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Archive for agosto \26\UTC 2014

Por Edson Struminski (Du Bois)

Meus primeiros anos de montanhista, após fazer um “curso básico de escalada”, em 1979, cujos percalços e curiosidades contei em um post anterior (https://blogdodubois.wordpress.com/2014/08/19/na-montanha-ha-35-anos-atras-memoria-ocular-do-centenario-do-marumbi-e-outras-estorias/), foram marcados por uma brusca mudança na minha vida. No início da década de 1980, logo após concluir um curso técnico no ensino médio, passei em um concurso na Petrobrás e fui trabalhar em exploração de petróleo, em plataformas marítimas no Nordeste do Brasil. O regime de trabalho naquele momento, nestas plataformas marítimas, era de 15 dias embarcado, seguido de 15 dias de folga. Este tipo de trabalho se desenvolvia com muita precariedade naqueles anos (praticamente assisti a um acidente de trabalho por semana, inclusive comigo, além de pequenos incêndios, grande número de manobras perigosas com guindastes e outras coisas). Mas como lembrança positiva daquele período, ficou o aprendizado de coisas sobre o mundo naval que, de outra forma, dificilmente teria acesso apenas como turista.

Como bônus adicional, entendi também todo o sacrifício, inclusive dos trabalhadores, que envolvia extrair o precioso petróleo das profundezas do oceano e que, de forma tão displicente, as pessoas ainda hoje desperdiçam em infinitas embalagens plásticas, objetos descartáveis, queimando gasolina e com outras futilidades. Para mim representou, então, uma “escola de ecologia” ainda que usando o método “na própria pele”.

Afora minhas atribulações trabalhistas e nascentes preocupações ecológicas, os dias de folga eram bem aproveitados. Conheci pedaços das capitais e do interior de estados como Rio Grande do Norte, Sergipe e Bahia, incluindo algumas regiões de escarpas fora dos roteiros turísticos.

Também foi a chance de conhecer aquela que era, pelo menos naquele momento, a Meca da escalada em rocha no Brasil: o Rio de Janeiro, o que incluía, neste caso, escalar algumas vias das montanhas icônicas deste estado, como paredes em Itatiaia, o Dedo de Deus e as pedras urbanas cariocas, como Pão de Açúcar, Gávea, Dois Irmãos do Leblon, entre outras. Foi ainda uma oportunidade para conseguir equipamentos novos nacionais e importados, de uma rapaziada que fazia, naquele momento, um misto de contrabando (a importação era proibida) e confecção.

Em Itatiaia, o primeiro e mais emblemático parque nacional brasileiro, fui confrontado pela primeira vez, com a realidade falida das Unidades de Conservação. Um parque nacional maravilhoso praticamente abandonado, queimado periodicamente por vizinhos insatisfeitos, com gado solto, lixo largado por turistas em áreas naturais, refúgios de montanha abandonados, trilhas em petição de miséria, tudo isto contrastando com uma natureza deslumbrante e com um paradisíaco cenário para os escaladores de rocha, principalmente os urbanoides paulistas. O descaso era tanto, que na minha primeira ida a este grupo de montanhas, com limitado conhecimento da geografia local, já tive de realizar um resgate noturno de um grupo de 15 pessoas, o que serviu para me mostrar o perfil deste tipo de visitante e que segue, em sua maioria igual: desinformado, pouco habilidoso, descuidado e, até mesmo infelizmente, também mal agradecido quando você se dispunha a ajudar.

Resgates se tornariam, a partir de então, rotina na minha vida de montanhista. Em média, nos anos “bons”, uma pessoa resgatada por ano, nos “ruins” duas ou mais…

Se a alienação dos turistas combinava com a o marginalidade da conservação da natureza, naquele instante, no Rio, os Kichutes turbinados com solados da borracha do colarinho de pneu de caminhão, supra sumo da improvisada tecnologia tupiniquim (além de uns poucos calçados de escalada importados), proporcionavam maior aderência à rocha que as antiquadas botas rígidas que a velha guarda ainda usava e permitiam que um grupo de habilidosos escaladores jovens, vislumbrasse a oportunidade de praticar escaladas mais soltas, livre das amarras representadas pelo excesso de grampeação em vias (os artificiais fixos ou “paliteiros” de grampos). Era o florescimento de uma “escalada natural”, ou “livre” (free climbing). Para confrontar os escaladores adeptos dos métodos mais antigos, buscavam-se justificativas filosóficas em movimentos que vinham acontecendo na Europa e nos Estados Unidos desde o início da década de 1960, cujas marolas chegavam aqui, 20 anos depois.

