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Archive for novembro \14\UTC 2008

Vinho envelhecendo

Duas vias espetaculares na Serra do Mar seguem sem repetição

 

Por Edson Struminski (Du Bois)

 

Mais de uma década e meia se passou e duas vias singulares, das quais participei da abertura seguem sem repetição. Duas vias em duas faces norte de duas montanhas da Serra do Mar que são hoje, muito mais acessíveis do que nos anos 1990, quando passamos por lá: Agudo do Cotia e Siririca.

Lembro-me que quando fizemos estas vias, eu e mais dois companheiros (Tiaraju Fialho e Julio Cesar Nogueira da Luz), tínhamos algumas experiências variadas em paredes de certa dificuldade em montanhas como o Marumbi, ou Pico Paraná. Cada um de nós já tinha freqüentado montanhas no Rio de Janeiro ou feito viagens para locais de escalada na Argentina, onde basicamente se escalava em móvel, na época. Tínhamos alguns bons equipamentos e estrutura adaptada para o bivaque leve em locais remotos. Assim, este cardápio básico e limitado, mas feito de vias interessantes e equipo certo foi o que nos credenciou a sonhar com ousadias maiores.

Os cumes do Cotia e do Siririca, situados no mesmo grupo montanhoso, não eram acessíveis com facilidade no início da década passada. A trilha para o Siririca, freqüentada talvez uma vez por ano, era praticamente uma navegação onde o farejamento contava mais que eventuais sinais de passagem de pessoas. Do Siririca ao Cotia não havia nada. Naquela época pré-internet e pré GPS, qualquer dica que pudesse ser obtida sobre o acesso a estas montanhas era de uma preciosidade que os mais novos hoje não tem como avaliar. Na trilha, o instinto, a agudez visual e mesmo o tato valiam mais que qualquer instrumento de navegação que eventualmente alguém se dispusesse a levar e, na verdade, eles se mostravam muitas vezes inúteis na densidade da Floresta Atlântica e em um terreno de sobe-desce onde qualquer erro de percurso significava horas de caminhada desgastante a mais.

Mas estas eram as condições postas no local e devo dizer, aceitávamos de bom grado porque havíamos entendido que, se por uma combinação de audácia, esforço, estratégia correta e também um pouquinho de sorte, a gente conseguisse subir uma daquelas paredes enormes que pareciam tão distantes e “futuristas”, para usar um termo que eu empreguei na época, então estaríamos fazendo algo digno da história do montanhismo do Paraná. Tirando o montanhismo de nível exclusivamente do Marumbi, mesmo porque eram paredes muito maiores que as que escalávamos no Marumbi. Se conseguíssemos fazer sem uso de grampos fixos, estaríamos fazendo algo relevante para o montanhismo brasileiro. E, finalmente, se conseguíssemos fazer tudo isto em estilo alpino (sem uso de cordas fixas) e em estilo cápsula (bivaque na parede), então teríamos uma via compatível com qualquer outra escalada que acontecia naquele momento no cenário mundial. Olhávamos para estas montanhas como os “nossos 8.000”, impregnados que estávamos pela leitura dos livros de Messner e sua ética apurada.

Eram estas as nossas pretensões, altas pretensões às quais ainda somávamos uma “cor local”, ou seja, iríamos acessar estas paredes e sair delas sem abrir trilhas, apenas “passando”, pela floresta, ou seja, nossa experiência prática já tinha demonstrado que o custo de energia em abrir uma trilha, o desgaste físico em fazer isto com uma mochila grande, mais o tempo gasto com esta atividade não compensavam o esforço, além do que traziam um impacto exagerado para o ambiente frágil daquelas montanhas.

Agudo do Cotia foi a primeira investida. Começamos com um golpe de sorte. Zig Koch um famoso fotógrafo naturalista tinha feito um vôo em frente da Serra e produziu uma sequência de imagens que nos mostrava um fenda ou um grande diedro que iria se tornar nosso objetivo. Então já sabíamos o que buscar. Calculamos 5 dias de investida, entre andar até a base, subir a parede, atravessar a sequência de montanhas e ir até a BR 116. E assim foi, um dia e tanto para acessar o fim do cânion onde começava a parede do Cotia, passando por paredes e rios encachoeirados. Dois dias na parede, mais dois até a civilização. No Siririca, um ano depois e mais confiantes, a situação se repetiu, embora com menos informação sobre a parede. Dois dias e meio de rio, dois de parede e um de caminhada até o fim da aventura.

