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Archive for julho \30\UTC 2014

Uma miragem no Pampa

Por Edson Struminski

 

É madrugada na fronteira Brasil-Uruguai. Os faróis do carro iluminam a estrada vazia. Uma neblina fina se alterna com a geada fria nos campos. Miriam fotografa os primeiros e belos sinais do alvorecer do dia. Enquanto o sol nascente pinta cores maravilhosas e deslumbrantes no horizonte, Fabrício dorme o sono dos bebês no banco de trás e ronca feliz como um filhote de javali selvagem.

O objetivo meu e de meus companheiros de viagem é encontrar algo que pode ser uma miragem, brevemente avistada por mim e por Miriam, após nos perdermos na estrada quando voltávamos de uma viagem às Missões Guaranis, no norte do Rio Grande do Sul. Um bloco de pedra no meio da Campanha Gaúcha, em um ponto qualquer no trajeto entre as Missões e as cidades de Alegrete, Quaraí/Artigas (Uruguai) e Livramento, onde moramos.

Várias horas depois desta madrugada fria emborco o carro em uma estrada rural, supondo que a tal miragem está por ali. Logo em seguida começo a me amaldiçoar pelo fato de não ter pego coordenadas mais sólidas sobre aonde ir. Tateamos para lá e para cá e nada, apenas morros com pedregulhos sem graça, com a pastagem rala consumida pelas vacas.

Agora já são 10 horas da manhã e ainda estamos correndo atrás da miragem, ou mais exatamente, de uma camionete super modernosa conduzida por uma menina de uns 15 anos em uma outra estrada rural lamacenta. A menina é filha do dono de uma fazenda de onde, supostamente, pode-se chegar ao tal bloco de pedra, que deve estar escondido atrás de alguma curva da estrada.

A estrada não passa de um passeio na lama para estas camionetes modernas, mas é uma preocupação adicional para mim e para meu pequeno carrinho, por conta dos lamaçais traiçoeiros, buracos e outras armadilhas que exigem braço e habilidade para escapar. Porém, cada armadilha deixada pra trás representa uma preocupação para a volta…

Por fim o trajeto com o carro acaba. Uma grande planície encharcada se estende pela frente. Charcos se revezam com pântanos, com capinzais em meio a áreas úmidas e com arroz plantado em várzeas, o tipo de terreno que um ratão do banhado adora e eu particularmente, como montanhista, dificilmente gostaria de “curtir” e “compartilhar”, pois caminhar me atolando em molhadeira não é o meu esporte preferido.

A única coisa mais animadoura, por assim dizer, é que lá no fundo da planície aparece o tal cerro de pedra avermelhado. De longe não é muito motivador e começo a me perguntar se valeram as monótonas horas de carro, a madrugada fria, a estrada lamacenta, a falta de GPS e tudo o mais.

Mas não tenho muito tempo para divagar, a hora já está avançada e Fabrício, finalmente acordado do seu sono de bebê javali, já desapareceu na frente (na verdade, como ele nos conta depois, desapareceu porque caiu em uma vala de drenagem, o que deve ter sido bem estimulante). Passamos a próxima hora e meia nesta aproximação molhada, fria e exasperante, porém, aquilo que parecia um morrinho sem graça no início da caminhada, começa a ganhar corpo no final, o que nos dá certo ânimo. Os vinte e cinco metros de parede uniforme do início da caminhada parecem, agora, ter pelo menos o dobro. Aparecem fendas bem definidas de diversos tamanhos, tetos, paredes de diversas cores, com sombras e luzes.

Quando finalmente chegamos na vegetação da borda do morro, um emaranhado de cipós com espinhos, cactos, galhos, troncos, árvores e matacões de pedra formam um último obstáculo, porém de um tipo bem mais interessante, por assim dizer, de atravessar (pelo menos o chão não está encharcado). Para alguém com um mínimo de noção de biologia, fica claro que o cerro e seu entorno imediato são uma “ilha” de fauna e vegetação seca em meio a todo um vasto terreno úmido. Um fascinante refúgio.

Vamos caminhando até a rocha e recebo uma “ligação direta”, um verdadeiro choque: as paredes são maravilhosas! Automaticamente meus olhos dividem o que vejo em duas categorias: fissuras, fendas e chaminés de um lado e paredes (“placas” como se diz em espanhol) de outro. Nas primeiras vou perscrutando as possibilidades para as peças móveis que temos para encaixar. Nas segundas vou procurando chapeletas, mas é em vão, as paredes, pelo menos no trecho do cerro que andamos, estão limpas.

Bem, tenho que tomar uma decisão. Na volta teremos uma hora e meia de caminhada, depois quatro horas ou mais de automóvel. O lugar é desconhecido, cheio de espinhos, cactos e sei lá mais que tipo de animais (Miriam avistaria uma cobra mais tarde). Algumas paredes estão úmidas. Existem várias colmeias socadas em fendas, com abelhas agitadas em pleno inverno. Não há nenhuma trilha aparente, ou mesmo via de escalada aparente, aliás, sequer sabemos se há um caminho ou rapel para descer do cume, se é que alguém já subiu no tal cume, o que tornaria um eventual resgate muito complicado e já é quase meio dia…

Bem, neste trecho do relato tenho que parar um pouco para explicar para um eventual leitor leigo ou iniciante em montanhismo, como minha cabeça funciona nestas situações. Eu estou ali como o montanhista mais experiente do grupo, certamente poderei guiar uma via que escolher, mas, se decidir escalar, tomarei uma decisão que afetará, para o bem ou para o mal, pessoas de quem gosto muito, que são minhas companheiras, mais até do que de escalada, companheiras na vida.

