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Archive for abril \24\UTC 2009

Sonata ao Luar*

Escalada solo em 7 movimentos

Por Edson Struminski (Du Bois), com adendos escritos em São Luis (MA)

 

1o movimento: Prelúdio

Desde o dia 9 de janeiro, quando tinha estado no pico Tucum pela última vez, uma imagem não saía da minha cabeça: a da belíssima e longa rampa que existe na face nordeste desta montanha. Algumas pessoas me disseram que haviam iniciado uma via ali, mas que estava incompleta por causa de algumas dificuldades na parede. Então havia um desafio interessante a ser considerado.

Apesar da minha afinidade com este tipo de escalada, sei que rampas de aderência costumam ser altamente enganosas. Mesmo quando tem pouca inclinação podem esconder dificuldades insuspeitadas. Partes úmidas, cristais que se desprendem e escorregam em baixo do calçado de escalada, passagens com vegetação que podem se soltar, placas que quebram…

Mesmo assim decidi que subir esta parede seria um objetivo digno, aceitável e compatível para alguém que este ano está fazendo 30 anos de montanha, que não é um escalador fortão como os de academia, mas habilidoso e tem sangue frio suficiente para situações de risco. Alguém que busca na montanha mais que troféus ou visibilidade e sim exercitar uma filosofia de montanha, ainda que de forma discreta e solitária.

Treinei aplicadamente 3 meses para isto, escalando com corda em solitário, com companheiros, com corda em solitário em móvel (muito exigente para os nervos), com companheiros em móvel e principalmente em solo, em vários horários do dia, em diferentes condições de tempo, em diferentes paredes e lugares, até me sentir forte e seguro na pedra.

2o movimento: Adagio

Era uma noite de lua cheia, “perfeita para uma Sonata ao Luar”, pensei. Acordei às 4 horas da manhã, sem despertador nem nada. “Estou ficando velho mesmo, os velhos dormem cada vez menos”, completei minhas elucubrações. Havia arrumado uma mochila levíssima no dia anterior com coisas essenciais como um pequeno saquinho com itens de sobrevivência (apito, vela, isqueiro, canivete, manta térmica, etc), água, comida e aliviado qualquer item supérfluo, como carteira, chaves da casa, etc. Nem dinheiro levei, apenas cartão de banco se precisasse ir a um borracheiro, identidade, carteira de motorista.

Toda vez que eu vou sair para uma escalada perigosa, meus sentidos (5, 6, 7, ou quantos forem) ficam alertas, captando qualquer sinal de anormalidade. O pneu do carro estava furado e havia colocado o estepe no lugar. Estava sem reserva. Isto afetaria a escalada? O instinto dizia que não.

No caminho fui surpreendido pela existência de um belo pedágio novinho em folha na estrada que vai para São Paulo. Eu não tinha moedas, não aceitaram meu cartão. Converso com as meninas que trabalham ali para resolver o problema. Uma delas fica saltitando de balcão em balcão do pedágio, com um rádio na mão. A balconista que me atendeu, uma jovem bonita, tem uma filhinha de 3 anos que mal pode ver, pois passa o dia longe dela, respirando fumaça de caminhão. Chega em casa e dorme. Passei um bom tempo até algum burocrata em algum lugar autorizar a abertura da cancela e me liberar. O andamento da escalada me pareceu ficar lento naquele momento. O adagio ficou prejudicado no pedágio. Isto afetaria a escalada? O instinto dizia que não.

3o movimento: Andante moderato

Resolvi deixar para a montanha me responder se eu devia ou não tentar esta escalada. Pedi respeitosamente licença a ela para entrar nos seus domínios, para fazer o que pretendia fazer. Tentei conectar meu deficiente e tosco lado espiritual com aquelas majestosas árvores que eu via, a Ceboleira, o Cedro, o Guamirim, e também com os pequenos ipês amarelos de altitude. Apesar do atraso no pedágio, andei bem, regular e moderadamente, pois estava leve. Fui beneficiado por pequenos totens de pedra indicadores do trajeto que alguém, algum gnomo bondoso, ou coisa que o valha colocou nos cruzos dos rios e que, por isto, evitaram que eu ficasse andando à toa no caminho, perdendo tempo. O instinto me dizia que isto poderia beneficiar a escalada. A caminhada foi agradabilíssima, tranqüila. Cheguei no cume do Camapuã ainda com o frescor da manhã. Via o Tucum ao longe, algumas rampas de pedra brilhando com a água. Mas o instinto me disse que eu poderia desviar destes obstáculos.

