube Alpino Italiano uma medalha de prata por suas imagens. Em 1893, Guido realizou difíceis escaladas e escreveu um livro sobre suas experiências e, em 1914, lançou “Alpinismo Acrobático”, um dos primeiros livros da história com fotos de escalada técnica.

Mas com certeza o maior mérito pela evolução deste segmento se deve a alguns indivíduos que realmente dedicaram parte de suas vidas em prol desta árdua e desafiante arte documental.

Harry Landis Standley (1881-1951) foi provavelmente o mais famoso fotógrafo das Montanhas Rochosas do Colorado, tendo fotografado por cerca de 50 anos os mais importantes picos desta cadeia de montanhas.

Já o lendário Henry Bradford Washburn Jr. (1910-2007), foi um explorador, montanhista, fotógrafo e cartógrafo extraordinário, homenageado com diversos títulos ao longo de sua carreira (medalhas de mérito do Rei Albert, da National Geographic Society, etc) pelo importante trabalho de mapeamento de regiões montanhosas. Especializado em fotografias aéreas, que lhe ajudava a planejar suas expedições, deu a volta ao mundo para elaborar os mapas mais precisos de locais como Grand Canyon, Chomolungma (ou Everest) e Denali (ou McKinley). Em 1935, liderou uma expedição da NGS ao Yukon (Canadá), mapeando cerca de 13 mil km quadrados de território que aparecia como “desconhecido” nos mapas, e em 1998, aos 88 anos, liderou outra que determinou que o ponto culminante da Terra era 2, 13 metros maior, media 8.850m. Além de publicar livros sobre seus feitos, não posso esquecer de dizer que Washburn esteve à frente da comunidade escaladora americana de 1920 a 1950, tendo realizado a abertura de importantes rotas e ascensões singulares em alguns dos maiores picos do Alasca. Em janeiro, partiu para expedições celestiais, após 96 anos de proezas.

Responsável por uma das mais importantes coleções fotográficas sobre escalada e montanhismo da história, Walter Hahn (1889-1969) é autor de imagens inacreditáveis de 1910 a 1950. Mas com certeza a escalada mundial deve muito aos irmãos escaladores George e Ashley Abraham (1870-1965 e 1876-1951, respectivamente), que eu considero como os primeiros Fotógrafos de Montanha da história, com um espetacular trabalho documental que se iniciou com a primeira foto da dupla, feita em 1890, e se estendeu até a década de 1920. As lentes dos Abraham Brothers, como eram conhecidos, registraram escaladas épicas nos primóridos do montanhismo e escaladores lendários, como o britânico Owen Glynne Jones (1867-1899, considerado “o pioneiro da Escalada Atlética”), a quem registraram intensamente de 1896 até a sua morte em 1899. Os Abraham também publicaram alguns livros e, apenas para ter uma idéia do quanto eles registraram e ajudaram na evolução da escalada em rocha da época, algumas de suas memoráveis primeiras ascensões registradas (com Jones, de 1897 a 1900), são hoje graduadas na escala inglesa como “Very Difficult” e “Severe”.

Estes e outros fotógrafos ajudaram a escrever a nossa história, registrando momentos ímpares dos grandes nomes da escalada mundial, pioneiros como Geoffrey Winthrop Young (1876-1958, célebre escalador e escritor), Archer Thomson (1863-1913, notável escalador devoto do On Sight), George Mallory (1886-1924, himalaísta pioneiro), Colin Kirkus (autor da primeira ascensão em estilo alpino no Himalaia, em 1933) e Oscar Eckenstein (1859-1921, um dos mais reverenciados de seu tempo).

Apenas dando um pequeno exemplo das pérolas imortalizadas por estes artistas, existem imagens que comprovam o porque Eckenstein é considerado como a primeira personalidade do Boulder, muito antes da era Sharma ou do finado veterano John Gill (o Brasil mal aboliu a escravatura e os caras já treinavam em blocos!). Escalador revolucionário, Eckenstein também é imortalizado durante as primeiras tentativas de escalar o Chogo Ri (ou K2, em 1902) e o Kanchenchunga (em 1905), duas das maiores montanhas do mundo. Lembrando que a escalada trágica do Chogo, onde 4 integrantes morreram em uma avalanche, é considerada como a primeira tentativa séria  de escalar a “número 2”. O mais curioso destes registros é que em ambas expedições Oscar tinha como companheiro de cordada o enigmático e bizarro Aleister Crowley, considerado por muitos como o maior bruxo do século 20 (lembram daquele som do Black Sabbath?! Pois é…). Os diários do mago ocultista apontam Eckenstein como o seu grande mentor no alpinismo. Com certeza, se não houvessem fotos destas escaladas, que também incluem México e Alpes suíços e italianos, muitos duvidariam…

Para os brazucas que não conseguem imaginar a Fotografia de Montanha tão desenvolvida em tal época, basta lembrar da data das primeiras publicações sobre o gênero: Alpine Journal (1862), The Cairngorm Club Journal (1887), The Scottish Mountaineering Club Journal (1890) e The Climbers Club Journal (1898) são apenas alguns exemplos, sendo que algumas ainda na ativa.

Só pra se ter uma idéia, o Museu Suíço de Berna possui um acervo com cerca de 160 mil fotografias, que retratam escaladas audaciosas, os povos das montanhas e as mudanças dramáticas vividas no Alpinismo nos últimos 150 anos. A coleção inclui exemplares raros que representam o inicio da Fotografia de Montanha, por volta de 1860. Neste acervo, por exemplo, encontram-se imagens das primeiras mulheres alpinistas (no século 19, escalando de vestido) e do legendário alpinista e fotógrafo Dölf Reist, que produziu imagens como a dos primeiros suíços no Chomolungma – em 1956, a segunda e terceira ascensão da história, inclusive com a primeira fotografia convincente de um escalador no topo do mundo.

