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Archive for outubro \21\UTC 2010

Por: Edson Struminski (Du Bois)

As pessoas que eventualmente passam na trilha do Anhangava, visitantes ou freqüentadores, muitas vezes não imaginam que em muitos dos trechos em que andam hoje, há não muito tempo, 25 anos atrás, talvez, passavam caminhões retirando pedras que iam para a cidade de Curitiba. Estas pedras serviam para calçar praças, escadarias, calçadas ou para criar monumentos, embelezando e ajudando a criar uma identidade urbanística própria para a capital paranaense, como podemos ver no interessante livro do geólogo Antonio Liccardo, da UEPG (1).

Porém, enquanto a capital se empetecava, o resultado da exploração da pedra era outro na Serra do Mar, em particular no Anhangava, que era de onde boa parte daquela pedra vinha.

A exploração mineral havia começado nos anos 1950 e em meados de 1980 a coisa estava no auge. As fotos aéreas mostravam uma neurótica rede de estradas comendo como cupim a montanha. A Floresta Atlântica do lugar, fosse queimada ou cortada, ia cedendo lugar para lavras de mineração. Estas lavras aproveitavam, segundo estudos da estatal Mineropar (2), apenas 30% do material que elas exploravam, o resto virava rejeito, lixo mineral que dificilmente era aproveitado. Na verdade, o ambiente como um todo era degradado.

Conheci o Anhangava nesta época, 1979. Naquele momento, em plena ditadura militar, dificilmente alguém poderia contestar ou propor algo inovador como um parque em uma região em pleno “progresso”, que é um slogan político que a prefeitura do município daquela região mineradora usava até pouco tempo atrás. Mesmo assim, em um gesto que mesclava um pouco de ousadia e ingenuidade acabei propondo, em 1983, a criação do tal parque para a Serra da Baitaca em um congresso sobre que debatia outro parque, o, então finado, Parque Marumbi.

É claro que eu percebia que o Anhangava já era mais do que mera área de exploração mineral. Desde os anos 1940 escaladores já subiam o morro e o local já havia se encaminhado para ser uma escola de escalada. Missas também começaram a acontecer no cume da montanha nos anos 1950. Mais ou menos no mesmo período em que começava a exploração do granito.

40 anos depois estas diferentes concepções de uso da montanha estariam em pleno choque. Nos anos 90 os mineradores já não trabalhavam no morro. Muitos tinham vendido seus terrenos para montanhistas que tornaram-se proprietários de lavras abandonadas e de áreas muitas vezes degradadas. Na “Chácara dos Cabritos”, por exemplo, onde vive atualmente o Chiquinho, fabricante da Alto Estilo, só existia uma grama muito rala, fruto do pastoreio das cabras e pedreiras abandonadas. Hoje nós temos pinheiros com 18 anos de idade, entre várias outras árvores…

Trilhas do Anhangava em detalhes

Estradas e trilhas existentes no Anhangava foram motivo de um trabalho que fiz ainda na faculdade de engenharia florestal. Na época registrei o caos em forma dos caminhos (3). A vegetação fragilizada pelos incêndios convivia, nas trilhas, com erosões enormes, que corriam em um solo frágil. Nas estradas, assistíamos a evolução das voçorocas e deslizamentos derivados da falta de planejamento na construção dos trajetos.

Tudo isto foi fruto do descaso e do abandono da mineração, mas acabou sendo apimentado também por um evento desastrosamente promovido e inflado pela mídia e incorporado pelo município como um evento festivo (cidades interioranas adoram este tipo de coisa), que era a missa do 1o de maio quando milhares de pessoas subiam o morro em um único dia.

Este evento, ainda que interessante do ponto de vista da tradição local, sobrecarregava as trilhas e ampliava os efeitos da erosão muito além do que seria aceitável.

O auge da degradação na trilha foi no início dos anos 1990. As medições que eu fiz na época mostravam 2,5m de profundidade de erosão dentro da trilha em alguns pontos e quase 5m de largura nos locais mais degradados e que recuperaríamos nos anos seguintes. Difícil de acreditar para quem anda hoje no lugar…

A partir deste ano e de posse destes dados, iniciei uma mobilização que juntou moradores, montanhistas, escoteiros e ONGs ambientalistas em mutirões que mais tarde desembocaram em um projeto que teve, entre outras atribuições, a de recuperar trilhas no Anhangava. O Projeto Anhangava foi o pai do Adote uma Montanha, embora ele tenha tido o enfoque mais amplo, incluindo pesquisas científicas, coisa que o Adote não faz.

Com base nas pesquisas foi que eu pude comprovar que os trabalhos simples, diques de pedra, calçamentos, cobertura da lateral com palha de samambaia, funcionavam.

Um dos efeitos disto pôde ser medido ao longo do tempo. André Jara (Xina), escreveu em 2007 uma monografia de especialização em Geografia (4) sobre a trilha principal do Anhangava que avalia o que foi feito ao longo dos anos no lugar. Confira a tabela ao final deste artigo. Se formos considerar que algo em torno de 90 cm é o suficiente para uma pessoa transitar por uma trilha e que 1,5m é considerado aceitável em uma trilha linear (com pessoas subindo e descendo), vocês podem imaginar o ganho que foi realizado no lugar.

Ainda assim há coisas por fazer na trilha do morro. Este levantamento que estou fazendo agora sugere sugestões técnicas para problemas que a improvisação criou, como a permanência de resíduos de erosão, ou a ausência de segurança em alguns pontos. Assim, estou sugerindo a construção de saídas dágua, melhorias no calçamento, muros de arrimo em alguns pontos, colocação de alguns degraus em áreas de risco e o manejo da vegetação (corte de bambus e samambaias) que são espécies oportunistas que são risco de incêndio no inverno.

É provável que estas medidas se incorporem no parque estadual que existe na região. Em todo o caso será um recurso a mais para os montanhistas poderem usar no planejamento dos mutirões e de outras atividades nas trilhas.

Veja mais em:

(1)  LICCARDO, A. La pietra e l´uomo. Cantaria e entalhe em Curitiba. São Paulo, 2010. Beca Ball Edições.

(2) MINEROPAR. Perfil da indústria de rochas ornamentais. Curitiba. 1999.

(3) RODERJAN,C.V.,  STRUMINSKI, E. Caracterização e proposta de manejo da Serra da Baitaca – Quatro Barras – Pr. 2v. Curitiba: FUPEF/FBPN, 121p., 1992.

(3) Maia, C. A. J. Análise do estado físico e proposta de manejo da trilha principal – Morro do Anhangava – Quatro Barras – Pr. Curitiba, 2008. Monografia. (Especialização em Análise Ambiental), Universidade Federal do Paraná.

tabela evolução de larguras da trilha do Anhangava

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