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Archive for outubro \08\UTC 2014

Por Edson Struminski (Du Bois)

Depois de um breve curso básico de escalada e de andanças pelo Nordeste do Brasil e pelo Rio de Janeiro, eu participaria, na metade da década de 1980, de uma revolução na escalada em rocha que aconteceria no morro Anhangava, a uns 30 km de Curitiba, capital paranaense e no Marumbi. A escalada se modernizaria e novas técnicas, materiais e novos conceitos éticos apareceriam. Era a escalada livre, que permitiria que um bando de garotos escaladores na faixa dos 20 anos, se sentisse importante e, portanto, encontrasse um sentido em ir para a montanha, que não fosse apenas repetir velhas escaladas das gerações anteriores.

A forma como as escaladas passaram a ser realizadas mudou. Não apenas a graduação (que tornou-se mais alta), mas o próprio desenho das vias, que tornaram-se mais sinuosas e adaptadas às nuances da rocha. Este tipo de escalada mais moderna trouxe uma enorme mudança filosófica em relação às escaladas das gerações anteriores, ao transformar a escalada de uma “conquista” da montanha, a qualquer custo (daí os paliteiros em artificial fixo), em uma “nova via”, com uma cara mais naturalista, onde “como fazer” era tão importante como “o que fazer”.

A chance de abrir vias nestas novas formas éticas teve, para mim, um profundo impacto psicológico, pois me deu a sensação de que, com treinamento e material adequado, tudo seria possível. Este sentido de superação, para um jovem na faixa dos 20 anos, era tremendamente embriagante, ainda que, naturalmente, fosse uma avaliação errônea.

Mas foi com este sentido de tudo ser possível que eu resolvi abrir minha primeira via na Esfinge, um dos grandes blocos rochosos que forma o Marumbi. A via se chamaria “Caroço da Esfinge” e este nome já tinha certa influência deste viés naturalista do montanhismo, afinal a pretensão da escalada era passar exatamente pela parte mais vistosa da Esfinge, um grande ressalto natural do granito, que tinha, de um lado, a ainda não escalada fenda Zero e do outro a Fenda 1, uma via das antigas. Entre as duas fendas uma parede, o Caroço, que exigiria técnicas e materiais diversificados.

Comecei a via em 1985, um pouco antes da chegada maciça dos primeiros calçados de escalada modernos (ou mesmo da fabricação destes calçados no Brasil). Então o Kichute turbinado com solado da borracha do colarinho de pneu de caminhão era ainda o que eu tinha de mais moderno para encarar as pedras, assim como as cordas de poliamida compradas em casas que vendiam material para camioneiros, ou as cadeirinhas de escalada, costurados com cintos de segurança de automóvel, arrebatados nos ferros-velhos. Ou seja, materiais extremamente toscos para uma parede daquele porte.

durante a abertura da via do Caroço, em 1985

Flagrante da abertura da via do Caroço, em 1985

Hoje eu reconheço que com 23 anos eu não estava nem um pouco maduro para abrir uma via de escalada no Marumbi, por conta daqueles equipamentos precários e, ainda mais, pelo porte daquela parede, a qual, ao final, se mostraria extremamente complexa e perigosa. Infelizmente, tampouco tinha companheiros maduros naquele momento para me orientar ou participar da via. A geração mais antiga era, naquele período, composta por escaladores muito velhos ou, quando muito, ultrapassados do ponto de vista das novas exigências que a escalada natural trazia. Já a geração mais nova, não só era inexperiente, como imatura, carecendo de objetivos montanhísticos, motivo pelo qual eu, com minha pretensão de abrir uma via de grande porte na Esfinge, virei motivo de chacota em uma reunião do clubinho de montanhismo que frequentava em 1985.

A tal reunião selou minha ruptura com as instituições de montanhismo do Paraná, que sempre me pareceram, a partir de então, extremamente formais, conservadoras e até mesmo retrógadas em relação à evolução do esporte. Enfim, uma impressão marcada pela minha experiência pessoal, embora, anos depois, a edição do guia de escalada do Marumbi pelo Xiquinho (José Luis Hartmann), tenha trazido evidências concretas a esta opinião. Na lista de escaladores que abriram vias no Marumbi, aparecem poucos ligados a clubes, a maioria é de escaladores “independentes”, a começar pelo próprio Xiquinho.