Estas escaladas já foram contadas em números da época do Mountain Voices, assim não vejo necessidade de repetir os detalhes, mas o fato é que atingimos nossos objetivos, duas vias limpas, livres, sem abertura de trilhas. Tive a grata oportunidade de guiar boa parte das duas vias, o que não significou nenhum desmerecimento para meus parceiros, pela boa razão de que neste tipo de parede na Serra do Mar existem grandes trechos de “escalada mista”, onde uma vegetação frágil se apóia na parede e é nela que você se apóia para subir. A rocha fica coberta, é muito intemperizada pela vegetação e é praticamente impossível por um grampo seguro. Usar corda nestes trechos passa a ser temerário, pois a queda de um arrasta os demais. Então tudo isto, assumir este grande risco individual, ainda que o perigo de uma queda não fosse muito grande, faz parte do jogo de subir estas paredes, assim como um elaborado e seguro trabalho de escalada em móvel, paradas em móvel e tudo o mais, nos lugares onde isto cabe, onde só encontrávamos rocha. Na verdade eu não tinha dúvidas da qualidade dos meus parceiros, naquele momento, em relação à nossa segurança em andar em um terreno tão crítico e isto é um trunfo valioso quando se escala em locais perigosos.

Além de pré-internet, como comentei, era um período pré-celular. Então tínhamos grande autonomia e plena consciência de que um resgate dependeria de um dos membros do grupo sair da montanha sozinho e ir buscar ajuda, algo que levaria dias para acontecer. Então, estar em três, tomar decisões difíceis em três é sempre melhor do que só em dois, sempre há uma ponderação maior, uma segurança maior. Como se vê, então, apesar de uma dose grande de coragem éramos muito cuidadosos, não estávamos metidos em nenhuma empreitada suicida.

Em um dos artigos que escrevi recentemente neste blog eu debati sobre a decadência do montanhismo, aquilo por que se entende como decadência (1), um artigo derivado de uma discussão que rolou na lista da FEMERJ. Uma das hipóteses que as pessoas daquela lista levantaram é que não haveriam mais novos montanhistas interessados em grandes paredes, eventualmente no tipo de parede como estas que estou falando agora. A atração da escalada esportiva seria muito grande e a compensação maior do que a encontrada nas grandes paredes.

Não me parece que seja exatamente este o caso ou que necessariamente o montanhismo do Paraná esteja decadente porque estas vias não foram repetidas. Elas estão muito agregadas aquele nosso pequeno grupo, que naquele instante compartilhava da idéia de criar uma identidade própria para nós dentro do universo de grandes paredes no Brasil, uma identificação com a idéia de “montanhismo de aventura” que era mais do que só subir uma grande parede e para nós, naquele momento seria muito mais fácil de acontecer nestas remotas paredes da Serra do Mar paranaense do que em outros lugares do Brasil. Então, o que de fato gostaria que ficasse de relevante deste artigo e também destas histórias é exatamente a lembrança deste conceito, o de aventura em grau elevado nas nossas montanhas paranaenses e o quanto este tipo de escalada de aventura pode ser significativo para quem já atingiu um certo grau de maturidade no montanhismo, caso certamente de muitos de vocês leitores e que por isto ainda buscam fazer coisas significativas nas montanhas.

Claro, hoje existem certamente muitas “escaladas de aventura” Brasil afora, então vejo estas duas vias como duas garrafas de vinho que estão lá amadurecendo, esperando um novo grupinho ir lá sorver o gole da aventura representada pela ascensão destas magníficas paredes. Não existem grampos apodrecendo na rocha para marcar nossa passagem, não existe trilha marcada, só o desafio de ir lá e fazer. Isto irá acontecer algum dia, alguém será tocado e privilegiado novamente pelo gosto desta aventura. A aventura na montanha e, temos que reconhecer que este tipo de grande aventura sempre foi para poucos mesmo, ontem e hoje, então não há porque imaginar uma decadência neste terreno.

