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Archive for novembro \30\UTC 2010

Vinte anos de Mountain Voices

Por: Edson Struminski (Du Bois)

O mês de outubro de 2010 foi uma data importante para o montanhismo brasileiro, pois marcou o aniversário de 20 anos do surgimento do Mountain Voices, um informativo despretensioso à primeira vista, mas que se consolidou como o principal veículo de divulgação e comunicação do meio da montanha brasileiro. Passados vinte anos, representa um símbolo da sobrevivência de uma ideia boa e simples.

Em uma era cheia de recursos e principalmente, entulhos internéticos descartáveis que podem sair de um dia para outro do ar sem deixar vestígios ou saudades, como sites, blogs, comunidades de Orkut, perfis de facebook, listas de discussão, além, é claro, de eventuais surtos editoriais mais caros e sofisticados, como revistas, livros, DVDs, o formato papel jornal do MV simplesmente resiste, talvez pela robustez da sua ideia inicial, um informativo bom e barato, adequado, é claro, para uma panfletagem dos patrocinadores e anunciantes, que pagam a edição bimensal, mas sempre recheado com boas matérias de temas relacionados à montanha, que é o que fica ao longo do tempo. Com isto vemos que, ao contrário do que sugere seu formato em papel, o MV não é nem um pouco descartável.

Outra característica marcante do MV é sua leveza editorial. Raramente nestes 20 anos de publicação vimos Eliseu Frechou, o editor mor do MV, o chefão, ele mesmo um dos montanhistas de maior renome e experiência em nosso país e também com amplo trânsito na internet, ranger os dentes ou destilar segundas intenções (se é que já fez isto alguma vez) e, desta forma, abusar do poder que tem como editor para atacar outras pessoas ou defender pontos de vista retrógrados. É mais comum, na verdade, ele aparecer no MV como instrutor e nos presentear com algum truque novo para usar um modelo diferente de friends ou então explicando como fazer uma ancoragem segura, enfim o lado instrutor de montanha do Eliseu véio.

Mas por que MV é importante, mais até que o conjunto de espaços criados na internet ou outros produtos editoriais? Pela sua diversidade, persistência, durabilidade. Uma lista de discussão pode ser muitas vezes medíocre, sites podem virar panelinhas, um blog ser excessivamente personalista, uma revista, cara e elitista e tudo isto, queira ou não, tem cara de novo e pouco amadurecido, menos o bom e velho Mountain Voices.

Assim, mesmo considerando as palpáveis mudanças que já aconteceram no montanhismo brasileiro nestas duas décadas vemos que a leveza editorial, a quase ausência de polêmicas (que envelhecem no papel e ficam naturalmente melhor na internet, onde podem ser atualizadas com mais frequência) e, principalmente, o volumoso registro do que acontece no mundo da montanha, através das vozes das pessoas, traz muita credibilidade ao jornal. Aliás, as mudanças que ocorreram no MV são discretas, para não assustar ninguém. Somente a partir de janeiro de 2000, para aproveitar a data redonda, é que o MV começou a nos presentear com uma capa colorida. Isto nos mostra que para o MV, a permanência é mais importante que as mudanças, que podem apenas ser fúteis.

O registro é o que vale no MV. Com isto praticamente todas as pessoas que fazem ou fizeram algo relevante no montanhismo brasileiro, nos diversos cantos do Brasil ou no exterior, já passaram pelas páginas de papel jornal do MV. Cada número valerá no mínimo por uma boa matéria, é só conferir.

Estas pessoas deixaram testemunhos teóricos, práticos, cômicos, dramáticos, de uma atividade que está longe de ser popular, mas que para um leitor leigo interessado revela nuances de algo que está também longe de ser simplório como às vezes sugere a imprensa comum. Para este leitor, o MV representa um formidável retrato antropológico (quase sempre em preto e branco) dos últimos 20 anos de montanhismo no Brasil.

MV 4.0

Tive o privilégio de conhecer o MV em seu primórdio, do número 1 em diante, quando custava 20 cruzeiros (alguém sabe quanto vale isto?). Colaborei modestamente com algumas das centenas de páginas que foram editadas. Relatei algumas aberturas de novas vias, setores de escalada novos, viagens, opiniões. Contei no MV 15 de fevereiro de 1993 uma escalada que mudou minha perspectiva sobre o mundo da montanha que foi um solo na parede do Ibitirati (Pico Paraná), uma escalada sobre a qual ainda hoje pessoas comentam comigo.

