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Archive for julho \29\UTC 2009

Cartas amazônicas 4

Por Edson Struminski (Du Bois), de Parauapebas, Pará

Silêncios…

As camionetes atravessam trechos de estradas abandonadas no meio da Serra do Rabo. Há momentos em que a vegetação é tão densa a ponto de atravessar o caminho e fazer com que o trajeto pareça desaparecer. Andamos em meio a um túnel de cipós e espinhos dentro de uma caixa de aço. É uma sensação estranha, mas comum por aqui, pois as estradas servem basicamente para desmatar áreas e depois para os bois andarem de um lugar para outro. São caminhos intransitáveis durante o período da chuva e que só voltam a ser usados, quando são, nos períodos secos.

Há dias em que me afasto dos meus colegas de trabalho, empenhados em catalogar as espécies de plantas e árvores que vemos neste trecho da Amazônia, apenas para captar o silêncio da floresta, ou antes, ouvir suas músicas: seus pássaros, o som do rio, o vento batendo forte nas árvores, balançando as folhas. Misturo aí minha percepção de naturalista (amante da natureza) com a de cientista (pesquisador da natureza). Registro estes sons e imagens porque nunca se sabe se este será o seu único (ou último) registro, ou mesmo o meu único e último registro sobre estas coisas.

Os pássaros cantam forte, sem medo, talvez ainda sem a preocupação com as coisas estranhas que nós humanos sempre fizemos com a casa deles. Cantam despreocupados. Gravo o som deles.

Me dedico então aos detalhes. Fotografo uma casca de árvore, uma copa alta batida pela luz inclemente, flores e folhas amazônicas, rochas basálticas em meio à floresta (estamos no meio de uma montanha), animais que aparecem. A floresta que vejo diante de mim tem uma dimensão maior do que a que estou acostumado. Árvores enormes e antigas, mas já perdi um pouco daquele temor que tinha só de ouvir falar da Amazônia. Já me sinto um pouco amigo desta floresta, um pouco parceiro.

Na verdade o silêncio é uma experiência ausente. Nesta floresta em que estou não deixo de ouvir sons o tempo todo, seja do rio, do vento, dos animais. O silêncio, então, está em mim, no meu interior, está em perceber que muitas palavras que são ditas, muitas das que eu ouvi ao longo da vida, acabaram se tornando tão gastas, que já não valem mais. Percebo, então, que está na hora de ouvir novas palavras.

E novas palavras

Das pessoas que estão em nosso grupo, o personagem mais fascinante é o Seu Paulo, mateiro nascido no Maranhão e vivendo hoje no Tocantins. Com seus cinqüenta e tantos anos ele está no Pará para identificar as espécies pelos seus nomes comuns. Depois disto, folhas das árvores são levadas a um especialista para obtermos os nomes científicos.

 É com ele que aprendo então novas palavras. O linguajar simples e sertanejo dele me passa muito do espírito da vida no interior deste grande país desconhecido que é o Brasil. Da sua moral e costumes. É um linguajar inculto e belo, como é o nosso português sem floreiros que tão bem descreve as grandezas e miudezas da vida, nossos acertos e erros. Parece que cada palavra de uma pessoa desta já vem com um humor e uma poesia que já tornam qualquer sofisticação supérflua. As palavras inventadas por ele são tão saborosas e ricas como aquelas que achamos no melhor dos nossos dicionários.

Paulo fala pouco, mas quando fala todos sempre escutam. Há uma alegria simples e cativante nas palavras dele, nas estórias que conta. Um homem já vivido, mas que ainda é como um menino crescido, sempre curioso com as coisas da vida. Com vontade de aprender.

Paulo vai cantando as palavras da floresta: sumaúma, cacau do mato, najá, burangiga, acapu, lourinho amarelo, cedroarana, mogno, genipapo de anta. Cada árvore daquela, cada gigante da floresta, cada pau, toco, cipó ou o que for, tem um nome e uma história que se perde na raiz do tempo da nação brasileira, nas raízes do Brasil, como diria Sérgio Buarque de Holanda, ainda quando sequer existia o Brasil. É através das palavras desta pessoa que descubro o que ainda é desconhecido para mim na Amazônia.

