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Archive for junho \28\UTC 2011

Por Edson Struminski (Du Bois) 

A BR 373, que liga Ponta Grossa a Prudentópolis está tomada pela neblina e, felizmente para mim, o movimento nesta estrada está na medida certa, nem excessivo a ponto de testar os nervos, nem tão baixo a ponto de fazer com que a monotonia da paisagem esbranquiçada me leve a um sono perigoso nesta estrada de mão dupla, que apesar de bem conservada (é pedagiada) tem lá suas armadilhas e desta vez estou sozinho.

Alguns quilômetros antes de chegar à esta cidade, dou uma guinada em uma estradinha rural, que cruza um faxinal. Hoje já aprendi a entender os sinais sutis que caracterizam este singular uso da terra típico desta região do centro sul paranaense: mata-burros na estrada, animais soltos em meio às áreas florestais, cercas praticamente ausentes entre as propriedades, um certo ar bucólico na paisagem.

Andar em busca dos saltos dos rios da região exige uma navegação múltipla. É necessário usar alguns mapas precários, ficar de olho nas placas indicativas, quando existem, regular a quilometragem e perguntar para as pessoas, mais de uma vez, pois as informações podem ser contraditórias. Você pode se guiar também pelas latinhas que os visitantes jogam pela estrada, algo que, como já comentei em um artigo anterior aqui no blog (https://blogdodubois.wordpress.com/2010/11/11/livre-acesso-ao-salto-sao-jorge-ate-quando/), é uma espécie de marcador extra-oficial do turismo alienado que acontece nestas regiões.

Cruzo o rio dos Patos, volumoso e tranquilo, que nada sugere do que vem pela frente. E o que vem pela frente é o salto Barão do Rio Branco, que cai em mais um degrau portentoso que a geologia da região aprontou para os rios da região, no inevitável caminho das águas em direção às terras mais baixas.

Andando pelas estradinhas esburacadas da região, neste pedaço do Brasil que sugere um pouco da Ucrânia, com suas antigas picapes Willis, crianças loiras e casas de madeira, modestas e bem cuidadas, percebo que nada na paisagem sugere estas impressionantes alterações que os rios provocam no relevo. De fato, de cima do salto Barão do Rio Branco o que vejo é um impressionante cânion modelado pelo rio e coberto pela vegetação densa e úmida, que contrasta com as pedras escuras do rio. Uma sensação de natureza em construção, como havia visto em minha visita anterior a esta região (https://blogdodubois.wordpress.com/2011/04/26/prudentopolis-escalando-na-originalidade/)

Falar em geologia sempre nos lembra eras remotas da Terra, períodos antigos. Na verdade a geologia é algo dramaticamente vivo e marcante ali, na mudança do Terceiro para o Segundo Planalto Paranaense. Um dos processos de evolução do cânion parece ser o próprio trabalho da água erodindo e rompendo diretamente a rocha. Mas não o único, o relevo é incrivelmente dinâmico, como aliás eu veria dali a instantes.

Mas naquele momento, em cima de um platô plano do topo do salto, o que eu vejo é o belíssimo cânion do rio, um coalhado de pedras negras arrancadas das paredes rochosas e a vegetação tentando ocupar ao máximo a riqueza do solo gerado pela decomposição daquela pedra basáltica. Esta visão fascinante, um trecho de natureza que não tem como ser modificado, é o que tem justificado minhas visitas a estes lugares.

Também vi uma bela cachoeira vertical, com volume bem menor de água, mas que misteriosamente desapareceu minutos depois (este mistério eu descobriria depois), além de uma inusitada construção, uma robusta casa de pedra a algumas dezenas de metros da base da cachoeira.

Esta construção é uma casa de máquinas de uma PCH, uma central hidrelétrica construída em um período em que a geração e distribuição de energia nas áreas rurais no Paraná era algo remoto. Isto mudou, claro, mas a PCH continua em funcionamento, sendo usada por uma fábrica de cartões e embalagens. É uma complexa e pesada estrutura, mas que ainda assim representa uma forma de aproveitamento energético muito menos agressiva ao ambiente que as grandes centrais hidrelétricas, estas sim monstruosas e altamente impactantes. O fato é que o salto continua lá, apenas parte da água é desviada para a PCH e depois volta para o rio livre. O restante desce pelo degrau do salto Rio Branco.

Armo um rapel a partir de árvores e aproveito, mais uma vez um dos meus achados, um pedaço de mangueira que encontrei nos arenitos de Ponta Grossa, que uso para proteger a corda e que é obrigatório nestes ambientes angulosos. Eu sabia que as possibilidades de escalada nesta parede eram, naquele dia, praticamente nulas, pois a base da cachoeira estava totalmente encharcada pelo respingo da água, mas me interessava ver que tipo de vegetação se agarra às rochas, ver um pouco da diversidade de vida vertical desta parede, conhecer um pouco mais desta rocha, então desço pela parede.

