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Archive for outubro \21\UTC 2009

Por Edson Struminski (Du Bois)

Depois de alguns dias recebendo emails insistentes sobre resultados de um campeonato de escalada que aconteceu em Curitiba acabei me rendendo a curiosidade e, como um leigo qualquer, fui dar uma olhada em um site que mostrava informações sobre ranking, pontuações, resultados, sobre campeonatos. Juntei a isto a lembrança de campeonatos que assisti para formar um painel para este artigo.

Em um certo sentido ainda acho estranho falar em escalada esportiva e competições. Uma pessoa que escale em um setor com vias de 20 metros, participe de um campeonato de escaladas, depois abra uma via de uns 400 metros em uma montanha distante, estaria, em tese, usando os mesmos conhecimentos, técnicas, equipamentos básicos para praticar o mesmo esporte. A mim me parece que esta pessoa teria de ser totalmente “esportiva” fosse qual fosse a atividade que realizasse. Mas isto é outra discussão. Na verdade o que eu gostaria de apresentar aqui é um exercício mental, uma tentativa de apreciar os pontos em comum ou não, entre campeonatos de escalada e o montanhismo.

O montanhismo procura ser objetivo em muitos aspectos: croquis de vias, graduações de escaladas, equipamentos usados, mas nem sempre esta objetividade toda traz os resultados esperados, pois a realidade da montanha às vezes pode trazer surpresas. Existem fatores subjetivos muito fortes na montanha: altitude, temperatura, luminosidade, umidade, que mudam as condições de uma escalada.

Em uma competição, qualquer uma na verdade, a tendência é que os fatores ambientais sejam minimizados ao máximo, para proporcionar condições iguais e uma justa chance a todos os competidores, daí a tendência atual de se realizar competições em ginásios de escalada e não em ambientes abertos e menos ainda em naturais. Paradoxalmente, então, as competições feitas em montanha tem menos valor que aquelas feitas em ambientes construídos, internos.

O site que eu visitei, como qualquer outro do gênero sugere, aliás, bastante objetividade. Mostra tabelas com nomes de pessoas e números que indicam pontuações, para que os curiosos possam conferir a competitividade das pessoas e, imagino eu, talvez apostar, como nas corridas de cavalos ou nos campeonatos de futebol, em quem vai chegar em primeiro lugar.

Mas esta objetividade toda às vezes tropeça em fatos menos evidentes e que não dizem respeito a questões ambientais. Algumas categorias, por exemplo, tem tão poucos competidores, tres, dois ou mesmo um só, que ganhar uma colocação nestas categorias parece significar pouca coisa, até mesmo apenas uma mentira, um vazio. Também em alguns casos a diferença entre o primeiro da lista e segundo, ou o último pode ser de dezenas, ou mesmo centenas de pontos. Em que medida, eu me perguntei, esta diferença tão grande representa uma competição verdadeira ou apenas a consagração daqueles que já são bons no assunto?

Nos campeonatos que tive a oportunidade de assistir, o que me chamou sempre a atenção foi uma certa e permanente tensão no ar. Os competidores, atores principais destes eventos, estão buscando a ascensão não só à via, mas também aos pontos mais altos do pódio. Com isto eles não podem ser “amigos”, “solidários” ou “cooperativos”, pelo menos não no mesmo sentido que estas mesmas pessoas seriam, no caso hipotético de se encontrarem em uma mesma cordada na montanha.

Aliás, não sei se todos os leitores repararam, curiosamente este também é um importante ponto de distanciamento entre a forma tradicional de escalada, com cordadas independentes mas com indivíduos interdependentes e a escalada em campeonatos, onde apenas o indivíduo, o competidor escala, o “segundo” não é segundo de cordada, não escala, é apenas uma pessoa que segura a corda para evitar uma queda. Com isto, o competidor, mesmo não escalando em solitário experimenta uma angustiante solidão. Não pode receber mais do que protocolares estímulos do seu assegurador, sob pena de ser suspeito de estar procurando obter informação desautorizadas.

O site mostra ainda uma lista com “route setters”, denominação em inglês que eu penso que deve ser utilizada em substituição à designação menos elegante (em português), “abridor de via”, que uma livre tradução designa o que estas pessoas devem fazer: facilitar as coisas para que o campeonato aconteça, ou seja, como no caso da sardinha, que necessita de um abridor de latas para ser consumida, um campeonato necessita de um abridor de vias para ser consumado.

