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Archive for julho \30\UTC 2007

Edson Struminski (Du Bois)

         O cume do morro Anhangava, conhecido campo-escola paranaense tinha, até pouco tempo atrás, poucos atrativos para os escaladores, sendo uma área mais freqüentada por visitantes ocasionais do morro, religiosos e acampadores.

Com tudo isto, o cume desta montanha acabou acumulando impactos consideráveis: lixo, vegetação destruída, fogueiras, trilhas em péssimo estado. O cume do morro decididamente era uma área pouco atraente, tanto que apenas dois blocos para escaladas com corda de cima, ofereciam chamarizes para os poucos escaladores que se aventuravam neste ponto da montanha.

Após 1992, montanhistas tornaram-se moradores do Anhangava e a partir de 2002, o Anhangava e toda a serra do qual faz parte acabou virando um parque estadual. Estes fatos somados levaram a um lento processo para recuperar e modificar o uso do lugar. Neste ano de 2007 um dos mutirões do Adote uma Montanha foi feito neste setor da montanha, incluindo o cume, o que permitiu que várias atividades fossem realizadas como limpeza, plantio de árvores, corte de Pinus (espécie arbórea invasora no local) e calçamento de trilhas.

Um pouco antes disto, em 2005/06, tive a satisfação de orientar a monografia de especialização de Hebert Sato (31 anos), um montanhista que desenvolveu uma pesquisa antropológica com a “tribo” de escaladores do Anhangava e que, após isto, se mostrou cada vez mais interessado nas atividades que estavam acontecendo no morro, a ponto de me propor a abertura de um setor para escaladas no cume do Anhangava e, com isto, quem sabe, resgatar esta área para a prática esportiva dentro do espírito do que tinha sido feito em um outro setor chamado Interiores (que havíamos aberto em 2006), ou seja, a abertura de um setor de escaladas com equipamentos fixos de qualidade, mas também com cuidados ambientais que ainda não eram corriqueiros nos setores antigos abertos no Anhangava.

O NOVO SETOR, CUIDADOS AMBIENTAIS

Em abril de 2007 fizemos uma primeira investida no local. Uma trilha a partir de um bloco chamado Raízes foi feita passando pela base do novo setor, na verdade dois blocos separados por uns 50 metros de distância. Da mesma forma como havíamos feito no setor Interiores, esta trilha foi calçada com lajes e blocos de pedra existentes, na maioria no local e também reciclando algum material de uma construção demolida no cume. Árvores de Pinus foram cortadas e seus troncos aproveitados para contenções. Uma imensa quantidade de lixo começou a ser retirada: de escovas de dentes a cobertores, passando por panelas, lanternas, pilhas, garrafas pet, grelhas de churrasco, calçados velhos, plástico, discos de vinil, latas e muito vidro quebrado, inclusive nas paredes, algo suficiente para encher quatro grandes mochilas cargueiras. Também fizemos uma cuidadosa remoção e remanejamento de bromélias que estavam nas linhas de rapel da parede, pois poderiam sofrer com a queda de cordas. Estes cuidados ambientais mínimos, permitirão que o lugar possa ser utilizado permanentemente, com manutenção bem menor do que acontece nos outros setores do Anhangava. 

AS ESCALADAS

A limpeza das bases e a montagem da trilha correu em paralelo com os sempre cansativos trabalhos de chapeleteação da parede, feitos, neste caso, com corda de cima. Participaram nos inícios dos trabalhos Thomás Alexandre Kämpf (26 anos) e Flora Kesselring (20) companheiros do setor Interiores. Outro parceiro da empreita foi Ermínio Gianatti (34), que com seu inesgotável bom humor e disposição contribuiu muito para o avanço dos trabalhos na parede e na trilha. Já Sato, com sua paciência oriental e eu, acabamos realizando o trabalho de formiguinha, persistindo fim-de-semana após fim-de-semana, carregando pedras, furando a rocha para as proteções, limpando o lugar… A Bonier nos cedeu material fixo e a Conquista equipamentos para repor o que gastamos na empreita. Mais do que meros patrocinadores, foram parceiros. Irivan Burda, da Bonier me deu uma série de esclarecimentos a respeito do material que colocamos na parede: resistência, qualidade, durabilidade. Segundo a avaliação dele, o material de inox deverá durar de 3 a 5 vezes mais que os grampos comuns, dependendo do ambiente em que for colocado. Isto pode significar uma vida útil longa, de 30 a 150 anos. Com Edmilson Padilha, da Conquista, que é um importante aberturista de vias da atualidade, compartilhei dúvidas sobre a criação deste novo setor. Ed foi uma das primeiras pessoas que convidamos a escalar no lugar.