 Apenas recentemente pude realizar, com outros companheiros, mais jovens, outra via no mesmo nível no Pico Paraná e que contei aqui no blog (2). De algum modo esta associação entre montanhismo e aventura ainda continua, como os bons vinhos que envelhecem e melhoram o sabor.

 

(1) https://blogdodubois.wordpress.com/2008/11/07/decadance-avec-elegance/

(2) https://blogdodubois.wordpress.com/2007/11/08/nova-via-em-estilo-alpino-no-pico-parana/

 

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Edson Struminski (Du Bois)

 

É um destes fins de semana ensolarados no Anhangava, nosso campo escola de montanhismo. No sábado uma garota conhecida me vê e pergunta por que estou escalando com corda pois “normalmente eu só vejo você solando”. Expliquei a ela que não existe um “normalmente eu solo”, que estávamos em um campo escola e por isto qualquer modalidade é válida: com corda, sem corda, top hope, em solitário, em dupla, em três, em móvel, com mochila, de dia, de noite, escalar e desescalar, com sol, com chuva. “Com chuva?” ela me pergunta meio espantada. “Sim, com chuva”, respondo, “é possível fazer vários tipos de vias mesmo embaixo do maior pé d´água, ou mesmo à noite”. Expliquei a ela que era preferível fazer isto ali, a poucos minutos da base da montanha do que ter de aprender o que era escalar no molhado ou no escuro no meio de uma escalada maior, em um lugar remoto. Dito isto fui fazer uma via em top com ela.

Geralmente ao final deste tipo de diálogo, que, aliás, não é novo para mim, percebo que a maioria das pessoas aproveita 10 por cento do potencial de um campo escola como este. A criatividade não é o forte do pessoal e muitas vias ou situações de escalada potencialmente interessantes são negligenciadas simplesmente porque “não estão no guia”, ou no cardápio normal utilizado. De minha parte entendo que criar ou enfrentar situações novas aumenta a nossa segurança em andar em ambientes de montanha.

Mais tarde, um rapaz, um pouco pesado, está guiando uma via ao lado da que estou fazendo em solitário. A via dele tem um teto “psicológico”, é uma espécie de teste para novatos pois tem um acesso difícil em regletes e a passagem do teto é desajeitada. Ele acaba não passando e decide fazer rapel em uma chapeleta. Imediatamente me vem à cabeça uma historinha como aquelas do livro de Pit Schubert (1), “Seguridad e risco em montaña” (que todo montanhista ou pretenso montanhista deveria ler, pelo menos uma vez na vida) ou seja, daqui a seis meses alguém iria cair naquela corda e ela se romperia exatamente no local onde ela tinha sido apoiada na chapeleta, uma lâmina, se é que ela não poderia romper ali mesmo, naquele instante, na minha frente. Com esta história na cabeça acabei convencendo ele a colocar costuras na chapa. Eu mudaria minha rota para a do teto e devolveria o material dele depois. Me ocorreu de fazer isto apenas para evitar um possível acidente.

No dia seguinte, um domingão do Faustão, subo cedo e faço mais algumas vias, em solitário ou em solo. Mais tarde cruzei com alguns membros do Cosmo, que é o corpo de socorro em montanha do Marumbi e subi em direção a um setor mais próximo do cume da montanha, longe do burburinho. Quando o sol começou a pegar baixei para o setor mais concorrido do morro para completar meus duzentos metros e ir para casa. Já havia me esquecido do incidente do dia anterior.

Cruzo com um grupo festivo de rapazes e moças de um clube de montanhismo aqui do Paraná. Reconheço algumas pessoas do grupo e os demais me pareciam visitantes. Sou apresentado e uma das meninas do grupo deduz que eu sou “o homem que sola”.

Eu sempre acho engraçado quando alguém de forma espontânea e inocente coloca um código de barras em você. Não há nada de errado nisto e até pensei em explicar a ela que não existe um “normalmente eu solo”, que estávamos em um campo escola e por isto qualquer modalidade é válida: com corda, sem corda, top hope, em solitário, etc, etc, etc, mas naquela hora do dia e naquele lugar quente eu estava sem muita disposição de falar a mesma coisa e acabei não comentando nada (francamente, será que eu deveria gravar esta resposta?).