Porém, é bobagem imaginar que estou sendo preconceituoso com esta função dentro dos campeonatos. Em um certo sentido, a função desta pessoa me lembra o respeitável papel do montanhista que abre uma rota em uma parede. Ambos fazem algo novo, mas as semelhanças acabam aí. Um montanhista quase sempre terá prazer e interesse em mostrar o resultado do seu trabalho aos demais montanhistas, indicando dificuldades ou facilidades, tendo a obrigação de ser honesto com os demais montanhistas. Sobretudo um montanhista que abre uma via tem de ser solidário com os escaladores que desejem fazer esta via. É isto que o torna inserido em uma comunidade.

Infelizmente me parece que este é exatamente o papel inverso a ser realizado pelo route setter. Seu trabalho deve ficar mascarado, escondido dos demais, em segredo. Se ele respondesse perguntas com honestidade ou fosse solidário, a estrutura do campeonato estaria comprometida. Na montanha, por exemplo, esta postura poderia ser considerada antiética. Mas em um campeonato, se a posição dele fosse questionada, em uma situação extrema ele poderia ser acusado de corrupto ou carrasco dos demais. Reconheço, com isto, que um route setter tem de ser muito íntegro, mas sua função é bastante solitária e, em certa medida ingrata, não o invejo nem um pouco.

Finalmente, também a plateia parece ter um papel estranho nestes eventos, como, aliás, em qualquer competição. Ela compartilha da tensão do ambiente, pois sempre parece estar esperando algo “anormal”: uma queda, uma quebra de tempo, algo que eu imagino, proporcione um “plus” a uma atividade da qual ela não está envolvida fisicamente, pelo menos não no mesmo nível dos competidores. Talvez daí a estranha e perturbadora constatação de Umberto Eco (1), de que as competições, em uma época em que a mídia transmite tudo a tempo real, poderiam ser realizadas não para uma plateia real e sim para uma virtual. Atores poderiam substituir atletas encenando competições para os veículos de comunicação. Esta é a opinião de Umberto Eco, lembrem-se.

Competições existem desde que algumas civilizações se refinaram e passaram a usar parte do tempo livre dos seus cidadãos para atividades de lazer. O formato tradicional “que o melhor vença” tem sido a forma comum, a conformação, desde então, aplicada a corrida de bigas, salto com varas, competições gastronômicas ou campeonatos de escalada. É algo inerente ao ser humano, dizem, mas o conformismo é, segundo Hannah Arendt (2), um dos pilares que a civilização moderna adotou para evitar qualquer energia contestadora, modificadora, aquela, aliás, que é própria dos jovens. Paradoxalmente, a competitividade torna os jovens mais conformados.

Pode-se afirmar que as competições aumentam o nível técnico da escalada, o que é verdade, mas mesmo sendo, em essência, cooperativo e não exatamente competitivo, o fato é que o montanhismo tem objetivos próprios e motivações e que o nível das escaladas aumenta por conta destas motivações, pois alta performance é exigida em qualquer das duas atividades.

 Leituras:

(1)    Umberto Eco: Viagem à irrealidade cotidiana

(2)    Hannah Arendt: A condição humana

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Cinco ensaios sobre a coragem

Por Edson Struminski (Du Bois)

Primeiro ensaio: o cansaço

A fissura sobe reto em direção a um pequeno teto que está a uns dois metros acima de mim. Encaixei uma peça para minha proteção e fiquei ali, cansado, olhando para o pedaço de rocha saliente que teria de ultrapassar. Estudei as agarras prováveis. Enquanto isto tentei achar uma posição confortável para os braços, que teriam de fazer todo o serviço pesado, mas não estava fácil…

Fiquei pensando nas coisas convencionais que as pessoas deviam estar fazendo naquele domingo: jogando bola, assando churrasco, assistindo TV. Sentia cansaço.

Passaram-se os minutos, meu companheiro embaixo já mostrava alguma inquietação, pois a parede era negativa e ele não conseguia me ver. Eu não me movimentava. Pensei que ultrapassar o teto não seria assim tão difícil quanto o desgaste e o cansaço que teria de enfrentar se fosse obrigado a parar antes para colocar mais uma proteção contra a queda. Então, para mim, naquele momento, a coragem se resumia a uma questão mesquinha, mas de qualquer forma essencial para manter minha integridade física: decidir se preferia me arriscar a deixar vencer pelo cansaço, às custas de colocar esta proteção adicional, ou se arriscava uma queda maior na peça que estava ao meu lado, apenas para passar logo pelo teto. Fora isto, é claro, tentar cair fora. Tinha de lidar, então, com dois tipos diferentes de medo: o de ser vencido pelo cansaço ou o de faltar força e habilidade. No fundo, no fundo estava cansado de ter de ser sempre corajoso.

