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Archive for abril \30\UTC 2008

Edson Struminski (Du Bois)

 

A partir de uma triangulação feita pelo pessoal de Londrina, chegou-me um convite de Elton Koga, da Associação Catarinense de Escalada e Montanhismo, para apresentar algo a respeito de meio ambiente em montanha, no encontro de montanhismo e abertura de temporada de escaladas que aconteceria na serra catarinense, em Alfredo Wagner a uns 140 km de Florianópolis, durante o feriado de Tiradentes  de 2008.

Elton, que também foi meu zeloso anfitrião, me informou a respeito de dados referentes ao andamento do esporte em Santa Catarina. O start da escalada neste estado, pelo menos em um nível de qualidade compatível com o resto do país, aconteceu pelas mão de Bito Meyer, que morou alguns anos em Floripa e explorou muitas das possibilidades das pedras locais. Elton me explicou que o esforço atual do pessoal está sendo na catalogação de vias, recuperação e abertura de novos setores, inclusive em rochas diferentes do granito o qual ocorre basicamente no litoral do estado.

É o caso da serra catarinense, que a partir de alguns quilômetros para dentro do continente apresenta formações de basalto e de arenito. O setor onde ocorreria o encontro é um destes testemunhos areníticos, com vastas possibilidades para a escalada desportiva, ainda que com acesso relativamente difícil para o pessoal que mora no litoral.

Assim, um dos atributos deste encontro foi justamente este. Trazer o pessoal de vários pontos do Estado e mesmo de outros Estados e mostrar algo novo, no caso, um setor inteiro novo.

Já as palestras, trocas de experiências, brincadeiras, enfim, o ambiente de camaradagem que acontece em um encontro deste tipo, sem fins competitivos, é algo que não tem como descrever. É muito bom, mesmo com a chuva que caiu no segundo dia e que frustrou um pouco a prática da escalada, embora tenha formado algumas dezenas de espetaculares cachoeiras dignas de ver.

Da minha parte, levei para o pessoal do encontro, a maioria garotada, um pouco do que tem sido feito em termos ambientais nas montanhas aqui no Paraná, algo que eu percebo através de congressos científicos, que tem um sentido de pioneirismo e inovação grande e que pode servir para outros locais que ainda não tem estes trabalhos feitos. Isto ocorreu na forma de um bate papo embora eu tenha feito questão de deixar algo meio encaminhado no próprio local de escaladas. Mesmo o puxão de orelha geral que eu dei, com relação ao  clima por demais descontraído do dia de escaladas (que geraram alguns quase acidentes) foi bem recebido. Na verdade eu considero uma tragédia quando qualquer pessoa que está em um encontro para celebrar a alegria e o prazer de estar escalando tem de sair machucada de um evento destes, que reúne um monte de pessoas legais, mas isto é algo que volta e meia acontece.

Em um sentido amplo, eu vejo que existem grandes possibilidades para o montanhismo em Santa Catarina. Este intercâmbio entre escaladores e escaladoras paranaenses e catarinenses, que é bastante próximo, pode ser proveitoso para ambos os Estados, tendo em vista que os paranaenses estão um pouco mais adiantados em organização institucional, em trabalhos ambientais (trilhas, combate a incêndios) e em resgates. Já em Santa Catarina existe grande potencial de lugares e de pessoal, além de relativamente poucos problemas ambientais nas montanhas.

Os catarinenses estão de parabéns e vão caminhando bem. O negócio é ter paciência e um pouco mais de dedicação.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Edson Struminski (Du Bois)

 

Este é um tema bastante amplo e certamente sou suspeito para falar dele, simplesmente por ser homem. Mas esta conversa surgiu entre um grupo de homens e depois eu estendi as conclusões da conversa para amigas que freqüentam montanhas e, bem, é um assunto simplesmente inesgotável e eu imagino que, com sensibilidade,  mais pessoas podem contribuir com ele. Assim sendo, vamos lá.

Há anos atrás, em 1997, eu e um colega produzimos um inédito perfil sócio-econômico do escalador paranaense (1). Na época, entrevistamos 150 pessoas e o universo feminino deveria ser algo em torno de 15% deste total, umas vinte e tantas garotas, que simplesmente ficaram mascaradas como uma minoria estatística. Como a pesquisa era então genérica e não por gênero (masculino ou feminino), nós tolamente não coletamos qualquer tipo de dado que permitisse, a nós, entender este universo. Na verdade, devo dizer, a contribuição feminina ao montanhismo (em um período pré-Roberta Nunes, pré-academias e pré-campeonatos) nos parecia irrelevante, as garotas apareciam como meras acompanhantes de seus parceiros masculinos e o esporte tinha perfil eminentemente masculino.