O rio e a floresta

A canoa percorre lentamente os meandros do rio Parauapebas. Parece incrivelmente vulnerável, com apenas 5 cm acima da linha d´água. Qualquer balanço mais brusco faz com que ela aderne perigosamente. A água tem a cor marrom da terra ferrosa arrastada pelas chuvas ou arrancada dos barrancos do rio. Mas é fresca e passa um aspecto de tranqüilidade.

O rio por vezes faz brincadeiras com a floresta. Passeia por meio das árvores. Arrasta algumas delas e forma esculturas vegetais que ficam paradas no meio do rio. O rio e a floresta, tão diferentes entre si estão sempre juntos, mas sempre mudando. Sempre brigando e sempre se acertando.

Subimos mais uma montanha destas da Serra de Carajás. O calor é forte e tão sufocante que chego a duvidar que eu seja montanhista, pois simplesmente parece faltar energia para andar por estas montanhas. É uma experiência estranha e angustiante ao mesmo tempo.

Ainda assim conseguimos fazer nosso trabalho. Para além dos interesses oficiais, empresariais, financeiros ou especulativos sobre a Amazônia, o que sobra para mim é a satisfação de ver que cumprimos nosso papel de modo seguro e tranquilo, sem nenhum acidente apesar dos riscos enormes pelos quais passamos. Muitas vezes nos divertimos com a profusão de sotaques, costumes, experiências de vida e trapalhadas que fizemos ao longo de um trabalho no qual, o pessoal dos escritórios de ar condicionado de Brasília, São Paulo ou Belo Horizonte, só aparecia para atrapalhar, pela falta de pé na realidade amazônica.

Saí da Amazônia com menos ilusões românticas a respeito desta grande floresta, mas com a sensação de que o pior já passou para ela, de que se as coisas ainda acontecem rápidas, é por causa da inércia da tradição, pois o pé já não está mais no acelerador. Aos poucos, percebi que, se houver um pouco mais de boa vontade das pessoas, esta grande floresta poderá ter um destino diferente das demais florestas do planeta. Em um certo sentido foi uma realização de um sonho profissional, uma dos tantos que eu já tive na vida. Conhecer esta grande floresta.

Saímos da estrada empoeirada ouvindo o som de um repentista nordestino no rádio, pois é nordestina a maioria das pessoas que, aos troncos e barrancos vai desbravando esta região do Brasil.

A camionete desliza agora silenciosa no asfalto que liga Canaã dos Carajás a Parauapebas. É fim de tarde. Passamos pelo meu trecho favorito da estrada. Serras azuladas, montanhas, aqui e ali um paredão avermelhado. Sinto falta dos filhos, mas comento da beleza da paisagem com meus companheiros de viagem e da emoção de estar nestes lugares. Parece o sul de Minas, o litoral montanhoso do Paraná. Mas não, é a Serra de Carajás, sudeste do Pará, Amazônia brasileira.

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Cartas amazônicas 3

Por Edson Struminski (Du Bois), de Parauapebas, Pará

 Cores amazônicas: azul e cinza

Para quem é montanhista é uma sensação muito agradável a de voar, particularmente quando isto é feito em uma destas grandes e velozes máquinas feita para isto e, em especial, quando elas decolam e pousam direitinho e não caem de forma espalhafatosa e produzem aquele tipo de tragédia tão escandalosamente exposta na mídia.

As aeronaves comerciais fazem milhares de voos todos os dias mundo afora. Voando alto (10 ou 12 mil metros), elas chegam onde nós montanhistas não poderíamos chegar escalando nem que nós quiséssemos, simplesmente não temos montanhas destas altitudes, assim a imagem que vemos lá de cima, o profundo azul do céu sem nuvens e o relevo tão variado do nosso país, se tornam sensações únicas, para serem usufruídas nestas grandes máquinas voadoras, que atravessam imensas distâncias em poucas horas.