Escapei para uma sombra, fiz uma nova via, desci e vi uma cena estranha. O filhotão de urubu que estava no ninho dele em cima das paredes agora estava embaixo, devorando uma carniça qualquer que o papai tinha caçado para almoço, moscas varejeiras, etc. Bom uma cena normal na vida deles, mas como o papai estava hostil eu caí fora dali.

Quase imediatamente, a uns 15 metros abaixo de mim passa o tal grupinho festivo e saltitante e eis que uma das integrantes do grupo cai em um buraco e some em meio ao bambuzal. Como não houve gritos do gênero “socorro estou quebrada”, o clima festivo do grupo não mudou e com isto a reação das pessoas foi lenta, descoordenada. Assim, ao contrário do dia anterior, onde eu tive uma postura decidida no sentido de evitar um possível acidente eu senti que não havia, até então, acontecido nada de muito grave e preferi me manter como observador exatamente para perceber a reação das pessoas, pois este tipo de situação, observar as pessoas, sempre tem um alto valor didático.

Como era um grupo grande não haveria dificuldade em descer uma corda e cadeirinha até o buraco e resgatar a pessoa que lá estava, ou mesmo em descer alguém até lá se fosse necessário. Seria o procedimento mais seguro, mais adequado, porém, os rapazes, com a corda no ombro, ficaram meio aparvalhados, rindo da situação e sem saber o que fazer. Na verdade não ocorreu a ninguém um procedimento básico neste caso que é pedir silêncio e uma pessoa, apenas uma pessoa, conversar com a vítima, perguntar como a vítima estava se sentindo e depois transmitir segurança e calma, explicando o que eles iriam fazer para resgatá-la.

Diante do impasse e no meio da algazarra, uma das garotas resolveu temerariamente entrar no bambuzal e ir atrás da colega e, com isto correr o risco de ficar presa ou de trombar com uma cobra no trajeto. Estes tipos de situações podem simplesmente ocorrer, o resgatador bem intencionado vira uma nova vítima. Felizmente depois de algumas atribulações as duas conseguem sair do buraco, a que caiu com cabelos desgrenhados, cara assustada. Uma terceira garota do grupo ainda me convidou para comer frango na cidade, mas eu agradeci e recusei. O grupo desceu fazendo barulho para comer o tal frango.

No dia seguinte uma das pessoas que participou do episódio me mandou um email comentando sobre o acidente. Como eu já havia emprestado o livro do Pit Schubert a esta pessoa, os comentários dela me pareceram fora de propósito, fiquei sem jeito de responder, talvez a pessoa não tenha lido o tal livro, desprezado a informação, o alerta que eu tinha tentado passar a ela através deste livro, que é algo que é necessário quando se anda na montanha.

Acidentes não acontecem por acaso e dificilmente são por uma causa única. Um grupo um pouco grande demais, um pouco despreparado demais, um pouco displicente demais, andando em um trecho um pouco mais perigoso que o normal, em um pedaço da trilha que não tem o mesmo nível de conservação da trilha normal. E se você quiser prestar atenção no seu instinto: urubus, cosmos, um quase acidente, a coisa toda estava no ar.

Eu peço desculpas às pessoas que estavam lá naquele momento por eu não ter me manifestado e participado deste resgate e que neste momento estão lendo este artigo. Já fiz dezenas de resgates e na verdade eu também preciso saber um pouco mais da qualidade das pessoas que andam nas montanhas, eventualmente com quem se pode contar quando alguma necessidade mais grave acontece. Muitas vezes se você interfere em uma situação destas, que foge do cardápio normal, as pessoas perdem a iniciativa, a chance do novo, que era o que estava acontecendo ali com eles. Também confesso que não me aproximei do grupo porque o comportamento deles até o momento, inclusive naquela situação mais crítica, estava sendo muito vulgar e, confesso que me espantei com toda aquela vulgaridade, inclusive porque conhecia algumas pessoas no grupo, sei que fazem parte do tal clube, etc. infelizmente eu não me sinto muito à vontade em situações de muita vulgaridade.