Previsivelmente conflitos apareceram. Trechos artificiais de vias mais antigas passaram a ser feitos em livre e os grampos se revelavam inadequados ou mal posicionados para proporcionar proteção aos novos movimentos dos escaladores na pedra. Neste momento de transição, enquanto alguns mais habilidosos já ensaiavam balés na rocha e, com isto, arrancavam grampos sem maiores cerimônias (gerando uma tremenda batalha ética), o excesso de grampeação ainda era justificado pela ideia de que a escalada tinha de ser “democrática”, acessível a todos.

Manuais da época, que podiam ser comprados em livrarias cariocas, ainda mostravam uma tabela de “graduação de dificuldades de escalada” obsoleta. Após o 5o grau, hoje considerado uma graduação mediana, tinha-se, como passo seguinte, a escalada artificial com grampos e não o 6o, 7o ou o 8o grau em livre, como os novos escaladores de então propunham e que se tornou o padrão atual.

Para minha sorte, minhas habilidades nas rampas de aderências cariocas, mesmo com o tosquinho Kichute, garantiram minha “afiliação” praticamente automática a este novo movimento. Eu já estava saindo da Petrobrás por conta de um acidente de trabalho e, após alguns meses estava trabalhando na companhia de energia do Paraná (Copel), o que me levou ao Noroeste do Paraná, em uma época em que o desmatamento havia atingido seu auge na região, a ponto da erosão da “Terra Roxa” um fertilíssimo solo, levar a impressionantes cenários lunares, com voçorocas que ficaram famosas mundialmente (alguns destes buracos nunca foram recuperados, sendo transformados em aeroportos, avenidas ou estádios de futebol). Como cereja do bolo deste cenário, o governo federal acabou com o Parque Nacional de Sete Quedas, que abrigava o conjunto mais espetacular de cachoeiras que eu conheci, durante a inundação do lago da represa de Itaipu, a mais estrondosa obra do governo militar de então.

Depois de dois anos trabalhando em empresas (Petrobrás e Copel) que tinham, na época, remotas preocupações ambientais e que contribuíam com seus desperdícios, poluições e desmatamentos para criar cenários deprimentes, acabei abandonando uma eventual “carreira promissora” em qualquer uma destas empresas estatais e acabei voltando a Curitiba, com dinheiro no bolso suficiente para bancar minha decisão idealizada de me tornar engenheiro florestal e talvez, com isto, fazer algo pelas montanhas.

Neste período estavam sendo produzidos os primeiros protótipos de calçados de escalada nacionais no Paraná e minha geração simplesmente atropelou os artificiais da época sem maiores cerimônias e carimbou os primeiros graus elevados, principalmente no morro Anhangava, quintal dos escaladores curitibanos, que mais tarde seria homenageado com um tênis de escalada com seu nome.

Para mim, o Anhangava se converteria gradativamente em um laboratório para testes de técnicas e equipamentos que eu usaria, um pouco depois no Marumbi, uma montanha magnífica, mas que na metade dos anos 1980, ainda guardava um ranço de coisas velhas e enferrujadas. O Marumbi seria o próximo capítulo da minha vida de montanhista.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Por Edson Struminski (Du Bois)