Acabei chegando a um meio termo. Me movimentei um pouco para cima e coloquei mais uma peça na fissura. Uni as duas com uma fita longa e fiz uma equalização. As duas juntas poderiam suportar uma queda de respeito.

Avisei meu parceiro lá embaixo e agora fiz os movimentos rapidamente. Subi a fissura, ultrapassei o teto. Não foi assim tão difícil afinal. Acima dele uma pequena plataforma onde sentei e respirei. A coragem foi superar o cansaço e tomar a decisão certa.

Olhei para cima. Uma nova fissura subia até um outro teto. Ia começar tudo de novo…

 Segundo ensaio: a brincadeira perigosa

 Depois de tres temporadas e várias semanas abrindo a via em solitário eu já estava próximo do cume. Faltavam 100 metros, mas eu já tinha acesso à vegetação que poderia me propiciar uma saída de emergência. Sentia que era questão de dias para acabar a escalada, mas o tempo estava mudando, para pior.

Já tinha automatizado certos movimentos para subir e descer a parede, o que agilizava as coisas. Tres ou quatro cordas fixas para me movimentar até o bivaque. Tres ou quatro estações de rapel (paradas) com grampos fixos.

Uma destas paradas era em uma rampa de aderência, ao lado de um diedro encimado por um teto saliente. Um belo lugar.

Eu mantinha sempre as cordas fixas nas paradas superior e inferior ao mesmo tempo. Assim elas não ficavam balançando na parede, não poderiam ser levadas pelo vento e ficarem enganchadas em algum lugar fora da via.

Para evitar o desgaste da corda com o teto eu não a deixava fixa o tempo todo. Somente a instalava quando era necessário e a recolhia para cima do teto nos momentos em que não estava em uso. Então ela ficava fixa apenas na parada superior, acima do teto. Eu só a fixava embaixo quando sabia que subiria por ela de novo, em algum momento do dia.

Havia então uma rotina diária. Descer pela corda e ficar pendurado no teto, parar na estação de rapel, me autoassegurar na parada, fixar a corda à parada, soltar o aparelho de rapel da corda do teto e engatá-lo na corda de baixo, para descer até a estação inferior (esta sim fixa embaixo).

Aquela foi uma destas ocasiões rotineiras. Fiz todos os momentos iguais, mas soltei o aparelho da corda do teto antes de fixar a corda. A corda fez um rápido movimento para a esquerda, para o vazio.

Foi um choque. Fiquei pasmo por um momento, assistindo aquela corda balançando no vazio, no ar, longe da minha mão.

Para mim aquela corda era a garantia de uma saída da parede se algo desse errado, agora algo tinha dado errado com ela.

Avaliei minhas opções. Teria de descer mais 50 metros para soltar a corda inferior, subir de novo até a parada da rampa de aderência e usar então, aquela corda, como um apoio, para tentar resgatar a primeira, que continuava ali, balançando no ar indiferente à minha agonia. Seria praticamente um dia perdido, um dia vital com as nuvens começando a mudar o tempo, um desgaste físico e moral terrível por conta do erro tolo, ou…

Ou emendar um punhado de fitas com um peso (mosquetão) na ponta e sair sem corda mesmo, tentando laçar, como um boiadeiro, a corda extraviada. Seria uma cena estranha. Teria de confiar no calçado, na aderência da rampa, em Deus, em Marx, no meu sangue frio e habilidade, em qualquer coisa que pudesse me ajudar a me tirar logo daquela situação tonta e agoniante. Eu não podia me aproximar da borda da rampa, mas ao mesmo tempo quase queria flutuar, me atirar talvez, no vazio onde a corda estava, balançando a 300 metros do chão, para resolver logo as coisas.

Não foi preciso muito tempo para decidir. Olhei para a rampa, muito parecida com um local onde treinava e brincava no nosso campo-escola. Quatro passos pela rampa, um punhado de fitas com um peso na ponta girando no ar, nem muito forte a ponto de me desequilibrar, nem tão fraco para não fazer efeito e, logo, a corda fujona voltava para a mão. Fiz isto e até me apoiei nela, para olhar para o vazio.

A coragem foi então, como uma confiança laçada em cima do vazio, meu primeiro solo, um prêmio para uma brincadeira sobre um erro tolo, que felizmente deu certo.