Se durante o dia as belezas da natureza me chamam mais a atenção, quando estou em um destes voos, sejam elas as caprichosas curvas do rio Araguaia, as belas montanhas de Carajás, ou mesmo o intenso azul do céu amazônico acima de nós contrastando com um gigantesco tabuleiro de xadrez formado pelas nuvens em “floquinhos” abaixo do avião,  durante a noite, a teia urbana com seus intensos e luminosos rendilhados é o que mais me prende o olhar, mais mesmo que as estrelas, as quais ainda prefiro ver quando estou na montanha. De dentro do avião as estrelas poderosas não conseguem competir com a criatividade humana em formar teias de luz.  Que bom se toda esta luz significasse clareza de ideias e de propósitos humanos…

Chego em São Paulo, a capital do dinheiro do país, apenas uma hora após sair da tranqüilidade da Serra do Mar. Assim, do verde intenso das montanhas e do azul do céu passo para o cinza da capital paulista. Muito simbolicamente, parte do destino de outro verde importante de nosso país, o amazônico, se decide em escritórios como o que frequento durante alguns dias, situado lá mesmo naquela que é também, uma das mais simbólicas avenidas de nosso país, a Paulista e seus inúmeros prédios.

Cada prédio aliás, parece que está procurando concorrer com os demais em inovações estilísticas arquitetônicas, sejam elas de bom ou mau gosto. De um lado um deles abusando do estilo informal, com uma caixa dágua pintada de forma curiosa e uma antena estapafúrdia espetada em cima, outro parecendo um gigantesco espelho, mais ao lado um aberrante edifício religioso neoclássico, com colunas gregas que parecem patas de elefante prontas a esmagar os pedestres incautos. Lá no fundo a pirâmide da Fiesp, parecendo uma enorme caixa registradora, espreita tudo com atenção, toma decisões.

Se a arquitetura é arrojada, não é preciso muito tempo para me dar conta do quanto é insípida e incolor a vida das pessoas que trabalham nos milhares de escritórios que existem nas dezenas de prédios desta avenida. A rotina que acompanho me parece que simplesmente anula a criatividade das pessoas. Aliás, há muita gente nas ruas. Muita gente nos bancos, nas bancas de jornal, nos restaurantes. Talvez como uma forma de driblar a falta de criatividade do mundo escritoril, um grupo de adolescentes se amontoa ao lado da saída do metrô por conta de um encontro marcado na internet.

 A hora do almoço parece ser um momento importante para os paulistanos, um momento de dar uma pausa nas atividades rotineiras, até mesmo entediantes de todo dia. Cada dia eu acompanho as pessoas do escritório que vão almoçar em algum lugar diferente. Filas, comidas variadas para dissipar a monotonia que o ambiente de trabalho e a arquitetura imutável impõem.  Em um dos dias almoçamos em uma destas lojas que vendem sanduíches, uma bem  famosa, mas que eu não lembro o nome porque só tinha entrado uma vez na vida e para qual não voltei porque não tinha gostado do gosto da comida. Filas, faço um pedido banal e recebo um monte de embalagens, a comida está lá dentro, envolvida pelas embalagens. O grupo que faço parte tem sete pessoas. Deixamos uma pilha enorme de papel e plástico em cima da mesa, desproporcional à qualidade e quantidade do que comemos. É uma comida em que a aparência conta mais que o valor real dos alimentos.

Imagino a vida de um montanhista em São Paulo. Deixo a cidade como cheguei, em uma manhã fria, depois de resolver alguns detalhes técnicos e financeiros do meu trabalho. A cidade continua gris. Admiro a capacidade das pessoas que a fizeram e a fazem todo dia, mas a deixo feliz para trás. Entendo que a cor da Amazônia depende também um pouco do cinza de São Paulo.