Será que de alguma forma este universo é mais claro, mais amplo ou mais diversificado hoje em dia?

De imediato não poderia responder a esta pergunta. É possível que em outros estados já existam dados sobre as garotas, seus interesses, suas demandas. Na verdade, passados dez anos seria extremamente útil ter novamente um novo “perfil do escalador e da escaladora paranaense”, ou do montanhismo paranaense (e certamente dos demais estados), enfim, alguém se habilita a isto?

Assim este ensaio se limita às percepções de algumas pessoas sobre o assunto. É destas percepções que vou falar aqui, mesmo correndo o risco de desapontar quem queira algo mais consistente.

A primeira percepção diz respeito ao nível técnico das garotas, algo que segundo as conversas, tem sido grandemente estimulado pelo ambiente de academia. As garotas escalam mais forte e com técnica melhor. Na verdade o ambiente de competição e não só o treino, tem levado às escaladoras a procurarem ultrapassar desafios. “Enquanto não havia competição”,  os rapazes comentaram, “não havia muito estímulo e o resultado das disputas eram mais ou menos previsíveis, com mais garotas competindo, as que estavam no topo se sentiram ameaçadas e começaram a treinar mais”. Enfim, trata-se do universo competitivo, algo que algumas pessoas (homens e mulheres), procuram usar, em nossa sociedade, para se destacar.

Na outra ponta está a escalada de grandes paredes. Excetuando o “fenômeno atípico” Roberta Nunes, aqui no Paraná ainda parecem ser poucas as garotas que se jogam em vias que exijam um comprometimento maior em termos de aventura, até porque a escalada em grandes paredes neste Estado necessariamente é uma aventura, por se desenvolver em locais onde as exigências física e mental são grandes. Mas será que estas exigências são assim tão restritivas às mulheres? Uma das garotas com quem conversei me disse que sim. Ela comentou que nestes casos o parceiro masculino se torna praticamente obrigatório. Falou-se até em um “machismo feminino”, adotado por segurança por algumas garotas em detrimento da própria autonomia. Por outro lado os rapazes citaram casos de garotas que já estariam começando a se aventurar em duplas femininas, apostando nos benefícios da aventura.

Uma outra percepção (além de minhas observações pessoais) diz respeito diretamente ao relacionamento destas garotas com seus parceiros de cordada. Hoje parecem coexistir as clássicas “cordadas de namorados”, em que a ascendência do homem (guiando) ainda é evidente, junto com outras formas de parceria na montanha, como casais de amigos e de amigas, ou cordadas femininas, onde a cabeça da cordada é dividida igualmente, ou mesmo, onde a garota é estimulada a guiar.

Finalmente, de todas as formas de benefício que a presença feminina pode trazer para o montanhismo, aquela que me pareceu mais evidente, nos depoimentos, é o da segurança. Por uma questão de paternalismo os rapazes declararam adotar mais procedimentos de segurança e serem mais cuidadosos quando estão com garotas. Isto inclui nós bem feitos e cadeirinhas revisadas, capacetes, crash pad em boulders, etc. Por outro lado, por inibição, as garotas parecem simplesmente se omitir se os rapazes adotam algum procedimento pouco seguro (“eles sabem mais que nós”, me disse uma delas). Mas eu poderia dizer que enxergo uma tendência (tudo bem, tendência não é destino) de que à medida que as garotas forem “doutrinadas” em segurança em montanha, elas passem simplesmente a adotar posições ativas a este respeito, exigindo capacetes, nós bem feitos, crashs, etc.

Como vocês podem concluir, apesar de não ser nenhuma pesquisa científica, eu não resisti e acabei dando um tratamento de quase pesquisa a este assunto. Mas admito que é uma forma cheia de falhas, assim eu torço para que este assunto se torne interessante a ponto de gerar uma pesquisa de verdade. Enquanto isto não acontece, eu convido vocês, em particular as meninas, a opinarem sobre o que sentem e sabem a respeito deste universo feminino na montanha, neste blog.

 

STRUMINSKI. E, LORENZETTO, A. Perfil sociológico do escalador paranaense.Curitiba: Instituto Gaia do Brasil. Revista Temas de Gaia. v. 1, 1997

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Edson Struminski (Du Bois) 

Era o ano de 1988 e eu era estudante de engenharia florestal. Já frequentava as montanhas haviam 9 anos, já tinha passado por algumas “roubadas”, ou seja, já tinha aquele mínimo de experiência para saber onde por as mãos e os pés, quando andasse nas pedras ou em uma floresta exuberante e perigosa quanto a que temos aqui na Serra do Mar no Paraná. Era, enfim, um  montanhista adaptado ao terreno que frequentava.

