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Archive for setembro \21\UTC 2011

Por Edson Struminski (Du Bois)

Ao escrever esta frase: “o último setor de escalada do Brasil”, percebi que ela tinha um pouco de ambiguidade, pois permite várias interpretações. Podemos estar no referindo a um “último setor de escalada”, como o final de um ciclo, um encerramento de uma lista, após o que não veríamos mais setores de escalada abertos no país, pois não teríamos mais nada para abrir ou gente disposta a abrir novos setores. “Último” significaria então “acabou”.

Mas, ao mesmo tempo, percebi que “último” também pode significar o mais recente setor de escalada aberto em algum lugar do país, o mais novo “point” de escalada.

A palavra “fronteira” também pode ser ambígua e não ajudar muito. Afinal ela pode ser uma fronteira geográfica, ideológica, ética, ou mais de uma coisa junto, assim o sul, uma posição geográfica pode se tornar menos definido do que parece, ou não?

São perguntas que eu me fiz e confesso que mesmo para mim, que estive envolvido com a abertura de escaladas neste setor, estas ambigüidades permaneceram. Então: “fronteira Sul, o último setor de escalada do Brasil” será algo que vocês interpretarão a partir das considerações que virem neste texto.

Feriados Brasil afora

Os dias 14 e 15 são dias feriados em Ponta Grossa.  Isto coincide, em parte, com a Semana Farroupilha, cujo auge é no dia 20 de setembro, feriado no Rio Grande do Sul (coincidentemente data do meu aniversário), período festivo em que muitos dos habitantes deste estado (homens, mulheres, crianças) andam “pilchados”, ou seja, vestidos com suas belas roupas típicas, que lembram os períodos revolucionários do século XIX.

Aproveitei então este período de folga em Ponta Grossa na cidade gaúcha de Santana do Livramento,  que depois de Caçapava do Sul é o lugar mais ao sul do país que eu já fui com a intenção de abrir escaladas em rocha.

Como escrevi em um artigo anterior sobre esta região fronteiriça (https://blogdodubois.wordpress.com/2011/08/10/sob-o-ceu-de-tacuarembo/), Livramento fica geminada com Rivera, cidade uruguaia. Um lugar onde o norte e o sul se encontram. Assim, de cima da larga meseta de basalto que é o Cerro Palomas, que embeleza a paisagem destas duas cidades, o que podemos avistar no horizonte, ao sul, é portanto o Uruguai, com suas coxilhas a perder de vista.

Fronteiras no Cerro Palomas

Mas gaúchos pilchados e coxilhas à parte, o que fui mesmo conferir, desta vez de perto, foram as paredes do Cerro Palomas, cujas linhas verticais e negativas chamam a atenção de quem vem da estrada de Porto Alegre.

A formação colunar do Palomas é extremamente generosa para alguém que queira escalar em rocha. O número de vias possíveis de se fazer por metro linear é muito alto pela peculiaridade desta rocha, com trechos que avançam e recuam, formando diedros, fissuras, tetos e paredes com agarras. O desafio para o escalador é ir se “encaixando” nestas diferentes e desafiadoras formas que a rocha forma, havendo praticamente um desafio forte ao lado do outro. Um convite para a escalada livre!

Como nem tudo são rosas, ficou claro para mim que não podíamos contar com a aderência desta rocha para subir, quando muito com buracos e agarras que nem sempre são confiáveis. Por outro lado encontramos ótimas regletes, que eu particularmente pude aproveitar em função do calçado de escalada ainda novo. Há também muitas pedras soltas, que tornam a escalada perigosa inclusive para o segurança.

A rocha, em geral é um tanto friável, adjetivo que empresto da geologia para definir uma rocha que se desgasta rapidamente se for usada com frequência, ou seja são paredes que não permitem alto tráfego, como no granito, por exemplo.

Também em função de tamanha oferta de pedra limpa, evitamos entrar em paredes com vegetação significativa e própria destes lugares como liquens, musgos ou bromélias.

Começar um setor do zero tão distante de casa dá bastante trabalho. Carreguei duas cordas, duas cadeirinhas, dois capacetes, dois calçados de escalada, uma penca de peças móveis, um monte de mosquetões etc, etc., sem conhecer quase nada da qualidade da rocha. Aliás, alguns dos equipamentos que usei (parte ficou por lá para mais uma futura investida) foram doados pelo Ed da Conquista, que é uma das poucas pessoas com quem eu posso conversar e que entende o sentido de se abrir novos setores de escalada por aí.

O tempo não ajudou muito. Frio, chuva ou garoa foi o clima que acompanhou a mim e a minha companheira de escalada Miriam. Nos períodos de estiagem acabei optando por abrir as vias com corda de cima, pois estava tudo um pouco úmido, embora tenha testado os móveis em alguns pontos. Assim, fizemos dez linhas agradáveis, interessantes e bonitas, algumas me pareceram tão fascinantes como algumas que escalei no setor 3 de São Luis do Purunã (PR). Nos momentos em que a umidade aumentava demais demos alguns passeios curtos pelo Uruguaizinho, fomos ver uma cachoeira no Parque Gra-Bretanha (que com 15 metros deve ser uma das maiores do país!) e comprar deliciosos chocolates em Rivera.

Pelo fato da rocha ser tão friável posso dizer que fiquei em dúvida se vale a pena abrir vias com parabolts e chapas em linhas de parede por ali. Talvez o interessante mesmo fosse usar as linhas de diedros e fendas em móvel, com algum complemento com chapas e as linhas de parede apenas com corda de cima mesmo, para evitar o desgaste excessivo da rocha e é claro, respeitar a vegetação, recolher o lixo que os turistas jogam de cima, melhorar a trilha e a base das vias (que são pastejadas pelo gado). Enfim, ter cuidado com o lugar.

Com tudo isto dá para dizer que a fronteira que existe ali, não é entre o móvel e as chapas, entre a desportiva e a tradicional, entre o sul e o norte ou entre o Brasil e o Uruguai e sim entre o bom senso, de usufruir de um local maravilhoso para escalada e a degradação de suas belas paredes, das suas possibilidades. Se o bom senso prevalecer, muito se aproveitará ainda do último setor de escalada do Brasil.

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