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Archive for junho \24\UTC 2010

Por Edson Struminski (Du Bois)

Corria o ano de 1980. Eu estava nos meus inícios do montanhismo, “aspirante a guia” era o que lia-se na minha carteirinha de sócio de um clube de montanhismo de Curitiba. Na verdade haviam poucos guias, poucos escaladores, pouca informação. Haviam poucas vias no Anhangava, nossa escolinha de escalada.

Os escaladores que escalavam há mais de tempo faziam um pouco de tudo: davam cursos aos novatos, fabricavam equipamentos, levavam os interessados aos lugares mais diversos, como Marumbi ou Pico Paraná onde davam noções sobre bivaques e mostravam as escaladas antigas, outros abriam vias.

Maximilian Hochsteiner era um destes instrutores que tinha uma ótima didática e facilidade de se comunicar (atualmente é instrutor de glider). Procurava estimular os novos escaladores a ir em frente. Às vezes era possível vê-lo carregando algum novato em busca de alguma nova via nas pedras abundantes do Anhangava ou de outras montanhas da serra.

Sunrise é uma das vias deste período que hoje considero como experimental. Foi aberta na pedra onde situa-se a escadinha da trilha normal do Anhangava, por Max e por um novato (de quem falarei mais adiante) como uma via em artificial em pequenos rebites e saída em livre quando a pedra apresenta agarras. Em meados dos anos 80 com o surgimento de novos materiais de escalada no Paraná, houve um “boom” de escalada livre que se mantém até hoje. Escaladas em artificial que puderam ser feitas em livre acabaram recebendo proteções compatíveis com os novos movimentos. Grampos antigos e outras peças metálicas começaram a ser gradativamente removidas e trocadas por chapas de inox fixadas por parabolts do mesmo material.

Sunrise era um artificial típico, boa parte em uma parede sem agarras e quase vertical. Acabou caindo no esquecimento porque (pelo menos aparentemente) não permite movimentos em livre e também porque é difícil perceber o equipamento fixado à parede, de tão discreto. Talvez o experimentalismo de Sunrise fosse apenas uma aposta no potencial futuro da escalada naquela parede do Anhangava, não chegou a acontecer, mas continuou acontecendo, no sentido do belo poema de Mário Quintana que coloquei no fim deste artigo…

 Caratuva em chamas

Estamos agora em 2008. A cena que vejo à minha frente é a de uma das maiores montanhas da Serra do Mar, o Caratuva, enegrecido após apagarmos um incêndio devastador que consumiu durante dias uma preciosa porção de florestas de altitude. Lembro-me de ter me afastado um pouco do burburinho do campo-base de combate ao incêndio, sujo e cansado, sentado em uma pedra, pensado em tudo o que tinha vivido até então e imaginado de que modo poderia perpetuar na memória das pessoas não só o horror e as dificuldades do incêndio, mas também a beleza da união e do combate a este desastre. Enfim, extrair algo daquela tragédia, daquela experiência tão triste.

Investi na busca de informações sobre incêndios em montanhas (produzi um mapa para o parque Pico Paraná, onde situa-se o Caratuva) e na difusão destas informações, através de palestras e do espaço Pesquisa em Montanha (www.pesquisaemmontanha.wordpress.com) na internet. Junto a meus vizinhos aqui do Anhangava, também procurei manter operacional uma base de combate a incêndios, montada em 2005.

Uma outra forma que imaginei para manter viva a memória das pessoas foi através da escalada. Pensei que se houvesse um setor de escalada que fizesse alusão ao(s) incêndio(s), as pessoas, ao simples pronunciar do nome das vias, seriam induzidas a refletir sobre o significado destes nomes e a fazer uma relação entre as escaladas e os episódios que aconteceram no Caratuva e em outras montanhas. Seria uma forma de transformar a memória daqueles acontecimentos em algo bom. Comecei a alimentar um pequeno sonho neste sentido.