 Terceiro ensaio: o pavor e o respeito

 Aquele bivaque tosco e improvisado já tinha virado um inferno, um inferno frio e úmido e eu já não queria mais saber da escalada, só queria saber da sair dali, mas o dia estava escurecendo e ficando nublado e eu apenas podia pensar no horror de ter de passar mais uma noite infernal ali, naquela parede, naquele bivaque frio e úmido.

Chegou a noite. Tentei fazer algo para comer em meio à neblina e à garoa. Lá pelas tantas virei a lanterna para o lado e vi uma pessoa. “Mas não há ninguém aqui! Estou sozinho há 20 dias neste lugar!”, pensei.

Comecei a resvalar para fora da minha sanidade. O que via eram meus fantasmas que vinham me atormentar.

Apenas sobrevivi a aquela noite, ao frio, à fome, à molhadeira.

O dia amanheceu com vento, frio e chuva. Juntei um punhado de coisas e abandonei o bivaque.

Já não era um homem, estava em frangalhos, como um soldado que antes mesmo de ver o inimigo já foge de pavor, só de ouvir sons desconhecidos. Apenas pensava em fugir daquela parede, daquela montanha, esconder minha vergonha e meu fracasso.

Me arrastei para longe daquele lugar. Mas o pavor me seguiu. Tive pesadelos, vi fantasmas e seres estranhos me perseguiram por muito tempo, fiquei em um extremo entre a razão e a loucura.

Meus joelhos ficaram destruídos. Fiquei seis meses sem escalar.

Lentamente, graças a alguns poucos amigos, recuperei minha sanidade e meu mundo. Descobri que não fui o primeiro que havia passado pavor na montanha. Me vi humano de novo. Percebi que meu medo e minha covardia poderiam ser curados se eu me preparasse melhor para as escaladas, para as montanhas. Se eu as respeitasse mais, se eu respeitasse mais os meus limites.

No inverno seguinte estava no mesmo bivaque, com uma pequena barraca que me protegia do clima, com meus medos superados, ou assim eu achava.

A noite chegou, ouvi vozes estranhas, uivos, mas agora já não era o soldado que fugia. Estava entrincheirado, tinha comida, roupas secas, estava protegido, preparado, treinado. Pensei “se algo quiser me pegar, terá de me jogar com tudo aqui de cima desta parede. Mochila, cordas, saco de dormir, barraca, tudo comigo dentro. Daqui eu não saio”.

O dia amanheceu, um dia de escalada como muitos outros que viriam na minha vida. Os fantasmas tinham desaparecido.

A coragem voltou para mim quando descobri que o respeito pela montanha e por mim mesmo era o antídoto que me fortalecia contra o pavor que eu sentia.

 Quarto ensaio: um forte antes de tudo

 Naqueles dias era tudo muito novo para mim. Estava em uma estrada no sertão da Bahia, muito jovem, com uma namorada igualmente jovem, ambos conhecendo aquela paisagem inusitada de montanhas. Até então o Nordeste para mim, para nós, nada mais era do que uma sucessão de cidades praianas.

Havíamos subido uma montanha daquela região onde havíamos dormido e até mesmo sentido frio, o que era uma extraordinária novidade para aquela moça nordestina criada a vida inteira no calor e no plano.

Também lembro que em alguns momentos eu mal dividia minha atenção entre cuidar dela e a curiosidade de olhar mais de perto algumas curiosas rampas de pedra, de explorar, enfim, o terreno, para mim tão diferente daquela montanha nordestina.

Com isto ela parecia me achar extraordinariamente corajoso apenas por ir à frente desbravando o terreno, o que, de qualquer forma me deixava lisonjeado.

Agora estávamos voltando em direção a uma pequena vila com uma estação ferroviária antiga e decadente. O sol era forte e fazia calor. A falta de água já se fazia sentir. A vegetação, de caatinga, acentuava o aspecto de secura do lugar.

Ao longe avistamos um homem montado em um jegue, um burrico, um animal que é o próprio sinônimo da resistência naquele mundo semi-árido. Ela trazia dois pesados galões pendurados. Paramos o homem para pedir água.

Ele abriu um dos galões e nos ofereceu uma caneca generosa de leite. Forte, refrescante, que nos matou a sede e nos alimentou ao mesmo tempo. Nos deu força para continuar.

Conversamos, ele nos contou um pouco da sua história, das secas que enfrentou, dos seus poucos animais, dos filhos “que se criaram” e de outros que não resistiram.

Ele contava sua história e eu não conseguia falar, não conseguia entender aquela pessoa, por que ele continuava ali, naquele lugar que tanto havia levado dele, que tanto o maltratava.

