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Archive for dezembro \24\UTC 2007

Um mês de blog do Dubois

Edson Struminski (Du Bois) 

Passado um mês após o lançamento deste blog já foi possível constatar alguns fatos interessantes e mesmo enterrar alguns mitos.

O mito mais significativo, que me parece, caiu por terra, é o de que os montanhistas não gostam de ler nada muito mais sofisticado do que croquis de via e estorinhas de escaladas. Esta afirmação me foi feita anos atrás por um amigo que cuidava da edição de uma publicação de montanha e que me alegou dificuldades para inserir um texto, digamos, um pouco mais intelectual para as pessoas (montanhistas) lerem.

Tenho registrado uma visitação diária de cerca de 50 pessoas neste blog. Os textos nem sempre são fáceis, reconheço. Algumas vezes posso brincar com os leitores provocando contradições para fazerem as pessoas pensarem. Mas aqui estou retomando uma tradição clássica, onde a contradição não é necessarimente uma coisa ruim e sim apenas um método para se chegar a uma nova síntese.

Também tenho procurado, junto com alguns ótimos colaboradores, discutir os temas mais variados. A meu ver não existem tabus ou dogmas que não possam ser discutidos e aperfeiçoados dentro desta nossa especial e apaixonante relação entre sociedade e natureza chamada montanhismo. Algumas pessoas mais conservadoras talvez se incomodem com o fato de que os temas mais diversos sejam “cutucados”, às vezes impiedosamente por este modesto escriba residente no próprio colo da Serra do Mar, um observatório privilegiado do montanhismo situado aos pés do nosso simpático campo escola do morro Anhangava.

Na verdade eu entendo que o montanhismo é uma atividade tão rica e inovadora dentro da cultura humana que resistirá até mesmo ao assalto das minhas imaturas pretensões filosóficas, afinal é um esporte secular e tem muito a ensinar para a sociedade, assim eu penso que o mais interessante é mesmo as pessoas lerem, irem formando suas opiniões e, aos poucos, irem trazendo seus retornos para as matérias, na forma de seus comentários ou de novas reflexões. O montanhismo tem muito a ganhar com isto e a sociedade, como um todo, também.  

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Edson Struminski (Du Bois) 

O Marumbi é tido como um dos berços do montanhismo no Brasil, com mais de 100 anos de prática esportiva e uma reserva ecológica valiosa, mas o número de publicações de qualidade disponíveis para o público sobre este lugar é notavelmente baixo. Existem é claro, textos acadêmicos e técnicos e um livro anterior de minha autoria derivado de uma dissertação de mestrado, porém mais voltado para aspectos ambientais do Marumbi (1). Na verdade um véu sempre pareceu cobrir o universo da escalada no Marumbi. Sempre existiram “escaladas secretas”, “vias escondidas” e coisas do gênero que aparentemente serviam para desestimular os novatos, mas que na prática acabaram por relegar ao abandono o trabalho das gerações anteriores de montanhistas.

Este véu acaba de ser levantado agora pela notável publicação “Marumbi, guia de escalada e introdução à história do montanhismo paranaense” (2), onde o nosso dileto amigo José Luiz Hartmann, o “Chiquinho”, procura suprir tanto o aspecto tradicional do guia de escaladas, quanto a lacuna de apresentar ao público leigo um pouco da história do montanhismo no Paraná, em particular do Marumbi.

Com isto a publicação foge ao aspecto meramente utilitarista dos guias comuns e aparece como um livro de referência, particularmente em função do primoroso acabamento fotográfico, que mescla fotos convencionais de escaladas com fotos aéreas de grande distância, além de imagens antigas que dão um sabor adicional à publicação. Notável neste sentido é a didática comparação entre as vias “Incandescente” dos anos 90 e “Enferrujado”, do início dos 70, que marca, como o próprio Chiquinho ressalta no livro, a evolução da escalada em rocha nesta montanha, pois uma via é feita em livre e outra em artificial tipo “paliteiro”.

Com elegância, este tipo de comparação não é utilizado para desmerecer os escaladores antigos, mas apenas para demonstrar um pouco da ética atualmente vigente no Marumbi, que privilegia as vias em livre e com equipamento móvel. Chiquinho também inova ao introduzir na graduação das vias uma notação de passagens em vegetação (M1, M2 e M3), que refletem a nossa escalada mista tropical.