Era o dia 21 de agosto de 1979 e o trem de passageiros descia chacoalhando pela estrada de ferro que liga Curitiba a Paranaguá. Eu tinha 16 para 17 anos. Estava viajando no meio de um grupo que incluía minha irmã, minha prima e mais alguns amigos. Não conhecia aquela ferrovia e, até então, a Serra do Mar no Paraná era apenas uma imagem vista através da hermética janela do carro quando ia com meus pais até o litoral. Então, aquele passeio na ferrovia era pura novidade: o trem azul, a paisagem com suas cores e cheiros, o verde da serra, os túneis, as cachoeiras e o Marumbi, a principal montanha daquele trajeto.
Na pequena estação ferroviária do Marumbi o trem fez uma parada. Saltou um punhado de gente dos vagões e uma pequena aglomeração logo se formou. Vi algumas pessoas carregadas como se fossem subir ao Everest e que logo iriam estar bebendo e desmoronando em alguma barraca, montada na primeira clareira que achassem. Havia um punhado de andarilhos que iriam subir algumas das trilhas do lugar. Vislumbrei rapidamente alguém ostentando uma corda na mochila, mas nada de muito especial.
Como outros grupos, subimos aquela que era tida como a trilha principal, um trajeto horroroso na verdade. Íngreme, cheio de pedras soltas, correntes escorregadias, vegetação meio despencando pelo peso das pessoas que passavam antes. Apesar disso, como o tempo estava bom e o dia agradável, acabei andando rápido. Depois de algum tempo cheguei a me adiantar ao meu grupo, mas isto não chegou a ser um problema, pois havia muita gente nesta trilha, subindo e descendo. Logo passei mais um grupinho e outro e outro…
Não sei a que horas cheguei ao cume de uma montanha, o cume do tal “Marumbi”. Já existiam várias pessoas espalhadas lá por cima. Vi que era um belo cume, de onde avistava várias outras montanhas da serra, cidades ao longe, estradas. O visual era realmente surpreendente e até empolgante para um adolescente tímido. Dali a algo como meia hora apareceu o grupo onde estavam minha irmã e minha prima, que ficou animada para descer de corda com um grupo que me pareceu, naquele momento, apenas um bando de exibicionistas.
O pessoal ficou ali fazendo macaquices com a corda até a hora de descer. Lá embaixo, na estação de trem, ganhei um papel simples, mas bonito, comemorativo de um tal “Centenário da Conquista do Marumbi”, algo que para mim não fazia muito sentido. Até aquele momento eu sequer sabia que estava no meio de uma comemoração.
Dias depois recebi um telefonema de alguém daquele grupo que foi comigo ao Marumbi, que disse que iria acontecer uma reunião em um “clube de montanhismo”. Com isto, o mesmo grupinho de adolescentes que subiu o Marumbi acabou se encontrando em uma garagem no bairro Prado Velho em Curitiba para a tal reunião. Reconheci o pessoal exibicionista das cordas do Marumbi que, na verdade, tinha armado o cirquinho no cume da montanha com boa intenção, ou seja arrecadar gente para um curso básico de montanhismo, o que aparentemente deu certo no nosso caso. Saí de lá embarcado no tal curso, com a providência de comprar meu primeiro calçado de escalada, um grotesco tênis da marca Kichute e alguns apetrechos que me permitissem acampar, como uma mochila de lona, um saco de dormir forrado de algodão e outras bugigangas.
O tal curso básico, aconteceu no morro Anhangava, um morro da Serra do Mar próximo a Curitiba, que na época era cheio de pedreiras e horrivelmente queimado e pelo qual eu futuramente me apaixonaria a ponto de construir a minha casa. Naturalmente, o cursinho foi o mais tosco possível. Nós básicos, algumas vias fáceis, seguidas de “simulações de quedas” e aprendizado de umas duas “técnicas de rapel”. Não havia cadeirinha de escalada, então o encordamento era feito diretamente com a corda no corpo. A corda era de poliamida, comprada em casas de camioneiros. Praticamente só usávamos mosquetões de aço, pois os feitos com ligas leves eram desconhecidos, raros ou muito caros. Na falta da cadeirinha, o rapel também era feito “no couro”, a corda laçando o corpo todo, ou como suprema concessão, usavam-se cordeletes para fabricar uma cadeirinha para a descida, que permitia um rapel menos sofrido. Um pedaço de cano de alumínio era encaixado em algum mosquetão e usado para deslizar na corda. Este sistema (magnone) fazia com que o rapel se tornasse muito rápido e algumas mãos foram queimadas nesta brincadeira. A própria segurança do segundo da cordada também era feita assim. O fato é que esta tosqueira toda foi extremamente empolgante e me vi fisgado pelo vírus da escalada.
Também fazia parte do ritual deste curso básico o iniciante ganhar um apelido logo de cara. Uma frase dita pelo novato, um adereço de roupa, uma característica física, qualquer coisa, era suficiente para alguém ganhar uma alcunha. No meu caso tive sorte, ganhei um apelido em francês que seria quase uma premonição a respeito da minha futura profissão (Du Bois, que significa “da floresta” ou “da madeira”) e depois ouviria lendas sobre o surgimento deste apelido que nem sei se são verdadeiras.
Os alunos um pouco mais habilidosos ganhavam um tutor particular para avançar no mundo da escalada, o que significava aulas no Marumbi, em algumas das vias tradicionais (que em 1979 já eram um verdadeiro museu a céu aberto, mas altamente desafiadoras) e suprema glória, acompanhar algum dos tutores na abertura de alguma via nova em algum lugar.
Como aparentemente eu era um destes alunos habilidosos, apesar dos meus escassos 50 e poucos quilos e, apesar das galhofas (hoje chamaríamos de bulling), por conta da minha magreza, logo me vi bufando nas trilhas do Marumbi, dando segurança para alguém e batendo algum grampo ou rebite de forma tosca e arriscada em algum lugar da serra.