Apenas 6 ou 7 metros abaixo do  platô plano do topo do salto aparece um primeiro teto e logo depois um segundo, formado recentemente. Lá pela metade da corda faço um pêndulo e consigo me agarrar aos galhos de um Guaperê (Weinmannia sp) , uma arvoreta que cresce ali, em meio a um caos de pedras soltas.

Deduzo que esta parte do cânion está sendo formada a partir “de baixo”, com a desagregação da rocha a partir da base da cachoeira, que se decompõe e sobrecarrega trechos mais altos até chegar ao topo do platô, ali mesmo onde amarrei a corda. Neste momento falta desabar apenas aqueles 6 ou 7 metros acima do teto que ultrapassei, mas há locais ali ao lado onde a espessura já é bem menor, coisa de 50 cm.

Agora que minha porção “científica” já havia entendido este novo processo de evolução do cânion, era hora de cair fora, sem derrubar nada, sem fazer movimentos bruscos, sem precisar assistir ao desabamento ao vivo. Armo, então, uma subida em ascensores e sigo jumariando parede acima, um tipo de manobra tensa, em que sempre tento resistir a tentação de pensar em quanto a corda parece fina, em que tenho que me concentrar nos meus próximos movimentos, em não cometer erros que possam ser difíceis de consertar, em não derrubar coisas das mãos, em torcer para que o rio não resolva, por um motivo qualquer, encher exatamente naquele momento…

Para quebrar a tensão aproveito a oportunidade para fotografar a vegetação, as rochas e a água do salto deste ângulo incomum e assim vou até chegar a um trecho em que posso subir escalando, testando novamente pés e mãos no basalto. 

Resta a curiosidade sobre a PCH. Recolho o material e vou em busca de alguma trilha que dê acesso à base da cachoeira e à casa de máquinas. Encontro o canal de desvio de água do rio e muito, mas muito lixo mesmo, recolhido pelo pessoal que faz manutenção da PCH nas telas de filtragem da água que desce até as turbinas. De onde vem tanto lixo? Esta é a pergunta inevitável. Ao longo do curso deste rio, zonas rurais e urbanas certamente devem usar rios como este como despejo de lixo, fora, é claro, aquilo que os turistas gentilmente despejam quando aparecem para ver esta maravilha natural. Assim, em meio ao selvagem, sinais da cidade.

Mas há toda uma complicada engenharia pelo caminho. O canal de desvio acaba e a água entra por imensos canos que descem até a casa de máquinas. Em cima dos canos corre um trilho e vagonetes que servem para transporte de materiais. Uma longa escadaria de ferro, mais de 400 degraus vai em direção à casa. Há também registros que esgotam a água do canal de desvio para as rochas e para o rio, a misteriosa cachoeira temporária que havia visto quando cheguei.

A casa de máquinas é uma sólida construção antiga e é possível sentir a vibração das turbinas na própria escadaria de ferro.

A montagem de toda esta complicada estrutura é fascinante e não deixa de ser um pouco decepcionante você visitar um lugar como este e não encontrar nenhuma informação visível, seja em relação ao salto, ao rio ou à esta casa de força. Nada que valorize a história do lugar, o esforço humano para produzir energia a partir da força bruta da natureza, nada que nos fale da forma como a vida se adaptou a este ambiente inóspito.

Carrego um tanto de lixo de volta para a cidade e saio em busca de outro salto. O salto Sete.

Outra estrada rural, outros caminhos, ausência de informações. O faro funciona mais que as indicações confusas e me vejo em uma área particular degradada, aparentemente sendo preparada para um “turismo sofisticado”, leia-se, urbanóide, com pouca integração na história local.

Desta vez estou no meio do vale, do cânion. Vejo os saltos pelo caminho da floresta, experimento a verticalidade da vegetação se agarrando aos lugares e vislumbro a cachoeira apenas pelas frestas entre as árvores. Mas o tempo passa e desta vez não terei o tempo necessário para explorar esta região também.

Na volta não resisto e paro em um pequena e simpática igreja com arquitetura ucraniana, toda colorida e cuidada de forma carinhosa pelos moradores da região que permitem que eu visite e fotografe os detalhes arquitetônicos que sempre me fascinam nestas construções.

Assim, visitando esta singela construção é que percebi que é preciso manter a sensibilidade aguçada, não se concentrar apenas na limitada descarga de adrenalina que uma mera descida de corda provoca, que é o que lemos nos blogs das pessoas que passeiam na região . Em detalhes delicados ou paisagens majestosas, é que esta região pode manter o fascínio para nós.

