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Archive for maio \13\UTC 2012

Por Edson Struminski (Du Bois)

O Encontro Científico sobre Uso e Conservação de Montanhas foi um dos eventos que integrou a Primeira Semana Brasileira de Montanhismo que aconteceu no Rio de Janeiro, entre os dias 23 de abril e primeiro de maio deste ano.

Conforme comentei em uma postagem anterior neste blog, apresentei uma conferência que apresenta dados sobre a produção científica desenvolvida no Brasil.

Os dados tem origem no site www.pesquisaemmontanha.wordpress, criado em janeiro de 2009 e que adapta a plataforma gratuita para blogs do wordpress na forma de um banco de dados que faz links com pesquisas já publicadas em outros meios eletrônicos. Normalmente um trabalho de “garimpagem” na internet é feito com o intuito de serem encontrados trabalhos que possam integrar o banco de dados do wordpress, muito embora os pesquisadores possam enviar espontaneamente também seus trabalhos para integrar esta base de dados.

O leitor interessado nas pesquisas encontra um título resumido, autores dos trabalhos, o resumo da pesquisa e algumas palavras-chave, juntamente com um link que permite o acesso ao trabalho integral.

Um resumo sobre a pesquisa em montanha no Brasil

No momento em que apresentei a conferência no Rio, o site Pesquisaemmontanha.wordpress apresentava 159 trabalhos linkados nas categorias: documentos de referência (12), relatórios técnicos (10), conjuntos de mapas (2) e conjunto de imagens (2), geralmente produzidos por instituições, além de documentos científicos (133), estes últimos produzidos por pesquisadores individualmente ou em grupos.

Em alguns casos os documentos de referência e os relatórios técnicos apresentam mais de uma pesquisa produzida sobre um tema determinado. É o caso, por exemplo, de planos de manejo ou de workshops sobre um parque em montanha, com vários trabalhos individuais agrupados nas mais diferentes áreas de conhecimento. Nestes casos, para fins estatísticos, os trabalhos foram desagrupados como produções individuais separadas, como de fato são, elevando a mais de 180 o número de pesquisas produzidas em montanha.

É possível perceber que as grandes áreas de conhecimento estão representadas: ciências biológicas, humanas e geociências e muito embora fauna, flora e geologia sejam áreas tradicionais de pesquisa quando se imagina um ambiente natural como uma montanha, já existem 20 trabalhos na categoria “manejo”, que foram produzidos em trilhas ou em recuperação de áreas em montanha, havendo também um expressivo número (40) de pesquisas que tratam de aspectos sociais ligados à montanha.

A distribuição da pesquisa no Brasil

Em um país de dimensões continentais como o Brasil, com uma longa cadeia de montanhas paralela à costa atlântica, que vai do sul da Bahia ao norte do Rio Grande do Sul e mais inúmeras chapadas e afloramentos rochosos distribuídos no interior do país, já é uma discussão ultrapassada a que especula se existem ou não montanhas no Brasil.

Os trabalhos científicos das áreas de ciências biológicas, por exemplo, demonstram com muita clareza a transição de ambientes entre diferentes patamares altimétricos, além da presença de ecossistemas e de espécies da fauna e flora que só se explicam pela presença de um ambiente montanhoso ou de um afloramento rochoso. Os ecólogos descrevem ambientes de montanha pela presença, por exemplo, de florestas altomontanas, campos de altitude ou vegetações rupestres, juntamente com espécies endêmicas de montanhas, ou seja, que só ocorrem nestes ambientes específicos.

Estas espécies representam uma nova fronteira do conhecimento que está sendo aberta porque mais pesquisadores estão se aventurando em montanhas. Em parte pela presença destes ambientes diferenciados, foi possível detectar também usos particulares, alvo dos estudos das ciências humanas.

Foi possível identificar produção científica em montanhas em mais de 80 instituições de treze estados brasileiros, incluindo alguns do nordeste e envolvendo mais de 300 pesquisadores. No entanto, 57% da pesquisa é produzida em dois estados: Rio de Janeiro e Paraná. São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul somam mais 41%. A UFPR é a instituição do país com mais trabalhos publicados, seguida da UFRJ. Quatro grupos de pesquisa, com temáticas relacionadas a estes assuntos estão na base de dados do CNPq. Todos recentes, criados a partir de 2008 no Rio e Paraná.

