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Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Giacchin, o artesão

No fim dos anos 1980 eu estava escalando no Marumbi, quando fui apresentado a um rapaz que vinha do Rio Grande do Sul e queria aprender ou aperfeiçoar-se em “técnicas de escalada em solitário”.

Bom, o que significava para mim um “escalador do Rio Grande do Sul” em fins dos anos 1980? Por que aquele sujeito estava interessado em escaladas em solitário?

Desde fins dos anos 1970 o montanhismo vinha saindo de algumas décadas de estagnação no Paraná e, mais importante, se modernizando, com novas vias sendo abertas em livre, móvel e com uma graduação mais elevada. De algum modo eu percebia que minhas escaladas em solitário faziam parte deste movimento.

Porém, até então, era um movimento muito “endogâmico”, ou seja, estávamos mais preocupados com nosso umbigo, o que significava desenvolver um montanhismo com “cara própria”, tanto em relação à geração anterior de escaladores, que havia aberto vias em artificial ou chaminés, como em relação ao Rio de Janeiro, que era praticamente o único polo de escaladas que reconhecíamos no Brasil naquele momento.

Daí uma certa surpresa em relação a este escalador do Rio Grande do Sul, um lugar que, para mim, pelo menos, sequer tinha montanhas, quando muito “pedrinhas”. Eles eram “escaladores de barrancos”, segundo uma visão bairrista e preconceituosa que os escaladores antigos tinham nos passado.

No entanto, eu já sabia por experiência própria, que escalada em solitário, embora envolvesse técnicas e equipamentos, não se resumia a isto. Existia toda uma busca de autoconhecimento que motiva alguém a se aventurar sozinho em uma montanha ou parede rochosa e fiquei imaginando se aquele rapaz tinha esta motivação ou se ele estava realmente interessado apenas em detalhes de técnicas arriscadas, que não era algo que eu ensinaria a qualquer um.

O fato é que aquele escalador, João Giacchin, era o nome dele, não só vinha explorando estes barrancos, estas distantes plagas do Brasil, como estava fazendo isto em solitário, de forma autodidata, como um artesão que fazia de tudo: sonhava com suas vias, fabricava seus instrumentos, burilava suas escaladas como um escultor e, mais com isto, vinha criando um elo entre os escaladores antigos e os que iriam vir depois dele e mais, um elo entre os escaladores gaúchos, paranaenses, cariocas, brasileiros e mesmo europeus, de uma Europa para onde ele sonhava em migrar.

Com isto surgiu uma cumplicidade que resiste até hoje. Tempos depois do primeiro encontro era eu que estava no Rio Grande do Sul, andando ou escalando em arenitos, basaltos, conglomerados, rochas que sequer imaginava que podiam ser escaladas, em lugares, como Caçapava do Sul ou Bagé, no meio do pampa gaúcho, onde existiam pedras e vias fascinantes do Giacchin, que desafiavam a imaginação.

Então eu passei o pouco que eu sabia até então, fruto de alguma leitura e de minhas experiências em solitário para Giacchin e em troca ele, sem perceber, rompeu com meus preconceitos: “nada muda se você não mudar”, foi uma frase que ele fez questão de esculpir para mim em uma placa de madeira que tenho até hoje. Giacchin me apresentou um mundo novo e vasto a ser explorado, um mundo que apenas depois de longos anos de amadurecimento eu conheceria verdadeiramente e poderia usufruir e que existe na fronteira sul do Brasil, entre  os arenitos e conglomerados do norte do Uruguai e do sul do Rio Grande do Sul, fosse repetindo vias do próprio Giacchin, fosse abrindo vias novas.

Apesar da sua energia, a vida não era simples nem fácil pra ele no Brasil e para fugir das limitações do seu mundo, Giacchin migraria dali a algum tempo para a Europa onde vive até hoje. Em um momento pré-internet, as cartas que eu recebia dele, com imagens de lugares onde ele escalava na Espanha, Itália, Tchecoslováquia, Inglaterra, mostravam que ele, de alguma maneira, continuava indo além daqueles montes que ele conheceu por aqui, como no vídeo que ele produziu:

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Por Edson Struminski (Du Bois)

Após a conclusão da via do Caroço da Esfinge no Marumbi em 1987, eu me sentia, quando muito, como um sobrevivente dos meus próprios erros como montanhista, ainda que um sobrevivente seguro do que fazia. O fato é que no início de 1990 eu tinha aprendido o valor de coisas fundamentais para a escalada como o de uma alimentação adequada, do treinamento contínuo e dos duplos sistemas (estáticos e dinâmicos) de segurança para a escalada em solitário. Comecei a planejar melhor minhas escaladas e três palavras começaram a definir minha postura como montanhista: estratégia, tática e técnica.

Neste período também já havia feito duas viagens à Argentina e me sentia à vontade para experimentações em outros terrenos diferentes das paredes do Marumbi. Na verdade, apesar dos tão decantados mais de 100 anos de montanhismo paranaense, cuja comemoração eu havia assistido, na Serra do Mar deste Estado o fato mais concreto em 1990 e que segue sendo verdadeiro até hoje, é que existem algumas escaladas que são raramente repetidas, outras simplesmente não o são e segue sendo importante o número de paredes que ainda não foram escaladas.

Uma destas vias que recebe, talvez uma ou no máximo duas repetições por ano, é a via normal do pico Paraná (“Mar de Caratuvas). Eu já havia tentado a repetição com um grupo de amigos, cada um carregado com um imensa mochila para fazer o bivaque em um platô no meio da parede, como os conquistadores haviam sugerido, mas esta estratégia “pesada” revelou-se inadequada e voltamos sem que eu conhecesse mais do que 1/3 desta parede.