O calor de abril induziu a sugestão de nomes que guardam grande atualidade com os acontecimentos atuais: setor Estufa e seus filhotes (vias de escalada), como: Captura de Carbono, Efeito Estufa, via Reciclável, S de Sufoco, etc, vias estas que alcançam graduação variada, de 5o a 7 b ou c. Escaladas de 20 a 25 metros que envolvem principalmente técnicas de regletes misturadas a aderências, comuns no granito do Anhangava. Foram montadas 3 paradas, mas o formato em meia laranja das paredes não permite um rapel livre de atritos. Assim, os escaladores devem estar atentos para o melhor ponto de descida da parede, podendo ser, inclusive, interessante deixar uma parada armada com mosquetões e fitas para evitar o desgaste das cordas. O uso da trilha ainda é o melhor meio de acessar o setor.

Embora 9 vias estejam chapeleteadas, foi possível constatar a possibilidade de variantes, cruzamentos entre as vias e cordas de cima, o que, na prática, amplia consideravelmente o número de escaladas possíveis de serem feitas a partir da estrutura instalada. Certamente o setor representará uma agradável contribuição para a escalada em rocha no Anhangava.

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O FUTURO DA ESCALADA NO ANHANGAVA E NO PARANÁ

Da mesma forma como já havia acontecido com o setor Interiores em 2006, a abertura deste novo setor de escaladas no Anhangava gerou vários comentários favoráveis e algumas críticas.

Os comentários favoráveis dizem respeito a quem já teve a oportunidade de lá escalar e, com isto, de desfrutar de momentos agradáveis e do belo visual de cume, em um setor da montanha relativamente isolado do burburinho dos demais setores de escalada do Anhangava e em vias modernas e novas.

Já uma das críticas diz respeito ao fato de que com a abertura deste setor estaríamos desrespeitando uma moratória que a comunidade de escaladores promoveu no lugar para a colocação de proteções fixas e abertura de vias. A moratória aconteceu em 1997, em função da degradação gerada pelo excesso de problemas ambientais causados pelos escaladores, como compactação de bases de vias e platôs, erosão ou deslizamento de trilhas de acesso, ou mesmo pela simples falta de padrões de segurança ou critérios para a colocação das tais proteções fixas. Além disso, havia grande número de vias na época com manutenção precária.

          Eu pessoalmente não entendia a moratória dentro de uma visão conservadora, ou seja como uma justificativa para não se fazer nada e fechar tudo e sim como um estímulo à ação, de modo que estes problemas fossem resolvidos no tempo mais curto possível e, desta forma, fosse atingido novamente um ponto de equilíbrio no uso do local, de forma que pudéssemos novamente usufruir o potencial que o lugar sempre teve, não só como escola de escalada, mas também como irradiador de idéias inovadoras.

          Assim, durante alguns anos, aconteceram atividades intensas no Anhangava. Trilhas foram recuperadas, ou fechadas, bases de vias ou platôs estabilizados, vias clássicas regrampeadas. Criou-se uma cultura de cuidado com o lugar que segue até hoje. Oficialmente o Anhangava participa do Adote uma Montanha. Também os equipamentos de escalada evoluíram e surgiram chapeletas de inox da Bonier, fixadas com parabolts do mesmo material, que garantem mais durabilidade e resistência para as proteções fixas na rocha.