Assim, estes estados do sul e sudeste do Brasil concentram, com suas universidades e instituições de pesquisa, a produção nesta temática no país. Provavelmente isto se deve à melhor estrutura das instituições de pesquisa destes estados, acesso mais facilitado às montanhas e, o que não é desprezível, tradição em montanhismo e na escalada, atividades que aparecem estudadas em mais de 60 trabalhos (estudos sobre trilhas em montanhas aparecem em outras 15 pesquisas).  Certamente não por acaso, estes estados reivindiquem maior antiguidade na prática do montanhismo no país.

A produção disponível na internet é, obviamente, recente. O trabalho mais antigo disponibilizado na rede data de 1984. A partir do ano 2000 nota-se um crescimento no número de trabalhos disponibilizados, mas ainda é um crescimento irregular, o que pode significar que a pesquisa ainda está em fase de florescimento, com muitos trabalhos sendo produzidos em um período, seguidos de temporadas sem produção. Provavelmente os grupos de pesquisa, todos recentes, ainda não puderam imprimir regularidade na produção neste setor. Aliás, me parece que ainda não existe uma linha de financiamento específica para estes ambientes.

Acredito que alguns temas de pesquisa em montanhas provavelmente irão adquirir importância nos próximos anos. São eles: instabilidade de encostas, manejo de UCs em montanhas, aquecimento global e montanhas, turismo, biodiversidade de espécies e de ecossistemas montanhosos.

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Por Edson Struminski (Du Bois)

Tive a oportunidade de participar da maioria dos eventos que aconteceram na Primeira Semana Brasileira de Montanhismo, entre os dias 23 de abril e primeiro de maio deste ano e que unificaram uma série de atividades que já acontecem no Rio de Janeiro regulamente, como o Encontro de Parques de Montanha e a Abertura da Temporada do Montanhismo, além de incluírem um Ciclo de Palestras de atletas e montanhistas, apresentações do Cine Montanha na Praça e o Encontro Científico sobre Uso e Conservação de Montanhas.

O Encontro Científico foi o que me trouxe maior retorno pessoal, pois eu tive uma certa participação na organização, além de ter apresentado uma conferência que apresenta dados elucidativos sobre as pesquisas desenvolvidas no Brasil. Também tive a oportunidade de conviver com grande número de especialistas que desenvolvem atividades nesta área e que finalmente, tiveram oportunidade de vislumbrar uma identidade comum de “pesquisadores de ambientes de montanha”, nas mais diferentes áreas de conhecimento. Mas este é um assunto sobre o qual escreverei algo em outro artigo.

Pessoalmente (como montanhista) considero que dentre os diferentes eventos que aconteceram nesta semana, o mais emblemático foi o Congresso Brasileiro de Montanhismo e Escalada, que transitou em meio à vasta programação desta semana. Este congresso aconteceu na sua segunda edição, após o inacreditável período de quase 20 anos desde sua primeira realização em Curitiba, em 1993. Ele acabou sintetizando muitas das preocupações, anseios, ganhos e dificuldades com as quais o montanhismo convive atualmente.

A busca pela identidade do montanhismo….,

Apesar da grande presença de montanhistas veteranos presentes, alguns até devidamente homenageados neste evento, eu me vi em certos momentos, como o único representante do congresso ocorrido em 1993. Isto me levou a fazer uma reflexão sobre o que tinha acontecido naquele distante evento. Após conversar com várias pessoas, também fui induzido a iniciar uma reflexão similar em relação a este evento que estava presenciando em 2012. E é sobre tudo isto que vou escrever agora.

A ascensão de montanhas aconteceu em diferentes localidades do país por motivações diversas. Provavelmente no século XIX algumas montanhas já tinham sido subidas por mero interesse esportivo. No século XX o montanhismo incorporou a escalada em rocha como mais uma modalidade a ser praticada pelas pessoas que, a partir de então, passaram a fazer parte de clubes e associações de montanhistas. Há também o registro de intercâmbio de pessoas que escalavam em diferentes estados brasileiros e nos boletins redigidos por estes clubes transparece uma apresentação de valores éticos. Até os anos 1960 a combinação de ética mais tecnologia permitiu que vias fossem abertas em chaminés, fendas ou em artificiais fixos. A partir dos anos 1980, novas técnicas e tecnologias, permitiram que começasse a ser abolida a abertura de escaladas em artificiais fixos. As novas vias começaram a ser realizadas em livre e até mesmo sem colocação de grampos fixos (escalada limpa).