Levariam muitos anos para eu entender aquele homem, sua resignação aparente, sua fortaleza (como diria Euclides da Cunha), sua coragem, apesar de tudo, da dor, da tristeza, de lutar e resistir naquele mundo que para mim era tão inóspito, mas que para ele era seu mundo e nele era um homem verdadeiro, digno, onde cabia até mesmo a solidariedade e a generosidade com pessoas estranhas como nós.

Apenas um sertanejo perdido em aos pés de uma montanha da Bahia, mas de quem eu nunca consegui esquecer a coragem.

 Quinto ensaio: a busca da dignidade

 Neste instante personifico a própria tranquilidade, compenetrado na tarefa de retirar os cristais soltos da aderência que vou pisar. São cristais de quartzo brilhante, muito pequenos, 2 a 3 mm de tamanho. Soltam-se facilmente e por este motivo não posso escalar sem fazer esta pequena limpeza prévia das agarras. Os cristais caem em direção ao início da parede. Por menores que pareçam, se eu os pisasse, eles funcionariam como pequenas rodas de um patim, girando e impedindo que meu calçado toque a parede. Poderia escorregar e cair.

Fico imaginando se os cristais se acumularão nas agarras alguns metros abaixo de mim e formarão uma sutil camada de areia que possa me prejudicar se eu tiver de desescalar por ali, ou se irão saltitando até engatarem na vegetação em algum ponto desta longa parede. Penso que talvez eles possam entrar dentro das folhas em forma de tubo de alguma daquelas bromélias que eu vi há uns cem metros abaixo de mim e ficar lá por anos, gerando uma estranha convivência planta-rocha.

Depois que solto a primeira camada de cristais de quartzo, é necessário esfregar a agarra com a palma da mão para desprender a areia formada por mica ou feldspato que envolvia os cristais e que tem a aparência de um fino pó branco, que contrasta com o escuro da parede.

Quisera eu ter uma escova agora, mas eu tenho de me contentar com o serviço que faço com os pés e com a palma da mão. Agora assopro a agarra que surgiu, imaginando que talvez este fino pó servirá como uma inesperada janta, nutrientes para alguma daquelas plantas que vejo a minha volta, alguma planta que irá se beneficiar da minha intromissão naquele ambiente, daquela pequena marca do tamanho de duas pontas de pés que eu faço naquela parede de centenas de metros.

Após retirar a primeira camada de cristais e a areia que os envolviam, surge uma segunda camada de cristais, estes sim firmes na parede, cujas pontas penetrarão na borracha do tênis de escalada e permitirão que eu me sustente na aderência. Pude sentir eles com a palma da mão quando limpava a areia. Eles me fazem pequenos cortes, por isto eu poupei as pontas dos dedos, pois elas são importantes para que eu possa manter o equilíbrio e buscar agarras, por menores que sejam, nesta parede de aderência extrema.

Estou sendo meticuloso porque minha vida depende disto. É a meticulosidade, que vem de longos anos de experiência, que me dá a coragem que eu necessito para escalar neste tipo de situação, sem corda, a centenas de metros do chão.

Estou concentrado e compenetrado no que vou fazer, não é uma brincadeira, uma improvisação. Não sinto fome, ou frio, ou cansaço. Estou onde quero estar, não penso em fugir, em fazer o caminho mais fácil. Estou apenas fazendo uma escalada digna do lugar e digna de mim, sem aplauso, sem plateia. Às vezes é necessário coragem para isto também: apenas ser digno de si mesmo.

 

O tempo não para, diz a música do Barão Vermelho. E muitas vezes vejo que fantasiamos a coragem na montanha apenas para melhor suportar o tédio, o medo e a insegurança que a vida comum nos traz. Com isto, muitos de nós nos agarramos a atividades tolas, mecânicas e pouco criativas. Nossa vida covardemente conduzida por outros.

Nestas horas eu lembro de pessoas que conheci e que realmente admiro pela coragem: médicos plantonistas, bombeiros, catadores de lixo, aquela família de agricultores que perdeu tudo em um destes planos econômicos desastrosos e que estava lá, acampada, apenas querendo começar de novo, o líder da comunidade de pescadores de Ararapira, o sertanejo no fundão da Bahia, aquela senhora que decidiu que a quimioterapia não ia ser o fim da vida dela. Daí eu percebo como somos privilegiados, pois podemos nos dar ao luxo de sermos corajosos na montanha, apenas porque queremos e não porque necessitamos.

 

“Das Ilusões”

Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o.

Com ele ia subindo a ladeira da vida.

E, no entretanto, após cada ilusão perdida…

Que extraordinária sensação de alívio!