Particularmente verdadeira é, também, a constatação, feita pelo Chiquinho, da influência da abertura de vias no campo escola do Anhangava, que formou, a partir dos anos 80 toda uma geração de novos escaladores, que encontraram no Marumbi terreno farto para a abertura de grandes e pequenas paredes, pois até então as vias herdadas das gerações anteriores eram basicamente chaminés ou paliteiros artificiais. Esta constatação não deixa de embutir um desafio para as novas gerações de escaladores, encontrar novas linhas no Marumbi que já não tenham sido abertas como escaladas.

Como não poderia deixar de ser, boa parte do guia é portanto preenchido com estas escaladas que surgiram a partir daqueles anos e seguem até a atualidade. Não por acaso, o nome mais frequente e, na minha opinião, o do principal e mais importante escalador do Marumbi de todos os tempos é o do próprio Chiquinho, que com grande maturidade e humildade segue abrindo vias (as mais difíceis e as mais longas são dele) e em um gesto de extrema generosidade, se deu ao trabalho de recuperar várias das vias que estão citadas no guia, o que certamente tornará a prática da escalada muito mais prazerosa e segura para os que forem ao Marumbi a partir do próximo ano. 

(1)    STRUMINSKI. E.   Parque Estadual Pico do Marumbi. Curitiba: Editora da Universidade Federal do Paraná, 2001. 

(2)    HARTMANN, J.L. Marumbi, guia de escalada e introdução à história do montanhismo paranaense. Curitiba: Editora Marumby, 2007. 

CONTATOS COM O AUTOR José Luiz Hartmann: altoestilo@altoestilo.com 

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Por Márcio Bortolusso 

Alguns nomes se destacam na produção de imagens de montanha a partir dos anos 1960, a começar por Piero Nava, que em 60 anos produziu uma dezena de filmes e colaborou com diversas publicações, além de ter realizado mais de 500 ascensões nos Alpes, Patagônia, Karakoran, África, Groelândia, Peru e Himalaia.

Ao final desta década surgem as produções de Lothar Brandler e Gerhard Baur, dois dos maiores cineastas de montanha de todos os tempos.

Brandler produziu mais de 130 documentários e alguns longas, que na época revolucionaram a arte das montanhas, com destaque para Direttissima (1958), audaciosa escalada à Face Norte da Cima Grande di Lavaredo; Una Cordata Europea (1964), que revolucionou o cine de montanha quando foi lançado, três escaladores experts encarando a temida Tre Cime di Lavaredo; e Eiger 69: La via dei Giapponesi (1971), sobre uma árdua “tentativa” de repetição por um time germânico da via dos Japoneses.

Bauer lançou cerca de 60 grandes obras, que conquistaram não apenas o público, mas os júris dos mais importantes festivais de cinema do planeta. Bauer filmou em 1975 a primeira ascensão da “terceira maior”, o Kanchenjunga (8.579 m), participou de duas expedições ao Nanga Parbat (em 70, a fatídica para Günther Messner, e outra em 2004) e foi cameraman no épico filme No Coração da Montanha (Cerro Torre: Schrei aus Stein, 1991), de Werner Herzog, um dos melhores longas produzidos, que relata a competição de dois alpinistas na escalada do Cerro Torre. Destaque para os seus espetaculares documentários sobre a Face Norte das Grandes Jorasses (“o último grande problema dos Alpes” nos anos 30) e sobre as trágicas primeiras investidas à traiçoeira Face Norte do Eiger (conhecida na época como “a impossível” dos Alpes).

Desde que participou como documentarista em 1954 da expedição pioneira de Ardito Desio ao Chogo Ri (ou K2), ajudando a produzir o filme Itália K2, que Mario Fantin nunca mais parou. Participou de 33 expedições (20 alpinas), realizou 47 filmes e publicou cerca de 20 livros.

Com o passar dos anos os equipamentos de filmagem e de escalada tornaram-se consideravelmente mais leves, de menor volume e maior qualidade. A documentação de montanha tornou-se mais fácil por um lado, porém mais ousada.