Certamente eu teria feito um intervenção neste acidente se houvesse qualquer remota possibilidade de complicação, como aliás tinha feito no dia anterior, onde havia um alto potencial de acidente. Na verdade tudo não passou de trapalhadas, destas que todo fim de semana acontecem em algum lugar nas montanhas. Se alguém tivesse filmado as cenas que eu presenciei, elas teriam sido dignas destas vídeocassetadas que aparecem na TV. Mas foi apenas mais um fim de semana nas montanhas do mundo, destes de suspirar de alívio quando acabam…

 

(1)    SCHUBERT, P. Seguridad y riesgo, análisis y prevención de accidentes de escalada. Madrid, Ed Desnivel. 1996.

 

 

 

 

 

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Décadance avec élégance

 

O montanhismo está decadente?

 

Por Edson Struminski (Du Bois)

 

Esta discussão que surgiu recentemente na lista da FEMERJ é recorrente, ou seja, de tempos em tempos alguém, em algum lugar e de alguma forma comenta inconformado que o movimento inicial inovador que impulsionava alguma tendência vanguardista perde o ritmo, a freqüência, a cadência, entra, enfim, em decadência.

Na verdade, isto me parece que vale para qualquer manifestação cultural, ou seja, a música perde as pessoas que faziam coisas bonitas, a literatura já não vê poetas românticos, a pintura perde a elegância impressionista ou expressionista e por aí vai. Na política o socialismo passou a ser uma idéia envelhecida, na arquitetura o modernismo passou a ser uma mesmice, a própria história, vejam só, deixaria de acontecer porque tudo o que era importante já teria acontecido, o resto seriam repetições. E quanto ao montanhismo? Ele estaria decadente porque teríamos menos gente escalando, abrindo vias, poucos apoios institucionais, empresariais, clubes estagnados, menos publicações de montanhismo, etc.

Mas será que isto é assim mesmo ou é porque achamos que assim é? Curiosamente, alguns anos atrás, na primeira página do primeiro número do boletim, Mountain Voices, que aliás continua por aí, o Eliseu Frechou encaixou esta mesma pergunta mas com outras palavras. Lembro-me bem do título que era “o montanhismo já atingiu o seu cume?”.

Aliás, quando iniciei no montanhismo há trinta anos também era exatamente esta a questão, se comentava que a estagnação e a decadência eram o cenário com que íamos nos defrontar nas montanhas, sendo a nossa, digamos, “missão”, renovar o esporte, produzir escaladas novas, etc.

E, de fato, foi o que acabamos fazendo, não só escaladas novas, mas novos jeitos de fazer velhas escaladas (artificiais em livre), novas maneiras de fazer novas escaladas (totalmente com material móvel, ou em solo), ou mesmo novas maneiras de se relacionar com as rochas (boulder).

Mas depois de viajar um tanto e de repetir algumas tantas vias, mesmo alguns daqueles decadentes e bregas artificiais em paliteiros, tão comuns em tempos passados, eu acabei abrandando um pouco o julgamento em relação aos “velhos decadentes” que me precederam. Isto aconteceu particularmente depois de fazer uma destas vias “das antigas” do Marumbi, aqui no Paraná (a Fenda 2). Fiz esta escalada em solitário (um novo jeito de fazer uma velha escalada), o que envolveu irritantes trepa-matos, paliteiros sem graça, lances de chaminé sem muita importância e uma estranha, extraordinária e assustadora passagem de 20 metros de off widgth sem chance de proteção, fosse com uma cunha dos anos 50 ou com um friend dos anos 90 e, mesmo assim, com grau respeitável de dificuldade.  Algo de me deixar de queixo caído, além de ser, é claro, ruim de cair.

Depois disto estes escaladores antigos já não me pareciam mais decadentes e sim apenas montanhistas que em seu momento produziram escaladas que eram interessantes para eles e que para nós já não eram tanto, mas eles não eram fracos, eles tinham vislumbrado a escalada livre deles e tinham feito bem o que tinham de fazer. Assim, simplesmente parou de fazer sentido falar em decadência do esporte antes de mim.