 

Mario Quintana

Livro: Rua dos Cataventos & outros poemas

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Estudo avalia a capacidade de resistir a incêndios da vegetação do parque com as montanhas mais altas do Paraná.

Por: Edson Struminski (Du Bois)

 A lembrança ainda fresca dos incêndios (incluindo cicatrizes na paisagem) que de forma tão trágica ocorreram no Parque Estadual Pico Paraná em 2007 e 2008, motivou a execução de um trabalho que pudesse prevenir, minimizar ou, ao menos, entender por que ocorreram estes incêndios nas montanhas mais altas do Paraná. Este trabalho foi desenvolvido entre os meses de julho e setembro deste ano de 2009 sob os auspícios do Instituto Ambiental do Paraná.

Percorrer a região com as montanhas mais belas do Estado, a estudo, prazer ou lazer, (na verdade todas estas coisas junto), representa um privilégio inigualável, todos sabem disto. Um certo número delas não visitava havia mais de uma década, um pequeno número delas eu ainda não conhecia. Então mapear o risco de incêndios nesta região surgiu como uma oportunidade de refazer o roteiro destas montanhas, ampliar e atualizar minha leitura montanhística da região, mas também representou uma grande responsabilidade, pois significa contribuir para proteger um pouco das paisagens notáveis desta região.

De início, posso dizer que aquilo que encontrei a respeito de teoria sobre incêndios florestais não me satisfez muito. A teoria tradicional não assimila bem a variedade de ambientes que encontramos em diferentes montanhas e como elas reagem ao fogo: florestas de baixa e média encosta, florestas de altitude, ou diferentes formações herbáceas de altitude: campos úmidos, secos, rupestres (arenito), rupícolas (granito), etc.

Na verdade esta teoria é bastante utilitarista. Pastagens, agricultura, reflorestamentos, etc, são priorizados pelo valor econômico que possuem, assim ambientes naturais ficam um pouco na berlinda, quando se trata de proteção contra incêndios.

Então, o jeito foi voltar para a escola. No meu caso a Escola de Florestas da UFPR. Bibliotecas, conversas com professores e colegas, muitas leituras (veja abaixo algumas das referências, de 1 a 7). Meu problema era menos entender como combater incêndios, algo que a prática muito já me ensinou e também a muitos montanhistas, do que em entender a capacidade de florestas e campos de altitude de resistir a eles, algo que tem o potencial de mudar equipamentos, técnicas e principalmente estratégias. Este entendimento começaria a surgir como um quebra cabeças que eu iria montando a partir da laboriosa contribuição de meus colegas engenheiros, que deixaram teses, dissertações e estudos sobre florestas e campos de altitude, incêndios, impactos ambientais em montanhas, etc.

À medida que fui assimilando este conhecimento me senti mais à vontade e mesmo necessidade de ir olhar para as montanhas com os olhos de quem tinha absorvido toda esta teoria e queria vê-la no lugar. Após elaborar um mapa de vegetação (as fotos aéreas disponíveis ainda são da década de 1980), base do mapa de risco de incêndios, projetei alguns pontos de visita, tanto na base das montanhas como em algumas das trilhas de altitude, para atualizar o mapa e conferir as condições do terreno.

 Investidas

 Junto com Vanessa Ariati, uma estudante de biologia da PUC-PR que está realizando um estudo botânico no pico Caratuva (uma das montanhas do parque, justamente a que incendiou em 2007) e com um funcionário do Instituto Ambiental do Paraná, realizei uma primeira investida aos pés do Pico Paraná, na chamada janela do rio Cotia (onde inicia a trilha que leva às escaladas do pico Ibitirati), um local degradado, mas com potencial para receber alguma estrutura de combate a incêndios e também a um local que eu não conhecia, a usina de energia Capivari-Cachoeira, que pertence à companhia de energia paranaense e que faz divisa com o parque. Neste último local fomos surpreendidos pela existência de um grupo de emergências, com pessoal treinado para incêndios e atendimento a acidentes. Um ponto favorável para a região.

Com Vanessa fiz uma segunda investida de tres dias no eixo da trilha do Pico Paraná (incluindo a participação em um resgate circunstancial de uma turista), com ascensões ao Getúlio Vargas, Caratuva (montanhas que sofreram o incêndio de 2007), PP, Itapiroca e ao belíssimo Taipabuçu.

Também fizemos uma laboriosa e cansativa investida no eixo da trilha Camapuã-Tucum, Cerro Verde-Siririca (dois dias), com volta pelo “caminho do Professor” (um dia). No início desta trilha encontra-se o Pedra Branca, montanha que também incendiou, em 2008. O cansaço foi compensado pelo tempo aberto e pela beleza e tranqüilidade destas montanhas.