E falando em ousadia, quem não pode deixar de ser mencionado é o cineasta suíço Fulvio Mariani, que desde os anos 80 realizou uma quinzena de incríveis documentários, rodados em regiões como África, Tibete, Índia, Paquistão, Sibéria Patagônia e Cáucaso. Em 1985 acompanhou o fenômeno Marco Pedrini na primeira escalada “em estilo solitário” do temido Cerro Torre. E Mariani era tão bom em filmar quanto em escalar, voltando outras duas vezes ao gelado cume do Torre apenas para realizar novas tomadas para o seu belíssimo filme Cumbre. No total, fizeram 22 bivaques no Ombro e 9 na parede. Com certeza trata-se de um dos maiores clássicos cinematográficos da Patagônia, com cenas incríveis, como as de Pedrini escalando apenas de camiseta e sapatilhas e brincando de motociclista sobre o compressor abandonado de Maestri, a mais de mil metros do chão, ou mesmo do impressionante solo sem estribos pelos apodrecidos grampos da headwall da parede. Mariani foi responsável pela fotografia de No Coração da Montanha (de Herzog), em 96 documentou a expedição Shisha Pangma-Everest e participou também da expedição internacional de Reinhold Messner à face sul do Lhotse, em 1989, produzindo o documentário Lhotse, l’année noire du serpent, com a participação de feras como Jerzy Kukuczka, Hans Kammerlander e Christophe Profit.

Greg Epperson é outro que se garante na hora de fotografar, já solou Big Walls cascudos, guia passagens de A4 e manda lances de até 5.12 em busca de suas imagens (gregepperson.com).

E o que dizer do fotógrafo austríaco Heinz Zak? Curiosidades à parte, após imortalizar Wolfgang Güllich em 1986 durante uma de suas escaladas mais impressionates, o solo dos seis metros fendados do teto da rota Separate Reality, no Yosemite, decidiu fazer o mesmo. 19 anos depois o renomado fotógrafo realizou a primeira repetição deste feito, escalando novamente sem corda e a 200 metros do chão esta mítica via de 5.12. Foi Zak que acompanhou Güllich em sua famosa viagem pelo Rio de Janeiro, em 87. O austríaco abriu a via Gutes Ding braucht Weile (7c, na Parede dos Ácidos), a via Speed (7b, na Pedra do Urubu) e é o autor da famosa foto do “alemão” mandando a sua recém aberta Southern Comfort, o primeiro décimo grau brasileiro (heinzzak.com).

E a lista de documentaristas que mandam muito é grande. Por exemplo, lembram-se da duríssima rota Afanassieff no Fitz Roy, repetida após 27 anos com muita classe pelos brazucas Ed Padilha e Val Machado e pelo Hermano Gabriel Otero? Então, um de seus autores, o esplêndido escalador Jean Afanassieff, dentre várias outras façanhas, já realizou dezenas de célebres documentários desde os anos 1980.

 Kurt Diemberger

Mas o consagrado gênio da documentação de montanha moderna é o cineasta autríaco Kurt Diemberger, “figuraço” pioneiro das explorações e dos documentários sobre o Himalaia, sendo o único alpinista vivo com duas subidas a cumes virgens de 8 mil metros, apenas citando alguns gigantes de seu currículo, ele já escalou o Chomolungma (Everest), o Chogo Ri (K2), o Gasherbrum II (K4), o Makalu, o Faichan Kangri (Broad Peak ou K3) e o Dhaulagiri. Em 1986 ele teve que bivacar acima de 8 mil metros no Chogo e acabou escapando da montanha como um dos dois únicos sobreviventes do trágico Verão Negro. Realizou mais de 20 expedições pelo planeta desde os anos 50 e ainda está na ativa. O seu filme La Grande Cresta di Peuterey – Monte Bianco (1964), sobre uma longuíssima e terrível escalada no Mont Blanc, se tornou um marco do Cine de Montanha. Excepcional fotógrafo, infelizmente uma de suas fotos mais famosas é a clássica imagem das pegadas de seu companheiro Hermann Buhl rumo a cornija que o engoliu para sempre, durante a primeira ao Chogolisa, no Karakoran em 57. 

Márcio Bortolusso é documentarista de montanha da PHOTOVERDE Produções® (photoverde.com.br) e montanhista patrocinado pelas marcas SOLO®, WiNDSTOPPER®, GORETEX® e SNAKE®.

Membro do Centro Excursionista Gravatá, adotou o montanhismo como estilo de vida há 15 anos.

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 Edson Struminski (Du Bois) 

O império do descartável parece que começa a chegar ao seu fim. Assim como no passado o ferro e a madeira foram símbolos da civilização, da metade do século XX em diante nós, humanos, nos acostumamos comodamente à presença amorfa e confortável dos objetos de plástico e a leveza do alumínio. Hoje eles estão em toda a parte. No supermercado, na farmácia, na escola, no automóvel, em nossa casa e até na escova de dente. Muitos esportes  praticados na natureza tiveram um enorme impulso graças à grande quantidade de produtos “plásticos”, ou seja, fabricados a partir de matérias primas derivadas de petróleo, que permitem que os alimentos não se deteriorem, que as mochilas e calçados resistam aos rigores do ambiente natural ou que os próprios excursionistas se mantenham secos. O alumínio também trouxe conforto. Quilos foram transformados em gramas o que aumentou a quantidade de objetos que podemos carregar hoje em nossas mochilas (mosquetões, panelas, fogareiros), em comparação com anos passados.