Com tudo isto, a partir de 2005 novas vias começaram a ser abertas no Anhangava e em 2006 eu próprio participei da abertura de um setor inteiro de escaladas no local, o setor Interiores. Eu entendo que o fim da moratória para novas escaladas no Anhangava é um capítulo passado na vida do lugar, porém, acho que quem tiver argumentos sólidos contra isto deve usar o espaço deste blog para contra argumentar e com isto ampliar a discussão.

Uma outra crítica diz respeito ao fato de que com a abertura de novos setores não seriam deixadas para as “futuras gerações” mais escaladas novas para abrir no Anhangava. Esta crítica é procedente, pois matematicamente falando, o número de paredes e de vias possíveis de se abrir no lugar é realmente finito, como aliás em qualquer lugar, consequentemente cada via nova aberta hoje reduz o estoque futuro, um dilema, portanto, muito semelhante ao que a humanidade em geral enfrenta em relação ao uso dos recursos naturais do planeta.

Responder adequadamente a esta crítica, que aliás tem alguns pontos falhos, pode significar para o montanhismo a possibilidade de ajudar a humanidade na resolução dos seus dilemas maiores. Para isto necessitamos fazer algumas considerações: o que significa “futuras gerações” quando nos referimos ao montanhismo? A escalada é um recurso renovável?

As crianças aprendem a subir em coisas praticamente na mesma idade em que conseguem ficar de pé e andar, mas até que possam chegar ao ponto de amadurecimento necessário para abrir novas vias de escalada, com todos os riscos inerentes a isto, passam-se muitos anos. Assim, não é possível colocar uma criança de 10 anos para fazer isto, mas sim um jovem a partir dos 20, a faixa de idade de Tomi e Flora, por exemplo. Pessoas da geração deles estariam, então, amadurecidas o suficiente para abrir vias, estando eventualmente interessados em capturar o que eu tenho de conhecimento e aperfeiçoá-lo para as demais gerações, as que estão com 10 e zero anos, para quem eu (com 44 anos) possivelmente já estarei distante.

A troca de informações entre veteranos e jovens é interessante e pode ser ilustrada por um fato acontecido em uma das vias (Via da Raposa) deste novo setor. Via de regletes e aderência cheia de cristais quebradiços, inicialmente cotei em 7b e uma vez definida a linha de subida, acabei graduando a via em 7a ou menos. Todos os demais escaladores que tentaram a via, mais jovens que eu, graduaram inicialmente em 7c e até mesmo 8a. A que se deve tão disparatada diferença de graduações?

Certamente não a habilidades escaladorísticas, que meus colegas escaladores, mais jovens, tem em maior grau do que eu. Atribuo isto a diferenças culturais, “de gerações”. Na verdade, ao iniciar na escalada, no fim dos anos 70, eu e vários outros escaladores tínhamos como parâmetro de dificuldade máxima o 6o grau, que era feito com o antológico tênis kichute devidamente turbinado com solado de colarinho de pneu de caminhão. Calçado flexível e pouco preciso mas aceitável para escaladas de aderência (onde o bom posicionamento do corpo é mais importante que a força bruta), com o kichute fazíamos o 6o grau “fácil” e o 6o grau “difícil” (tinha ainda o 6o grau “não fiz”). Com o surgimento de calçados adequados, nos anos 80, o “não fiz” foi feito e começou a receber as graduações que estão aí hoje. Fazer aderência se tornou uma coisa “fácil”. Assim, para mim, os graus de dificuldade, para este tipo específico de escalada são bem menores do que para alguém que nunca teve a oportunidade de escalar com um tênis precário como eu. Mas para transmitir esta informação adequadamente e graduar uma via que não “apavore” escaladores iniciantes, ou não seja desacreditada pelos veteranos, é necessário a troca de idéias entre pessoas de várias gerações. Desta forma, acredito que mantenho um conhecimento “útil” para as novas gerações se estiver com eles nas paredes.