Em 1993 já estavam definidas, então, a escalada livre e limpa como novos paradigmas para o montanhismo brasileiro. Com isto o esporte buscou uma linguagem que pudesse ser comum, uma identidade nacional, algo que fosse além das conquistas, dificuldades ou peculiaridades regionais. Algo que fosse além de colocar um grampo “com olhete para cima ou para baixo”. Este “algo além” era um discurso único, uma linguagem comum, como falei (mas não hegemônica) para o montanhismo.

Este linguagem comum foi sintetizada em um código de ética que apresentava o montanhismo como um esporte, que possui valores humanistas e naturalistas, que valoriza a história, preza pela integridade individual do escalador, enfatiza direitos e deveres do montanhista com relação aos seus pares e com respeito ao meio ambiente da montanha. É um código que possui o mérito de permitir mudanças nele mesmo quando for necessário. É bem escrito, e pôde ser, portanto aplicado a qualquer região do país (1).

Este foi o legado do I Congresso Brasileiro de Montanhismo, a possibilidade de nos vermos não apenas como montanhistas gaúchos, cariocas, paranaenses, mas sim brasileiros.

A perda (e quem sabe) recuperação de espaços

Agora estamos em 2012. O esporte está organizado em clubes e federações. Há empresas de equipamentos nacionais, material importado em grande quantidade, atletas profissionais em campeonatos, guias profissionais, pesquisa em ambientes de montanha, escaladores de nível internacional brasileiros, escaladas sendo abertas nos limites do Brasil, no nordeste, Rio Grande do Sul, Amazônia. Escaladores surgindo e se organizando nos mais diferentes rincões do Brasil. A escalada se interiorizando pelo país, mas sem perder a referência dos grandes centros. Pelo menos é o que vemos na semana de montanhismo no Rio.

Mesmo ocorrendo conflitos, não resta dúvida de que a ética brasileira segue os preceitos ditados em 1993. A escalada e o montanhismo praticados no Brasil continuam valorizando predominantemente a integridade do escalador, a experiência no meio natural da montanha, a escalada livre e natural. Mesmo a escalada desportiva, que surgiu em meados dos anos 1990 com os muros, campeonatos e vias super grampeadas, não chegou a alterar substancialmente a essência do montanhismo e indiretamente auxiliou no aumento do grau de dificuldade das vias novas.

Então já não é mais uma linguagem comum ou qualquer mudança substancial do código de ética que se discute. Não se apresenta um novo paradigma para o esporte e sim a constatação da perda do espaço.

Acesso livre, direito ao risco, direito à autonomia (não pagamento de guias), disputa com setores ligados ao meio ambiente e turismo por espaços físicos nas montanhas e atribuições legais e profissionais. O que significa tudo isto?

Inicialmente é preciso que se diga que este é um discurso de valorização de um ideal liberal que fundamenta a filosofia do esporte.  A ideia do livre arbítrio, da liberdade de ir e vir, do livre exercício profissional. Mas também é um discurso conservador. O livre acesso aos lugares não é exatamente para todos e sim para uma elite montanhística que tem capacidade de acessar ambientes naturais com “mínimo impacto”. Há privilégios e reservas de mercados em jogo para um grupo a ser credenciado por entidades do turismo de aventura ou do montanhismo.

No meu entender isto significa que o montanhismo amadureceu, profissionalizou-se em alguns setores, mas ainda não atingiu o grau de organização suficiente para se fazer representar (às vezes se impor), frente a setores que tem importância ou capacidade de afetar o esporte. Também significa que o montanhista está mais interessado em garantir conquistas ou espaços perdidos ou em vias de perder por pressões diversas.