A via do Caroço acabou acontecendo em 3 “temporadas de escalada” ou 3 invernos. Em 1985 ainda tive alguns companheiros, irregulares, mas em 86 e 87 estava sozinho na montanha, com minha paixão inexplicável e determinada por aquela parede, com minha inexperiência, meus medos, minha ousadia, cometendo aqui e ali erros que por pura sorte não acabaram em tragédia para mim (ainda que tenham deixado sequelas, como, por exemplo, danos aos joelhos). Nenhuma escalada me transformou tanto. 1986 foi a temporada mais crítica. Com 23 anos acabei experimentado a possibilidade real de morrer pelo menos uma meia dúzia de vezes, em alguns casos por erros meus, o que foi muito chocante no momento em que me dei conta.

Porém, sobrevivi aos meus erros e em um dia qualquer do meio do ano de 1987 eu registrei em um diário de escalada que carregava comigo, que havia batido um último grampo e concluído a via da Esfinge. Alguma coisa como 300 metros de escalada que misturava um pouco de tudo: passagens em artificial, em livre, com grampos, em móvel, em fissura, em fenda, em parede, em agarras, em aderência, um pequeno teto, grandes transversais, enfim, uma espécie de sonho louco que acabei realizando.

Naquela última temporada (1987), já era outra pessoa, havia percebido que eu tinha que treinar mais regularmente, inclusive em algum muro urbano (muros de casas ou de praças, pois ainda não haviam muros de resina). Eu deveria também adotar uma alimentação mais adequada (fiz um curso de alimentação com um médico naturalista) para não ficar fraco e me acidentar na escalada. Durante as escaladas passei a adotar sistemas duplos de segurança (os quais eu acabaria aprendendo através da importação de livros de escalada, pois não tinha quem me ensinasse). Também percebi que tinha de ter equipamentos mais adequados inclusive para o bivaque, que seria, em último caso, minha casa na montanha em qualquer tempo e uma casa tinha que transmitir conforto e não ser uma continuação da dureza do dia a dia na parede, ou seja, tinha que dormir bem alimentado e seco. Com isto criei um rede bivaque ultra confortável para mim, um modelo que uso até hoje.

Experimentar a possibilidade real de morrer desenvolveu, em mim, uma espécie de sensibilidade apurada, uma intuição ou mesmo premonição para problemas (um sexto sentido), se preferirem. É algo inexplicável, uma sensação de que, em alguns momentos, a Esfinge se comunicava comigo e me avisava de que haveriam problemas, como em uma vez em que senti que havia algo com minha barraca, apenas ao olhar para o lugar onde estava escondida centenas de metros acima de mim (o vento havia arrancado ela do lugar) ou como em outra vez em que uma inexplicável sensação de alerta se apossou de mim durante a caminhada para o bivaque (havia um escorpião dentro do saco de dormir). A partir daí comecei a dar mais atenção a estes misteriosos avisos internos/externos.

Eu era outra pessoa também fora do mundo da montanha. Passar pela experiência de quase morte me fez dar mais valor à vida e ser mais crítico em relação à mediocridade humana. Afinal, se com apenas 20 e poucos anos uma pessoa podia morrer bestamente, por que não tratar, então, de aproveitar a vida que cada um de nós tinha “ganho” sem precisar passar por isto? Eu me perguntava por que se envolver com drogas, bebidas ou orgias estranhas como o pessoal fazia aos pés do Marumbi, ao invés de usufruir da montanha? A vida era muito curta para gastar com frivolidades, eu concluí.

Embora esta tenha sido uma experiência seminal na minha vida, eu nunca acharia respostas a muitas destas perguntas e na verdade nem procuraria. Estava mais preocupado em subir e fazer outras escaladas no Marumbi. Repeti as famosas fendas da Esfinge em solitário (vias das décadas de 1940 e 50) e posso dizer que mentalmente fiz as pazes com os escaladores desta época, pelo menos com os que realmente pegaram na ponta da corda para abrir estas vias. Abri, com parceiros, mais algumas vias na Esfinge, Ponta do Tigre, Abrolhos e repeti algumas belas vias, como a Los Encardidos na Torre dos Sinos, além de participar de uma trupe maluca que fez a primeira tirolesa (100m) entre Abrolhos e a própria Torre dos Sinos, a uns 300 metros do chão.

Com tudo isto posso dizer que o Marumbi foi uma incrível escola de montanha para mim. Acredito que qualquer um que dedique certo tempo às escaladas nas suas paredes provavelmente enfrentará vias e situações tão duras que se sentirá à vontade para escalar em grandes paredes em qualquer lugar do Brasil e mesmo fora daqui. Acredito que se sentirá também modificado pelo lugar de alguma maneira, como eu mesmo fui.

Para mim, porém, passada a paixão pelo Marumbi, surgiria uma nova paixão escaladorística a partir dos anos 1990: abrir vias em montanhas remotas da Serra do Mar.

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