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Archive for novembro \01\UTC 2014

Por Edson Struminski (Du Bois)

Após a conclusão da via do Caroço da Esfinge no Marumbi em 1987, eu me sentia, quando muito, como um sobrevivente dos meus próprios erros como montanhista, ainda que um sobrevivente seguro do que fazia. O fato é que no início de 1990 eu tinha aprendido o valor de coisas fundamentais para a escalada como o de uma alimentação adequada, do treinamento contínuo e dos duplos sistemas (estáticos e dinâmicos) de segurança para a escalada em solitário. Comecei a planejar melhor minhas escaladas e três palavras começaram a definir minha postura como montanhista: estratégia, tática e técnica.

Neste período também já havia feito duas viagens à Argentina e me sentia à vontade para experimentações em outros terrenos diferentes das paredes do Marumbi. Na verdade, apesar dos tão decantados mais de 100 anos de montanhismo paranaense, cuja comemoração eu havia assistido, na Serra do Mar deste Estado o fato mais concreto em 1990 e que segue sendo verdadeiro até hoje, é que existem algumas escaladas que são raramente repetidas, outras simplesmente não o são e segue sendo importante o número de paredes que ainda não foram escaladas.

Uma destas vias que recebe, talvez uma ou no máximo duas repetições por ano, é a via normal do pico Paraná (“Mar de Caratuvas). Eu já havia tentado a repetição com um grupo de amigos, cada um carregado com um imensa mochila para fazer o bivaque em um platô no meio da parede, como os conquistadores haviam sugerido, mas esta estratégia “pesada” revelou-se inadequada e voltamos sem que eu conhecesse mais do que 1/3 desta parede.

Minha próxima investida foi ultra leve. Uma mochila de assalto que tinha construído para meu próprio uso, material para um bivaque no pé da via, alimentação leve, água e um tênis de escalada com um saco de magnésio. Depois de uma madrugada úmida, subi solando a parede em 2 hs e 45 minutos e o tempo só não foi melhor porque tive de descer uma parte molhada e subir por outro lado, além de me perder no final. Na verdade esta via foi especial para mim exatamente pelo que ela teve de incomum, desescalar este trecho inicial e abrir esta variante de uns 100 metros ao final, o que incluiu uma inusitada passagem por um teto ao final de um diedro. Foi um momento em que eu tive de me reinventar como escalador.

Conseguir realizar esta escalada perigosa de forma segura, contra todas as probabilidades, me restituiu a confiança em mim mesmo como escalador. Na minha cabeça, então, o próximo passo seria ainda mais ambicioso, ou seja, “reinventar” a escalada de grandes paredes no Paraná, até então limitada a vias fixas em locais conhecidos como o Marumbi e a esta única via no Pico Paraná, na qual, eu praticamente havia “sobrado”.

Me aproximando dos 30 anos, na verdade eu estava começando a viver uma espécie de despertar para as potencialidades únicas de aventura em escalada que as montanhas paranaenses ofereciam, juntamente com um amadurecimento como esportista. Dentro deste amadurecimento, estava uma postura ética o mais naturalista possível em relação à escalada.

Para a minha sorte, naquele momento encontrei um parceiro que comungava com este tipo de pensamento, que era Tiaraju de Mesquita Fialho, um leitor fascinado de Messner e que tinha intuído que algumas das montanhas que existiam na Serra do Mar paranaense ofereciam dificuldades de acesso e de escalada tão grandes quanto os de alguma alta montanha desconhecida, o que fazia sentido pela ausência de trilhas ou acessos fáceis para muitas montanhas da região.

Juntamos esta ética naturalista com uma estratégia de expedições leves e rápidas. Isto significou acessar as montanhas sem abrir trilhas, subir as paredes sem usar grampos fixos, não deixar traços da passagem, escalar ou subir rápido e com o mínimo de material possível.

Não me recordo bem como esta parceria começou, mas o fato é que um belo dia estávamos na região do Pico Paraná, aos pés de uma bela montanha que existe ali, o Pico Ferraria e simplesmente passamos os dois seguintes dias se embrenhando pelas encostas verdes da face leste desta montanha, sem sequer se preocupar em abrir uma trilha, com uma inesquecível passagem por um canion que existe nesta face e com um igualmente memorável encontro com uma jararaca se aquecendo ao sol matinal a apenas 10 metros de onde dormimos.

Nossas próximas aventuras neste terreno pouco explorado da serra seriam ainda mais difíceis: a face leste do Pico Agudo do Cotia e a face norte do Pico Siririca. Nas minhas idas ao Marumbi eu vislumbrava de longe o Agudo do Cotia, uma montanha que parecia uma imensa proa de navio apontada para a planície litorânea, o que garantia um considerável desnível para este gigantesco bloco de granito. Quando em uma ida ao Lontra, montanha vizinha ao Cotia, com Tiaraju, olhei para aquela parede e sua subida me pareceu simplesmente uma ideia futurista. A parede do Siririca, então, me parecia algo mais distante ainda.

Mas passado pouco tempo era o que estávamos fazendo. Ambas as ascensões envolveram mais um parceiro (Júlio Cesar Nogueira da Luz) e a execução de miniexpedições complexas, com acesso exigindo dias de caminhada sem abrir trilha (aliás sequer levamos facão para isto), escaladas de mais de um dia em estilo alpino com bivaque na parede e em móvel e mais alguns dias de caminhada sem trilha até se chegar novamente a um local onde pudéssemos ser resgatados por um transporte. Foi um entrosamento impecável entre três parceiros, que sempre é difícil neste tipo de ambiente.

Estas duas escaladas foram um triunfo daquelas três palavras que comentei no início deste artigo: estratégia, tática e técnica. Isto considerando que apenas tínhamos uma estimativa de quanto tempo levaríamos para fazer estas ascensões junto com a travessia da serra nestes pontos, o que acabou envolvendo cinco dias nas montanhas.

Mais importante do que meras ascensões, estas escaladas (Ferraria, Pico Paraná, Cotia e Siririca) acabaram funcionando para mim como o encontro de uma identidade própria para o meu montanhismo. Eu finalmente estava me descolando das limitações de ser apenas mais um escalador no Marumbi e tinha achado um terreno próprio para me expressar, que era a escalada de aventura na Serra do Mar.

Volta e meia surge alguma lista sobre as escaladas mais difíceis do Brasil. Acredito que se estas vias fossem repetidas por alguma nova cordada, provavelmente iriam parar em alguma lista desta. O fato é que são vias desconhecidas e passados mais de vinte anos após suas aberturas, mantém o mesmo desafio de quando foram abertas.

Nos anos 1990 eu teria o privilégio de conhecer a meca dos paulistas, o conjunto da Pedra do Baú em São Bento do Sapucaí e ser um dos artífices de uma via importante, a Distraídos Venceremos, momento em que conviveria mais profundamente com dois personagens emblemáticos do montanhismo brasileiro: Bito Meyer e Eliseu Frechou. Também teria o privilégio de conhecer e escalar com um “príncipe das montanhas”, João Giachin, um autodidata dos conglomerados e arenitos gaúchos. Voltaria ainda aos Andes, tanto argentino como chileno, onde, além de abrir várias vias, conheceria um pouco da técnica rocha/gelo.

Minha paixão pelo montanhismo de aventura na Serra do Mar no Paraná continuaria forte no século XXI, com surpresas sensacionais reservadas para mim.

Face norte do Pico Siririca – Pr, após a travessia do vale do rio Cacatu, via de 1992. À esquerda, o Agudo do Cotia

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