No Getúlio e no Caratuva fizemos uma avaliação do incêndio de 2007 e dos impactos da instalação de antenas e de outros cacarecos no cume desta última montanha. Com isto, aos poucos, foi possível montar as peças do quebra cabeças do fogo nas montanhas.

 Percepções sobre a ecologia de incêndios em montanha.

 A intenção deste artigo foi apresentar uma breve conclusão sobre o que estudamos e vimos em termos de incêndios em montanhas aqui para o Paraná. Penso que parte disto vale para qualquer montanha tropical.

A percepção de quem visita o parque do PP com os olhos voltados não apenas para a paisagem e sim para o uso público, particularmente no que diz respeito ao risco que esta visitação traz ao ambiente natural (via incêndios) é, hoje, um tanto quanto desalentadora.

O visitante dos picos Tucum, Siririca, etc, inicia seu passeio por uma trilha com a sinistra paisagem do morro Pedra Branca queimado no seu lado direito.  A trilha circula em meio a uma vegetação arbórea, mas que visivelmente sofreu em um passado não muito distante (20 anos) com incêndios. Bambus e altas taquaras em grande quantidade despejam grande quantidade de folhas e gravetos secos na beira da trilha. Trata-se, igualmente, de um ambiente propício a um incêndio florestal de superfície, como aliás foi o início do incêndio ocorrido em 2008.

Também a vegetação do início da trilha que dá acesso ao Pico Paraná, é basicamente secundária, porém herbácea e arbustiva (samambaiais, bambusais, gramíneas, arbustos) resultante de incêndios anteriores e recentes no pico Getúlio. Ela queima fácil, muito embora ela volte rapidamente ao estágio herbáceo, quando sofre um incêndio, particularmente em altitudes menores. De qualquer modo, a possibilidade de ocorrência de um novo incêndio é alta nesta trilha, uma questão de tempo, tendo em vista a alta visitação que esta região recebe.

 Algumas conclusões

 Algumas das trilhas deste parque estadual, mesmo algumas que não são assim tão visitadas, estão em péssimo estado de conservação, com erosões, deslizamentos, lama, áreas de instabilidade, degraus de ferro arrancados, degradação da vegetação, espécies invasoras, lixo, áreas de acampamentos em excesso, mas principalmente tem problemas com vegetação passível de ocasionar novos incêndios, este sim, um problema com impacto duradouro no parque. Algumas montanhas tem passivos ambientais gerados pela construção de antenas de comunicação (Caratuva, Siririca). Mas toda esta longa lista é relativamente fácil de resolver. Alguns recursos financeiros, materiais e pessoal com vontade de trabalhar dão conta destes problemas localizados, em tempo relativamente curto (com base na minha experiência no assunto estimo um ano ou dois). Uma antena desativada, por exemplo, pode simplesmente ser desmontada e levada embora de helicóptero.

Já o dano causado por um incêndio tem um efeito muito mais duradouro no ambiente. A recuperação natural pode acontecer (ou não) em uma escala de tempo muito superior a que estamos acostumados na nossa escala humana (centenas de anos?). O próprio tempo de formação destes ambientes de altitude extrapola o período que a civilização humana levou para chegar ao estágio atual nesta região.

A vegetação secundária ou oportunista (samambaiais, bambuzais) está em contato com áreas de florestas e campos de altitude. Nestas áreas, a ocorrência de incêndios acaba tendo impactos irreversíveis, como parece ser o caso do pico Caratuva. De modo geral as florestas de altitude, apesar do seu aspecto de antigas e duráveis, são extremamente frágeis, pois dependem exclusivamente da reciclagem das folhas que caem das próprias árvores (húmus), para se nutrir. O solo, basicamente orgânico retém pouca umidade em certas épocas do ano (períodos de estiagens sazonais), mas as árvores são resistentes a estas sazonalidades. Porém, caso ocorra um incêndio (como de fato ocorreu), o solo é queimado (incêndio subterrâneo), as árvores perdem a sustentação e ocorre uma instabilidade geral no ambiente. O efeito é devastador. Então, no caso de florestas de altitude não existe a menor dúvida. O incêndio é fatal, destrutivo e pode até mesmo se tornar um dano irreversível. As áreas em que as trilhas atravessam as faces norte e oeste das montanha são as piores situações de risco de incêndios, além é claro, dos acampamentos. Mas o risco é geral, pois um raio ou um balão podem cair longe destes pontos.