Maria Fumaça, via aberta no morro Anhangava em 1981, com Ivan Veríssimo, foto Simone Struminski

Eu não tinha muita noção naquele primeiro momento, mas o fato é que o montanhismo paranaense vivia, naqueles anos, um período de renascimento depois de uma longa e arrastada decadência e aqueles poucos novatos e mais alguns “veteranos”, apenas um pouco mais velhos que nós, representavam um esforço no sentido de modernizar o esporte no Paraná.
Na cidade onde morava na época (Curitiba), falar em montanhismo era o mesmo que falar em Marte, algo distante e sem maiores referências no mundo real. Rapidamente devorei as publicações disponíveis sobre escaladas ou montanhismo na Biblioteca Pública do Paraná, que incluía pérolas como história sobre a Via dos Austríacos (um artificial no Rio de Janeiro), publicada na falecida revista Manchete, alguma coisa primeiromundista sobre paraísos de escaladas norte americanos ou matérias de personagens que ainda refletiam no mundo alpino como o italiano Walter Bonatti, ou o andinista Domingos Giobbi (do Clube Alpino Paulista). Lembro-me de ter lido também uma matéria sobre um acidente espantoso que ainda assombrava a comunidade montanhista brasileira, a morte de uma escaladora (Marizel), asfixiada pelo tal encordoamento de corpo após uma queda na travessia dos Olhos do Imperador, na Pedra da Gávea, em 1975. Quanto aos livros, a publicação mais espetacular disponível era La montagne, um livro de 1956 de Maurice Herzog, um personagem que, na época, eu sequer imaginava a importância que tinha no montanhismo mundial.
Sem muita coisa para ler, com material escasso ou raro e poucas vias, o jeito era improvisar. Não só canos viravam aparelhos de rapel, como pedaços de antena de tv viravam estribos. Kichutes eram “envenenados” com sola de colarinho de pneu de caminhão para melhor a aderência e cadeirinhas eram feitas com cintos de segurança comprados em ferro velhos, um local, aliás, que era uma mina para a busca de materiais para “novos” equipamentos. A criatividade dos escaladores da época não tinha limites e esta carência deu origem às primeiras confecções e oficinas de montanhismo, algumas com marcas ainda hoje no mercado.
Este primeiro momento da minha vida de montanhista durou uns dois anos. Aprendizado, improvisações, passeios, ideias mirabolantes. Metade do tempo estávamos brincando, com coisas inacreditáveis como guerras de lama na montanha, enfim, algo que seria de se imaginar entre um bando de moleques, mas que, entre as brincadeiras, estavam descobrindo as montanhas, sem muitas regras ou parâmetros. Um bando de guris felizes soltos na Serra do Mar.
A minha fase seguinte na montanha seria igualmente fascinante: viveria o florescimento da escalada natural, mas isto é outra estória….

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Uruguai Vertical

Por Edson Struminski

Fronteras que nos unem y límites que nos separan” é um livro do sociólogo Enrique Mazzei que repousa na estante e que fala um pouco das boas coisas e das vicissitudes em viver na região da fronteira Brasil-Uruguai.

No mundo do montanhismo percebi, ao longo do tempo, que limite é uma linha que separa algo e que subentende uma série de formalidades, regras, exigências, controles ou até disputas, muitas vezes estéreis, que são realizadas entre os montanhistas, ou seja, os limites impostos por outros montanhistas não serviram para me unir a eles, ou sequer para melhorar o meu montanhismo, ao passo que toda vez que um montanhista me mostrou uma fronteira, isto significou uma região ao redor do limite, uma área à frente, de transição ou experimentação entre ideias, valores morais e éticos, onde a escalada precisa ser mais criativa e solidária …

Nestes 35 anos que completo em 2014 praticando montanhismo, me defrontei com ambos, fronteiras e limites, espaços e linhas indefinidos ou bem marcados, tanto pelo ego e pela vaidade humana, como pela generosidade e boa vontade das pessoas.