Me emocionei particularmente com a edição que dá adeus à Roberta Nunes (MV 92, de outubro de 2006). Devorei a impagável entrevista com o fantástico Etzel Stockert (MV 80, de outubro de 2004), meio alemão meio carioca. Achei notável o amor pela pedra de jovens escaladoras como a Fernanda Rocha (MV 111, de fevereiro de 2010).

Revendo as páginas da coleção que Eliseu me presenteou gentilmente há pouco tempo, descobri até mesmo a origem de uma lenda bobinha sobre um frances que solou uma via ainda hoje considerada difícil no Anhangava (a RS), campo escola dos paranaenses. Este frances ninguém mais era do que eu mesmo (o brasileiríssimo Du Bois de apelido gaulês), que aparece em uma foto no MV 4, de abril de 1991.

Desse modo vejo que este jornal faz realmente parte da nossa história como montanhistas e que ele transcende o mero registro histórico. Que ele tem capacidade de nos emocionar, que ele cria pernas próprias e faz suas histórias que andam por aí sem nem mesmo o Eliseu saber. O MV faz parte da minha vida e da vida de muitos de vocês. Isto é muito importante.

Penso que toda biblioteca que se preze, principalmente nas regiões do Brasil onde se pratica o montanhismo, deveria ter uma coleção deste informativo, como uma forma de manter a memória viva do esporte e da exploração da montanhas, como registro do que acontece no montanhismo, quem sabe isto ainda aconteça ao longo dos próximos vinte anos do MV.

Todos nós, gostemos ou não, temos que agradecer ao Eliseu por ter criado e estar mantendo este informativo por tanto tempo. De minha parte espero ainda estar por aqui quando sair a edição dos 40 anos do MV, de preferência em papel jornal. Espero que o Eliseu e sua maravilhosa família possam nos dar este presente. Por ora fica uma homenagem e um grande abraço a eles e um agradecimento pela perseverança.

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Por: Edson Struminski (Du Bois)

1988, a paisagem era a de campos a perder de vista, fundos de vales com florestas na beira de rios, capões de pinheiros. Entremeados com estes campos, florestas e rios, os afloramentos de arenitos da região dos Campos Gerais em Ponta Grossa, aquele vasto e espaçoso ambiente que abria-se nos planaltos interiores do Estado do Paraná.

Conheci esta região juntamente com amigos escaladores. Alguns deles estavam empenhados em “interiorizar” a escalada no Paraná, que estava, então, muito restrita à Serra do Mar, que é uma cadeia de montanhas tipicamente litorânea. Outros preocupados em criar ambientes para competições de escalada, mas longe das montanhas, o que seria um tabu. De modo geral o pessoal estava, naquele momento, buscando novas paisagens, tentando inventar coisas novas, testando as possibilidades de escalar no arenito, experimentando a emoção de caminhar na beira e no interior de alguns cânions que existem nesta região paranaense.

Como eu fazia, de algum modo, parte deste movimento, lembro-me, então, de ter explorado, junto com outros escaladores, a estrada da Faxina, antigo caminho que ligava o primeiro ao segundo planalto paranaense, através da escarpa de São Luis do Purunã e de termos feito uma investida a um local que eu imagino que hoje seja o setor 3 de escalada desta escarpa. Também caminhamos até a igreja do Tamanduá, antiga capela de tropeiros.

Em Ponta Grossa conheci, é claro, os monumentos geológicos mais óbvios do parque de Vila Velha (onde já era proibido escalar, o que foi muito bom para a preservação daqueles monumentos) e também os fundões deste parque, onde também tem muita rocha. Também escalei em uma formação geológica à esquerda de Vila Velha, no sentido de quem vem de Curitiba, chamada de Arco (mesmo nome de um local onde aconteceu um campeonato de escalada na Europa naquele ano). No Arco paranaense é onde inclusive foi feito um primeiro e acho único, campeonato de escalada em arenito (o que também me parece que foi muito bom para a preservação daquela formação geológica).

Próximo de Ponta acabei conhecendo mais duas belíssimas formações que são o Buraco do Padre, uma cachoeira que cai dentro de uma dolina e o Salto São Jorge, outra cachoeira surpreendentemente bonita que dá início a um pequeno canion.