Minha próxima investida foi ultra leve. Uma mochila de assalto que tinha construído para meu próprio uso, material para um bivaque no pé da via, alimentação leve, água e um tênis de escalada com um saco de magnésio. Depois de uma madrugada úmida, subi solando a parede em 2 hs e 45 minutos e o tempo só não foi melhor porque tive de descer uma parte molhada e subir por outro lado, além de me perder no final. Na verdade esta via foi especial para mim exatamente pelo que ela teve de incomum, desescalar este trecho inicial e abrir esta variante de uns 100 metros ao final, o que incluiu uma inusitada passagem por um teto ao final de um diedro. Foi um momento em que eu tive de me reinventar como escalador.

Conseguir realizar esta escalada perigosa de forma segura, contra todas as probabilidades, me restituiu a confiança em mim mesmo como escalador. Na minha cabeça, então, o próximo passo seria ainda mais ambicioso, ou seja, “reinventar” a escalada de grandes paredes no Paraná, até então limitada a vias fixas em locais conhecidos como o Marumbi e a esta única via no Pico Paraná, na qual, eu praticamente havia “sobrado”.

Me aproximando dos 30 anos, na verdade eu estava começando a viver uma espécie de despertar para as potencialidades únicas de aventura em escalada que as montanhas paranaenses ofereciam, juntamente com um amadurecimento como esportista. Dentro deste amadurecimento, estava uma postura ética o mais naturalista possível em relação à escalada.

Para a minha sorte, naquele momento encontrei um parceiro que comungava com este tipo de pensamento, que era Tiaraju de Mesquita Fialho, um leitor fascinado de Messner e que tinha intuído que algumas das montanhas que existiam na Serra do Mar paranaense ofereciam dificuldades de acesso e de escalada tão grandes quanto os de alguma alta montanha desconhecida, o que fazia sentido pela ausência de trilhas ou acessos fáceis para muitas montanhas da região.

Juntamos esta ética naturalista com uma estratégia de expedições leves e rápidas. Isto significou acessar as montanhas sem abrir trilhas, subir as paredes sem usar grampos fixos, não deixar traços da passagem, escalar ou subir rápido e com o mínimo de material possível.

Não me recordo bem como esta parceria começou, mas o fato é que um belo dia estávamos na região do Pico Paraná, aos pés de uma bela montanha que existe ali, o Pico Ferraria e simplesmente passamos os dois seguintes dias se embrenhando pelas encostas verdes da face leste desta montanha, sem sequer se preocupar em abrir uma trilha, com uma inesquecível passagem por um canion que existe nesta face e com um igualmente memorável encontro com uma jararaca se aquecendo ao sol matinal a apenas 10 metros de onde dormimos.

Nossas próximas aventuras neste terreno pouco explorado da serra seriam ainda mais difíceis: a face leste do Pico Agudo do Cotia e a face norte do Pico Siririca. Nas minhas idas ao Marumbi eu vislumbrava de longe o Agudo do Cotia, uma montanha que parecia uma imensa proa de navio apontada para a planície litorânea, o que garantia um considerável desnível para este gigantesco bloco de granito. Quando em uma ida ao Lontra, montanha vizinha ao Cotia, com Tiaraju, olhei para aquela parede e sua subida me pareceu simplesmente uma ideia futurista. A parede do Siririca, então, me parecia algo mais distante ainda.

Mas passado pouco tempo era o que estávamos fazendo. Ambas as ascensões envolveram mais um parceiro (Júlio Cesar Nogueira da Luz) e a execução de miniexpedições complexas, com acesso exigindo dias de caminhada sem abrir trilha (aliás sequer levamos facão para isto), escaladas de mais de um dia em estilo alpino com bivaque na parede e em móvel e mais alguns dias de caminhada sem trilha até se chegar novamente a um local onde pudéssemos ser resgatados por um transporte. Foi um entrosamento impecável entre três parceiros, que sempre é difícil neste tipo de ambiente.

Estas duas escaladas foram um triunfo daquelas três palavras que comentei no início deste artigo: estratégia, tática e técnica. Isto considerando que apenas tínhamos uma estimativa de quanto tempo levaríamos para fazer estas ascensões junto com a travessia da serra nestes pontos, o que acabou envolvendo cinco dias nas montanhas.

Mais importante do que meras ascensões, estas escaladas (Ferraria, Pico Paraná, Cotia e Siririca) acabaram funcionando para mim como o encontro de uma identidade própria para o meu montanhismo. Eu finalmente estava me descolando das limitações de ser apenas mais um escalador no Marumbi e tinha achado um terreno próprio para me expressar, que era a escalada de aventura na Serra do Mar.

Volta e meia surge alguma lista sobre as escaladas mais difíceis do Brasil. Acredito que se estas vias fossem repetidas por alguma nova cordada, provavelmente iriam parar em alguma lista desta. O fato é que são vias desconhecidas e passados mais de vinte anos após suas aberturas, mantém o mesmo desafio de quando foram abertas.

Nos anos 1990 eu teria o privilégio de conhecer a meca dos paulistas, o conjunto da Pedra do Baú em São Bento do Sapucaí e ser um dos artífices de uma via importante, a Distraídos Venceremos, momento em que conviveria mais profundamente com dois personagens emblemáticos do montanhismo brasileiro: Bito Meyer e Eliseu Frechou. Também teria o privilégio de conhecer e escalar com um “príncipe das montanhas”, João Giachin, um autodidata dos conglomerados e arenitos gaúchos. Voltaria ainda aos Andes, tanto argentino como chileno, onde, além de abrir várias vias, conheceria um pouco da técnica rocha/gelo.