É por isto que o turismo de aventura configurou-se como o principal setor a ameaçar a tão decantada autonomia do montanhista (ou a sua autonomia profissional), através da imposição de normas estranhas ao esporte via ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) e legislações estaduais, o que provocou uma reação irada em vários pontos do país e que o congresso de 2012 acabou catalisando, muito embora, deva se dizer, que a criação de normas com padrão da ABNT poderiam ganhar respaldo internacional, pois a ABNT é a representante nacional do sistema ISO que é uma entidade internacional que produz padrões de normatização da qualidade que tem validade internacional, como a série ISO 9000, por exemplo.

Entretanto a criação de normas ABNT para o montanhismo via entidades de turismo de aventura foi visto como uma ameaça, com isto, um mínimo de reação foi obtida e na avaliação do pessoal da CBME e de algumas federações presentes, algumas batalhas já foram ganhas, restando outras menores, além de surgir o intenção de elaboração de um Sistema de Qualidade para o Montanhismo, desta vez elaborado a partir das instituições que formam o esporte.

Meio ambiente é outro setor que afeta a autonomia do montanhista, segundo o parecer dos congressistas, através da restrição de acesso aos lugares de escalada, particularmente aqueles situados em unidades de conservação como parques e monumentos naturais, que tem acesso público permitido apenas em alguns pontos. Mas neste sentido o diálogo tem sido mais produtivo e foi tema do Encontro de Gestores de Parques em Montanhas, que já está na sua segunda edição e contou com participantes de vários lugares do país. De modo geral parece haver um consenso de que montanhistas são participantes ativos na conservação dos parques, ou que pelo menos, o acesso pode ser negociado.

O problema do acesso me pareceu particularmente acirrado no caso do Rio de Janeiro, pelo número maior de escaladores que procuram locais montanhosos, formalidades que impedem o acesso ou pelo custo de acesso excessivo. No Rio importantes UCs são federais, diferente do caso paranaense, onde me parece haver uma maior interação entre montanhistas e gestores, pois o histórico dos parques de montanha no Paraná, a maioria estaduais, mostra uma maior participação de montanhistas na criação destas unidades, dos seus planos de manejo, ou mesmo da sua gestão. No caso de Minas Gerais aparecem problemas de acesso em propriedades privadas. Para todos os casos uma receita básica me pareceu o fortalecimento das associações locais de escaladores e sua capacitação para enfrentar os problemas.

Síntese e sugestões para um novo congresso

Me pareceu consensual de que um novo congresso de montanhismo deve ocorrer em um prazo sensivelmente menor do que os quase 20 anos que separaram o primeiro do segundo evento. Obviamente o pessoal que organizou o congresso no Rio seguramente deu o sangue para este evento maravilhoso acontecer e já tem experiência para um novo encontro. Porém me parece que este terceiro encontro deve se ocupar de questões mais profundas do esporte e não apenas de tentar assegurar o que já deveria estar assegurado, algo que aconteceu exatamente por falta de maior diálogo e auxílio mútuo e troca de experiências entre as entidades e personalidades que fazem o montanhismo.

Infelizmente muitas pessoas com quem eu conversei se negaram a participar do evento em função de questões menores, às vezes até individuais, perdendo, desta forma, a oportunidade de contribuir para a melhor organização do evento e para a redução da carga dos organizadores.

Então é importante enfatizar que as discussões sobre liberdade de acesso e direito ao risco reafirmaram o caráter liberal e de auto conhecimento individual do nosso esporte. São preceitos caros ao montanhismo e fazem parte do Código de 1993. São preceitos caros a mim também. Parte significativa da minha trajetória como montanhista se baseou neles, mas….

Mas me parece que o grande desafio do montanhismo, a partir de agora, é assumir a parcela que lhe cabe como movimento social organizado, tornando-se uma atividade que produza um retorno mais amplo para a sociedade brasileira, como já aconteceu aliás em alguns períodos históricos em nosso país. Embora eu entenda a necessidade de consolidar o respeito a valores individuais presentes no esporte, sejam profissionais ou amadores, ainda espero que a educação, a ampliação social da base do esporte, os retornos ambientais, o espírito de grupo, venham a ser alguns dos temas que venham a ser tratados com mais regularidade ou mesmo prioridade nos próximos encontros.

Veja ainda

(1) http://pesquisaemmontanha.wordpress.com/2011/08/16/codigo-de-etica-do-primeiro-congresso-de-montanhismo-1993/

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