Acabei sendo chamado por um profe da área de Conservação da Natureza para “dar uma mão” em um levantamento florestal que estava acontecendo na APA de Guaraqueçaba (1), litoral norte do Paraná, que continha uma montanha destacada, o Agudo Grande, com uns 1400 metros de altitude. Eles tinham passado por dificuldades em outras etapas do projeto, exatamente por desconhecimento de alguns destes “truques” de montanhista que fazem a diferença entre bivacar com um mínimo de conforto e passar uma noite miserável, correndo sério risco de vida. Ao mesmo tempo era a chance de estar em campo com os melhores professores da área ambiental da faculdade, chance de aprender algo.

Assim no Agudo Grande (acabamos nem indo até o cume), iniciou-se uma nova vida para mim. Mesmo aluno, os profes viram meu potencial para pesquisador, ser parceiro deles, pois o que eles valorizavam era exatamente meu conhecimento de montanhista, um chamariz irresistível para um estudante em fins de curso, um privilégio que tive.

A chance para deslanchar meu potencial viria nos anos seguintes, com os mesmos professores me apoiando. Serra da Baitaca, 2500 hectares, três anos a pé, de mochila, bivacando, varando rios pra cima e para baixo. Fotos aéreas, mapas, livros. Naquele momento eu me sentia o próprio explorador geográfico. Produzi dezenas de cartas temáticas apenas pelo prazer de produzir um mapa de forma artesanal (2). Na transição entre estudante e profissional, sem maiores compromissos na vida, o que mais me importava era a possibilidade de que aquele meio de vida que se abria poderia me sustentar, ainda que precariamente e me proporcionar plenamente o prazer da descoberta. Deste trabalho surgiu uma proposta de parque, para a Serra da Baitaca, que ainda levaria anos para se concretizar.

Em 1993 acabei virando montanhês, morador do pé desta serra que tanto estudava e pela qual tanto me apaixonava. A partir de então, o morro Anhangava, mais alto desta serrinha, seria meu endereço e laboratório de minhas experiências em manejo de montanhas.

Em 1994, já era um “pesquisador pleno”, tinha autonomia, sabia onde podia e não podia chegar com uma pesquisa. Ingressei no mestrado na área de Conservação da Natureza que já estava namorando faz tempo. Os profes sabiam o que podiam esperar de mim. Para mim havia ainda uma motivação especial. Queria estudar um “ícone” do montanhismo paranaense, o Marumbi.

O Marumbi sempre foi uma montanha peculiar. Um lugar com uma natureza especial, invulgar, paredes espetaculares e desafiadoras. Uma história de mais de 100 anos de montanhismo, parte dela escrita por mim. Mas na sua base também encontrava uma vila com estranhas relações sociais viciadas, das quais eu não participava e me autoexcluía.  

Estudar um pouco de tudo isto foi minha dissertação de mestrado (3). Acabou virando livro em 2001 (4). Até o momento, este é o único livro sobre o Marumbi. Reconheço que tudo o que eu escrevi é muito limitado perto do conhecimento que dezenas de montanhistas tem sobre o lugar. Prova disto é que recentemente surgiu o Guia de Escaladas do Marumbi (5),  produzido pelo Chiquinho, meu vizinho aqui do Anhangava, publicação que eu tive o prazer de revisar e que foi muito além de mero guia de escaladas. Mesmo assim, estranhamente, os dois referenciais básicos do Marumbi foram produzidos por montanhistas que moram no Anhangava, uma escola de montanha reconhecidamente mais aberta para o mundo.

Entre 95 e 97 acabei me envolvendo também com o Projeto Anhangava (6), uma tentativa, em muitos aspectos pioneiras, de realizar manejo em uma área montanhosa complicada como era nosso campo-escola paranaense e que envolveu vários parceiros.

Na época o Anhangava ainda fazia parte de uma intenção de parque estadual. O que víamos por todo lado eram incêndios provocados por pedreiras e farofeiros de fim de semana, vegetação degradada, estradas abandonadas, trilhas horríveis, um cenário confuso também no mundo da escalada. Coroando tudo isto, uma vez por ano (1o de maio) acontecia uma missa da paróquia municipal que atraía um monte de gente, muitos sem a menor intenção religiosa.