Minha paixão pelo montanhismo de aventura na Serra do Mar no Paraná continuaria forte no século XXI, com surpresas sensacionais reservadas para mim.

Face norte do Pico Siririca – Pr, após a travessia do vale do rio Cacatu, via de 1992. À esquerda, o Agudo do Cotia

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Por Edson Struminski (Du Bois)

Depois de um breve curso básico de escalada e de andanças pelo Nordeste do Brasil e pelo Rio de Janeiro, eu participaria, na metade da década de 1980, de uma revolução na escalada em rocha que aconteceria no morro Anhangava, a uns 30 km de Curitiba, capital paranaense e no Marumbi. A escalada se modernizaria e novas técnicas, materiais e novos conceitos éticos apareceriam. Era a escalada livre, que permitiria que um bando de garotos escaladores na faixa dos 20 anos, se sentisse importante e, portanto, encontrasse um sentido em ir para a montanha, que não fosse apenas repetir velhas escaladas das gerações anteriores.

A forma como as escaladas passaram a ser realizadas mudou. Não apenas a graduação (que tornou-se mais alta), mas o próprio desenho das vias, que tornaram-se mais sinuosas e adaptadas às nuances da rocha. Este tipo de escalada mais moderna trouxe uma enorme mudança filosófica em relação às escaladas das gerações anteriores, ao transformar a escalada de uma “conquista” da montanha, a qualquer custo (daí os paliteiros em artificial fixo), em uma “nova via”, com uma cara mais naturalista, onde “como fazer” era tão importante como “o que fazer”.

A chance de abrir vias nestas novas formas éticas teve, para mim, um profundo impacto psicológico, pois me deu a sensação de que, com treinamento e material adequado, tudo seria possível. Este sentido de superação, para um jovem na faixa dos 20 anos, era tremendamente embriagante, ainda que, naturalmente, fosse uma avaliação errônea.

Mas foi com este sentido de tudo ser possível que eu resolvi abrir minha primeira via na Esfinge, um dos grandes blocos rochosos que forma o Marumbi. A via se chamaria “Caroço da Esfinge” e este nome já tinha certa influência deste viés naturalista do montanhismo, afinal a pretensão da escalada era passar exatamente pela parte mais vistosa da Esfinge, um grande ressalto natural do granito, que tinha, de um lado, a ainda não escalada fenda Zero e do outro a Fenda 1, uma via das antigas. Entre as duas fendas uma parede, o Caroço, que exigiria técnicas e materiais diversificados.

Comecei a via em 1985, um pouco antes da chegada maciça dos primeiros calçados de escalada modernos (ou mesmo da fabricação destes calçados no Brasil). Então o Kichute turbinado com solado da borracha do colarinho de pneu de caminhão era ainda o que eu tinha de mais moderno para encarar as pedras, assim como as cordas de poliamida compradas em casas que vendiam material para camioneiros, ou as cadeirinhas de escalada, costurados com cintos de segurança de automóvel, arrebatados nos ferros-velhos. Ou seja, materiais extremamente toscos para uma parede daquele porte.

durante a abertura da via do Caroço, em 1985

Flagrante da abertura da via do Caroço, em 1985

Hoje eu reconheço que com 23 anos eu não estava nem um pouco maduro para abrir uma via de escalada no Marumbi, por conta daqueles equipamentos precários e, ainda mais, pelo porte daquela parede, a qual, ao final, se mostraria extremamente complexa e perigosa. Infelizmente, tampouco tinha companheiros maduros naquele momento para me orientar ou participar da via. A geração mais antiga era, naquele período, composta por escaladores muito velhos ou, quando muito, ultrapassados do ponto de vista das novas exigências que a escalada natural trazia. Já a geração mais nova, não só era inexperiente, como imatura, carecendo de objetivos montanhísticos, motivo pelo qual eu, com minha pretensão de abrir uma via de grande porte na Esfinge, virei motivo de chacota em uma reunião do clubinho de montanhismo que frequentava em 1985.

A tal reunião selou minha ruptura com as instituições de montanhismo do Paraná, que sempre me pareceram, a partir de então, extremamente formais, conservadoras e até mesmo retrógadas em relação à evolução do esporte. Enfim, uma impressão marcada pela minha experiência pessoal, embora, anos depois, a edição do guia de escalada do Marumbi pelo Xiquinho (José Luis Hartmann), tenha trazido evidências concretas a esta opinião. Na lista de escaladores que abriram vias no Marumbi, aparecem poucos ligados a clubes, a maioria é de escaladores “independentes”, a começar pelo próprio Xiquinho.

A via do Caroço acabou acontecendo em 3 “temporadas de escalada” ou 3 invernos. Em 1985 ainda tive alguns companheiros, irregulares, mas em 86 e 87 estava sozinho na montanha, com minha paixão inexplicável e determinada por aquela parede, com minha inexperiência, meus medos, minha ousadia, cometendo aqui e ali erros que por pura sorte não acabaram em tragédia para mim (ainda que tenham deixado sequelas, como, por exemplo, danos aos joelhos). Nenhuma escalada me transformou tanto. 1986 foi a temporada mais crítica. Com 23 anos acabei experimentado a possibilidade real de morrer pelo menos uma meia dúzia de vezes, em alguns casos por erros meus, o que foi muito chocante no momento em que me dei conta.