 Caratuva: novo setor de escaladas no Anhangava.

Desde o ano de 2006 eu resolvi investir na face leste do Anhangava com amigos ou sozinho, procurando descobrir e abrir setores de escalada com vias dentro de uma perspectiva mais moderna, o que inclui a padronização de materiais (chapas e bolts de inox) e o cuidado ambiental, através da implantação de trilhas e bases de vias calçadas, remoção de espécies vegetais invasoras como o Pinus, ou a retirada de lixo encontrada nos novos locais (até nas paredes).  Esta face da montanha é importante, pois ainda está em fase de recuperação de fortes incêndios de ocorreram no Anhangava até meados dos anos 1980. Em 1995, fato pouco conhecido, um rojão causou um princípio de incêndio (que foi contido por montanhistas) exatamente nos pés da parede onde foi aberto o novo setor que estou apresentando agora, durante uma missa de 1o de maio, pois, na época, grande número de pessoas ainda subia pela trilha normal da montanha para este evento religioso. Então, o lugar também tem algo a nos dizer a respeito de incêndios.

As vias abertas nestes novos setores são sempre construídas em livre, procurando atender a um público amplo, de iniciantes a experientes e sugerindo possibilidades de evolução e desafios aos escaladores.

O setor Interiores* aberto em 2006 comporta vias para iniciantes, mas também tem vias que atraem escaladores experientes. O setor Estufa* aberto em 2007, próximo ao cume do Anhangava, possui nível um pouco mais elevado. Já o setor Caratuva*, agora aberto, não tem nenhuma via de nível fácil, representa um setor de escaladas bastante exigente.

Pequenas agarras e aderências verticais exigem força, equilíbrio e posicionamento correto do corpo, aliados a um bom calçado, que são essenciais neste setor com escaladas difíceis, elegantes, atraentes e que eu diria, são quase cerebrais, enfim, um típico representante do já legendário granito abrasivo do Anhangava.

Entrei nesta pedra em 2009, junto com meu amigo Hebert Sato, que esteve comigo na abertura do setor Estufa e no combate ao incêndio no Caratuva. Descobrimos que a pedra é uma continuação natural do setor Interiores, podendo ser associada a ele e sendo apenas interrompida pela presença de vegetação. Uma chapa chegou a ser colocada por Thomás Alexandre Kämpf  (Tomi), que abriu comigo o setor Interiores em 2006, com o intuito de se explorar parte desta pedra na forma de boulders. Um destes boulders foi reativado, recebeu chapas e foi feita uma sequência até o final da pedra, compondo hoje uma das vias do novo setor. Também uma outra via que eu tinha feito com corda de cima há tempos atrás recebeu chapas e uma nova linha até a parada do setor.

Já tínhamos, portanto, uma trilha pronta, que dá acesso aos setores Interiores e Caverninhas, porém necessitando de algumas adaptações e recuperação na sua porção mais antiga (que leva ao setor Caverninhas). Precisávamos limpar o lixo velho jogado de cima pelos turistas e enganchado na vegetação e no solo, o que incluiu curiosidades como um par de sapatos sociais, azulejos e um guarda chuva, além de peças de barracas, muitas garrafas pet, latas de refrigerantes ainda de ferro, plástico e alumínio deteriorado, vidro quebrado e um cobertor do tipo “tomara que amanheça logo”, tudo isto totalizando algo como uma mochila cargueira em volume de lixo. Também seria necessário fazer o corte da Paina (Cortaderia selloana), uma agressiva espécie de capim ruderal que invade ambientes alterados e compete com as espécies locais.

Fizemos algumas investidas em 2009 para realizar o trabalho normal de exploração e abertura de vias e agora em 2010 reuni os apoios necessários para finalizar o setor, com a colocação de chapeletas e realização dos trabalhos ambientais. Com isto, quatro vias surgiram com chapas e outras tantas poderão ser feitas com corda de cima.