 Como estou tendo uma estadia prolongada em Ponta Grossa, estou aproveitando para rever estes lugares que tanto me surpreenderam na minha juventude.

Assim, as mudanças que aconteceram na paisagem, o surgimento da escalada na região e um conflito que está acontecendo agora, exatamente neste momento, serão os temas que irei explorar neste artigo.

Paisagens de sonho

No fim dos anos 1980, a região dos Campos Gerais possuía, nestes pontos que comentei antes, ainda muito desta paisagem idílica de campos, capões e arenitos na forma de platôs altos ou cânions. Pelo menos assim me parecia. Para acessar lugares como Arco ou o salto São Jorge, simplesmente andamos pelos campos, ou florestas, pulando pelas pedras, seguindo rios, sem preocupações em abrir trilhas ou em deixar qualquer marca que sugerisse nossa passagem por ali. Despreocupadamente fizemos uma tirolesa sobre a cachoeira do rio São Jorge. Passeamos no Buraco do Padre. Nada de grampos em Arco e somente boulderes nos confins de Vila Velha. Naquele momento, em que pouco sabíamos sobre escalar em arenito, em que não tínhamos sequer a tecnologia adequada para por proteções fixas, tampouco tínhamos material móvel, ou até mesmo o preparo adequado para este tipo de escalada tão exigente, o melhor que tínhamos a fazer era mesmo apreciar a paisagem, andar um bocado, subir com cuidado as coisas para não quebrar. Foi o que fizemos.

Mas em 1988, um pouco antes ou um pouco depois, começou a acontecer algo imperceptível na paisagem rural em volta destes monumentos e que hoje são sua marca principal, que foi o início das grandes fazendas de soja e, com maior potencial de modificação da paisagem, a implantação dos grandes reflorestamentos de eucaliptos e principalmente pinus, uma árvore norte americana usada maciçamente para produção de papel, casas baratas, revestimento de móveis, etc.

Os reflorestamentos de pinus estão hoje por toda parte, o que é compreensível, pois o consumo de madeira, papel, papelão, etc, é indicador direto do crescimento da economia e, bem, a economia do Brasil vem crescendo a olhos vistos, daí o porquê de cada vez mais pessoas estarem plantando estas árvores e outras espécies em reflorestamentos. Por um lado isto é bom porque poupa as espécies nativas, mas é ruim por questões ambientais. Estes reflorestamentos podem ocupar espaços de ambientes naturais, formarem barreiras para a fauna, espécies como pinus facilmente se tornam invasoras na vizinhança de áreas onde foram plantadas.

Hoje estes reflorestamentos são parte integrante da paisagem dos Campos Gerais, vieram para ficar, penso, pois representam um braço da economia do qual ninguém quer abrir mão. O jeito foi, então, tentar preservar as sobras, o que ficou desta paisagem natural, os grandes monumentos geológicos, como Vila Velha, Buraco do Padre, Salto São Jorge ou naturais como o Capão da Onça.

Salvem o Jorge

A cidade de Ponta Grossa deve estar apontando para os 300 mil habitantes, uma cidade de porte médio, portanto, bastante urbanizada, carente de áreas verdes em meio a um urbano que cresce apressadamente, no ritmo frenético do agronegócio.

É natural que a população, parte dela pelo menos, procure os lugares naturais que ainda apresentam certa qualidade. Em meio ao mar de soja e pinus, o que sobra mesmo são estes monumentos de que falei e que conheci quando a cidade devia ter a metade da população atual: Vila Velha, Buraco, São Jorge, capões e rios que ainda não foram totalmente desmatados ou tomados pelas plantações de soja ou por árvores para papel.

São lugares muito procurados, tanto que para chegar hoje a eles, percebi, é bastante fácil, basta seguir as placas? Não, as latas jogadas pelo caminho e o barulho… Assim como até os anos 1990  a Serra do Mar, em geral, era uma espécie de local para os urbanóides curitibanos extravasarem suas neuroses urbanas, os locais naturais em volta de Ponta Grossa estão cumprindo hoje este papel. Lixo, muito lixo, acampamentos toscos, som alto, barulho de motos, correria com motos, gritaria com motos. Com isto fica fácil seguir a pista até os atrativos turísticos.