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Márcio Bortolusso é Documentarista de Montanha da PHOTOVERDE Produções® (photoverde.com.br) e Montanhista patrocinado pelas marcas SOLO®, WiNDSTOPPER®, GORETEX® e SNAKE®. Membro do Centro Excursionista Gravatá, adotou o montanhismo como estilo de vida há 15 anos.

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Parte 1: os pioneiros do olhar vertical
Por Márcio Bortolusso

Este artigo é uma pincelada do material que venho apresentando em eventos do montanhismo nacional, fruto de longa pesquisa para um livro futuro que me levou a descobertas fascinantes. É com grande prazer que a partir desta frase eu apresento um resumo histórico sobre as mil facetas desta incrível arte documental.

O fascínio da Humanidade pelo registro documental ultrapassa as fronteiras do imaginável. Desde os primeiros rabiscos rupestres em cavernas até a invenção da Fotografia, no início do século 19, que o Homem busca evoluir quanto ao uso de técnicas e materiais que lhe permita eternizar imagens com maior precisão.

As primeiras imagens de montanhismo que se tem registro antecedem a fotografia ou a sua popularização, foram feitas por ilustradores talentosos que se encarregaram de sagrar para a prosperidade importantes passagens dos primórdios do montanhismo, como as clássicas litografias de Gustave Dore sobre a gloriosa e trágica escalada do Matterhorn por Edward Whimper em 1865, que após alcançar “o último cume dos Alpes” perdeu 4 de seus homens na descida. Esta tragédia comoveu tanto os europeus que a Rainha Victoria cogitou proibir o alpinismo em suas terras. E foi Dore, o famoso criador da célebre imagem do Quixote de Cervantes, quem imortalizou as cenas deste importante marco do montanhismo mundial.

          A documentação de imagens de Montanha obviamente originou-se a partir do registro de Aventura, que teve suas raízes na fotografia de Natureza. Enquanto na Europa os primórdios da fotografia trataram basicamente do Retrato (técnica até então bastante complicada pelo longo tempo de exposição), na América de 1840 o paisagismo era o grande tema americano. Era a época do filósofo Emerson, tempo em que os americanos proclamavam a sua diferença e juventude valorizando a “divina mão da natureza”. E mostrar aquela paisagem bruta a ser desbravada era uma das grandes ambições norte-americana.
          E é fácil de imaginar as mil dificuldades enfrentadas pelos primeiros documentaristas de campo nesta época, com seus poucos recursos e pesados equipamentos. Eles utilizavam câmeras enormes de madeira e alguns carregavam dezenas de quilos de materiais para fotografia, que incluíam muitos químicos e pesadas chapas de vidro, que quebravam facilmente.

O primeiro modelo de câmera especial para viajantes foi criado para Roger Fenton cobrir a Guerra da Criméia, em 1850, e desta fase em diante deu-se início a busca por melhorias técnicas e recursos para facilitar o trabalho de campo. Mas os maiores problemas destes fotógrafos só foram resolvidos com a invenção do registro em folhas de celulóide e com a produção em série de umas câmeras compactas que faziam “kodak” a cada clique. Mas isto é outra longa história…

 A história da Documentação de Montanha está estritamente ligada a história da fotografia e às explorações modernas, época em que alguns intrépidos seres lançavam-se em ousadas expedições ansiando por “conquistar” os últimos pontos intocados da Terra: as mais altas montanhas, os pólos, as áreas ao qual nenhum homem civilizado havia chegado. Talvez a frase “Jamais para mim a bandeira abaixada, jamais a última tentativa”, proclamada por um dos mais notáveis exploradores polares, Sir Ernest Shackleton, resuma bem o sentimento da época.

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         Ao findar do século 19 e início do 20, os fotógrafos ansiavam por documentar o que poucos viram com os próprios olhos e os exploradores necessitavam de uma espécie de prova sobre as suas realizações, tanto para assegurar a veracidade de seus feitos como para obter sucesso na divulgação das Conquistas, o que às vezes significaria a garantia da próxima empreitada. E assim foi sendo, nas décadas que precederam as conquistas do Pólo Norte e Sul, do Everest, ou mesmo, as grandes travessias pelos mares e desertos da Terra – a pé, de trenó ou em pequenas jangadas.
          Durante o desenrolar do século 20, podemos generalizar que todas as expedições não partiam sem um fotógrafo ou uma câmera para registrar os grandes momentos da jornada: o cume, as roubadas, as possíveis descobertas.
         Talvez um dos exemplos mais famosos seja o da lendária expedição do próprio Shackleton à Antarctica, em 1914, quando toda a tripulação do Endurance ficou presa por 22 meses no gelo. E é claro que esta expedição não teria a repercussão que teve se não houvesse na tripulação a figura de Frank Hurley, talentoso e ousado fotógrafo que continuou a documentar mesmo durante todas as adversidades enfrentadas neste período de sobrevivência, o que permitiu que toda a saga desta expedição chegasse ao conhecimento do grande público.

Márcio Bortolusso é Documentarista de Montanha da PHOTOVERDE Produções® (photoverde.com.br) e Montanhista patrocinado pelas marcas SOLO®, WiNDSTOPPER®, GORETEX® e SNAKE®. Membro do Centro Excursionista Gravatá, adotou o montanhismo como estilo de vida há 15 anos.

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