Porém, sobrevivi aos meus erros e em um dia qualquer do meio do ano de 1987 eu registrei em um diário de escalada que carregava comigo, que havia batido um último grampo e concluído a via da Esfinge. Alguma coisa como 300 metros de escalada que misturava um pouco de tudo: passagens em artificial, em livre, com grampos, em móvel, em fissura, em fenda, em parede, em agarras, em aderência, um pequeno teto, grandes transversais, enfim, uma espécie de sonho louco que acabei realizando.

Naquela última temporada (1987), já era outra pessoa, havia percebido que eu tinha que treinar mais regularmente, inclusive em algum muro urbano (muros de casas ou de praças, pois ainda não haviam muros de resina). Eu deveria também adotar uma alimentação mais adequada (fiz um curso de alimentação com um médico naturalista) para não ficar fraco e me acidentar na escalada. Durante as escaladas passei a adotar sistemas duplos de segurança (os quais eu acabaria aprendendo através da importação de livros de escalada, pois não tinha quem me ensinasse). Também percebi que tinha de ter equipamentos mais adequados inclusive para o bivaque, que seria, em último caso, minha casa na montanha em qualquer tempo e uma casa tinha que transmitir conforto e não ser uma continuação da dureza do dia a dia na parede, ou seja, tinha que dormir bem alimentado e seco. Com isto criei um rede bivaque ultra confortável para mim, um modelo que uso até hoje.

Experimentar a possibilidade real de morrer desenvolveu, em mim, uma espécie de sensibilidade apurada, uma intuição ou mesmo premonição para problemas (um sexto sentido), se preferirem. É algo inexplicável, uma sensação de que, em alguns momentos, a Esfinge se comunicava comigo e me avisava de que haveriam problemas, como em uma vez em que senti que havia algo com minha barraca, apenas ao olhar para o lugar onde estava escondida centenas de metros acima de mim (o vento havia arrancado ela do lugar) ou como em outra vez em que uma inexplicável sensação de alerta se apossou de mim durante a caminhada para o bivaque (havia um escorpião dentro do saco de dormir). A partir daí comecei a dar mais atenção a estes misteriosos avisos internos/externos.

Eu era outra pessoa também fora do mundo da montanha. Passar pela experiência de quase morte me fez dar mais valor à vida e ser mais crítico em relação à mediocridade humana. Afinal, se com apenas 20 e poucos anos uma pessoa podia morrer bestamente, por que não tratar, então, de aproveitar a vida que cada um de nós tinha “ganho” sem precisar passar por isto? Eu me perguntava por que se envolver com drogas, bebidas ou orgias estranhas como o pessoal fazia aos pés do Marumbi, ao invés de usufruir da montanha? A vida era muito curta para gastar com frivolidades, eu concluí.

Embora esta tenha sido uma experiência seminal na minha vida, eu nunca acharia respostas a muitas destas perguntas e na verdade nem procuraria. Estava mais preocupado em subir e fazer outras escaladas no Marumbi. Repeti as famosas fendas da Esfinge em solitário (vias das décadas de 1940 e 50) e posso dizer que mentalmente fiz as pazes com os escaladores desta época, pelo menos com os que realmente pegaram na ponta da corda para abrir estas vias. Abri, com parceiros, mais algumas vias na Esfinge, Ponta do Tigre, Abrolhos e repeti algumas belas vias, como a Los Encardidos na Torre dos Sinos, além de participar de uma trupe maluca que fez a primeira tirolesa (100m) entre Abrolhos e a própria Torre dos Sinos, a uns 300 metros do chão.

Com tudo isto posso dizer que o Marumbi foi uma incrível escola de montanha para mim. Acredito que qualquer um que dedique certo tempo às escaladas nas suas paredes provavelmente enfrentará vias e situações tão duras que se sentirá à vontade para escalar em grandes paredes em qualquer lugar do Brasil e mesmo fora daqui. Acredito que se sentirá também modificado pelo lugar de alguma maneira, como eu mesmo fui.

Para mim, porém, passada a paixão pelo Marumbi, surgiria uma nova paixão escaladorística a partir dos anos 1990: abrir vias em montanhas remotas da Serra do Mar.

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Por Edson Struminski (Du Bois)

Meus primeiros anos de montanhista, após fazer um “curso básico de escalada”, em 1979, cujos percalços e curiosidades contei em um post anterior (https://blogdodubois.wordpress.com/2014/08/19/na-montanha-ha-35-anos-atras-memoria-ocular-do-centenario-do-marumbi-e-outras-estorias/), foram marcados por uma brusca mudança na minha vida. No início da década de 1980, logo após concluir um curso técnico no ensino médio, passei em um concurso na Petrobrás e fui trabalhar em exploração de petróleo, em plataformas marítimas no Nordeste do Brasil. O regime de trabalho naquele momento, nestas plataformas marítimas, era de 15 dias embarcado, seguido de 15 dias de folga. Este tipo de trabalho se desenvolvia com muita precariedade naqueles anos (praticamente assisti a um acidente de trabalho por semana, inclusive comigo, além de pequenos incêndios, grande número de manobras perigosas com guindastes e outras coisas). Mas como lembrança positiva daquele período, ficou o aprendizado de coisas sobre o mundo naval que, de outra forma, dificilmente teria acesso apenas como turista.