Vamos refletir agora sobre o segundo ponto. Teoricamente, se o número de vias é finito em um lugar, a escalada é, então, um recurso não renovável, o que significa que uma vez acabado o estoque de vias para abrir existentes neste lugar o interesse pela escalada deveria decair, correto? Aparentemente não, pois as novas gerações simplesmente estabelecem novas formas de se relacionar com este lugar, independente da existência de novas vias para se abrir, como nós próprios fizemos há 20 anos atrás com boulders e artificiais em livre. É por isto que a escalada mantém seu interesse passados tantos anos e em tantos lugares.

Assim, considero que não devemos subestimar a capacidade das novas gerações de reinventarem a escalada e, assim, manter vivo o esporte. Considero preferível ter esta posição otimista do que ter uma excessivamente conservadora e com isto congelar as possibilidade de avanço do esporte e de aperfeiçoamentos em tratos ambientais.

Este congelamento, aliás, é a principal consequência de uma falha no raciocínio “a abertura deste setor não deixará para as futuras gerações mais escaladas novas para abrir no Anhangava”. Pois apenas estaríamos transferindo este dilema para o futuro, para as tais futuras gerações que seriam, de novo, confrontadas com o mesmo raciocínio e com as mesmas restrições, sem contar, porém, com as experiências das gerações anteriores.

VEJA TAMBÉM: Croquis do setor nas fotos do site

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* IMPRESSÕES DO BLOG

Primeiras impressões

A todos os leitores do site do Du Bois, meus agradecimentos pelas sugestões e contribuições.
Tomo a liberdade de divulgar as sugestões mais interessantes vindas para melhorar o site.
Du Bois
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Salve Du Bois!
De início: parabéns pela iniciativa. Com certeza hoje em dia temos muiiiito mais facilidade de angariar conhecimentos sobre montanhismo do que há décadas atrás – muito graças à internet. Mas infelizmente quando passamos uma peneira técnica percebemos que são raros os materiais confiáveis e de qualidade. Uma pena…
E outra, o seu site parece que vai abranger alguns temas voltados à preservação e condutas de mínimo impacto bastante adequadas ao momento em que o montanhismo nacional se encontra, inclusive abordando temas raramente encontrados e debatidos por aí…

Sou suspeito por viver de imagens…rs… mas se quer um conselho, só acho que quanto mais conseguir “decorar” a página com algumas imagens, mais vai garantir a leitura dos visitantes (já estamos velhos de saber que o brasileiro não gosta de ler, não é, mesmo)…
não precisa ser uma página de imagens, mas acho que algumas fotos ilustrativas (pode ser apenas uma nova por página) vai valorizar ainda mais a página e pode aumentar ainda mais o interesse dos visitantes pelos textos…
Bom, pediu, falei demais…rs.
Até breve, valeu!
Márcio Bortolusso

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Olá Dubois,Muito bom o site, parabéns. Muito interessantes as colocações sobre o Pega
leve e as corridas de aventuras. Este pano de fundo de afinal qual é a
relação destes atores com a natureza normalmente é superficial ou
desconsiderada.

Como sugestão creio que seria legal que as referencias na produção
cientifica estivesse linkada para download ou com um meio de contato com os
autores.

E finalmente, envie logomarca para divulgação no Infotrilhas, podemos
colocar uma nota no Destaches da Parochia e no link Apoio

Um abraço

Zen

infotrilhas- lista@yahoogrupos.com.br
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Olá Du Bois,

Parabéns pelo site!! Muito bom, realmente com conteúdo.
Concordo e admiro seu ponto de vista sobre “contribuir para a reflexão e ação do montanhismo”. 

Estarei adicionando seu link em nosso site Trad Friends.

Grande abraço!

Andrey Romaniuk
http://TradFriends.com

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Parabéns pela sua nova conquista.Não o conheço pessoalmente mas há anos ouço falar na sua participação no mundo montanhístico.
Fiquei sabendo através da lista da FEPAM de seu site e o visitei sem maiores pretensões. Fiquei positivamente surpreso pois é algo bem diferente da tônica dos sites de montanhistas.
Também considero o conteúdo e a reflexão, muitas vezes mais importante que a “simples” ação de ir à montanha.
Que este espaço enriqueça e colabore com o bom desenvolvimento do nosso esporte, que muitas vezes se torna opção de vida.