Não basta apenas eu estar empolgado, escalar bem o grau tal, ser um cara seguro na pedra, encaixar direito as pecinhas na pedra ou assim por diante. Em lugares inóspitos como este em que estávamos, eu sou integralmente responsável pelos meus companheiros e meus companheiros são igualmente responsáveis por mim, tenho que respeitar as opiniões deles e, se, em algum momento, qualquer um deles me disser: “não escale hoje porque aqui pode acontecer algo imprevisto e as coisas podem se complicar” eu simplesmente terei de acatar esta opinião.

Bem, tudo isto foi, de certa forma pensado e ponderado durante nosso lanche. Já era meio dia e decidimos escalar, buscando uma via mais acessível (duas cordadas curtas), que pudesse nos levar ao cume e que permitisse que a gente conhecesse o lugar, vislumbrasse alguma trilha ou linha de rapel, que pudesse facilitar uma futura investida com mais tempo.

Separo as peças e encaro a primeira cordada, uma linha entre uma pequena torre e o cume principal, um misto de fenda, chaminé, parede e coisas variadas, com um belo crux em aderência em um micro-diedro, com direito a enganar uma colmeia zunindo acima. Depois que acaba esta cordada, um grande platô aparece após 20 metros e armo uma parada em móvel para Fabrício, que começa a subir com a mochila e nossas bugigangas. Na minha frente estudo uma linha de fenda dentro do bloco principal.

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Depois que Fabrício chega dou uma passeada pelo platô, mas as paredes adiante não se mostram amigáveis. Existe uma outra fenda vertical, porém com mais uma colmeia alojada (acho que o lugar faria a alegria dos apicultores), então volto a encarar a “nossa” fenda.

Faço um “trepa-pedra” até o topo da torre para visualizar esta possível segunda cordada, que é mais longa, a ponto de não conseguir se enxergar o final. Isto não chega a ser um problema, mas já vislumbro algumas dificuldades inquietantes. A principal é a proteção. Não é possível proteger com nenhuma peça móvel os primeiros 7 metros, com exceção de algo precário na base. Ao lado da fenda existem enormes, tentadoras e estranhas agarras, algumas, penso, possíveis de serem laçadas à moda antiga, com uma fita. É o que existe de melhor.

Estou um pouco inquieto, mas resolvo encarar esta fenda. Na minha cabeça fica girando um quebra-lingua como um mantra para reduzir a tensão: três tigres tristes no trigal, três  tristes tigres no trigal, três trigres tristes no trigal, …

Bem, agora estou nos primeiros metros da fenda. Lembram-se das agarras gigantes? Esqueçam-se delas, a rocha está em franca e risonha decomposição, praticamente está se convertendo em areia. Já as agarras menores são totalmente descartáveis. A alternativa foi mesmo se entubar mais ainda na fenda e usar buracos na rocha. Alguns metros tensos acima consigo laçar finalmente uma agarra gigante mais sólida e trato de buscar no meu estoque de truques montanhísticos, habilidades para escalar em um misto de fenda/parede arenosa, até encontrar uma rachadura com rocha realmente consistente, que me permitiu encaixar, finalmente, uma peça firme e forte. Fabrício, que acompanhou meu draminha, percebeu minha alegria e alívio.

A partir daí foi administrar a situação: quebrar o mínimo de agarras possível, derrubar a menor quantidade possível de pedras, perturbar o menor número de abelhas que eu encontrasse, encontrar novos lugares para encaixar as peças.

A via acabou de surpresa, quando praticamente tropecei no cume, saindo abruptamente da vertical para a horizontal. Como muitos cerros do pampa, avisto uma chapada plana com alguns matacões e vegetação arbustiva. Nenhum sinal de trilha, nenhum sinal de linha de rapel, pelo menos nada muito visível. Lagartixas agitadas e alguns ossos de animais caçados por aves de rapina são os únicos vestígios de movimento que encontramos por ali.

Fabricio sobe e fazemos nosso ritual costumeiro de cume: cumprimentos e fotos. É a oportunidade de tentar vislumbrar também um caminho de volta menos penoso até o carro, perdido lá adiante em meio a um mar de áreas úmidas.

O ritual é rápido e logo temos que criar uma via de rapel, usando o que existia de mais robusto por ali que são grandes jerivás.

Assim acabou a parte rochosa de nossa aventura. Sem uma trilha, sem um via cheia de chapas, sem um linha de rapel, sem vestígios da nossa passagem, sem saber direito como sair do lugar ou como voltar de novo. Miriam consegue avistar vários bichos como ela adora: ratões do banhado, tatus (o Fuleco, aquele um da copa do mundo), cobrinhas, aves. Uma aventura de montanhismo onde o que mais importou não foi fincar uma bandeira de posse e sim o prazer da descoberta de uma miragem no Pampa.

 

tres triges tristes

 

 

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