 

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Nossa sombra, na lua…

Por Edson Struminski (Du Bois) 

Mais uma vez “eu clips”, diz a Lua. Um aluno aqui da geografia da UEPG me perguntou se “o clips da Lua era quando que o sol entrava entre a Terra e a Lua e não dava para a ver a lua…”

Nada tão sensacional ou caliente assim. Na verdade é uma coisa mais doméstica, entre nós e nosso, por assim dizer, satelitezinho, uma sombrinha que fazemos nele. O Sol se chegasse perto derreteria tudo. Então esta nossa sombra faz com que não dê para ver a Lua por alguns minutos.

Mais é um evento meio raro a clips, como Olimpíadas, outra só daqui a quatro anos, então eu resolvi dar uma chance a clips e fui vê-la ontem, 15 de junho de 2011, longe das city lights de Ponta Grossa, lá no morrinho que vai para a represa dos alagados, um descampado pedregoso, definição estranha,  pois descampado deveria ser ausência de campo e no entanto, o que me atrai ali é justamente o fato de ter um campo aberto, com afloramentos de arenito, rochas para saltitar, local simpático para namorar, andar pelos campos, apreciar a paisagem, ficar sozinho, ver clips e como eu já tinha exercitado as tres primeiras atividades, ficaram os outros dois pogramas para conferir. Pogramão a tal clips.

Bem, então eu vi a clips da Lua. Inverno, noite fria e clara nestes descampados. A Lua aparecendo apagada, sem graça e, aos poucos se livrando das sombras da Terra, iluminando-se.

Me dei conta, então, de que, naquele momento, todo o meu mundo, em um certo sentido, fazia sombra naquele outro mundo. Montanhas, mares e geleiras da Terra, sombreavam a Lua. A grande floresta Amazônica, o deserto do Sahara, a Grande Barreira de Corais da Austrália, a Patagônia com suas montanhas geladas, todas projetadas no corpo celeste vizinho, que aliás continua com o mesmo corpinho de sempre, parece que nem viu o tempo passar.

Então estava tudo lá, as grandes muralhas da China, as pirâmides do Egito, os arranha-céus de Nova Iorque, o Coliseu de Roma, o Cristo Redentor do Rio.

Em um certo sentido, todo o meu mundo material estava ali, projetado no espaço, o mundo das coisas, das coisas naturais, das coisas construídas pelas pessoas.

Estava lá projetando sua sombra agourenta na Lua, a usina de Fukujima, os exércitos chineses no Tibet, as fábricas de agrotóxicos da Monsanto, algum petroleiro em sua última e perigosa viagem pelos mares do mundo.

Na clips da Lua também as pessoas, Obama e seu séquito, Lula de pijama, Justin Bieber, os BBBs, os 410 deputados que votaram a nova lei do desmatamento brasileira…

Minimamente na sombra da Terra que passou pela Lua, o morro Anhangava, onde aprendi a escalar, o Marumbi, onde quase morri, a simpática cachoeira do rio São Jorge em Ponta Grossa, o Salto São João em Prudentópolis, que conheci a pouco tempo e que encheu meus olhos.

Também meu mundinho, minhas coisas, as pessoas que amo, as que já não me interesso, meus desafetos, meus amigos, estavam projetadas na Lua distante. Tudo isto passando de leve pelo astro vizinho, nosso satelitezinho querido do coração. 

Mas nem tudo estava projetado ontem na Lua: o amor do pai pelo filho, o carinho, o bem estar que podemos provocar em alguém que gostamos quando damos um presente inesperado, a música que alegra o coração.

Tampouco as sombrias atitudes humanas apareciam na Lua: a corrupção que usa canais internéticos para engordar contas na Suiça, as intenções ocultas dos deputados motoserras, a prepotência dos ditadores de plantão, o silêncio conivente dos burocratas.

Será que a Lua sentiu um arrepio quando a sombra da Terra passou por ela? Será que ela pensou? “Ufa, anda carregada esta Terra”, ou será que foi? “Acho que ainda tem esperança para ela.

Também estávamos na Lua ontem leitor, eu e você.

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Por Edson Struminski (Du Bois) 

Números redondos são sempre curiosidades, o post de número 100 deste blog, este que vocês estão lendo, coincide com os quatro anos da criação do blog, que aconteceu em junho de 2007.  A cada 12 meses, cerca de 25 textos foram postados, pouco mais de 2 por mês.

Outros números curiosos que coletei foram os de que aconteceram mais de 53 mil visitas a este blog, que recebeu 242 comentários pertinentes aos assuntos que foram publicados, indicando um diálogo em maior ou menor grau com vocês leitores. Hoje a média de acessos está em torno de 36 por dia.