Grandes empresas e milhões de empregos foram gerados neste circuito, porém, tanto no caso do plástico como do alumínio, a descartabilidade está deixando de ser um atributo positivo para ser negativo pelo grande e incômodo volume de lixo de alta permanência no ambiente.

A marca principal do plástico, na época de petróleo ainda farto em que vivemos, é sua enorme durabilidade, baixo preço e valor limitado de revenda do produto usado para reciclagem. Isto explica sua abundância no mundo em que vivemos e de fato, em alguns casos, é bem provável que o processo de coleta, limpeza e reciclagem de determinados tipos de plásticos ainda não seja economicamente viável, ainda que represente, como disse, uma necessidade do ponto de vista ambiental. O surgimento de plásticos oxidegradáveis pode ser uma boa notícia para os aterros sanitários, que são locais onde o lixo final é armazenado adequadamente. Após algum tempo, digamos, um ano, este plástico teria sido consumido e reduziria o volume dos aterros, porém descartaria a possibilidade da reciclagem. Seria um plástico de apenas uma vida.

Já o alumínio, material abundante, recebe por sua vez, uma considerável reciclagem. Mas isto se deve ao fato de que sua extração como minério, transporte, transformação em alumínio pronto para uso industrial e uso final, consumir uma quantidade tão grande de energia que faz com que a reciclagem seja viável. Quando você compra um refri em lata no mercado está pagando, na verdade, a energia elétrica usada para processar o alumínio. A embalagem final e o próprio conteúdo pouco contam. Por sua qualidade, seria simplesmente mais inteligente usar o alumínio para fins mais duráveis e não para embalagens descartáveis. 

O LIXO DA MONTANHA

Mas há um problema ainda maior, produtos que consomem estas mesmas matérias primas e não são reciclados. As cordas são derivadas de materiais plásticos. Ao longo de uma vida de montanhista várias cordas são consumidas. Mas qual o destino destas cordas “imprestáveis”, dos anoraques usados que perderam a impermeabilidade, dos calçados de caminhada gastos com suas solas de borracha sintéticas, capacetes velhos, etc. De modo geral nós não nos sentimos responsáveis pelo lixo que geramos, embora a presença de lixo na montanha, particularmente dos plásticos que tem alta durabilidade, como as garrafas de PET, de vidro ou embalagens de alumínio facilmente recicláveis nos incomode profundamente. Efetivamente uma das ações comuns de montanhistas é a retirada de lixo, que sempre tem esta parcela “reciclável”, deixada por excursionistas “menos” conscientes.

Parte substancial do nosso consumo como montanhistas é determinada por questões de modismo. São novos e atraentes revisões de produtos, com novas cores e novos desenhos, mas que mantém as mesmas funções básicas e geram, com isto, apenas um consumo adicional de recursos para seu desenvolvimento. Outra parte destas relações de consumo são geradas por questões de segurança. Materiais velhos são poucos seguros, afirma-se com freqüência. Entretanto uma empresa  que oferecesse um mosquetão com o triplo de durabilidade nominal ou uma corda com um material excepcionalmente resistente ao desgaste seria realmente compreendida? Seus produtos, certamente mais caros, teriam mercado?

Assim, quanto destas nossas relações de consumo são determinadas por uma postura ambiental da nossa parte. Uma determinada lanterna pode oferecer mais horas de luz com menos consumo de pilhas. Estaremos sensíveis ao fato de que isto gera menos lixo tóxico ou o que importa é apenas o preço final.

Afora uma pequena parcela de nosso equipamento que acaba recebendo um reúso (vira museu, varal, vaso, usado para amarrar carga ou pendurar rede), é bastante provável que nosso material de montanha acabe simplesmente virando lixo comum.

O lixo retirado da montanha não será necessariamente enviado para locais adequados para sua reciclagem. De fato, é bem possível que a maioria do lixo, seja coletado na montanha, gerado por montanhistas ou pela parcela de população que conta com coleta de lixo, acabe simplesmente em um lixão, que é uma forma desorganizada e perniciosa de acomodar este lixo na maioria das cidades brasileiras que não contam com usinas de reciclagem ou aterros sanitários. Eles poluem lugares longes das montanhas, mas poluem. 