Cordialmente,
Rafael Hartmann Gava
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Salve salve grande Edson.
 
Valeu pelas informações.
Aproveitando …. parabéns pelo site que está no ar.  Já fiz uma visita rápida e ficou legal.
Vamos nos falando mais até o Encontro de Montanhismo de Londrina.
 
Abraço
 
Claudiney
 
 ney_gloor@hotmail.com
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Gostei da tua ideia, gostei bastante mesmo.. dei uma lida rapida e achei q realmente o negocio vai funcionar.. farei o possivel para botar uma lenha nisso…
grande abraco e parabens pela tua iniciativa e coragem!!! gostei bastante
intehhh
Alexandre

From: Alexandre Lorenzetto
alexlorenzetto@hotmail.com

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AVALIANDO O “ADOTE UMA MONTANHA”Edson Struminski (Du Bois) Lançado em 2002, durante o Ano Internacional das Montanhas, o Programa Adote uma Montanha tem âmbito nacional, desenvolvendo-se em diversas áreas montanhosas ao longo do país. Entre 2005 e 2006 acabei realizando uma avaliação do Adote no âmbito de projetos “sustentáveis” realizados na Região Metropolitana de Curitiba (STRUMINSKI, 2006). O Adote teve uma boa avaliação, mas pode ser aperfeiçoado em muitos pontos. Neste artigo estarei apresentando o resultado desta pesquisa e discutindo estes pontos aqui com vocês.Inicialmente é importante dizer que o Adote incorporou, na prática, atividades que os montanhistas já realizam de forma espontânea ou voluntária há décadas, dando uma feição mais organizada ou articulada a estas atividades.Este programa se justifica, conforme afirmam nossos colegas montanhistas RIBEIRO, LORENZETTO e RODRIGUES (2004), pois, em diversas iniciativas, os montanhistas mostraram-se parceiros da gestão de áreas naturais, principalmente no que se refere a manejo destas áreas ou mesmo na criação de unidades de conservação. O Adote apresenta como parceiros a nível nacional o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e o Ministério do Meio Ambiente, sendo que as informações sobre o programa estão no site da Federação Paulista de Montanhismo (http://www.femesp.org/adote/php). As federações estaduais de montanhismo atuam regionalmente através das suas instituições de montanhismo federadas (clubes, associações), que tem geralmente origem urbana e que trabalham em parceria com prefeituras municipais, ONG´s ambientalistas, associações de bairro, grupos escoteiros, empresas privadas e escolas de escalada. A adoção a que se refere o programa consiste em realizar várias atividades no decorrer do ano, algumas bastante simples, visando auxiliar na proteção e manutenção dos ambientes de montanha. Algumas das atividades sugeridas pelo Adote para os grupos participantes são:·          Limpeza de trilhas – coleta seletiva de lixo, deposição de material reciclável em local onde haja coleta urbana (de preferência seletiva) e deposição de material não-reciclável em aterro sanitário.·          Contenção de focos de erosão com técnicas apropriadas.·          Organização e colaboração em campanhas de conscientização dos visitantes, principalmente em épocas de maior afluxo.·          Desenvolvimento, organização e implementação de um sistema mínimo de sinalização para evitar impactos indesejados ao longo de trilhas.·          Realização de cursos de interesse associados ao programa (ex: combate a incêndios em montanha, resgate a acidentados)·          Sensibilização e mobilização das populações locais para a importância de apoiar e participar das ações propostas. A metodologia de trabalho do programa prevê a realização prévia de um levantamento das características e problemas da área escolhida com o objetivo de coletar dados e informações que permitam o delineamento de um plano de ação. Em seguida é prevista a elaboração de um Plano de Ação anual, com os seguintes itens: descrição detalhada da área, dos objetivos específicos e das ações propostas, cronograma de atividades, previsão de equipes de trabalho, previsão de materiais e de recursos necessários e, finalmente, previsão de um orçamento. O Plano de Ação é executado via parcerias, sendo os trabalhos realizados a partir de mutirões realizados por voluntários, em