São números discretos. Já ouvi comentários fora do blog que dizem que os montanhistas não são muito intelectualizados e que, portanto, fogem de textos que citam Ítalo Calvino, Foucalt, Morin ou Sérgio Buarque de Holanda. Preferem fotos. Isto não é verdade. Quando os textos são acessíveis às pessoas, eles são simplesmente lidos e apreciados.

Ao longo da vida deste blog foram publicados textos que classifiquei como “aventuras” (7), relatos (33), ensaios (40), entrevista (1), resenhas (2), história ambiental (7) e textos de pesquisas (9). Algumas vezes estas classificações se misturam, pois não há pretensão didática, educadora, na condução destes assuntos. Aliás, em termos mais didáticos, em março de 2009 surgiu o pesquisaemmontanha.wordpress, um filhote que surgiu do blogdodubois e que atualmente conta também com uma média de 30 acessos ao dia e que organiza a pesquisa científica justamente para fins didáticos.

A faceta pedagógica do montanhismo

Os gregos antigos criaram uma palavra de que eu gosto muito e que muito se encaixa na filosofia do montanhismo: paidós (criança) e agogé (condução). Portanto, pedagogia vem do grego e significa conduzir as crianças, mostrar caminhos, ou, em uma livre tradução, mostrar valores, enquanto que a educação visa, muitas vezes, apenas a adequação do indivíduo à sociedade, repassar os valores de uma determinada instituição ou professor.

No montanhismo estamos muitas vezes procurando caminhos, exercitando uma atividade que ultrapassa fronteiras de ideias, comportamento e de ações, uma atividade que não necessariamente se adequa a aquilo que a sociedade pensa ou quer do indivíduo, mesmo as associações de montanhismo.  Por isto o montanhismo pode ser uma atividade muito pedagógica no que diz respeito a fazer com que as pessoas explorem tanto o mundo exterior como seus mundos interiores, que elas cresçam. Já a parte dedicada à educação formal ou informal no montanhismo é relativamente pequena. O auto aprendizado é muito maior.

Desde o início deste blog eu me propus a produzir textos que fizessem as pessoas pensar sobre o montanhismo, sobre as montanhas, sobre si mesmas nas montanhas. Em que medida as pessoas buscam hoje textos para ler e não apenas belas imagens? Textos que questionem quem elas são, suas posturas mais ou menos conservadoras, suas ideias mais ou menos atuais sobre a natureza, sua paixão pelas montanhas ou o mero exercício de um fetiche. Com isto, este blog se propôs a ser mais um espaço pedagógico do que de aprendizado. Há excelentes clubes, cursos e academias para as pessoas aprenderem a escalada e a prática do montanhismo, poucos espaços para elas pensarem sobre isto. Os blogs são ótimos espaços para isto porque permitem que os leitores até mesmo questionem o que eu escrevo e mudem minhas ideias. Por isto persisto, é divertido!

As montanhas e, em particular, a escalada que fazemos em montanhas, podem muitas vezes nos levar a estes questionamentos, pois nem tudo pode ser previsto, calculado ou sair como planejado. Podemos ir em busca da liberdade e acabarmos presos a uma cadeira de rodas. Podemos exaltar a vida e encontrar a morte. A escalada pode ser uma atividade exultante ou sombria, pode reforçar o melhor ou o pior lado das pessoas. Ressaltar o lado mais espiritual ou o material do rapaz ou da moça. Pode transformar um sujeito em um super escalador ou em um rato. Pensando nestes termos, percebi, com o passar do tempo, que algum esforço deveria ser conduzido, em textos que escrevi, para pedagogicamente tentar mostrar para as pessoas que os tabus deveriam ser discutidos, quebrados se fosse o caso. Alguns dos textos mais polêmicos e, talvez, menos compreendidos, que escrevi versaram sobre tabus.

Dias atrás estava escalando em um local novo para mim aqui nos arenitos da região de Ponta Grossa. Uma agarra quebrou e dei um pequeno vôo. Pensei em como tudo me parecia sempre muito difícil neste tipo de rocha, como meu esforço parecia inútil diante das (para mim) dificuldades das vias da região, mas, ao mesmo tempo, no pináculo que eu subia, podia apreciar uma paisagem das mais bonitas, então me esforcei mais um pouco. À noite estive em uma reunião do grupo de escaladores locais. Um deles me falou de uma escalada onde ele havia caído no Anhangava, local que é o quintal da minha casa na montanha e onde aprendi a escalar. Ele ainda almeja fazer esta escalada que para mim é tão banal que já havia passado dezenas de vezes sem corda. A escalada e as montanhas sempre nos trazem este tipo de curiosidade, esta diversidade de percepções sobre o mundo, são muito pedagógicas.

“A escalada pode ser uma atividade muito divertida!” Pensei. “Temos sempre que lembrar as pessoas disto”

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