CONSUMO DO FUTURO 

Oferecer materiais com tecnologias limpas, cada vez mais duráveis aos consumidores pode ser uma alternativa interessante para empresas de olho no futuro. Combinar esta durabilidade com o uso de matérias primas recicladas pode ser, à primeira vista, um tiro no próprio pé, mas foi assim que a Patagônia, empresa americana de Yvon Chouinard se firmou no mercado com um diferencial. Chouinard inovou várias vezes. Usou tecidos reciclados a partir do PET das garrafas, depois introduziu o algodão orgânico como alternativa ao convencional que usa muito agrotóxico. Mais tarde, quando o próprio aumento da demanda pelo orgânico cresceu a ponto de tornar-se um problema ambiental (pelo desmatamento usado para a cultura agrícola), voltou-se para um poliéster japonês, que pode ser reciclado quase infinitamente (1).

O futuro parece apontar para os ciclos fechados. O princípio é o do poluidor-pagador, mas realizado de forma consciente pelas empresas, com o intuito de economia de energia e matérias primas e não de mero pagamento de multas. A empresa produz um produto de alta durabilidade. Após o uso ela recebe o produto de volta do consumidor que recebe um valor simbólico pelo produto, o qual passa por um desmonte que transforma seus materiais em novas matérias primas. Estas matérias primas serão usadas em outros produtos que iniciarão o ciclo novamente.

É uma via de mão dupla. Os consumidores tem de ser exigentes mas estar dispostos a mudar hábitos de consumo. As empresas tem de ser sensíveis às mudanças, mas também propor o novo.  

SAIBA MAIS 

(1) Salomão, A. O empresário da nova era verde. In: revista Época, 25/06/2007, p62 – 63.

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 DOCUMENTAÇÃO DE IMAGENS DE MONTANHA Parte 5: tempos modernosPor Márcio Bortolusso 

Pus o olho no visor e na mesma hora toda a paisagem em volta se transformou… vi naquele momento que um fotógrafo de cinema, um cinegrafista, podia redefinir o mundo, investindo uma cena tanto com a realidade da paisagem quanto com as definições visuais que sua imaginação porventura tivesse… percebi que poderia explorar tanto o mundo visível quanto minha imaginação com uma câmera… vi minha experiência das montanhas adquirir uma dimensão totalmente nova”. David Breashears em High Exposure (1999), descrevendo sua iniciação com a Fotografia de Montanha, no Half Dome em 1977, na assistência a Greg Lowe e Tom Frost.  

Desde 1995, após ter o maior insight de minha vida, que venho dedicando cada segundo, gota de suor e centavo em prol da documentação de atividades ao ar livre, em especial do montanhismo, lutando pela consolidação deste segmento. Resumidamente: apesar das dificuldades, acho que hoje já podemos comprovar a existência de um mercado de produção de imagens nacional.Nas edições passadas falei sobre os pioneiros do olhar vertical, os primeiros montanhistas e documentaristas que registraram com extraordinária competência parte de nossa história, com imagens dos primórdios do montanhismo até o conturbado período da Segunda Grande Guerra. A partir de agora, apresentarei os maiores nomes e acontecimentos dos tempos modernos da documentação de montanha, período em que lentamente ocorre a profissionalização desta incrível arte documental.Primeiramente, terei que recapitular as raízes do cinema de montanha, com detalhes não relatados nos textos anteriores.Muito mais que o enfoque desportivo, na primeira metade do século passado os filmes de montanha possuíam um caráter poético, eram carregados de dramaticidade e simbolismos. O escalador era retratado como um romântico, por vezes como um herói e com forte ideologia nacionalista.Os primeiros filmes de montanha são na verdade pérolas da “sétima arte”, pois foram alguns dos primeiros da história do cinema, lançados poucos anos após a invenção do cinematógrafo pelos irmãos Lumière, em 1895. Cervin, de 1901, acredita-se que produzido por um suíço, é considerado o primeiro filme de montanhismo da história. Outros clássicos são, o filme do alpinista americano Frank Ormiston-Smith, sobre o Mont Blanc, de 1903 e a produção de Vittorio Sella, L’expédition du duc des Abruzzes au K2, o primeiro filme da história sobre o Himalaia, de 1909.Nas primeiras décadas do séc. XX foram os italianos que dominaram o cine de montanha, com destaque para filmes sobre o afamado Matterhorn e para as produções de Mario Piacenza, como as obras Ascension à la Dent du Géant e Ascension au Cervin (rodado à 4 mil metros com os escassos recursos tecnológicos da época), ambos de 1911.