A partir daí, parte da leitura que eu comecei a fazer do montanhismo passou a representar apenas conflito de gerações. De certa forma o que tinhamos feito até então era contestar os “velhos” com nossas escaladas mais arrojadas, com nosso treinamento, com nossos calçados novos e equipamentos móveis reluzentes que desdenhavam os toscos grampos de ferro deles, as cordas de sisal, as botas cardadas e outros artigos de museu. Mais, queríamos salvar o esporte, enquanto esporte, de uma estagnação total”, como se lê no belo e apaixonado manifesto publicado no Rio pelo André Ilha (1), que misturava um pouco de auto suficiência e arrogância da juventude com uma  missão naturalista bonita, heróica, mais pretensiosa, pois queríamos limpar as paredes do Rio de Janeiro e seus arredores, algo que se aplicava evidentemente também a outros estados “que haviam sido severamente castigados com milhares de grampos absolutamente desnecessários”. O mundo da escalada era poluído por dinossáuricos e pouco estéticos paliteiros, grampos em fendas, etc. Ilha comentava ainda que isto representava “o nivelamento por baixo do esporte”, contra o “purismo” da escalada livre que então re surgia.

Claro que o Rio sempre representou, para mim, o local ideal para se evoluir na escalada livre, a Meca das paredes, grandes e pequenas, pelo privilégio de serem limpas de vegetação e acessíveis, o que se nota no próprio manifesto do André, onde ele comentava da abertura em “estilo impecável” de duas vias em 2o grau, ou sejaem livre e com grampos em número suficiente para torná-las seguras, e nada mais”.

Por outro lado, aqui no Paraná, nós tivemos um filtro natural de acesso às montanhas que é a distância até elas e a extenuante caminhada até a base das paredes, além de uma peculiaridade geomorfológica que fez com que o formato “meia-laranja”, comum no Rio de Janeiro, seja menos comum aqui, onde as paredes são mais escarpadas e com dificuldades altas, além de serem muitas vezes colonizadas pela vegetação da Floresta Atlântica que não foi destruída na Serra paranaense.

Então havia um filtro da natureza entre quem era realmente montanhista e quem apenas ficava em uma conversa, digamos, decadente. Em função deste filtro adaptamos esta doutrina naturalista vinda do exterior através do André de modo que executamos o esporte de forma talvez até mais purista que no Rio de Janeiro, ou seja, foram poucos os escaladores que realmente se dispuseram a “seguir o caminho muito mais árduo e exigente da escalada natural, onde dedicação, por vezes obstinação e firmeza de propósitos são requisitos indispensáveis”, como se lê nas elegantes palavras deste manifesto de 1983.

Isto não nos tornou melhores montanhistas que os cariocas, apenas mais pragmáticos, pois algumas vezes pequenas paredes de 3o ou 4o graus, que no Rio seriam grampeadas, ou grandes trechos com vegetação vertical que no Rio nem existiriam mais, foram subidos aqui sem corda e com mochilas, até com risco de vida em caso de queda, apenas porque faziam parte de um acesso longo e demorado até uma parede maior e um pouco mais limpa, ou então eram a própria via. Não contávamos que estas vias viessem a ser muito repetidas, como seria de se esperar no Rio de Janeiro, então não valia a pena grampeá-las.

Isto era então parte da nossa doutrina, mas era fundamentalmente a mesma coisa, a escalada livre em grandes paredes. Michel Foucault (2) comenta que uma doutrina tende a difundir-se e é pela partilha de um só e mesmo conjunto de discursos que indivíduos definem sua pertença recíproca. É o que fizemos e o que temos feito neste tempo todo, compartilhando o ideal da escalada livre, ainda que apenas nos últimos anos algumas pessoas estejam se preocupado, com mais afinco, com uma parte geralmente escanteada desta doutrina, que é o efeito destas escaladas nas montanhas.

Isto porque, no fim das contas, é bem possível que milhares de grampos, desta vez com o estilo impecável da escalada livre, também tenham sido, colocados no Rio de Janeiro (e certamente uma cota menor nos outros estados), nestes 25 anos que separam a publicação do manifesto do André de hoje e, seguramente a biodiversidade das paredes de rocha foi grandemente afetada pelas milhares de pessoas que subiram estas vias, retirando a vegetação ou perturbando os animais em suas moradias. Em um certo sentido isto contradiz o dogma da conservação e integração com a natureza da montanha acalentado por esta doutrina naturalista de escalada e que foi tão minuciosamente elaborada e é ardentemente defendida, até hoje.

