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Archive for agosto \25\UTC 2009

Trinta anos de montanhismo

Por Edson Struminski (Du Bois)

Trinta anos de montanhismo.  Quando você para de contar seu tempo passado na montanha em anos e passa a contá-lo em décadas, percebe que se tornou um sobrevivente. Sobrevivente de um ou mais grupos que desapareceram, sobrevivente em relação a uma ideia ou ideologia relacionada ao que faz, sobrevivente sobretudo em relação ao próprio rigor, riscos e dificuldades que a montanha te oferece.

Nestes trinta anos de montanha existiram tres temas que surgiram para mim e persistiram em relação as minhas limitações e as das demais pessoas, aos acidentes e incidentes que sofri, às amizades e amores feitos e desfeitos, à pobreza material do esporte e à pobreza (ou riqueza) moral dos desportistas, às discussões tão aquecidas em um momento e esquecidas depois rapidamente. Enfim, a tudo aquilo que poderia me fazer desanimar, desistir em algum momento, de escalar montanhas.

Sobre estes tres temas irei falar agora.

O sentido da aventura na montanha

Há trinta anos atrás a ideia da aventura na montanha não tinha a mesma aceitação dos dias atuais. A sociedade vivia com medo ou amortecida, os meios de expressão eram incipientes, então, para aquelas pessoas que ansiavam por um ambiente político mais leve, alguém que se aventurasse na montanha era visto, como antisocial, ou no mínimo, como “alienado”, uma palavra em moda na época. Ir para a montanha e ficar por lá, não era exatamente um “projeto político aceitável”. Não se imaginava, então, que a proteção da natureza iria assumir um papel tão relevante como hoje, nem tampouco que os garotos (alguns) que só pensavam em escalar poderiam, anos depois, assumir um papel significativo como empresários, profissionais ou formadores de opinião sobre temas relacionados às montanhas, ou à proteção da natureza.

Alienados ou não, estávamos conhecendo a montanha e nossos limites nela e só estávamos interessados na aventura que a montanha proporcionaria e, para mim em particular, esta aventura tinha um endereço certo: Marumbi, um conjunto de montanhas onde as limitações técnicas e tecnológicas das gerações anteriores tinham gerado uma estagnação, mas também tinham criado oportunidades, pois deixaram em aberto a possibilidade de explorar uma vasta quantidade de paredes não escaladas, que exigiriam novas técnicas,  novos equipamentos e pessoas com novas ideias. Um presente, enfim, para os escaladores que soubessem aproveitar.

Então, durante os anos 80 o Marumbi foi um fim em si mesmo para meu montanhismo. Virei as costas para o ambiente decadente da vila que existe no pé desta montanha e mergulhei em suas paredes. Deixei me fascinar por esta montanha e lá finquei uma cota de vias, sempre com algum sentido de aventura embutido em bivaques improvisados, tempestades, ventanias, quedas em clifs, toldos, visões tolhidas, paisagens inesperadas nas curvas das paredes, descobrimentos, belezas, deslumbramentos. Isto em uma época em que os equipamentos eram tão toscos e eu tão pretensioso, que o resultado era uma improvisação assustadora. Foi um belo momento, embora não tenha saudades nenhuma das dificuldades deste período.

Mais tarde transferi o sentido da aventura para outras montanhas da Serra do Mar paranaense, para outras montanhas em outros estados, para outros países. Importa menos o lugar em si onde andei do que o que fiz e, principalmente, como fiz, um esforço para me aprimorar e fazer boas escaladas, dignas, limpas, em ambientes muitas vezes selvagens, que afinal era o que eu queria para exercitar minha ética como montanhista, achar meu lugar no mundo.

Hoje os equipamentos, o bivaque, a segurança, são mais confiáveis, há um pouco mais de conforto. A aventura é mais assistida pelas inúmeras ferramentas tecnológicas (celular, GPS, internet), mas às vezes estas coisas falham e é necessário saber improvisar, fazer uma fogueira com lenha molhada, bivaques com pés de elefante ou andar pela floresta sem trilha, que seguem sendo conhecimentos úteis sempre que desejo fazer aventuras mais difíceis em outras montanhas. Nestes momentos, lembro do que aprendi a duras penas…

Passados trinta anos, a autonomia em terreno selvagem, desconhecido, segue mantendo o sentido da aventura para mim, meu grande aprendizado na montanha.

 A escalada em solitário

A falta de companheiros nos primeiros tempos de montanha me levou a praticar uma forma de escalada que me proporcionou enorme autonomia, prazer e deu um sentido à minha vida, que foi a escalada em solitário. É uma forma difícil, arriscada e ousada de escalar, mas que casava com o ideal de aventura que sempre busquei. Para que eu pudesse sobreviver às inúmeras escaladas em solitário que eu fiz tive de aprender muito, criar novas formas de usar equipamentos, ler livros, conversar com outros escaladores, reciclar periodicamente técnicas, confiar em mim e reconhecer meus medos, pavores e limitações.