4o movimento: Allegro ma non molto

Avisei duas pessoas com mensagens de celular sobre onde estava e o que eu pretendia fazer e desliguei o aparelho para não ser surpreendido por um barulho que afetasse minha concentração. Saí da trilha e mergulhei na montanha. Rampas de pedra intercaladas com vegetação. Disciplinadamente trocava a bota de caminhada pelo tênis de escalada e vice-versa. Me vi surpreendentemente tendo que desescalar longos trechos e quando dei por mim estava já a uns 100 metros do chão. O terreno da montanha foi ficando difícil.

 Tinha vislumbrado um belo trecho de rampa limpa onde queria chegar. Ela me levava para o centro da montanha, o trecho mais bonito do Tucum. Mas não estava muito feliz com o terreno que estava pisando.

Exatamente quando estava pensando nisto um pequeno platô onde estava apoiado deslizou e levei um queda desagradável. Me machuquei um pouco. Procurei consultar meu instinto sobre aquilo e ele apenas me sugeriu que a montanha não queria ser subestimada, que eu teria que ser modesto e respeitoso, porque o terreno era assim mesmo, perigoso.

5o movimento: Scherzo

Finalmente chego ao ponto que me interessava da parede. Abaixo de mim um grande trecho em rampa de uns 100 metros visivelmente fácil. Acima uns 150, talvez 200 m até um ponto em que a rampa é fechada por uma parede vertical com várias fendas e diedros. Quase não há vegetação neste trecho. Uma clássica rampa de aderência. Identifico uns 20 m à minha esquerda algo que na parede me parece um grampo. Mas não me senti no direito de escalar em solo em uma via ainda não concluída. Então escolhi outro trajeto para a subida.

Existiam alguns diques de diabásio ou outra rocha qualquer que subiam a parede como linhas em uma pauta musical. Alguns eram surpreendentemente belos e fiquei deslumbrado pela beleza do lugar. Subi por estas linhas que em alguns momentos formavam enormes agarras, em outros eram tão finas a ponto de não caber nem um dedo dentro. Tudo belo e delicado como notas musicais. Nestes momentos a dificuldade da escalada subia mas não era excessiva, mantinha o andamento. Me sentia totalmente integrado à pedra.

Parei em alguns pontos para fotografar a parede. Foram momentos de descontração e divertimento. Pensava no quão surpreende era estar ali, um ser humano vislumbrando aquelas paisagens pela primeira vez.

Fazia movimentos leves e deixei em paz mesmo algumas pedras soltas que achei pelo caminho. “vou deixar que a natureza mande elas para baixo quando quiser”, pensei. Quando muito tirei da minha linha e coloquei de lado. Pisei por vezes em cristais quebradiços, mas tudo correu bem, não tive nenhum susto grave.

Minha tática de ascensão era simples. Estudava o tramo que vinha pela frente. Uns 30 metros acima. Depois me concentrava em objetivos bem próximos. 3 metros de cada vez, como em um boulder. Subia os 3 metros e refazia uma leitura rápida, até acabar o tramo.

Vez por outra fazia um contorno e colocava algum platô de vegetação abaixo de mim, pensando em uma possível “garantia” de amortecimento em caso de queda. Mas eles eram raros e depois de uns 20 ou 30 metros de distância percebia, constrangido, que pouco serviriam. Depois de algum tempo já não via mais o pé da parede porque havia passado um trecho abaulado.

Acabei me conscientizando que estava em uma grande parede, com um enorme potencial de desastre para mim em caso de queda. Estava solando e não me iludia, por isto me concentrava nos próximos 3 metros e depois nos 3 seguintes…

Por fim esta fascinante e bela parede de seus 200 ou 300 metros acabou. Uma das mais belas que eu já subi em toda a minha vida. O fim da rampa era delicado. Musgos, cristais quebradiços. Risco iminente. Minha concentração e cuidados foram redobrados. Mas, por fim saí da rampa.