Nos anos 20 e 30 a montanha se destacou como cenário para grandes produções cinematográficas, de intrigas amorosas nas alturas a filmes de “Bang-Bang” (consegue imaginar um caubói sem as torres de Utah como pano de fundo?). Neste período foram os alemães que conquistaram o público, pelo forte apelo dramático dos filmes, como visto nos trabalhos dos pioneiros Arnold Fanck e Luis Trenker. Sob influência italiana, o que temos de mais representativo neste período são os filmes das primeiras tentativas dos ingleses ao Topo do Mundo, em especial o da fatídica tentativa de Mallory e Irvine em 1924, realizado pelo cinematografista John Noel. Apenas dando um exemplo da determinação e pioneirismo de Noel como documentarista do Himalaia, em 1913, época em que o Tibete estava fechado aos estrangeiros, ele, com o rosto pintado de preto, chegou ilicitamente a 95 quilômetros do Chomolungma (montanha que os “invasores” rebatizaram de Everest).E falando de imagens, vale lembrar que o corpo de Irvine se mantém desaparecido, com alguns experts do Himalaia afirmando que ele pode estar com a Kodak de bolso da dupla, talvez com os negativos milagrosamente conservados pelo frio e pela falta de umidade desde 1924, quem sabe revelando alguém no topo do Chomolungma trinta anos antes de Hillary e Norgay.Praticamente uma arte européia, a produção de filmes de montanha deu uma brusca freada durante as grandes guerras.

E foi no período pós-guerra dos anos 40 aos 60 que consolidou-se a escola francesa, libertando o cine de montanha de sua fase expressionista, tornando-o mais realista e narrativo que a escola alemã.E o mestre incontestável do cine de montanha, considerado o precursor deste segmento como arte, foi o revolucionário Marcel Ichac. O francês foi admirado em seu país por tudo que fez, como cineasta, fotógrafo, esquiador, alpinista e explorador. Escreveu importantes livros e realizou dezenas de documentários de prestígio durante cerca de 35 anos de carreira, que lhe renderam premiações nos mais importantes festivais de cinema do mundo, incluindo Cannes e o Oscar da academia holywoodiana. Participou das primeiras expedições francesas ao Himalaia (Gasherbrum e Annapurna), de explorações submarinas com o oceanógrafo Jacques Cousteau, de produções na Groenlândia, seu filme Soundeurs d´abîmes é considerado o primeiro da espeleologia, entre vários outros feitos. Alguns de seus melhores filmes são: Karakoram (1936), sobre as primeiras expedições ao Himalaia, marco antológico das grandes expedições da época, com toneladas de equipos, 700 carregadores, etc. Incrivelmente, foi remontando pelo autor por conta do 50º aniversário da expedição; A L´Assaut des Aiguilles du Diable (1942), sobre a primeira repetição do Mont Blanc du Tacul pelo célebre guia Armand Charlet; Victoire sur l’Annapurna (1950), sobre a ascensão do primeiro oito mil da história; Les Etoiles de Midi (1958), considerado “o maior clássico das montanhas”, sobre a fantástica primeira de Terray, Vaucher e Desmaison ao Grand Capucin, no Mont Blanc. Ichac revolucionou a documentação de montanha ao utilizar câmeras alemãs portáteis, que possibilitaram acompanhar os alpinistas durante as escaladas, proporcionando mais ação nas tomadas, tornando as imagens mais verídicas, em uma época em que eram usadas pesadas câmeras movidas a motores elétricos, dependentes do “kit-trambolho” baterias, filmes e tripé.

Com enorme conhecimento e amor pela arte documental e pelas montanhas, Ichac fez escola devido ao seu profissionalismo e à autenticidade obtida com seu trabalho. Foi o primeiro cineasta com exigências sobre a escrita cinematográfica dos filmes de montanha (preocupado com enquadramento, cenário, etc) e sempre se empenhou com a perfeita “continuidade” de cada cena. O seu método de “câmera subjetiva” influenciou inclusive outros alpinistas das gerações seguintes a se aventurar na cCinegrafia de montanha, caso de dois dos maiores expoentes da história do alpinismo: Lionel Terray e Gaston Rébuffat.Durante os anos 50 os gigantes do Himalaia e alguns cumes “impossíveis” da Patagônia foram escalados e a passos lentos ocorria a profissionalização do segmento. Hollywood ainda não tinha absorvido os ensinamentos franceses e desenvolvia-se seguindo o dramático olhar alemão. Um bom exemplo disto é o filme Third Man on the Mountain, produzido pelos estúdios Disney em 1959. Baseado no livro Banner in the Sky, narra a verdadeira história de um jovem que tenta realizar a escalada do Mattehorn (o Cervino dos italianos) em memória de seu pai que morreu na mesma montanha. Muito do sucesso do filme foi graças à perfeita atmosfera criada. Foi filmado na genuína fotografia alpina e teve como diretor de fotografia da Unidade de Montanha, nada mais, nada menos, que o próprio Rébuffat, o notável escalador da equipe que realizou a dramática primeira ascensão ao Annapurna.