Como bônus adicional, entendi também todo o sacrifício, inclusive dos trabalhadores, que envolvia extrair o precioso petróleo das profundezas do oceano e que, de forma tão displicente, as pessoas ainda hoje desperdiçam em infinitas embalagens plásticas, objetos descartáveis, queimando gasolina e com outras futilidades. Para mim representou, então, uma “escola de ecologia” ainda que usando o método “na própria pele”.

Afora minhas atribulações trabalhistas e nascentes preocupações ecológicas, os dias de folga eram bem aproveitados. Conheci pedaços das capitais e do interior de estados como Rio Grande do Norte, Sergipe e Bahia, incluindo algumas regiões de escarpas fora dos roteiros turísticos.

Também foi a chance de conhecer aquela que era, pelo menos naquele momento, a Meca da escalada em rocha no Brasil: o Rio de Janeiro, o que incluía, neste caso, escalar algumas vias das montanhas icônicas deste estado, como paredes em Itatiaia, o Dedo de Deus e as pedras urbanas cariocas, como Pão de Açúcar, Gávea, Dois Irmãos do Leblon, entre outras. Foi ainda uma oportunidade para conseguir equipamentos novos nacionais e importados, de uma rapaziada que fazia, naquele momento, um misto de contrabando (a importação era proibida) e confecção.

Em Itatiaia, o primeiro e mais emblemático parque nacional brasileiro, fui confrontado pela primeira vez, com a realidade falida das Unidades de Conservação. Um parque nacional maravilhoso praticamente abandonado, queimado periodicamente por vizinhos insatisfeitos, com gado solto, lixo largado por turistas em áreas naturais, refúgios de montanha abandonados, trilhas em petição de miséria, tudo isto contrastando com uma natureza deslumbrante e com um paradisíaco cenário para os escaladores de rocha, principalmente os urbanoides paulistas. O descaso era tanto, que na minha primeira ida a este grupo de montanhas, com limitado conhecimento da geografia local, já tive de realizar um resgate noturno de um grupo de 15 pessoas, o que serviu para me mostrar o perfil deste tipo de visitante e que segue, em sua maioria igual: desinformado, pouco habilidoso, descuidado e, até mesmo infelizmente, também mal agradecido quando você se dispunha a ajudar.

Resgates se tornariam, a partir de então, rotina na minha vida de montanhista. Em média, nos anos “bons”, uma pessoa resgatada por ano, nos “ruins” duas ou mais…

Se a alienação dos turistas combinava com a o marginalidade da conservação da natureza, naquele instante, no Rio, os Kichutes turbinados com solados da borracha do colarinho de pneu de caminhão, supra sumo da improvisada tecnologia tupiniquim (além de uns poucos calçados de escalada importados), proporcionavam maior aderência à rocha que as antiquadas botas rígidas que a velha guarda ainda usava e permitiam que um grupo de habilidosos escaladores jovens, vislumbrasse a oportunidade de praticar escaladas mais soltas, livre das amarras representadas pelo excesso de grampeação em vias (os artificiais fixos ou “paliteiros” de grampos). Era o florescimento de uma “escalada natural”, ou “livre” (free climbing). Para confrontar os escaladores adeptos dos métodos mais antigos, buscavam-se justificativas filosóficas em movimentos que vinham acontecendo na Europa e nos Estados Unidos desde o início da década de 1960, cujas marolas chegavam aqui, 20 anos depois.

Previsivelmente conflitos apareceram. Trechos artificiais de vias mais antigas passaram a ser feitos em livre e os grampos se revelavam inadequados ou mal posicionados para proporcionar proteção aos novos movimentos dos escaladores na pedra. Neste momento de transição, enquanto alguns mais habilidosos já ensaiavam balés na rocha e, com isto, arrancavam grampos sem maiores cerimônias (gerando uma tremenda batalha ética), o excesso de grampeação ainda era justificado pela ideia de que a escalada tinha de ser “democrática”, acessível a todos.

Manuais da época, que podiam ser comprados em livrarias cariocas, ainda mostravam uma tabela de “graduação de dificuldades de escalada” obsoleta. Após o 5o grau, hoje considerado uma graduação mediana, tinha-se, como passo seguinte, a escalada artificial com grampos e não o 6o, 7o ou o 8o grau em livre, como os novos escaladores de então propunham e que se tornou o padrão atual.

Para minha sorte, minhas habilidades nas rampas de aderências cariocas, mesmo com o tosquinho Kichute, garantiram minha “afiliação” praticamente automática a este novo movimento. Eu já estava saindo da Petrobrás por conta de um acidente de trabalho e, após alguns meses estava trabalhando na companhia de energia do Paraná (Copel), o que me levou ao Noroeste do Paraná, em uma época em que o desmatamento havia atingido seu auge na região, a ponto da erosão da “Terra Roxa” um fertilíssimo solo, levar a impressionantes cenários lunares, com voçorocas que ficaram famosas mundialmente (alguns destes buracos nunca foram recuperados, sendo transformados em aeroportos, avenidas ou estádios de futebol). Como cereja do bolo deste cenário, o governo federal acabou com o Parque Nacional de Sete Quedas, que abrigava o conjunto mais espetacular de cachoeiras que eu conheci, durante a inundação do lago da represa de Itaipu, a mais estrondosa obra do governo militar de então.

Depois de dois anos trabalhando em empresas (Petrobrás e Copel) que tinham, na época, remotas preocupações ambientais e que contribuíam com seus desperdícios, poluições e desmatamentos para criar cenários deprimentes, acabei abandonando uma eventual “carreira promissora” em qualquer uma destas empresas estatais e acabei voltando a Curitiba, com dinheiro no bolso suficiente para bancar minha decisão idealizada de me tornar engenheiro florestal e talvez, com isto, fazer algo pelas montanhas.