6o movimento: Toccata e fuga em ré maior

Acima de mim havia um largo platô de vegetação e mais um tramo de uns 40 metros um pouco mais vertical. Atravessei o breve trecho com vegetação e cheguei ao pé da última rampa. Ela era bem em pé e bem difícil. “Bem, parece que é aqui que eu vou ter que pagar o meu pedágio ao Tucum”, pensei. Antes de subir procurei andar na base desta parede para conhecer um pouco a geografia do lugar, caso tivesse que aterrisar. O chão era firme e dificilmente eu iria cair e quicar 300 metros para baixo. “Dificilmente eu vou cair, dificilmente eu vou quicar”. Fiquei repetindo o mantra enquanto tentei achar uma saída para a parede. Surgiu uma saída difícil, típica de boulder. Mas nada.  Os cristais quebravam e caí 3 vezes no chão do platô, mas sem problemas maiores. Teria que ter um arame de aço para limpar as agarras. Inviável se estava solando. Tentei uma segunda saída e me vi a uns 20 metros da base do platô caminhando para um passo que exigiria um artificial em cliffs. “Logo hoje que eu não trouxe os cliffs”, pensei. Tinha que fugir rápido dali, retroceder.

A situação foi ficando desconfortável. Os pés doíam. Caranguejava na parede. Não tinha plateia para me animar (ou eu achava que não tinha). Dei uma ré. Desescalei uns 5 metros até encontrar uma saída, ou o que me pareceu assim, uma linha horizontal de agarras a uns 3 metros de onde estava. “Que bom”, pensei, “3 metros é um boulder, isto eu consigo escalar”.

O relógio parecia andar agora muito devagar. A música parecia parar. Trabalhei com o pé esquerdo retirando cristais quebradiços de uma aderência para poder acomodar os dois pés, mas seria precário, muito precário, eu sabia. O pé direito estava ainda em uma agarra aceitável. As mãos em aderência. As mãos suavam. Procurava o saco de magnésio atrás da mochila. Tudo muito delicado, cuidadoso e difícil. Olhei uma última vez para baixo. “Se eu cair não vou quicar”. Não, pensei, não vou cair nem vou quicar. Melhor pensar assim.

Acabei o trabalho de limpeza da agarra do pé esquerdo. Agora tinha que sair da última segurança que eu tinha, aquilo que me unia fragilmente a este mundo sólido: a agarra do pé direito. Tinha que encostá-lo no pé esquerdo e trocar os pés em aderência. Fiz isto delicadamente e agora os dois pés e as duas mãos estavam em aderência. Neste momento senti que somente se houvesse uma intervenção divina eu não cairia e não quicaria. Comecei a me equilibrar lentamente para transferir o peso do meu corpo para o pé direito. O esquerdo teria de buscar a famosa agarra dos 3 metros, agora à distância de uma passada longa e perigosa. Agora uma intervenção divina iria bem para não cair, quicar, etc… E então aconteceu o inevitável…

(Pausa para um vislumbre em algum lugar no universo. Deus todo poderoso em dia de feriado universal assistindo na TV à cabo divina a formação de uma supernova e o choque de duas galáxias. Espetáculo de nível, não era para qualquer um. Eis que chega um assessor esbaforrido e interrompe a distração dele com um msn urgente de um anjo lá da Terra. “De onde? Ah, daquele mundinho muquifa que eu criei aquela vez para testar umas idéias e que agora anda cheia de gente besta que só vive me incomodando. Tá diz aí o que é que é desta vez”.

O assessor mostra uma cena na internet celestial, banda ultra larga espiritual. Um sujeitinho pendurado sem corda em uma parede de pedra e um anjo da guarda preocupado por perto dizendo. “Então chefe, o que é que eu faço agora, seguro o cara ou deixo ele cair?”. Deus fica furioso e diz. “E aí, eu contrato vocês para que? Não dá pra resolver sozinho um probleminha destes? Deixa eu ver a ficha do sujeito. Tá libera a cancela, deixa o cara passar desta vez”).

(Voltando à narrativa) … E então aconteceu o inevitável… Por uma milagrosa e magnâmica (cheia de magnésio) intervenção divina o pé direito para na aderência e consigo fazer o movimento restante. Delicadamente o pé esquerdo alcança a agarra distante. Faço um cruzamento de pernas elegante e termino com grande calma a passagem. Paguei o pedágio do Tucum em grande estilo. Fiz uma nova cadenza, mostrando minha fabulosa técnica de solista, ou pelo menos não me esborrachei vergonhosamente, o que já era grande coisa. Já podia mudar de fuga para rondó, um movimento mais afinado com a partitura e com o fim da parede. “Obrigado aí anjo, manda um abração pro chefe”. “Sempre alerta”, respondeu aliviado o anjo, como dizem os escoteiros.

