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Archive for junho \19\UTC 2009

Claro de Luna

Por Edson Struminski (Du Bois)

Uma das vantagens, ou mais modestamente, um dos pequenos benefícios de se morar na montanha é o de poder usufruir, em certos momentos, de um tipo de paisagem e de experiências que não estão acessíveis à grande maioria das pessoas, pois não são exatamente artigos de consumo sejam eles montanhísticos, ecoturísticos, ou o que for.

Acordo no meio da madrugada com uma forte luz da lua, que mesmo minguando, inunda minha cama com um tom azulado. Mas em vez de virar para o lado e me encolher nesta noite de fim de outono, já gélida como se estivéssemos no ápice do nosso inverno serrano, acabei tendo uma idéia estranha: “por que não subir a montanha, fazer um bivaque improvisado no pé de alguma parede, curtir o visual e escalar algumas vias no frio matutino, já que à tarde teria de enfrentar algumas horas de trânsito na cidade?”

Estranhamente desta vez o conforto dos cobertores não foi suficiente para me demover desta idéia. Em alguns minutos me vi caminhando rapidamente, mochila posta, sob um “claro de luna”, moonligth, luar, como queiramos chamar esta sempre estranha e fascinante luz que se traduz em palavras tão bonitas em várias linguas. Como estava sem relógio, acabei me apressando e logo estava no pé de uma das paredes do nosso campo-escola de escalada. Uso a mochila e a corda como isolantes e improviso um “bivaque no pelo”, ou seja, visto todas as minhas roupas e me encolho no frio da madrugada, menos para dormir do que para curtir o visual das estrelas e da lua. De qualquer modo, a temperatura do ar está suficientemente fria para inibir maiores movimentos.

De onde estou vejo as luzes de boa parte de Curitiba e de sua região metropolitana. Sobem até mim os ruídos mais diversos: caminhões em uma BR próxima, galos alvoreiros, cachorros urbanos. Não só os ruídos, mas as luzem em especial mostram que a cidade não para à noite. De modo geral as cidades tem uma configuração muito geométrica à noite, com suas avenidas retas e loteamentos regulares, todos muito iluminados.

Vista de longe, a cidade tem uma energia e um poder incrível, mas dificilmente eu poderia dizer que esta imensa construção humana tem algo que eu acho essencial, calor humano. Se eu chegasse em uma cidade estranha, do tamanho desta que eu vejo de cima desta montanha e tentasse fazer um bivaque no pelo em uma praça, como estou fazendo aqui na montanha, dificilmente eu conseguiria, ou mesmo me sentiria seguro. Na verdade talvez eu tivesse dificuldade de acessar, até mesmo, a casa de alguma pessoa conhecida. Penso que suprir necessidades humanas como generosidade, paz de espírito ou calor humano, iriam requerer tantas explicações e teriam que enfrentar tantas formalidades que provavelmente não seriam satisfeitas em uma incursão noturna improvisada.

Então eu penso no privilégio de estar ali, em paz, em silêncio e percebo que a frieza do ambiente da montanha é só material, não espiritual e tem algo que neste momento é valioso, pois é um frio autêntico e honesto. A montanha não me pede explicações, não usa palavras vazias como nos jogos de interesse e de poderes das pessoas e por isto, talvez, naquele instante que estou assim, encolhido, frágil e pequeno frente ao tamanho da montanha, me sinto acolhido. De fato não há vento, o que me impediria de ficar ali. Naquele instante a montanha é generosa comigo e espero pacientemente a transição da noite para o dia.

O dia surge vagarosamente e saio em busca dos raios do sol para me aquecer. Vejo um pequeno mar de nuvens se formando e também trechos com sinais de geada, o que significa que no meu bivaque improvisado deve ter feito pelo menos uns 2 graus negativos. Fico satisfeito intimamente por ter resistido a este frio apenas com as roupas do corpo e com os apetrechos de escalada como isolantes.

Faço uma primeira escalada completa em solitário (subo guiando, desescalo e subo como segundo) e mais tarde outras duas, até que finalmente, o calor do dia me convence a ir para casa e depois para a cidade grande, que já não apresenta aquele simpático nevoeiro que enfeitava como algodão os prédios e sim uma fumaça de tom amarronzado, sinais da poeira e da poluição que alguma inversão térmica impedem de sair da cidade. É aquele ar estranho que as pessoas respiram todo dia.

As pessoas escolhem viver na cidade porque ela oferece uma porção de coisas boas para elas, mas será que a cidade oferece a acolhida que a montanha me ofereceu em uma noite de claro de luna?

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