De modo geral um incêndio será um pouco menos desastroso para as formações de campos de altitude. Estas formações não são uniformes (podem existir arbustos, bambus, bromélias, etc) e nem sempre correspondem a aquela imagem de “campos” com a qual estamos acostumados. Dentro da variedade de campos, existem ambientes mais propensos a colonizarem locais permanentemente secos e outros permanentemente úmidos, além de campos em ambientes intermediários (sem considerar aí a florística). As espécies que colonizam estes ambientes podem ser diferentes e naturalmente o comportamento do fogo será diferente. Existe uma chance maior de sobrevivência por parte de algumas espécies em caso de incêndio em campos de altitude, dependendo da quantidade de umidade que consigam reter no solo abaixo deles, mas nem todas as espécies suportarão bem o fogo. O mais provável é que o campo de altitude fique mais semelhante e a um empobrecido “pasto de altitude”, caso sofra queimadas (caso do pico Getúlio).

De qualquer modo, como são ambientes altamente especializados e frágeis, não há nenhuma evidência científica de que o fogo seja recomendado como instrumento de manejo em nenhum dos dois casos. A respeito disto pode-se ler uma interessante polêmica na internet. (8).

Como recomendações gerais para este parque está a orientação dos visitantes, o manejo (corte de samambaias e bambus) nas margens da trilha (para favorecer o crescimento de vegetação florestal) e a formação de brigadistas, com fundamentos em ecologia de montanha.

Também recomendo o acompanhamento meteorológico. A retirada de alguns equipamentos inservíveis no cume do Caratuva e a instalação de uma estação meteorológica pode ser uma opção interessante para o parque. Da mesma forma estou sugerindo a construção de uma casa de combate a incêndios e apoio a resgates no pico Getúlio, nos moldes das existentes no morro do Canal e Anhangava. Neste local pode ser feito um armazenamento de água para rescaldos.

 Anualmente ocorre, de forma natural, um fenômeno simples e importante nas florestas de altitude: as árvores renovam as folhas. Folhas velhas caem, se acumulam no solo, decompõem-se lentamente e liberam nutrientes para as próprias árvores. Este fenômeno ocorre no fim do inverno e início da primavera, época em que o calor aumenta no hemisfério sul e em que pode ocorrer uma estiagem eventual. Esta combinação de grande quantidade de material seco no solo, mais temperaturas subindo, mais secas eventuais, junto com um “plus” adicional nas faces norte e oeste (além é claro da visitação desregrada das “temporadas de montanha”), foram determinantes para os incêndios anteriores.

Conhecer isto é fundamental para prevenir novos incêndios.

 Mais sobre ecologia de altitude:

 (1) ROCHA, M. do R.L. Caracterização fitossociológica e pedológica de uma Floresta Ombrófila Densa Altomontana no Parque Estadual Pico do Marumbi, Morretes, PR. Curitiba, 1999.Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná.

 (2) SCHEER, M.B. & MOCOCHINSKI, A.Y. Florística vascular da Floresta Ombrófila Densa Altomontana de quatro serras no Paraná. In: São Paulo, Biota Neotropical, FAPESP, n. 9(2), 2009, p. 1 -19.

 (3) STRUMINSKI. E.   Parque Estadual Pico do Marumbi, caracterização ambiental e delimitação de áreas de risco. Curitiba, 1996. Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná. 112 p.

 (4) PORTES, M.C.G.O. Deposição de serrapilheira e decomposição foliar em Floresta Ombrófila Densa Altomontana, morro do Anhangava, Serra da Baitaca, Quatro Barras, PR. Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná.Curitiba, 2000.

 (5) KOEHLER, A. Floresta Ombrófila Densa Altomontana: aspectos florísticos e estruturais do componente arbóreo em diferentes trechos da Serra do Mar, PR. Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2001.

(6) MOCOCHINSKI, A. Y.; SCHEER , M. B. Campos de altitude na serra do mar paranaense: aspectos florísticos. In:  FLORESTA, Curitiba, PR, v. 38, n. 4, p. 625-640, out./dez. 2008.

 (7) TRAMUJAS, A de P. A Vegetação de Campos de Altitude (Áreas de Refúgio) no Maciço Ibitiraquiri – Serra do Mar no Estado do Paraná. Curitiba, 2000. Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná.

 (8) RIBEIRO, K. T. Campos, fogo e gado, considerações sobre o artigo de Pedro Hauck “origens dos campos de altitude”. In:  http://www.altamontanha.com/colunas.asp?NewsID=1425.  Acesso em  26/5/2009 .

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