ambientes algumas vezes inóspitos e de difícil acesso, nos quais a prática e a experiência dos participantes, mais do que o próprio Plano de Ação, tem sido determinante para o sucesso do trabalho.Cada organização deve entrar previamente em contato com o proprietário das terras, ou o responsável pela unidade de conservação onde pretende atuar e obter a permissão para desenvolver as atividades da campanha. Em tese, o programa não executa ações em áreas onde a existe a cobrança de valores monetários para ingresso.Além destes aspectos organizacionais, o programa fundamenta suas ações na chamada “ética de mínimo impacto”, que conforme KUNREUTHER (2005) possui princípios que as pessoas adotam conforme seus valores e seu comprometimento com a conservação do ambiente natural e ARANTES (2005), considera fundamentada também na capacidade de auto-regulamentação dos excursionistas. Esta ética surgiu da constatação da existência de poluição e de destruição de áreas naturais promovida pelos excursionistas que freqüentam estas áreas, segundo http://www.pegaleve.org.br, que eu avaliei em um artigo anterior.Alguns resultados do Adote
Segundo o site (com atualização de setembro de 2005), este programa envolve 31 instituições que atuam em diversos estados da federação, congregando cerca de 2.000 pessoas filiadas ou simpatizantes em todo o Brasil, sendo, possivelmente, o mais amplo programa de educação ambiental em andamento no país. No Paraná algumas áreas recebem algum tipo de assistência regular destes grupos (Parque Estadual Pico Paraná; Parque Estadual Pico do Marumbi; Parque Estadual Serra da Baitaca; Serra da Melança, Pico Araçatuba e Serra de São Luiz do Purunã), havendo, neste Estado também ações no sentido de ampliação da segurança pública em áreas naturais, resgate e salvamento de acidentados e combate a incêndios florestais (www.fepam.org). Porém, a abrangência das áreas do programa e o número de pessoas ou da população envolvidas não são especificadas no site do programa. Um dos resultados obtidos no programa é o de que a educação ambiental vem sendo trabalhada a partir de questões cotidianas e comuns aos visitantes destas áreas de montanha. Eventualmente, com isto, ele também reduz a dicotomia urbano/rural. Segundo a coordenação do Adote, engajando-se no programa, o participante consciente tem a oportunidade de mostrar um bom exemplo de cidadania para o restante da sociedade. Avaliando o adote
A análise deste programa mostra que sua visão da natureza concilia princípios biocentristas (ética naturalista) com antropocentristas (uso de recursos naturais com mínimo impacto). Em função disto, a sociedade é vista como promotora de danos ambientais como poluição (lixo, poluição da água, etc) e destruição de áreas naturais (danos em trilhas ou na vegetação das montanhas), assim, os trabalhos de educação ambiental apresentam o enfoque da mudança de valores individuais. Por outro lado, o programa procura favorecer a conservação da natureza através do voluntarismo, estimulando mutirões. Minha prática com o Adote aqui no Paraná mostrou que a informação científica, que poderia trazer mais valor aos trabalhos (em comparação com outros projetos dos quais participei), é usada de forma limitada, em trabalhos disciplinares (eventuais mapeamentos das áreas onde serão realizadas intervenções), de modo que nem sempre é possível realizar uma avaliação de resultados a contento.Assim sendo, do ponto de vista do discurso, este programa fundamenta sua sustentabilidade social e ambiental com base nos seguintes princípios:
Uma mistura entre uma ética naturalista “verde” e humanista cartesiana, que preconiza o uso de tecnologias limpas, o uso de recursos renováveis, a mudança de valores individuais e aspectos como solidariedade, cooperação, voluntarismo e fortalecimento de relações entre grupos e pessoas, estendendo estes princípios a entidades naturais como, animais, plantas, rios, montanhas, etc. A utilização limitada de conhecimentos provenientes da ciência cartesiana A valorização de iniciativas individuais e de grupos esclarecidos para a resolução de problemas (ética de mínimo impacto), mediante pequenas reformas, com participação limitada das