7o movimento: Finale molto allegro

Não acabou ainda. Tem mais. Respire fundo leitor. Mais um curto trecho de vegetação adensada e chego ao pé da última parede. Uma parede vertical cheia de diedros, fendas e chaminés. Tudo muito belo e diferente do que estivera vendo até então. Mas estava desgastado psicologicamente e as passagens eram difíceis. Tentei subir por algumas destas fendas, mas nenhuma se mostrou propícia, cheguei a cair de uma delas. Na quarta tentativa fui mais feliz. Nesta altura já estava de novo de bota de caminhada, afim de ir embora logo, cansado mentalmente e fiquei incomodado em ter de fazer força em uma oposição. Sai em um jardim de altitude e logo vi o fim da via. Nada muito alegre. Ou me entubava em um uma fenda asquerosa com fundo falso ou me pendurava em um bico de pedra exposto, um boulderzão com o platô  lá embaixo e o visual de toda a parede (mais um cair e quicar é só começar?).

Com tudo isto, o bico ainda me pareceu menos ruim. Catei o dito com as duas mãos. Joguei o pezão pra cima e logo me vi engatando o joelho pra ver se parava em algo. E foi assim, me arrastando de joelho que cheguei ao fim da via. Ah, é claro, lá estava a plateia. Dois urubus me olhando com ar de désdem. “Estes humanos. Ô racinha desprezível”, deve ter pensado um deles pois logo saiu voando. “Esse um aí, magro do jeito que é não deve dar nem pra matar a fome”, deve ter pensado o outro.

E assim, exausto, de joelhos, frente a uma indiferente plateia de urubus, acabei esta audaciosa escalada em grande estilo.

 

Serenata para cordas

 

Depois que cheguei no cume da montanha enviei novamente mensagens no celular para mostrar que estava vivo e assim tentar tranqüilizar as pessoas sobre o que tinha feito. Infelizmente não sou divino e assim tive que manter duas pessoas preocupadas com meu destino. Com minhas escolhas felizes e infelizes, apenas para a eventualidade de que, se eu não fosse bem sucedido, alguém soubesse onde ir me procurar. Pessoas estas a quem eu peço desculpas agora.

Mais tarde recebi uma mensagem de retorno que me perguntava: “a liberdade pode ser assustadora Du Bois?” Na verdade a liberdade não me parece assustadora. Por uma graça divina recebemos o livre arbítrio e vivemos em uma época em que podemos usá-lo. Em nenhum momento nesta escalada eu senti que realmente estava para cair. Não senti que minha vida estava em perigo. Estava super treinado. Fiz todos os movimentos corretamente. Procurei ser digno da escalada que estava fazendo, mesmo sem cordas. Não senti medo, o que teria me destruído, só cansaço e desconforto em alguns momentos, porque obviamente a montanha não está lá para satisfazer minhas escolhas. Eu poderia simplesmente não ter nenhuma saída, nenhuma escolha bacana para fazer, nenhuma história para contar, aliás, nem voltar para contar.

Mas se não havia perigo, havia sim um risco enorme, então não gostaria que este relato se tornasse uma apologia à escalada solo, até porque eu próprio pretendo abandonar este tipo de escalada daqui por diante, afinal, levei 30 anos para produzir uma via inteira decente, em solo, de alto nível, o que mostra o quanto sou limitado como escalador, além do que na prática ela não serve para ninguém, nem mesmo para mim, pois não vale a pena alguém se arriscar para repeti-la, nem mesmo eu. É apenas uma ascensão, não uma via, como me disseram. Com isto ela acaba virando uma escalada narcisista, imagino que sem valor direto para o montanhismo, a não ser pela eventual experiência de domínio de risco transmitida pelo montanhista que a fez, a outras pessoas. No fundo o melhor era que ela fosse uma Serenata para Cordas (Tchaikovsky) e não uma Sonata ao Luar.

Sou um amante da liberdade, um dom divino e só me assustei com a possibilidade de fazer mal uso dela e, com isto, deixar pessoas que eu amo tristes. Por isto eu tive de ser humilde e fazer as escolhas corretas e não querer tentar ser melhor do que era apenas para contar uma história bonita. Mesmo bela, esta escalada é modesta e não se compara a uma criação magnífica, como uma sonata de Beethoven, que existe para a humanidade toda e não apenas para o compositor que a fez. Infelizmente esta minha Sonata ao Luar não tem o mesmo alcance universal da obra de Beethoven. Então espero apenas que esta história que eu contei sirva para as pessoas prestarem mais atenção naquilo que vale a pena na vida, como o amor, a beleza das obras clássicas, a liberdade ou o respeito pela montanha.