O setor Caratuva representou, portanto, a unificação de esforços anteriores e recentes e sua abertura para a comunidade de escaladores: resgate de vias antigas ou feitas com corda de cima, reativação de um setor de boulders, recuperação de trechos de trilhas, limpeza de lixo, retirada de invasoras, além da abertura de vias originais.

 “Caratuva em Chamas” é a via mais bela e emblemática deste setor. Uma das novas vias, com sete chapas e cerca de 25 metros, possui um início de via difícil que leva até um platô, onde um belo diedro arredondado exige um meticuloso trabalho de regletes com dificuldade técnica constante. A também nova “Dedos Flamejantes” é uma linha melindrosa que inicia no mesmo platô e faz um zig zag transitando pela bela aresta do diedro, no momento, é a mais difícil e desafiante via do setor.

Outras vias são “Fumaça e Cinzas”, 30 metros, primeira e mais acessível via do setor, na face norte da pedra (na proximidade da escadinha que sobe o morro) e “Fogaréu”, no antigo setor de boulders e que hoje vai até o fim da pedra a partir do platô. Possui 2 crux que misturam aderência e regletes. Em algumas vias existe a possibilidade de se guiar pela direita ou esquerda, variando fortemente a dificuldade da via e também é possível explorar linhas de escaladas com corda de cima.

Entre elas encontramos a velha Sunrise, que continua ali, com seus rebites, quem sabe esperando uma ascensão em livre…

 Reminiscências do passado, idéias sobre o futuro.

Como comentei, os anos 1980 foram uma época de grande experimentalismo, pois o equipamento de escalada como calçados, cordas, cadeirinhas era improvisado. Isto incluía também o material usado na abertura de vias, inclusive, aquilo que ficava nas paredes, que era escasso e precário, assim, cada escalador tratava de abrir suas vias com o material que achasse à mão, de preferência o que fosse mais leve, mais barato.

Sunrise foi aberta da forma mais minimalista possível: um artifical (A0) com pequenos rebites em ferro 1020 de 8mm de espessura  e um pino sem olhete. Para se fazer um artificial deste tipo os escaladores penduravam-se em cordeletes ou em chapeletas removíveis (eu cheguei a usar algumas que fabriquei com as chapas de metal que prendem os cintos de segurança nos automóveis), ou então, mais modernamente, nuts de cabos de aço encaixados nos rebites, uma alternativa sempre válida, além de calçados kichute, cordas “bacalhau” (capa de poliamida), cadeirinhas feitas com reciclagem de cintos de segurança de automóveis ou seja, tudo bem precário e sumário.

Talvez por uma não tão curiosa coincidência, em Sunrise eu era o novato a quem Max passava as primeiras noções de escalada, incluindo, naquele caso, noções de abertura de vias. Daquele período ficou a curiosidade por coisas novas, a sensação estranha de ser um dos primeiros a passar por certos lugares, a beleza da exploração de novos horizontes, ou mesmo o minimalismo como forma de escalada. Enfim, coisas que ainda me parecem fazer muito sentido no montanhismo, (naquilo que eu muito particularmente entendo por montanhismo, claro), independente do tipo de escalada que estou fazendo. Cheguei mesmo a espalhar alguns rebites daqueles por aí. Foram úteis por um certo período, alguns salvaram minha vida, mas isto são outras histórias…

De qualquer modo percebo que mesmo a história desta escalada e das suas motivações não era aparentemente conhecida, ou andava esquecida (em parte até mesmo por mim, daí o fascínio que senti de reencontrar este pequeno pedacinho do meu passado), pois Sunrise não chegou sequer a constar da primeira edição do Guia de Escaladas do Anhangava. Para se ter uma ideia de como a discussão sobre novas vias no Anhangava pode ser pobre, foi-me dito de que eu deveria abrir uma via apenas a cada 5 anos (mas mesmo neste caso, passados 30 anos, penso que eu já teria um bônus com direito a abrir 6 vias neste setor!), ou de que outros gostariam também de abrir vias por ali (mas onde estavam eles nestes últimos 30 anos?).