instituições governamentais, dentro dos princípios do liberalismo social.Por ser realizado por uma comunidade limitada de excursionistas/montanhistas, ou seja, com foco voltado mais para os visitantes de áreas naturais do que para os moradores destas áreas, o Adote mantém um diálogo, apenas limitado, com a sociedade, através principalmente de listas de discussões na internet e da participação de interessados em mutirões. Ele procura legitimar-se frente a sociedade, através da construção da cidadania proveniente de práticas democráticas desenvolvidas em campo. Eventualmente os grupos participantes praticam também o chamado “diálogo de saberes” (LEFF, 2000), mantido entre os participantes entre si e entre os detentores de saberes populares e científicos que eventualmente participam do programa. Ao agir indiferentemente, em áreas públicas ou privadas, o programa valoriza os direitos coletivos, ampliando sua sustentabilidade social. Por outro lado, ele busca a sustentabilidade ambiental mediante o uso e gerenciamento responsável (conservacionista) dos recursos naturais. Neste gerenciamento, o programa procura produzir ganhos ambientais (por exemplo melhora da qualidade da vegetação, ou da água; redução da erosão de trilhas) das áreas abrangidas. Pode-se concluir, portanto que a proposta de sustentabilidade do Adote é condizente com seus objetivos de proteção e manutenção dos ambientes de montanha.
O programa depende de doações de materiais e de transporte de empresas, particulares ou de instituições governamentais para realizar suas atividades. A mão-de-obra é voluntária. Como ele não tem objetivos econômicos (fraca sustentabilidade econômica), percebe-se que uma das suas grandes dificuldades é a incorporação de mão-de-obra braçal para manter a continuidade dos trabalhos e de técnicos qualificados para coordenar atividades em áreas que exigem grande desgaste físico e possuem alta diversidade biológica e fragilidade ambiental e, portanto, demandam um diagnóstico mais bem elaborado. O Adote também tem dificuldades na valoração dos seus serviços junto à sociedade.Devido a postura meramente reformista do Adote (herança da nossa cultura liberal), ele acaba se tornando realmente bastante limitado. Porém, suas limitações poderão ser sanadas mediante maior profissionalização e aperfeiçoamento da captura do conhecimento já elaborado, que tanto pode ocorrer no âmbito dos projetos de cada instituição, o que é mais fácil, ou a nível nacional, o que traz maiores dificuldades em organização e comunicação, mas facilitaria a obtenção de recursos em empresas e fundos de financiamentos de projetos ambientais. Outro caminho interessante para o Adote é envolver comunidades locais nos trabalhos. Tudo isto demanda dedicação e primeiros passos, muitas vezes voluntários. Mas é um caminho interessante. Com tudo isto, a meu ver o Adote é, de fato, um programa de sucesso, pois trouxe benefícios mensuráveis para os ambientes onde atua e gerou uma cultura de cuidados com as montanhas. O cruzamento das éticas naturalista e humanista é muito rico e promove uma síntese onde a natureza das montanhas sai ganhando e seus frequentadores também. Um pouco de reflexão e ação poderão transformar este programa em algo bem melhor

VEJA TAMBÉM!
STRUMINSKI. E.   Os discursos sobre a sustentabilidade, no Brasil e na região Metropolitana de Curitiba, de 1500 aos dias atuais. Curitiba: Tese (Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento), Universidade Federal do Paraná, 2006. 218 p.RIBEIRO, K.T., LORENZETTO, A e RODRIGUES, C. Bases para o manejo de escaladas em unidades de conservação. In: Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação, IV. 2004, Curitiba. Anais. Curitiba: FBPN/REDE Pró UCs, 2004. p 335 a 345. KUNREUTHER, F. Princípios gerais de conduta para atividades ao ar livre. Guia do aventureiro consciente, São Paulo, n.1, p. 6 – 7, 2005.
ARANTES, B.C. Ética e mínimo impacto na escalada. Guia do aventureiro consciente. São Paulo, v. 1, p.9, 2005.LEFF, E. Complexidade, interdisciplinaridade e saber ambiental. In: Interdisciplinaridade em ciências ambientais. São Paulo: Signus, 2000. p 14 – 22. 

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