Neste período estavam sendo produzidos os primeiros protótipos de calçados de escalada nacionais no Paraná e minha geração simplesmente atropelou os artificiais da época sem maiores cerimônias e carimbou os primeiros graus elevados, principalmente no morro Anhangava, quintal dos escaladores curitibanos, que mais tarde seria homenageado com um tênis de escalada com seu nome.

Para mim, o Anhangava se converteria gradativamente em um laboratório para testes de técnicas e equipamentos que eu usaria, um pouco depois no Marumbi, uma montanha magnífica, mas que na metade dos anos 1980, ainda guardava um ranço de coisas velhas e enferrujadas. O Marumbi seria o próximo capítulo da minha vida de montanhista.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Uma miragem no Pampa

Por Edson Struminski

 

É madrugada na fronteira Brasil-Uruguai. Os faróis do carro iluminam a estrada vazia. Uma neblina fina se alterna com a geada fria nos campos. Miriam fotografa os primeiros e belos sinais do alvorecer do dia. Enquanto o sol nascente pinta cores maravilhosas e deslumbrantes no horizonte, Fabrício dorme o sono dos bebês no banco de trás e ronca feliz como um filhote de javali selvagem.

O objetivo meu e de meus companheiros de viagem é encontrar algo que pode ser uma miragem, brevemente avistada por mim e por Miriam, após nos perdermos na estrada quando voltávamos de uma viagem às Missões Guaranis, no norte do Rio Grande do Sul. Um bloco de pedra no meio da Campanha Gaúcha, em um ponto qualquer no trajeto entre as Missões e as cidades de Alegrete, Quaraí/Artigas (Uruguai) e Livramento, onde moramos.

Várias horas depois desta madrugada fria emborco o carro em uma estrada rural, supondo que a tal miragem está por ali. Logo em seguida começo a me amaldiçoar pelo fato de não ter pego coordenadas mais sólidas sobre aonde ir. Tateamos para lá e para cá e nada, apenas morros com pedregulhos sem graça, com a pastagem rala consumida pelas vacas.

Agora já são 10 horas da manhã e ainda estamos correndo atrás da miragem, ou mais exatamente, de uma camionete super modernosa conduzida por uma menina de uns 15 anos em uma outra estrada rural lamacenta. A menina é filha do dono de uma fazenda de onde, supostamente, pode-se chegar ao tal bloco de pedra, que deve estar escondido atrás de alguma curva da estrada.

A estrada não passa de um passeio na lama para estas camionetes modernas, mas é uma preocupação adicional para mim e para meu pequeno carrinho, por conta dos lamaçais traiçoeiros, buracos e outras armadilhas que exigem braço e habilidade para escapar. Porém, cada armadilha deixada pra trás representa uma preocupação para a volta…

Por fim o trajeto com o carro acaba. Uma grande planície encharcada se estende pela frente. Charcos se revezam com pântanos, com capinzais em meio a áreas úmidas e com arroz plantado em várzeas, o tipo de terreno que um ratão do banhado adora e eu particularmente, como montanhista, dificilmente gostaria de “curtir” e “compartilhar”, pois caminhar me atolando em molhadeira não é o meu esporte preferido.

A única coisa mais animadoura, por assim dizer, é que lá no fundo da planície aparece o tal cerro de pedra avermelhado. De longe não é muito motivador e começo a me perguntar se valeram as monótonas horas de carro, a madrugada fria, a estrada lamacenta, a falta de GPS e tudo o mais.

Mas não tenho muito tempo para divagar, a hora já está avançada e Fabrício, finalmente acordado do seu sono de bebê javali, já desapareceu na frente (na verdade, como ele nos conta depois, desapareceu porque caiu em uma vala de drenagem, o que deve ter sido bem estimulante). Passamos a próxima hora e meia nesta aproximação molhada, fria e exasperante, porém, aquilo que parecia um morrinho sem graça no início da caminhada, começa a ganhar corpo no final, o que nos dá certo ânimo. Os vinte e cinco metros de parede uniforme do início da caminhada parecem, agora, ter pelo menos o dobro. Aparecem fendas bem definidas de diversos tamanhos, tetos, paredes de diversas cores, com sombras e luzes.

Quando finalmente chegamos na vegetação da borda do morro, um emaranhado de cipós com espinhos, cactos, galhos, troncos, árvores e matacões de pedra formam um último obstáculo, porém de um tipo bem mais interessante, por assim dizer, de atravessar (pelo menos o chão não está encharcado). Para alguém com um mínimo de noção de biologia, fica claro que o cerro e seu entorno imediato são uma “ilha” de fauna e vegetação seca em meio a todo um vasto terreno úmido. Um fascinante refúgio.

Vamos caminhando até a rocha e recebo uma “ligação direta”, um verdadeiro choque: as paredes são maravilhosas! Automaticamente meus olhos dividem o que vejo em duas categorias: fissuras, fendas e chaminés de um lado e paredes (“placas” como se diz em espanhol) de outro. Nas primeiras vou perscrutando as possibilidades para as peças móveis que temos para encaixar. Nas segundas vou procurando chapeletas, mas é em vão, as paredes, pelo menos no trecho do cerro que andamos, estão limpas.