 

* A posteridade deu o apelido de Sonata ao Luar à Sonata para piano nº 2 em dó sustenido menor Opus 27, de Ludwig Van Beethoven (1770-1827), uma composição para piano solo da fase de mocidade deste compositor.

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Por Edson Struminski (Du Bois)

A exatidão

Gostaria de terminar esta minha análise do livro do escritor italiano Ítalo Calvino em que ele apresentou propostas para o novo milênio (1), imaginando que se houver um leitor, mesmo que somente um entre os tantos que passam por este blog diariamente, que eventualmente se torne uma pessoa interessada nas propostas de Calvino para aperfeiçoar a literatura e que enxergue nestas propostas uma estranha, ainda que possível fonte de diálogo com o montanhismo (e com possibilidade de aperfeiçoá-lo), então estes textos terão valido a pena ser escritos.

Quando argumenta a favor da exatidão, Calvino comenta de fato sobre aquela que é a ferramenta dele, a linguagem e que no entender deste escritor parece que vem sendo usada de modo aproximativo, casual, descuidado, com um automatismo que tende a nivelar a expressão em fórmulas genéricas, anônimas, abstratas, a diluir os significados, a embotar os pontos expressivos. É o caso, então de começarmos a observar se é isto o que estamos observando agora, em grande escala, no cruzamento do mundo da internet com o mundo da montanha.

Para Calvino não interessa indagar se as origens disto que ele identifica, de antemão, como uma epidemia (por esta escala planetária) devam ser pesquisadas na política, na ideologia, na uniformidade burocrática, na homogeneização dos mass-media ou na difusão acadêmica de uma cultura média. Para ele o que temos é uma mediocridade. Se formos usar a análise radical deste autor teríamos que nos perguntar se que o que vemos hoje no “meio literário” montanhês é de fato expressivo, ou são apenas lugares comuns. Será que nós temos mesmo bons escritores de montanha ou não? Será que estamos fazendo a nossa parte?

Como se não bastasse esta assustadora avaliação, Calvino lembra que vivemos também sob uma chuva ininterrupta de imagens, a mídia toda poderosa (e nós com a internet fazemos parte dela) não faz outra coisa senão transformar o mundo em imagens, multiplicando-o numa fantasmagoria de jogos de espelhos, imagens que são em grande parte destituídas da necessidade interna que deveria caracterizar toda imagem como forma e como significado, como força de impor-se à atenção, como riqueza de significados possíveis. Para ele, grande parte desta nuvem de imagens se dissolve imediatamente como os sonhos que não deixam traços na memória, mas o que não se dissolve é uma sensação de estranheza e mal-estar.

Mas, segundo Calvino, talvez a inconsistência e a falta de exatidão não esteja somente na linguagem e nas imagens, está no próprio mundo. O vírus ataca a vida das pessoas e a história das nações, torna as histórias informes, fortuitas, confusas, sem princípio nem fim, coisa que eu próprio já tive a oportunidade de constatar e comentar em artigos anteriores.

Para ele, a busca pela exatidão passa, então, pelo esforço das palavras para dar conta, com a maior precisão possível (minimalismo), do aspecto sensível das coisas. Assim, o justo emprego da linguagem é aquele que permite o aproximar-se das coisas (presentes ou ausentes) com discrição, atenção e cautela, respeitando o que as coisas (presentes ou ausentes) comunicam sem o recurso das palavras.

Para Calvino, a obra literária é uma destas mínimas porções nas quais o existente se cristaliza numa forma, adquire um sentido, que não é nem fixo nem definido, nem enrijecido numa imobilidade mineral, mas tão vivo quanto um organismo. Calvino dá a entender que as narrativas, quando tem esta vida, se tornam mais interessantes, visando antes à novidade, à originalidade, à invenção.

Talvez como grande ensinamento final do mestre Calvino a todos nós que gostamos de escrever sobre temas de montanha e para compensar o predomínio da imagem visual, fica a sugestão de que a busca de um equivalente às imagens aconteça no desenvolvimento coerente da impostação estilística inicial, até que pouco a pouco a escrita se torne a dona do campo e da imaginação dos leitores. Assim, nossa imaginação deverá estar a serviço do repertório potencial, do hipotético, de tudo quanto não é, nem foi e talvez não seja, mas que poderia ter sido.

Calvino nos lança esta pergunta. Quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Ele nos lembra, finalmente, que cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis, por isto, para ele, escrever vale à pena.

(1) CALVINO, I. Seis propostas para o próximo milênio. São Paulo, Companhia das Letras, 1994.

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