Desta forma, a paisagem que encontro hoje em lugares como Buraco do Padre ou Salto São Jorge é realmente estranha para mim, é como voltar no tempo na Serra do Mar antes que montanhistas, ONGs, Estado, tivessem começado a fazer os trabalhos de recuperação, educação ambiental e orientação aos visitantes que todos conhecem. Assim aqueles lugares com paisagem excepcional dos campos gerais se mescla hoje com muitos automóveis e motos, muita gente, muito som alto, muito lixo, muita bebida e pouca natureza, a qual aparenta ser mero cenário de fundo para que as pessoas, o que é muito louvável, saiam da cidade.

Esta aparência de cenário é realçada pela sensação transmitida por estes visitantes de que poderiam estar fazendo suas atividades na cidade mesmo, mas que optaram por estar aqui, nas áreas naturais, porque as regras de conduta, se é que existem, são mais flexíveis.

Já os ambientes freqüentados por escaladores, espeleólogos e alguns poucos caminhantes parecem fugir deste lugar comum. Os setores de escalada que conheci até o momento, aqui em Ponta Grossa, são limpos, seguros, bem cuidados, silenciosos. Existem trabalhos simples de contenção de erosão em trilhas. Os espeleólogos são cheios de dedos na divulgação das cavernas. Mas este grupo é minoria.

A percepção de que a coisa tinha chegado a um nível intolerável não era só minha, pois os escaladores com quem conversei por aqui pareciam que já sabiam que algo estava para acontecer e aconteceu. A exploração turística alienada fez com que a poucos dias atrás o ICMBio autuasse o proprietário da fazenda onde fica o Salto São Jorge por uma série de problemas: construções mal feitas na beira do rio (incluindo banheiros), embalagens de agrotóxicos armazenadas em local inadequado, reflorestamentos plantados em locais inadequados. Claro, tudo isto temperado pela farofagem explícita dos fins de semana, em que o lucro do proprietário está garantido, a diversão também, mas a degradação ambiental, evidente nas trilhas destruídas ou no lixo, corre solta.

Com isto pude perceber, que ao longo dos anos, as partes das paisagens magníficas que sobraram acumularam problemas. A administração de Vila Velha, um parque estadual, saltitou de mão em mão entre orgãos estaduais e a prefeitura de Ponta Grossa e ainda continua enfrentando a invasão de pinus. Em 1997 a prefe de Ponta Grossa decretou como parques lugares como Buraco do Padre, Salto São Jorge e o Capão da Onça, apenas para ver estas áreas serem englobadas em um decreto federal de 2006 (parque nacional), ainda não implantado pelo ICMBio, em uma repetição de uma história conhecida, em que decretos se sobrepõem e muitas vezes desvalorizam o ato legal da proteção da natureza. Houve pouca, ou nenhuma orientação aos proprietários destas áreas naturais sobre os procedimentos adequados para explorar os potenciais turísticos destes lugares, assim, eles simplesmente foram fazendo o que acharam melhor.

Até o momento não houve proibição de visitação no salto São Jorge, mas eu não duvido que este não seja um passo que não esteja sendo considerado pelo ICMBio. Eu já cheguei a alertar alguns dos escaladores daqui, que são organizados em um clube, para a necessidade de mostrar seu diferencial aos orgãos ambientais, para que eles possam manter o livre acesso a uma das melhores áreas de escalada e talvez a mais bonita, em arenito e conglomerado que existe no Paraná. Para isto até já me dispus a ajudar.

Penso que é um momento de um “salve Jorge” e, quem sabe, chamar a cavalaria.

Veja mais em:

http://grupoescaladacidadepedra.blogspot.com/2010/10/icmbio-embarga-areas-no-salto-sao-jorge.html

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Por Edson Struminski (Du Bois)

Apesar de todo o glamour da Floresta Atlântica, existem poucas formas de vegetação tão simpáticas como um campo de altitude. Se subir uma montanha é um prato cheio para a contemplação, uma montanha com um campo de altitude é um convite para a reflexão.

O Camapuã é uma montanha bem conhecida dos montanhistas paranaenses, embora não seja muito frequentada. Como é uma montanha que não tem problemas de orientação, algo do gênero “ande reto duas horas, depois vire à esquerda e ande mais duas”, é comum encontrar, na subida desta montanha, pessoas indo a este lugar pela primeira vez, um tanto chocadas e desacorçoadas com a parte do “vire à esquerda e ande mais duas”, que é justamente quando a trilha percorre um vasto trecho de subida íngreme em campos de altitude.