Depois de dois anos muita coisa desta tinha mudado (nem tudo claro), conhecíamos melhor o lugar, os visitantes, nossas possibilidades e potenciais, nossas limitações. De um lado o projeto significou um novo status para o lugar. Valores  ambientais foram revelados por pesquisas científicas, mais respeito ao local surgiu, maior interesse e organização entre os montanhistas, algo que persiste até hoje. Apareceu também um perímetro para o parque, por conta de um serviço extra que prestei ao Instituto Ambiental do Paraná. Mas o projeto representou o divórcio entre o interesse em conservar o local, de nossa parte e da parte de alguns funcionários estaduais e a intenção de promover o turismo de massa, por parte da prefeitura local. Fonte, desde então, de atritos permanentes, esta intenção esbarra nas limitações ambientais da montanha. Solos frágeis que mal sustentam uma vegetação raquítica remanescente do último incêndio, causado por uma missa em 1985…

Entre 1998 e 2006 foram vários pequenos estudos: mapeamentos, pequenos serviços, levantamentos botânicos, ambientais, instabilidade de encostas, fragmentação da paisagem. Com o passar dos anos comecei mesmo a estudar a motivação das pessoas em ir até as montanhas: percepção ambiental, ética, valores envolvidos na ida às montanhas, algo que aparece na minha tese de doutorado (7). Ao mesmo tempo fui aprimorando aspectos relativos à ecologia de trilhas: manejo da vegetação, proteção contra incêndios, metodologias baseadas na expectativa dos visitantes. A Serra da Baitaca virou parque (no papel), em 2002.

Em 2006 elaborei, com vários parceiros, um projeto de recuperação ambiental e de trilhas dos Mananciais da Serra (8), outra região belíssima. É o projeto que estamos executando hoje. Voltei também ao tema do parque da Baitaca (9), buscando esclarecer as pessoas sobre o que estava acontecendo.

Por esta época percebi que um novo ciclo estava começando. São os novos pesquisadores da graduação, especialização, mestrado, doutorado. Gente que vem do turismo, educação física, filosofia, geografia, história, agronomia, floresta, todos com curiosidades diferentes, todos contribuindo com pesquisas sobre montanhas. Para mim é um privilégio participar, de algum modo, dos trabalhos destes pesquisadores, seja orientando, oficialmente ou informalmente, seja fazendo uma simples leitura. Aprendo muito com eles. Sou muito grato a eles.

Depois de 20 anos de estudos, a paixão pela pesquisa continua. Ciência e montanha são duas coisas que combinam bem. Manter-se apaixonado por estes temas é para mim uma espécie de fonte da juventude, que hoje eu já começo a compartilhar com outras pessoas. 

OUTRAS TANTAS: 

(1) RODERJAN, C.V. & KUNIYOSHI, Y.S. Macrozoneamento florístico da Área de Proteção Ambiental -APA- Guaraqueçaba. Curitiba: FUPEF, Série Técnica, 1988. 53p. 

(2) RODERJAN,C.V.,  STRUMINSKI, E. Caracterização e proposta de manejo da Serra da Baitaca – Quatro Barras – Pr. 2v. Curitiba: FUPEF/FBPN, 121p., 1992. 

(3) STRUMINSKI. E.   Parque Estadual Pico do Marumbi, caracterização ambiental e delimitação de áreas de risco. Curitiba, 1996. Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná. 112 p. 

(4) STRUMINSKI. E.   Parque Estadual Pico do Marumbi. Curitiba: Editora da Universidade Federal do Paraná, 2001. 112 p. 

(5) HARTMANN, J.L. Marumbi, guia de escalada e introdução à história do montanhismo paranaense. Curitiba: Editora Marumby, 2007. 

(6) GAIA (Instituto). Projeto Anhangava. Curitiba: SEMA/IAP-GAIA, 1998. 

(7) STRUMINSKI. E.   Os discursos sobre a sustentabilidade, no Brasil e na região Metropolitana de Curitiba, de 1500 aos dias atuais. Curitiba: Tese (Doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento), Universidade Federal do Paraná, 2006.  218 p. 

(8) STRUMINSKI, E., BORGES, M.V.K., ALMEIDA, M.R.A., NUNES, T. & BUENO, J. Diagnóstico Ambiental de trilhas dos Mananciais da Serra – Piraquara – Pr; propostas de manejo. Associação Caiguava de Pesquisas, Ecotécnica, Sanepar. Curitiba, 2006. 

(9) STRUMINSKI, E.  Dossiê Baitaca. Associação Caiguava de Pesquisas, Curitiba, 2007. 

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