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Archive for julho \05\UTC 2010

Revivendo Maria Fumaça

Por Edson Struminski (Du Bois)

Dias atrás, em um destes domingos ensolarados e com a temperatura discretamente fria estava escalando algumas vias no Anhangava. Saí das proximidades da Vuvuzelândia, o barulhento Setor Principal do morro, por onde passa também a trilha que leva os turistas ao cume e caminhei até as paredes intermediárias do Setor Professor, primeiro setor interessante para quem quer desfrutar de certo isolamento e do prazer de escaladas difíceis em uma pedra de boa qualidade e que naquele dia estava vazio.

Curiosamente quando estou escalando em solitário longe da presença de outras pessoas me sinto menos sozinho. Usufruo mais da beleza da rocha, da paisagem, presto atenção em detalhes diversos, como um gavião voando ou flores em alguma árvore distante. A presença barulhenta de grupos de pessoas, escaladores ou não, apenas pode ressaltar minha solidão se estiver escalando em solitário.

Depois de fazer algumas das vias do Setor Professor, caminho mais para diante até a via Maria Fumaça, uma via de uma cordada cheia (60 metros) que combina regletes e aderências, com um crux de talvez um 5O sup. A primeira via que abri no Anhangava como guia, em 1981, junto com um amigo e com minha irmã como fotógrafa. Esta via foi um balão de ensaio para eu atacar o Marumbi alguns anos depois.

Em 1997 esta via foi reformada pelo escalador Marcos França. Mas mesmo esta reforma precisaria hoje de uma nova reforma, pois alguns dos grampos antigos ficaram na parede e o material colocado em 97 já está hoje fora do padrão das chapas e parabolts inox que usamos hoje.

Por algum motivo qualquer que não consegui explicar na hora, estava curioso e um pouco inseguro em saber o que eu iria sentir quando subisse de novo esta via. Já subi várias vezes esta escalada e suas imediações sem corda ou com algum companheiro me dando segurança. Ela tem dois cruxs interessantes, um primeiro em agarras e outro em aderência. Não é uma escalada particularmente difícil, mas tem pouca proteção fixa, o que deve dar uma certa sensação de vazio na barriga dos novatos que guiam ela pela primeira vez.

Soube uma vez de um acidente besta nesta via, provocado por pura incompetência de um escalador: subiu um metro acima de um dos grampos e caiu. Ao cair se agarrou na corda de outro guia (um adolescente) que estava guiando em simultâneo vários metros acima e provocou uma queda grave deste garoto, que acabou abandonando a via e a prática da escalada.

Mas no instante em que guio a via o que faço é me transportar para 1981 e me ver ali, com martelinho à tiracolo, grampos com olhetes soldados de arruela usadas na ferrovia (daí Maria Fumaça) e tênis kichute.

Tinha voltado do Rio de Janeiro, minha primeira viagem ao lugar que, na época, me parecia o paraíso da escalada (depois descobri, naturalmente, outros paraísos melhores), passado por lugares clássicos como Pão de Açucar, Pedra da Gávea ou o morro Dona Marta e voltado cheio de novos materiais, mosquetões novos comprados de um contrabandista de equipamentos (na época a única maneira de importar equipamento era por baixo do pano) e com a cabeça cheia de idéias.

O costume, na época, era fazer esticadas longas, 10 a 15 metros, o que ás vezes podia acabar mal, se você encontrasse, como eu encontrei em um trecho desta via, justamente o crux iniciando no fim de um destes 15 metros. Lembro-me de ter ficado nervoso, sem ter onde me agarrar, as mãos suando (não tínhamos magnésio ainda) e que acabei finalmente conseguido me safar, às custas da vegetação que providencialmente avançava perto dali, alguns perigosos metros acima, após um trecho de aderência cheio de cristais soltos. Mais tarde foi feito um desvio na via e ela ficou inteira na pedra, mesmo assim, com poucos grampos.  

Bem, o Du Bois de 2010 (este estranho personagem que abriu solando a via Sonata ao Luar, com crux em 7b, no pico Tucum) não é mais o mesmo menino medroso em um 5o grau de 1981, ou pelo menos os medos que eu tenho hoje são outros e não incluem guiar, mesmo solitário ou solando a via Maria Fumaça, assim foi um passeio agradável, os tais esticões de 10 ou 15 metros. Achei engraçado me ver ali, agora em 2010, com mais desenvoltura do que quando jovem. Não deixei de sorrir do meu medo passado, mas foi um riso preocupado.

Pois, na verdade, não era da via que eu tinha preocupação, era de encontrar aquele medo antigo, daquele jovem um pouco inconsequente que não sabia o risco que corria, que contava mais com a sorte do que com equipamento ou treino adequado para arriscar a vida.

Foi um estranho momento em que me dei conta, mais uma vez, de que na vida, como na escalada, às vezes trocamos os pés pelas mãos e nos machucamos ou pior ainda machucamos outras pessoas que podem não estar plenamente cientes dos erros que estamos cometendo. Às vezes as pessoas também nos machucam inconsequentemente e o máximo que podemos fazer é sobreviver, como sobrevivemos com alguns arranhões, de algumas escaladas.

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