Bem, tenho que tomar uma decisão. Na volta teremos uma hora e meia de caminhada, depois quatro horas ou mais de automóvel. O lugar é desconhecido, cheio de espinhos, cactos e sei lá mais que tipo de animais (Miriam avistaria uma cobra mais tarde). Algumas paredes estão úmidas. Existem várias colmeias socadas em fendas, com abelhas agitadas em pleno inverno. Não há nenhuma trilha aparente, ou mesmo via de escalada aparente, aliás, sequer sabemos se há um caminho ou rapel para descer do cume, se é que alguém já subiu no tal cume, o que tornaria um eventual resgate muito complicado e já é quase meio dia…

Bem, neste trecho do relato tenho que parar um pouco para explicar para um eventual leitor leigo ou iniciante em montanhismo, como minha cabeça funciona nestas situações. Eu estou ali como o montanhista mais experiente do grupo, certamente poderei guiar uma via que escolher, mas, se decidir escalar, tomarei uma decisão que afetará, para o bem ou para o mal, pessoas de quem gosto muito, que são minhas companheiras, mais até do que de escalada, companheiras na vida.

Não basta apenas eu estar empolgado, escalar bem o grau tal, ser um cara seguro na pedra, encaixar direito as pecinhas na pedra ou assim por diante. Em lugares inóspitos como este em que estávamos, eu sou integralmente responsável pelos meus companheiros e meus companheiros são igualmente responsáveis por mim, tenho que respeitar as opiniões deles e, se, em algum momento, qualquer um deles me disser: “não escale hoje porque aqui pode acontecer algo imprevisto e as coisas podem se complicar” eu simplesmente terei de acatar esta opinião.

Bem, tudo isto foi, de certa forma pensado e ponderado durante nosso lanche. Já era meio dia e decidimos escalar, buscando uma via mais acessível (duas cordadas curtas), que pudesse nos levar ao cume e que permitisse que a gente conhecesse o lugar, vislumbrasse alguma trilha ou linha de rapel, que pudesse facilitar uma futura investida com mais tempo.

Separo as peças e encaro a primeira cordada, uma linha entre uma pequena torre e o cume principal, um misto de fenda, chaminé, parede e coisas variadas, com um belo crux em aderência em um micro-diedro, com direito a enganar uma colmeia zunindo acima. Depois que acaba esta cordada, um grande platô aparece após 20 metros e armo uma parada em móvel para Fabrício, que começa a subir com a mochila e nossas bugigangas. Na minha frente estudo uma linha de fenda dentro do bloco principal.

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Depois que Fabrício chega dou uma passeada pelo platô, mas as paredes adiante não se mostram amigáveis. Existe uma outra fenda vertical, porém com mais uma colmeia alojada (acho que o lugar faria a alegria dos apicultores), então volto a encarar a “nossa” fenda.

Faço um “trepa-pedra” até o topo da torre para visualizar esta possível segunda cordada, que é mais longa, a ponto de não conseguir se enxergar o final. Isto não chega a ser um problema, mas já vislumbro algumas dificuldades inquietantes. A principal é a proteção. Não é possível proteger com nenhuma peça móvel os primeiros 7 metros, com exceção de algo precário na base. Ao lado da fenda existem enormes, tentadoras e estranhas agarras, algumas, penso, possíveis de serem laçadas à moda antiga, com uma fita. É o que existe de melhor.

Estou um pouco inquieto, mas resolvo encarar esta fenda. Na minha cabeça fica girando um quebra-lingua como um mantra para reduzir a tensão: três tigres tristes no trigal, três  tristes tigres no trigal, três trigres tristes no trigal, …

Bem, agora estou nos primeiros metros da fenda. Lembram-se das agarras gigantes? Esqueçam-se delas, a rocha está em franca e risonha decomposição, praticamente está se convertendo em areia. Já as agarras menores são totalmente descartáveis. A alternativa foi mesmo se entubar mais ainda na fenda e usar buracos na rocha. Alguns metros tensos acima consigo laçar finalmente uma agarra gigante mais sólida e trato de buscar no meu estoque de truques montanhísticos, habilidades para escalar em um misto de fenda/parede arenosa, até encontrar uma rachadura com rocha realmente consistente, que me permitiu encaixar, finalmente, uma peça firme e forte. Fabrício, que acompanhou meu draminha, percebeu minha alegria e alívio.

A partir daí foi administrar a situação: quebrar o mínimo de agarras possível, derrubar a menor quantidade possível de pedras, perturbar o menor número de abelhas que eu encontrasse, encontrar novos lugares para encaixar as peças.

A via acabou de surpresa, quando praticamente tropecei no cume, saindo abruptamente da vertical para a horizontal. Como muitos cerros do pampa, avisto uma chapada plana com alguns matacões e vegetação arbustiva. Nenhum sinal de trilha, nenhum sinal de linha de rapel, pelo menos nada muito visível. Lagartixas agitadas e alguns ossos de animais caçados por aves de rapina são os únicos vestígios de movimento que encontramos por ali.

Fabricio sobe e fazemos nosso ritual costumeiro de cume: cumprimentos e fotos. É a oportunidade de tentar vislumbrar também um caminho de volta menos penoso até o carro, perdido lá adiante em meio a um mar de áreas úmidas.

O ritual é rápido e logo temos que criar uma via de rapel, usando o que existia de mais robusto por ali que são grandes jerivás.