Estes vastos campos nos dão uma ideia do que poderia ser a paisagem desta serra em períodos não tão antigos, quando o Paraná enfrentava um clima semi-árido, por conta da última glaciação, período em que os humanos chegaram a este lugar. Curiosamente talvez venha daí minha afinidade com o lugar. Li há muitos anos atrás uma passagem em um livro do biólogo frances René Dubos que acabou ficando na minha lembrança. Ele comentava, um tanto darwinianamente, que o ser humano mantinha nos recantos da sua memória como espécie, uma recordação do impacto positivo causado pela descoberta da savana africana, um terreno com gramíneas onde podia ver à distância os animais a serem caçados ou dos quais deveria fugir, terreno este que ainda possuía árvores esparsas para dar sombra, frutos ou servir de esconderijo. O ser humano descobriu este cenário como sendo favorável para sobreviver e ainda hoje, inconscientemente, por conta da nossa “memória de espécie”, nós ainda criamos este ambiente artificialmente para servir de cenário para nossas vidas, para nos proteger dos “animais selvagens”. Desta forma, a grama de jardim, as begônias africanas ou outras simplificações de ambientes naturais, que fazem tanto sucesso por aí seriam reflexos desta nossa memória biológica. Afinal, dá para ver um leão atravessando a grama do jardim…

Lá em cima do Camapuã eu buscava estes campos, este meu sentimento primordial, mas não esperava ver leões ou outros animais espetaculares, embora eu soubesse que poderia achar um gavião-tesoura, uma fascinante ave de rapina que vem da América do Norte nidificar aqui na primavera e pela qual tenho especial carinho, pois já tive o privilégio de acompanhar a vida de uma família destes gaviões há um tempo atrás.

Além disso, como escalador eu iria buscar outra coisa. Encaixada na face norte desta montanha existe uma peculiar formação rochosa que parecia prometer algo. Era descer até lá para ver. Uma boa justificativa para estar nesta montanha. Apesar destas coisas todas de encher os olhos, havia algo a mais que eu procurava no Camapuã, algo que não pode ser transmitido apenas por imagens ou palavras, algo simples e sutil, mas peculiar dos campos de altitude e que comentarei mais adiante neste post.

Nos campos do Camapuã

Por conta de uma longa pirambeira a céu aberto, a subida do Camapuã não é realmente muito popular. Com isto, apesar dos meus 48 aninhos, é bem alentador quando ainda posso fazer sem choradeira o pedaço de subida deste trecho, pois é justamente onde aparecem os campos de altitude. Confirmando minha boa forma, nesta minha última subida passo um retardatário de um grupo de três e vou atrás de algo raro ali em cima, que é uma pedra ou árvore que forneça sombra por alguns minutos.

Lá embaixo, acessível após uma ou duas horas de travessia em terrenos variados, vejo a estranha parede da face norte do Camapuã, um estreito diedro em forma de arco de pedra, cuja visão à distância não permite maiores antecipações, mas que era um dos objetivos de eu estar ali, o objetivo oficial, “montanhístico”.

Depois de um tempo de descanso, em que fico apenas ouvindo a passagem do vento pelo capim de altitude, começo minha busca pela parede do Camapuã. O terreno fácil de campos só é de vez em quando interrompido por degraus de pedra. A caminhada seria mais rápida se eu não acabasse gastando parte do meu tempo na caçada das arvoretas de pinus, uma espécie cujas sementes fogem todo ano de reflorestamentos no pé das montanhas e teimam em invadir estes ambientes. Esqueletos de árvores maiores de pinus ainda poluem a paisagem. Estas árvores foram aneladas há alguns anos em um esforço louvável para erradicar esta árvore da paisagem em um trabalho coordenado por Rafael Zenni, que é montanhista e engenheiro florestal, algo que comentei em um artigo anterior neste blog (https://blogdodubois.wordpress.com/2009/01/30/tucum-natureza-e-paisagem/).

Ao usar a ferramenta serrote do meu velho canivete suíço nestes pinus eu apenas procuro consolidar o trabalho de Zenni e, claro, gastar um pouco da minha indignação acumulada, como comentei naquele artigo. Geralmente corto umas 20 árvores destas quando vou para esta região, um tipo de passatempo ecológico.