Gaston ainda participou da produção de outros dois episódios da Disney para a tv (Banner in the Sky: The Killer Mountain e To Conquer the Mountain) e ampliou seu sucesso com o filme Perilous Assignment, de 1959, onde fez o seu próprio papel, como o guia que tinha o objetivo de instruir um novato no intrincado mundo do montanhismo.

Poucos sabem, mas Rébuffat tinha o mesmo talento para o montanhismo quanto para documentá-lo, foi um grande conferencista, fotógrafo, cineasta e escritor: algumas de suas fotos se tornaram históricas, produziu documentários de prestígio e escreveu alguns dos maiores clássicos do montanhismo, que descrevem muito mais que perigo, mas a fantástica energia da escalada. O seu filme Etoiles et Tempêtes (1957), é fantástico, trata de seu enorme feito, quando se tornou o primeiro a escalar todas as Grandes Faces Nortes dos Alpes: Eiger, Dru, Cervino, Grandes Jorasses, Piz Badile e Cima Grande di Lavaredo, as escaladas mais temidas de seu tempo.

 

.clássico registo de Rebuffat

Márcio Bortolusso é documentarista de montanha da PHOTOVERDE Produções® (photoverde.com.br) e montanhista patrocinado pelas marcas SOLO®, WiNDSTOPPER®, GORETEX® e SNAKE®. Membro do Centro Excursionista Gravatá, adotou o montanhismo como estilo de vida há 15 anos.

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Edson Struminski (Du Bois) 

Com este título, “uma notícia extraordinária”, circulou um email enviado por André Ilha para a lista da FEMERJ em 29 de novembro.André se refere à criação do Serviço de Guarda-Parques do Estado do Rio de Janeiro, no âmbito dos Grupamentos de Socorro Florestal e Meio Ambiente do Corpo de Bombeiros, com o intuito de atuar nos parques, reservas biológicas, estações ecológicas, em atividades de prevenção e combate a incêndios florestais, busca e salvamento, interpretação natural, histórica e cultural e fiscalização de infrações administrativas, desmatamentos, invasões, etc.Mas o próprio André frisou que os guarda-parques não (o realce é dele) terão atribuição para reprimir crimes, o que continuará sendo de competência das polícias (militar, civil, federal, etc.), mas podem e devem, comunicar à autoridade policial os casos de crimes, ou supostos crimes, detectados no interior e no entorno imediato destas unidades de conservação.Neste sentido, para aqueles que buscarão uma vaga como guarda-parques, a chance de atuar na proteção de uma unidade de conservação, que poderia ser, então, uma notícia  extraordinária pode se revelar uma terrível decepção e fonte de desgastes pessoais. Luiz Eduardo Soares, antropólogo que escreveu vários livros (inclusive o conhecido “Elite da Tropa” que deu origem ao filme), comenta em uma entrevista à revista Isto É (1) que “mesmo que você esteja desempenhando um trabalho importante, se estiver atrapalhando alguém que tenha um projeto de poder, vai ser liquidado”. De forma menos radical isto significa que muitas vezes o Estado atribui as responsabilidades mas não os meios (poder) para que estas responsabilidades sejam atendidas, o que pode gerar uma grande frustação para os futuros guarda-parques. Assim percebemos que os guarda-parques terão atribuições mais complexas que um bombeiro, de onde eles originarão, mas menos poder que um policial, tendo que se dirigir a uma autoridade policial e lidar com a lentidão, burocracia e corrupção correspondentes e, correndo, com isto, o risco de se expor e de gerar atritos com as comunidades do entorno das unidades de conservação, além de ter de enfrentar políticos, autoridades, empresários, enfim, os detentores de projetos de poder. 