Assim acabou a parte rochosa de nossa aventura. Sem uma trilha, sem um via cheia de chapas, sem um linha de rapel, sem vestígios da nossa passagem, sem saber direito como sair do lugar ou como voltar de novo. Miriam consegue avistar vários bichos como ela adora: ratões do banhado, tatus (o Fuleco, aquele um da copa do mundo), cobrinhas, aves. Uma aventura de montanhismo onde o que mais importou não foi fincar uma bandeira de posse e sim o prazer da descoberta de uma miragem no Pampa.

 

tres triges tristes

 

 

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Por Edson Struminski (Du Bois)

Escalar as paredes de basalto da serra gaúcha é uma espécie de desejo antigo. Pelo menos desde 1989, quando avistei pela primeira vez os cânions da região. Desde então eu imaginei o dia em que eu teria oportunidade de subir uma linha qualquer naquele grande universo representado por estas formações com cânions e torres de basalto,  tão diferentes do granito da serra do mar paranaense, que era a principal formação de montanhas que eu frequentava, na época.

Neste período em que estou morando aqui na fronteira com o Uruguai, minha atenção como montanhista voltou-se para objetivos, digamos, mais fronteiriços: as formações de arenito do norte do Uruguai e do sul do Brasil, as rochas conglomeradas da região de Bagé e Caçapava do Sul, ou mesmo as distantes, mas igualmente atrativas montanhas de granito ou migmatito da serra de Córdoba, na Argentina, como contei em um post anterior (https://blogdodubois.wordpress.com/2014/05/22/cordoba-em-abril/).

Depois de fuçar pelo Uruguai e principalmente, após esta viagem à Córdoba, algo como 16 hs de automóvel, percebi finalmente que não dava mais para ignorar a serra gaúcha e seus basaltos, a meras 6 a 7 hs na direção norte, ou seja, em direção ao Brasil. Junto de meus companheiros, Fabrício Domingues e  Miriam Chaudon, tratamos de buscar um feriado adequado (Corpus Christi), com tempo bom e montamos nossa ida para a atrativa região de Canela, no norte do Rio Grande do Sul, tendo como meta escalar no Pico da Canastra. Fomos munidos de tudo, croquis de estradas, de vias de escalada, de pacotes de bolacha para a viagem e de contatos com o pessoal montanhista da região, que fica a 100 km de Porto Alegre.

Agora que estou aqui, confortavelmente digitando este texto no computador posso dizer que tinha lá minhas reservas com o tal basalto, rocha que sempre me pareceu pouco sólida, pelas minhas experiências um pouco assustadoras nos cânions do Paraná, ou nos poucos locais onde algo semelhante aparecia nas montanhas paranaenses (diabásio), ou mesmo porque a lembrança que eu tinha guardado daquela remota visita de 1989 aos cânions gaúchos era muito fugaz pra me servir de referência.

Mas já estávamos a caminho, não dava mais para enrolar, até o meteograma dava tempo bom para a região, os bugios ainda não estavam roncando, então fomos…

A geada clareava os campos da região da Campanha Gaúcha. Depois de algumas horas de viagem o trânsito de Porto Alegre fluía pelos viadutos em direção à Serra Gaúcha. O Pico da Canastra só aparece praticamente no final deste trajeto todo, uma bela torre de basalto destacada do planalto por algum movimento tectônico. Só há acesso a partir de alguma escalada, um território, portanto, exclusivo para escaladores.

No fim deste primeiro dia de viagem, aproveitamos o resto do dia e fazemos um recorrido pelas bases das paredes. Aparecem alguns trechos de trilha frequentados, outros abandonados, mas com marcações ainda visíveis. Aqui e acolá grampos ou chapas marcando escaladas ou projetos. As paredes não são grandes, mas há umidade e vegetação abundante, bambus aos montes para se enroscar, um pequeno Marumbi, penso, de basalto.

Bem, no dia seguinte lá vamos nós experimentar o tal basalto da serra gaúcha, a aderência suspeita, a umidade resvaladiça, as fendas arredondadas, as pedras soltas. Eu me encordo para guiar, Miriam descola um local para produzir fotos privilegiadas e fica procurando Wally na parede com a lente zoom, Fabrício brinca de gato e rato com o Haul Bag, o Raul.

Fazemos a via normal, uma linha clássica, de baixa dificuldade, mas a tática que usamos em Córdoba de levar os equipamentos móveis mostra seu valor. Aqui e ali uma variante em uma fenda mais resistente, uma experimentação aqui, outra ali. O Pico da Canastra apresenta patamares, ou “degraus” e no último é onde, já descontraídos depois de fazer o cume, podemos voltar para passear mais com os móveis com mais liberdade, a ponto de entrar em outras paredes deste degrau e começar a sentir mais a dificuldade técnica do basalto.

À noite, o termômetro abaixo de zero, o calor do fogão à lenha, pinhões de aperitivo e uma comida suculenta. Aconchego e boas conversas com o pessoal do Refúgio da Canastra, onde somos bem recebidos.

No dia seguinte fazemos outra via, ou eu diria, um mix de vias na Canastra, uma mistura que envolve grampos, chapas, móveis, variantes aqui e ali, pelos caminhos que simplesmente nos pareciam mais atraentes. A dificuldade da escalada aumenta, 5o, 6o, 7o, mas também a beleza da parede e para mim, a sensação de finalmente estar em paz com o basalto, meus medos finalmente indo embora.

Destes dias no Pico da Canastra ficaram as lembranças das cores magníficas dos pores do sol, do frio que estimula à ação, da liberdade de ir e vir pela pedra, algo tão caro e, por vezes tão raro.

P1190843via no Pico da Canastra serra gaúcha

 

 

 

 

 

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