Aqui neste lugar onde estou vivendo, no sul do Brasil, na divisa com o Uruguai e com a Argentina, me defrontei com um duplo sentido de fronteira e de limite. De um lado o limite formal entre estes países, que exigem registros migratórios, cobram taxas, fazem restrições alfandegárias e monetárias ou pedem outras formalidades, toda vez que eu e meus companheiros buscamos explorar as pedras que estão dentro de uma “fronteira geográfica” onde estão as montanhas que nos interessam.

De outro lado limites criados por outros montanhistas ou escaladores no Brasil, Uruguai ou Argentina, todos ciosos em regular e manter sob controle seus pequenos espaços de escalada, através de seus grampos, chapas, trilhas ou regras enquanto expandíamos as fronteiras da nossa imaginação montanhística, ou seja, muitas vezes vimos serem criados limites para separar os escaladores em grupos e não ações para uni-los, como em uma fronteira amiga.

Com isto, o que me surpreendeu foi o improvável Uruguai. Até não muito tempo atrás a ideia que eu fazia deste país vizinho do Brasil era a de uma grande e monótona planície, com campos a perder de vista, onde seria mais fácil enxergar uma vaca que uma pessoa, onde existia uma grande e velha cidade, Montevidéu, cheia de carros antigos, um balneário badalado, Punta del Leste, usado por estrangeiros e pronto. Visões estereotipadas é verdade, construídas pela nossa falta de informações sobre a natureza e o povo deste país.

O norte do Uruguai acabou se revelando uma “frontera amiga” no sentido humano e na escalada. Descendo pela traquila Ruta 5, uma estrada que vai de Rivera a Montevidéu e que é uma continuação da BR 158, que vem de Porto Alegre e apenas uma hora após atravessar o limite entre os dois países, surgem, em meio a reflorestamentos de eucalipto e ao bucolismo rural da paisagem, vários cerros de arenito, formando grandes mesetas ou torres de pedra com paredes verticais repletas de fendas, rachaduras, tetos, diedros e outras formações que estavam ali, esperando a criatividade exploratória de algum escalador que se dispusesse a testar as possibilidades que estas rochas oferecem.

Estas formações rochosas formam continuidade com outras existentes no lado brasileiro da fronteira. Já tive a oportunidade, por exemplo, de contar aqui um pouco da aventura da abertura de vias no Cerro Palomas, no município de Santana de Livramento (RS).

Os principais locais de escalada que encontramos (eu, Miriam Chaudon e Fabrício Domingues) estão próximos à pequena vila de Minas de Corrales, um pouco antes da cidade de Tacuarembó. São comuns as paredes abruptas e mesetas isoladas, que mudam totalmente a paisagem da região. Alguns destes cerros como o Miriñaque, o Cuñapiru, o Cerro do Meio, o Batovi e algumas “cuestas” ao redor são repletos de fendas e fissuras, que proporcionaram a abertura de vias em móvel ou, eventualmente, com corda de cima, de uma maneira mais leve e rápida, algo bom para nós e para o lugar.

Como uma pequena metáfora deste país, as paredes são modestas e curtas, mas a beleza da paisagem dos campos altos, a tranquilidade do meio rural e a boa recepção das pessoas foi sempre um grande atrativo para voltarmos. Do ponto de vista da escalada, as vias demonstraram ser bem verticais, percorrendo uma rocha de boa qualidade, assim as escaladas foram atraentes o suficiente para justificar algumas viagens para quem mora do lado brasileiro, pois invariavelmente pudemos abrir um punhado de escaladas novas a cada passeio. Existe a possibilidade de uso de vários tipos de equipamentos móveis, desde os mais tradicionais como os nuts, até os mais elaborados, como os diferentes tipos de friends, o que significou um exercício mental muito produtivo para se criarem escaladas limpas.

Em um sentido mais amplo, a cada viagem estivemos reconhecendo o que existia de comum entre nós e a língua, usos e costumes das pessoas neste pedaço do Uruguai. Entre a natureza e a paisagem desta região e aquela onde estamos vivendo. Assim, ao subir estes cerros e abrir vias no Brasil e no Uruguai de forma semelhante, acabamos por ampliar, de uma forma bem particular, um pouco mais o sentido de “fronteira” que esta região possui e, com isto, nos sentindo mais unidos a ela.

 

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