CONSERVAÇÃO DA NATUREZA NO RIO DE JANEIRO 

Embora não conheça tão bem a realidade das unidades de conservação cariocas como conheço as do Paraná, posso perceber várias semelhanças (que certamente ocorrem também com outros Estados do Brasil e mesmo na administração federal), que mostram que a notícia que o André nos passou talvez não seja assim tão interessante.Luiz Renato Vallejo, professor da UFF, escreveu um artigo científico sobre a política de conservação carioca (2), onde reconheci estas similaridades. Ele conta que até os anos 1970 não existia uma Secretaria do Meio Ambiente no Rio de Janeiro e sim alguns orgãos que procuravam administrar as poucas unidades de conservação existentes a partir da Secretaria de Agricultura. Da fusão do Rio com a Guanabara veio uma reforma administrativa que criou a Fundação Estadual de Meio Ambiente (FEEMA), com um foco para o sanitarismo, ainda que contasse com um departamento de unidades de conservação. Em 86 foi criado o Instituto Estadual de Florestas, voltado para a produção florestal, mas herdando alguns recursos oriundos da Secretaria de Agricultura, inclusive as unidades de conservação.O que o professor Vallejo procura demonstrar é que os dois orgãos que administram as unidades de conservação cariocas dividem esforços e vem sofrendo um processo de enfraquecimento político ao longo de suas trajetórias, com redução de até 25% do seu pessoal  (a inclusão de 200 guarda-parques não chega a repor esta perda), arrocho salarial, limitações orçamentárias e rotatividade de pessoal entre outras secretarias. De modo geral os governos cariocas investiram, em média, 0,04% do orçamento estadual em despesas com preservação ambiental ao longo dos anos. Enfim, na verdade acredito que o próprio André Ilha poderia nos dar uma aula no que diz respeito a situação dos parques cariocas, mas tenho certeza que são problemas e situações semelhantes a vários unidades federativas do Brasil.Na verdade estas semelhanças é que me autorizam a comentar o email do André. Unidades de conservação, municipais, estaduais ou federais costumam ser usadas para maquiar interesses governamentais, gerar propaganda gratuita para atos de governo e obter fontes adicionais de recursos com os “ativos” ambientais representados pelos parques, muitas vezes herdados de outros governos. Aqui no Paraná, por exemplo, o governo anunciou a amplição do conhecido “Parque Estadual Pico do Marumbi” de 2 mil hectares para 8 mil. Esta notícia não chegou a ser extraordinária para a sociedade paranaense, porque existe a percepção de que é um parque de papel. Cheguei a perguntar a um colega da ong americana TNC que me mandou a notícia, se ele achava que o pessoal para administrar o parque e os recursos também seriam quadruplicados. Ele me respondeu dizendo que tinha dúvidas quanto ao pessoal, mas quanto aos recursos achava que sim, porque 4 x 0 é igual a zero. Note-se que até 1983 o Parque Marumbi, tinha 66 mil hectares, mas seu decreto caducou em meio ao descaso administrativo, à falta de vontade política e à consequente ausência de recursos para a sua efetiva desapropriação e implantação. A sensação então é que estamos andando para trás ou então, dando sempre os “primeiros passos”. Isto mostra o descrédito quanto à capacidade dos governos em administrar áreas naturais públicas, porque a legislação ambiental em unidades de conservação geralmente serve mais para regular e restringir o uso do solo, sendo vista como um empecilho ao desenvolvimento de uma região. Uma separação entre sociedade e governo que já comentei em outro artigo sobre os 70 anos do Parque Nacional de Itatiaia disponível aqui no blog. 

UMA NOTÍCIA A SER LEVADA EM CONSIDERAÇÃO 

O desvirtuamento do sentido da conservação da natureza é algo que pode e deve ser mudado e geralmente muda com o conhecimento, a pressão e o interesse da sociedade.  Apesar de tudo, se houver seriedade, não resta dúvida que a contratação de guarda-parques pode ser um avanço na cultura conservacionista, pois é algo que já funciona em diversos países. A aposta é para que dê certo. A contratação destes novos profissionais pode representar o surgimento de uma cultura ainda inexistente em conservação e servir como um motor para desenvolver uma região com bases sustentáveis. Os guarda-parques podem ser instrumentos efetivos de relacionamento com visitantes e moradores, como acredita o André, principalmente se suas contratações estiverem aliadas a uma busca pela participação da sociedade através do voluntariado ou a partir da co-gestão com organizações não governamentais.  

VEJA AINDA 

(1) ALVES FILHO, F. Entrevista com Luiz Eduardo Soares e MV Bill. Revista isto É. 13/04/2005. 

(2) VALLEJO, L.R. Políticas de governo e as unidades de conservação do Estado do Rio de Janeiro. In: IV Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação. Anais, Curitiba: FBPN, 2004. p 662

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