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Archive for março \02\UTC 2010

Ensaio sobre a dor

Por Edson Struminski (Du Bois)

Era só um cisco no olho, mas tornou-se tão insuportável que parecia coisa muito maior, como um pedaço de vidro, uma pedra, sei lá. Passaram-se horas, a noite chegou, colírios, limpezas de olho e nada. Após uma noite mal dormida, tudo acabou como começou. Passado este episódio percebi que mesmo um simples cisco no olho era capaz de gerar uma dor memorável a ponto de me desequilibrar, de deixar lembranças duradouras.

Se  somos tão frágeis a ponto de um episódio banal, um cisco no olho provocar uma dor intensa no dia a dia, o que dizer da dor em uma atividade na montanha? Até que ponto a dor, o desconforto, o sofrimento são inerentes ao mundo da escalada? Até que ponto podemos negar estes fatos e ignorar ou driblar estes aspectos “negativos” desta prática esportiva? Ou pelo contrário, será que a busca pela dor é algo intencional na escalada? Algo que valoriza o ato de escalar?

Este é um tema instigante e sobre ele estava conversando com meu amigo Hebert Sato. Ele pratica zen budismo e me falou de pontos de contato entre o zen, a escalada e outras práticas esportivas ou humanas, pontos estes que, aliás, já foram explorados na literatura para quem tiver curiosidade (1).

Segundo ele, certo grau de concentração, esforço, desconforto e mesmo dor física são exigidos do praticante do zen para que atinja um estágio superior, ou para usar uma analogia útil a nós, para que possa vislumbrar um horizonte de um ponto de vista mais alto, como no cume de uma montanha.

A sublimação através da dor parece ser um conceito útil que se encaixa também na metáfora cristã de “expulsão do paraíso”, quando o ser humano percebeu que a vida não era assim tão fácil, que ele teria de dar duro para conseguir seus objetivos. Mas é paradoxal que até mesmo nos seus momentos de lazer os humanos procurem atividades trabalhosas, que levem até mesmo ao surgimento do sofrimento e da dor.

O fato é que o ser humano busca desafios e o surgimento do montanhismo coincide com o aparecimento de sociedades modernas, excessivamente normatizadas e reguladas, onde a dor e o sofrimento começaram a ser gradativamente suprimidos em prol do bem estar individual e da ordem social. Desta forma o montanhismo aparece como uma válvula de escape para as pessoas que vivem neste tipo de sociedade. O montanhista parece cumprir aquele antigo papel do “explorador do desconhecido”, tão comum antigamente, ou quando muito de não conformista.

Assim, uma cota de dor, desconforto e sofrimento seriam reflexos da busca por estas experiências, combinadas com as exigências das montanhas.

Isto foi muito válido nos primórdios do montanhismo, quando certo número de montanhistas chegou inclusive a desaparecer em suas atividades nas montanhas. Por outro lado, embora, um determinado número de montanhistas continue ainda a desaparecer anualmente, o surgimento de atividades como a escalada desportiva vem tentando, através do aumento da proteção ao escalador, reduzir os riscos, a dor e mesmo a pressão psicológica da escalada faz sobre as pessoas. Curiosamente a escalada desportiva amplia o grau de dificuldade que podemos fazer na rocha, ainda que nos torne mais dependentes do equipamento e menos tolerantes ao esforço e a dor que provém do aumento da dificuldade na escalada.

De qualquer modo, com tudo isto, pode parecer paradoxal que para valorizar uma escalada, comumente o escalador procure aumentar intencionalmente o grau de dificuldade de uma via,  o que pode significar o aumento também dos tais aspectos “negativos” da escalada, a dor e o sofrimento…

Porém Sato me explicou que o outro lado da moeda nesta questão do sofrimento e da dor na escalada e que pode ser bem interessante. É algo que no zen é chamado de sublimação ou iluminação e nós ocidentais chamamos de “insigths” e que é algo que, ao contrário da visão cristã, não depende da intervenção divina e sim do esforço individual do praticante da atividade. Insigth pode ser entendido também como o ato ou resultado de aprender a verdadeira natureza das coisas, enxergar intuitivamente, ou mesmo ter uma percepção profunda das coisas através da instrospecção. No budismo a palavra para definir este estágio é vipassana.

Então nós teríamos este momentos, em que toda dor, sofrimento e esforço seriam compensados ou diluídos frente a uma paisagem notável, um cume, o fim de uma parede, ou mesmo diante de acontecimentos mais “banais” como o encadenamento de uma via ou a abertura de uma nova rota de escalada. Momentos em que estaríamos tão integrados na pedra ou na montanha que não haveria muita diferença entre o que somos, o que fazemos e o ambiente em que estamos. Nós e a montanha seríamos uma coisa só. Com isto transcenderíamos nossas limitações humanas e toda dor e sofrimento fariam sentido…

 (1) A arte cavalheiresca do arqueiro zen. Eugen Herrigel. Ed. Pensamento – Cultrix

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