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Archive for março \17\UTC 2012

Pedras soltas!

Por Edson Struminski (Du Bois)

A cidade de Curitiba é cercada por montanhas e escarpas em várias direções. Granito, arenito, migmatito, calcário, entre outras rochas, formam paredes, rampas e negativos que permitem aos escaladores curitibanos usufruírem de grande variedade de opções de escalada.

Entre as diversas áreas de escalada que existem nesta região, me adaptei particularmente às montanhas de granito na porção da Serra do Mar paranaense, a leste de Curitiba, onde fiz minha vida de montanhista e há uns dez anos ou mais frequento também uma curiosa pedreira de xisto na porção oeste de Curitiba, da qual já falei aqui, a “Mundo da Fantasia”, um local abandonado em forma de concha onde surgiu um lago e espécies de árvores domésticas como o Pinus se tornaram estranhamente “selvagens”.

É muito raro aparecer algum escalador neste lugar. Imagino que os motivos sejam o aspecto pouco “amistoso” das paredes, muito verticais e a sensação de insegurança que ela produz por conta da enorme quantidade de pedras soltas que ainda possui em algumas das suas paredes.

Eu convivo com isto e aprendi a evitar os setores mais perigosos desta pedreira. Em troca, tenho usufruído de espetaculares momentos de escalada em solitário.

Só que isto não me poupa de sustos. Não é incomum encontrar um teto que caiu de um mês para outro, trechos inteiros que desmoronam, agarras que quebram, pedras soltas. Em uma das minhas últimas investidas nestas paredes, além de encontrar um novo acúmulo de grandes lascas de pedras em um platô, ainda tive sorte, escapei de uma agarra que quebrou e passou a poucos centímetros do meu rosto…

Estas pedras podem provocar um desmoronamento, uma queda, romper uma corda, atingir pessoas.

Na verdade pedras soltas fazem parte da minha vida de escalador desde meus primeiros dias de escalada. Já na primeira via que abri encontrei um pequeno trecho com pedras soltas que tive de driblar.  Com o passar dos anos assisti pessoas que sofreram acidentes graves com pedras soltas, também eu já fui atingido por uma destas uma vez, longe, muito longe de casa…, parece uma coisa irreal: você em um cenário de sonho e machucado por uma pedra que caiu. Em uma outra ocasião, já no fim da via, já sem corda, no acampamento de cume, já sem riscos, a não por ser uma pedra solta na beira da parede… Cada vez que eu lembro destas pedras soltas na minha vida é como se um filme em câmera lenta passasse na minha cabeça. Uma delas, de fato foi assim. Havia feito uma cordada em solitário, fiz o rapel até o início da parede e estava jumariando para a parada na parede, quando uma pedra solta, uma TV de 21 polegadas, lentamente começou a se deslocar na minha direção. Esperei ela chegar no limite e me empurrei para fora da parede, puxando a corda ao mesmo tempo. Lá se foi ela abaixo com um estrondo.

De nada vale uma bela sequencia de movimentos se a agarra que você segura é uma pedra solta. Se aquele bloco enorme em que você se apoiou, na verdade, estava apenas fragilmente apoiado e se movimentou com seu peso.  Elas não respeitam o nível técnico do escalador, os melhores e os piores podem ser vítimas dos seus caprichos. Elas representam, então, uma ruptura na ordem racional de uma escalada. Nada te prepara para elas. Elas nos colocam em um dilema: o que fazer? Colocá-las de lado? Jogá-las para baixo e arriscar atingir a corda ou alguém? Ignorar-las e talvez provocar uma queda não programada?  O que fazer, então, quando nem tempo temos de raciocinar, quando não podemos decidir nada e estamos à mercê dos acontecimentos, de uma pedra rolando junto com você ladeira abaixo?

Este tipo de dilema que a natureza nos coloca me mostrou, desde o início, que a escalada não era realmente um esporte convencional, que o risco era muito maior que aquele que eu poderia encontrar nos esportes comuns, que havia possibilidades de acidentes graves, risco de vida.

As pedras soltas nos tiram da zona de conforto e nos confrontam com a possibilidade da insegurança na escalada. Elas nos obrigam a pensar se é aquilo mesmo que queremos continuar fazendo, pois a dor que elas provocam, quando somos atingidos, pode até passar, mas não pode ser esquecida, pois é uma experiência única.

Então, novamente podemos fazer uma analogia da experiência da escalada com a vida. Na vida também, muitas vezes, seguramos em pedras soltas, que nos derrubam e nos machucam e mesmo assim continuamos, temos de continuar e, talvez por isto, por este motivo é que a escalada segue sendo uma atividade tão fascinante, tão difícil de abandonar, pois nos ensina a continuar em frente, mesmo com ilusões: agarras falsas e pedras soltas.

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