Olho adiante. Há ainda um microvale para atravessar e uma faixa de vegetação com uma tonalidade diferente do verde amarelado do campo, antes de se chegar ao arco de pedra do Camapuã. Esta visão me intriga porque mesmo não sendo botânico sei que ali há a indicação de alguma coisa diferente, uma faixa de vegetação peculiar, um distúrbio, um ninho de biodiversidade, sei lá o que, estou curioso.

Minha curiosidade é satisfeita, mas a um custo bem desagradável. A planta é uma espécie de leguminosa rastejante, algumas milhares delas que ocupam o solo como uma imensa teia de plantas, pela qual só posso ultrapassar à custa de um demorado “nado de peito”. Sou vencido pelo cansaço e busco uma sombra em uma ilha com duas ou tres árvores em meio a este mar de plantas rastejantes. É um momento em que me dou conta do risco de estar ali ilhado, em um terreno perigoso, difícil, sem poder enxergar o chão que piso, longe da trilha normal, da visão dos passantes, sozinho.

Estou próximo do fim do arco de pedra que avistava do cume da montanha. Faço um esforço extra e atravesso a faixa de vegetação que ainda sobrou. Busco visualizar o restante da parede. Ela é surpreendente, parece um tubo de surfista, uma imensa onda petrificada, um tipo de escultura monumental que de cima da montanha mal podia imaginar. A base desta onda é uma rampa inclinada onde posso ir caminhando com cuidado ou desescalando em certos trechos mais verticais.

Mais adiante o “tubo” desaparece e abre-se uma parede maior, um local típico para escalada desportiva, um futuro setor esportivo, se é que alguém, algum dia irá abrir um setor esportivo em um local tão distante.

Tudo é muito fascinante, mas estou cada vez mais distante do caminho normal, cada vez mais sujeito a que um erro grosseiro me deixe em má situação. Mas em vez de ficar me poluindo com estes pensamentos me dedico a fotografar. Registro as plantas delicadas, a inclinação improvável do tubo, a profundidade da paisagem, que dali daquele ponto tem nuances interessantes.

Acho uma brecha nesta muralha que é o meu caminho de volta. Duas agarras se quebram e fico um pouco tenso, mas aos poucos passo este pedaço e logo estou acima da “onda”. É uma rampa de pedra, acessível, longa, convidativa e, perigosa. Qualquer escorregão ali representará um voo no vazio, até a base da onda, então trato de me afastar daquele lugar traiçoeiro, faço uma caminhada para a direita, me afasto do perigo e vou gradativamente voltando ao cume da montanha. No caminho mais pinus, mais trabalho para o canivete.

A voz do vento

O que eu fui procurar nos campos do Camapuã? Curiosamente não era apenas a solidão ou o silêncio destas montanhas, que no fundo são ilusões do nosso pensamento ou apenas convenções. A solidão em uma cidade me parece muito mais aguda do que na montanha, pois a própria montanha é a nossa companheira, ela preenche plenamente o pensamento e o tempo que dedicamos ao lugar. O silêncio na montanha quando se está sozinho é apenas a ausência de palavras, que tanto existem para nos alegrar, como são ditas apenas para nos machucar, para nos testar. Então o silêncio na montanha representa apenas sons que nos afagam, que nos acolhem, algo que por vezes preciso sentir.

Embora tenha andado e praticamente me incorporado em uma paisagem espetacular, que é a monumental onda de pedra que desce desta montanha, o que realmente fui buscar na montanha, foi o som do vento correndo através dos campos de altitude. Um som peculiar, apaziguante, fruto do meu DNA humano, do meu DNA de montanhista. Um tipo peculiar de voz da natureza que não se encontra facilmente, pois não são muitos os campos de altitude por aí. Não são muitos os lugares onde posso andar em um campo destes sem perturbações de vários tipos.

Foi minha inquietação como montanhista que me fez buscar um caminho fora das trilhas que a meu ver domesticam a experiência do selvagem. Mas minhas inquietações humanas eram maiores do que a mera vontade de uma aventura a mais. A voz do vento nos campos de altitude é para mim como uma música que tenha uma qualidade especial. Ajuda a me sensibilizar, a me lembrar das coisas importantes, a tomar as decisões certas na vida.

* Uma alusão à paisagem do filme “Brincando nos Campos do Senhor” de Hector Babenco

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