Sunrise lançou uma ideia para esta pedra que só foi colhida no futuro, agora, no caso, o que torna a discussão sobre o futuro do lugar anacrônica. Mas algumas pessoas também costumam fazer o duvidoso papel de procuradores das gerações futuras. Destas ouço que eu deveria deixar lugares como estes para alguma geração futura (não especificada), um tipo de raciocínio apenas conservador, pois sempre que alguém resolva, em algum momento à frente, abrir uma via nova, poderá ser confrontado, novamente, com a ideia de manutenção do estoque de vias para o futuro, que neste caso, nunca chegaria, seria sempre empurrado para frente. O Paraná, neste ponto, é um local estranho. Escaladores inovadores são criticados quando trazem inovações, quando criam novas escaladas, mesmo que tragam melhorias técnicas, democratização ao esporte ou ganhos ambientais.

Por outro lado, aqueles que estão aproveitando o setor estão adorando a possibilidade de ter um grupo novo, atraente e desafiador de escaladas para treinar neste inverno. Como vi nos setores anteriores que eu abri no Anhangava, provavelmente este grupo será a maioria.

Daí veio a constatação de que o que aconteceu foi que simplesmente levou 30 anos para que amadurecêssemos e para que a pedra onde se situa esta via virasse um setor viável e integrado de escalada moderna, interessante para os escaladores de agora e do futuro.

Pessoalmente sinto um enorme enriquecimento pessoal quando abro uma via, ou um setor de escaladas nas montanhas, pois é uma forma de manter o interesse no montanhismo vivo em mim, uma das minhas paixões na vida, um sonho realizado. O trabalho é algo muito fascinante e o prazer da descoberta de novas vias não pode ser roubado de um montanhista por críticas pobres ou vazias.

Além disso, acho muito atraente quando podemos agregar uma mescla de referências na abertura de um novo setor: recuperar a história, manter viva a memória do combate a incêndios, demonstrar procedimentos práticos para recuperar ambientes degradados e, principalmente, manter a ideia de que a escalada no Anhangava pode nos trazer boas surpresas e que ainda tem, sim, muito futuro, basta que as pessoas tenham criatividade, sonhem e se esforcem um pouco.

Apoios

A abertura deste setor contou com inestimáveis apoios a quem devemos agradecer: ao Ed (Conquista Equipamentos) que entrou com equipamentos da sua marca e com parabolts inox; à Bonier que forneceu as chapeletas (com a prestimosa mediação de Waldemar Niclewicz); ao Chiquinho, meu vizinho do Anhangava (Alto Estilo), que emprestou uma furadeira à bateria que agilizou os trabalhos. Também utilizei nestes trabalhos alguns produtos fornecidos pela Proativa, como pastilhas hidratantes, alimentos liofilizados e uma meia técnica apropriada para atividades em montanha.

 Sites:

www.conquistamontanhismo.com.br

sites.google.com/a/bonier.com.br/bonier/

www.altoestilo.com

www.proativa21.com.br

www.lorpen.com.br

www.suum.com.br

www.liofoods.com.br

 *Baixe também os croquis dos novos setores em:

http://www.4shared.com/document/ToT6h8i9/caratuva1.html

http://www.4shared.com/document/loHDaTrl/caratuva2.html

http://www.4shared.com/document/h93uQI_L/estufa_1.html

http://www.4shared.com/document/qh8EOds1/estufa_2.html

http://www.4shared.com/document/blwShAfD/interiores.html

As coisas que não conseguem ser,

olvidadas continuam acontecendo.

Sentimo-las como da primeira vez,

sentimo-las fora do tempo.

Mário Quintana (Rua dos Cataventos e outros poemas)

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