Das formas de escaladas em solitário, a escalada solo (sem nenhum equipamento de segurança) é a forma mais perigosa de todas. Ela surgiu na minha vida por acidente de percurso. Erros cometidos durante escaladas em solitário com corda, que me obrigaram a escalar em solo, mas que me levaram a constatação de que o solo não era necessariamente mortal. Mais eu me dei conta do risco, me aperfeiçoei e devo ter aberto várias vias ou variantes de vias em solo em vários lugares por onde andei. Mas simplesmente não pude catalogar este tipo de escalada. A rigor ninguém pode. É um tipo de escalada que não há como ser reproduzida na íntegra em catálogos para as pessoas repetirem, nem devem tentar repetir.

A dúvida sobre o valor desta escalada decorre do fato de que você não está preso a uma linha definida pelo equipamento que vai posto na parede. Há muita liberdade e despreocupação com os aspectos formais da escalada, mas, consequentemente, há também pouco reconhecimento pelo trabalho em solo, menos, é claro, na cabeça de quem o pratica, tendo em vista que é uma forma muito purista de escalada onde você e a parede estão integrados como se fossem uma entidade única.

Mas até em função deste purismo todo percebi que na cabeça de muitas pessoas que leem sobre escalada solo ainda existe muito romantismo relacionado a ideia de um montanhista só na imensidão da montanha, percorrendo uma imensa parede apenas com suas mãos e pés como meio de ascensão, como se estivesse sempre desafiando a morte, como se fosse um semideus ou, ao contrário apenas fugindo das tais convenções do mundo da escalada. Confesso que isto me moveu no início da minha vida de montanhista, mas esta visão romântica tornou-se, para mim, um resquício, pois o que me atraiu depois para a escalada em solo ou em solitário não foi uma fuga e sim o exercício da liberdade e da autonomia que, como falei, não são ideais românticos e sim aspectos concretos na minha vida. Uma continuação da minha filosofia de vida.

Abandonei a escalada solo há apenas pouco tempo, pois estava me aperfeiçoando demais nisto e ela estava se tornando um fim em si mesma, o que poderia levar ao meu fim, a um beco sem saída. Então foi uma decisão muito pensada, deixar de escalar de uma certa maneira porque estava escalando bem demais daquela forma e não por medo ou qualquer tipo de restrição concreta. Depois de trinta anos dei adeus à escalada solo da melhor maneira possível, fazendo uma via que reflete o estágio da maturidade que cheguei neste tipo de escalada, uma história que descrevi neste blog tempos atrás (www……….).

Ciência em montanha

Desenvolver ciência na montanha é algo que me traz enorme alegria e satisfação. É uma continuação do montanhismo que pratico com uma outra linguagem,  como se eu descobrisse uma outra língua na montanha que eu posso falar com outras pessoas, inclusive, com aquelas que não são montanhistas.

Há uns 20 anos atrás eram tão poucas as pessoas que desenvolviam pesquisas em montanhas que eu rapidamente descobri um nicho de trabalho profissional, prazer e aprendizado na montanha. Estudos sociológicos, mapeamentos de vegetação, recuperação de áreas degradadas, ecologia de trilhas, ecologia de incêndios em montanhas. A gama de temas que eu tenho explorado nestes anos é grande e nunca deixa de aumentar, pois para cada montanha que eu conheço pode haver um monte de pesquisas em cima.

No mundo da ciência em montanha, como no mundo da escalada, tenho tido a grata oportunidade (e a responsabilidade) de ser pioneiro em muitas coisas e também de poder orientar novos pesquisadores. Felizmente há um giro sempre grande de jovens interessados em pesquisar assuntos relacionados a montanhas e sempre é possível surgir gente apaixonada pela beleza revelada por estes ambientes singulares e majestosos, pela alegria das novas descobertas.

 Trinta anos atrás

Quando comecei a ir para a montanha e a escalar, em agosto de 1979, não me perguntei quanto tempo aquilo iria durar, aonde eu queria chegar com a escalada, que sentido aquilo iria ter para minha vida. Na verdade tampouco hoje posso responder às duas primeiras perguntas, mas hoje, depois de trinta anos escalando, mais de vinte trabalhando com montanhas e mais de 16 morando na montanha, posso dizer que a montanha é o próprio sentido da minha vida, meu sonho.

 

“Porque se chamavam homens

Também se chamavam sonhos

E sonhos não envelhecem

 

E basta contar compasso

E basta contar consigo

Que a chama não tem pavio

 

De tudo se faz canção

E o coração na curva de um rio

 

E lá se vai, mais um dia…”

 

Clube da Esquina: Lô Borges

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