Mas como Foucault prossegue, a doutrina liga os indivíduos a certos tipos de enunciados e lhes proíbe, consequentemente outros, assim, a “heresia” e a “ortodoxia”, ou como acrescentaria eu, o germe da decadência, não derivam de um exagero fanático dos mecanismos doutrinários, elas lhes pertencem fundamentalmente, principalmente quando os discursos originais perdem o vigor ou entram em contradição, como esta que eu mostrei ou como o que podemos perceber em relação aos aspectos meramente esportivos dos debates sobre a decadência no esporte na lista da FEMERJ.

Assim, notem, em um certo sentido, as palavras de Foucault explicam o surgimento da escalada desportiva dentro do mundo da escalada livre.  São escaladas utra atléticas em estilo livre nas quais muitas centenas e milhares de grampos foram e certamente serão colocados ainda em paredes menores onde o uso e o impacto deste uso, é mais intensivo, o que deixa aqueles defensores da escalada em grandes paredes em uma sinuca de bico, pois é um estilo que usa o “melhor” das gerações anteriores: alto nível em escalada livre e alto grau de proteção fixa. Então onde está a decadência, nos “novos” esportivos ou nos “velhos” das grandes paredes?

Talvez em nenhum dos dois. O manifesto naturalista carioca, mesmo com os excessos típicos da época e com as contradições que surgiram dele, segue sendo um documento válido em termos de discurso, ou seja, dificilmente o valor da escalada livre em grandes paredes vai desaparecer porque é uma atividade muito atraente, desafiadora e apaixonante e se feita com bastante cuidado, conserva a natureza da montanha. É provável que sempre tenha alguém interessado nisto, pois é simplesmente o caminho natural para se subir uma montanha.

É bem possível que tudo isto apenas seja um novo “cume” do montanhismo, esporte que se renova na discussão, como esta mesma da FERMERJ, na permanência de pessoas ou grupos envolvidos na escalada livre em grandes paredes, ainda que em menor quantidade (menor quantidade não significa reduzir a qualidade) ou em caminhos que parecem hoje os mais diversos, inclusive o da academia de escalada. Muitas vezes o discurso da decadência, que pode andar tanto na boca de jovens como na dos menos jovens, apenas pode representar a difusão de um dogma, uma meia verdade conveniente, o próprio germe da decadência incubado em cabeças mais preconceituosas, pois ele tem, dentro de si o sintoma da estagnação, da falta de diálogo, da falta de disposição para o diálogo e da incompreensão em relação às diferenças.

Dias atrás na lista da FEPAM foi feito um elogia às atletas que, em uma etapa do Campeonato Brasileiro de Escalada Esportiva conquistaram boas colocações. Camila Santos de Armas, a garota que venceu na categoria iniciantes respondeu que escalar, para ela, era muito mais que dedicar-se a ganhar campeonatos, pois ela não era atleta de escalada e sim montanhista e que o resultado da participação repentina dela neste campeonato era apenas consequencia da paíxão crescente que ela tem pelo montanhismo.

 

 

 

No sentido dramático, rasgado e até passional que costumam caminhar estas discussões sobre a decadência do montanhismo pode-se dizer que esta breve declaração é surpreendente e confunde os menos avisados. É bem possível que na declaração modesta e despretensiosa de amor pela montanha desta garota esteja amadurecendo algo novo, que não estamos vendo corretamente em pessoas desta geração, uma espécie de melhor dos dois mundos. E é sempre bom ser surpreendido por uma declaração deste tipo por parte de alguém tão jovem.

 

É pagar para ver. E se mesmo assim for para decairmos, que seja então décadance avec élegance, como naquela via em Salinas.

 

 

(1)   André Ilha. Manifesto da Escalada Natural. Disponível em http://leonobre.multiply.com/reviews/item/10

 

(2) FOUCAULT, M. Resumo dos Cursos do Collège de France (1970 – 1982). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 1997.

 

 

 

 

 

 

 

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