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Archive for julho \09\UTC 2012

Por Edson Struminski (Du Bois)

Niterói

Apesar de passado algum tempo destes acontecimentos que irei narrar, acho importante publicar este artigo no blog.

Pouco mais de um mes após a Semana Brasileira de Montanhismo, que aconteceu no Rio de Janeiro no fim de abril e início de maio estive em terras fluminenses de volta no início de junho. Fui fazer um concurso em uma universidade federal que existe em Niterói e fui recebido carinhosamente nesta cidade pela família Chaudon (Gláucia, Lilian, Henrique), que moram em Icaraí, uma praia ultra urbana e agitada que rivaliza com as cariocas em prédios, mas que possui uma inigualável vista da baía da Guanabara, com o Pão de Açucar ao fundo. Os Chaudons me mostraram um pouco da parte histórica da cidade e das belezas naturais deste lado menos conhecido da baía. Fiz um tour pela orla marítima da cidade, que possui a mesma conformação de relevo do Rio, ou seja, montanhas de granito ou migmatito, bastante íngremes, intercaladas por praias planas e belas. Chamou minha atenção o aspecto ainda preservado da vegetação das escarpas do morro do forte de Santa Cruz (1632), um dos tantos que os portugueses construíram para fechar a baía do lado niteroiense. Também em Niterói está um dos ícones arquitetônicos modernistas de Niemeyer, o MAC, Museu de Arte Contemporânea, que parece suspenso no ar, conseguindo, com isto, quebrar a monotonia da voraz arquitetura residencial e comercial de Icaraí.

Rio

Depois que minhas atividades no concurso se encerraram acabei me transferindo para o Rio, para a casa de Vanessa Machado, que havia conhecido durante a Semana de Montanhismo. A estilosa e simpática casa de Vanessa fica em uma íngreme ladeira no bairro de Itanhangá, situado nas encostas do grande maciço da Pedra da Gávea e curiosamente um lugar mais tranquilo do que onde estava em Niterói. Apesar do cansaço, Vanessa se mostrou uma disposta parceira para agilizar caminhadas ou escaladas para mim, com ela ou com o pessoal do Graal, um grupo informal que surgiu a partir de uma destas peculiaridades cariocas: alunos de um mesmo instrutor de escalada que combinam seus passeios e escaladas a partir da internet, sem a estrutura de um clube formal.

Apesar da informalidade, as meninas, meninos (e outros graalenses não tão jovens), parecem conhecer satisfatoriamente a história do montanhismo no Rio e, até onde percebi, valorizam alguns dos componentes que fazem a riqueza e a ética do esporte, como a aventura, o aperfeiçoamento técnico visando a escalada livre, a preocupação ambiental, ainda que isto tudo me pareça um tanto diluído no meio urbano, onde tudo (trilha, escalada, montanha, vegetação das paredes) é um tanto quanto acessível e fácil de consumir, para qualquer tipo de público, seja o turista de chinelo na trilha, seja o aluno do curso de rapel, seja o escalador, grupos que se misturam em certos momentos.

Por outro lado percebi que provavelmente eu devo estar na categoria de “montanhista casca”, uma terminologia que eu não conhecia e que é usada para classificar aquele tipo de montanhista que se enfia em lugares remotos para fazer suas escaladas aventurescas ou coisa parecida, como é o meu caso e que no Rio urbano, não é tão comum.

Mas a vida é a arte do encontro, como diz o Samba da Benção, então foram estes encontros que me permitiram fazer vias no morro da Urca, na Babilônia (com uma pouco comum saída pelo cume) e uma subida na Pedra da Gávea (depois de algumas décadas), o que não foi pouca coisa considerando o tempo incerto, um tanto quanto úmido nos dias em que estive por lá. Foram estes encontros que me permitiram ter contato com pessoas que conseguem ser saudáveis e alegres dentro desta malha urbana densa e caótica que é o Rio de Janeiro hoje, o que também não é pouca coisa considerando as dificuldades do trânsito no Rio, aliás, lotado adicionalmente pelo pessoal que veio salvar o planeta, de novo.

Rio mais 20

Os belos jardins de Burle Marx no Aterro do Flamengo viraram um disputadíssimo espaço para ONGs de grife ou para as pés de chinelo e também para empresas, sindicatos, cooperativas, grupos de adolescentes, idosos, ripongas e índios, muitos índios (mais do que vi na Amazônia) além das manifestações pró ou contra alguma coisa na chamada Cúpula dos Povos, evento paralelo ao Rio mais 20, encontro oficial onde compareceram vários chefes de Estado (menos aqueles que realmente interessam, claro).

Seguramente muitas linhas bem qualificadas devem estar e serão escritas sobre estes dois eventos, então não vou gastar muito tempo de vocês leitores com minhas vagas impressões. No caso do evento do Aterro, posso dizer é que chamaram minha atenção alguns aspectos, digamos “externos” ou alheios ao evento, mas totalmente vinculados à discussão sócio ambiental: o esforço considerável dos catadores de lixo reciclável para tentar tirar algum trocado da concentração incomum de pessoas no local e o onipresente cheiro de esgoto da baía da Guanabara, que invadia de tempos em tempos as tendas do encontro.

Ou como diz um realista slogan que resume um pouco este tipo de evento: “todos querem salvar o mundo, ninguém quer ajudar a mãe a lavar a louça”.

 

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