 Verde

As montanhas da Serra de Carajás, que é uma área protegida (Floresta Nacional) estão verdes e ainda cobertas pela exuberante floresta de encosta da Amazônia e é um prazer e um alívio quando posso subir a estrada exuberante cercada de árvores que vai até o topo desta serra.

Fora dali, nas propriedades particulares, o verde se resume praticamente ao pasto, em uso ou abandonado, até a beira do rio. Nas áreas mais montanhosas, onde o gado tem dificuldades em andar, estradas abandonadas são nossos caminhos em busca das árvores, em áreas florestais há muito empobrecidas. Mas percebo que as árvores de verdade são cada vez mais raras. Nosso dia a dia inclui passar em estradas inimagináveis com as camionetes de trabalho, às vezes tendo que reconstruir uma ponte caída, retirar um tronco atravessado ou subir ladeiras com os carros pulando como cabritos. Quando os carros já não podem ir adiante o jeito é atravessar rios a pé sobre troncos caídos, varar espinheiros, subir e descer morros. Mas são escolhas profissionais para quem a atividade no escritório não atrai muito. Nada disto incomoda demais, a aventura faz parte do dia a dia.

Por outro lado, se o nosso trabalho é dificultado pelo terreno, ele é feito de forma prazerosa. Já a vida das pessoas parece ser, esta sim, muito difícil nestes sertões, sejam elas militantes do MST, empregados de fazenda, vaqueiros, donos de vendas em vilas precariamente instaladas nos rincões. Nestes lugares coisas como luz elétrica podem ser luxos importantes, quanto mais formas de lazer saudáveis como muitas pessoas que leem este blog praticam. Nos olhos dos jovens, rapazes e moças, que vejo pelo caminho, há uma sofreguidão, uma urgência, talvez até um desespero que vem da falta de perspectiva. As pessoas que vivem no sul são muito privilegiadas e não percebem isto. Além disso, é mais fácil ver uns 30 bois por vez que uma pessoa por aqui. Mesmo assim não são muitos os bois que vemos diante da imensidão do terreno.

Talvez por isto cidades como Parauapebas ou Canãa dos Carajás inchem tão rapidamente. A condição de vida, mesmo longe dos padrões organizadinhos do sul do Brasil é melhor nas cidades do que no abandono da vida do campo.

A paisagem da região segue sendo bonita, pelo menos quando nosso olhos se abstraem um pouco da questão profissional florestal e ficam um pouco menos exigentes. Não vemos muitas queimadas do pasto (que parece que não costuma secar por aqui) e o verde do restante das áreas florestais ainda se mistura com o verde das pastagens nas várias serras das região. Mas quase todas as áreas florestais já foram queimadas. Então o que vemos é um grande deserto da cor verde-pastagem. Pouco gado, pouca gente, poucas construções humanas. Aqui e acolá tentadores paredões rochosos, certamente nunca escalados. Fico, à distância, imaginando prováveis vias e como aquilo poderia, ou não, fazer sentido, ou trazer um novo sentido, para quem vive neste lugar.

Abandono estas abstrações em prol de um fato que está, exatamente neste momento, afetando a vida deste pedaço agropecuário do Brasil amazônico por outros motivos. O mercado, quem diria, parece que está começando a fazer aquilo que ambientalistas barulhentos pedem há muito tempo pela Amazônia: está começando a deixar de comprar gado das fazendas do sul do Pará que desmatam para fabricar pastos, pegando os pecuaristas pelo bolso. O Ibama começou a fazer a sua parte e gerou uma “lista negra”. Já o Ministério Público está cobrando exigências ambientais e fundiárias (ajustes de conduta) para reverter o alegado “caos” ambiental nessa região da Amazônia. Grandes redes de varejo, como Carrefour, Wal-Mart e Pão de Açúcar, quiça dos seus escritórios paulistanos, cancelaram as compras da região (1). Talvez comece a faltar carne para o hamburger na tal rede de lanchonetes lá de São Paulo, pelo menos a carne deste pedaço da Amazônia…

Talvez aí estejamos começando a ver uma combinação que pode funcionar, empresas mais exigentes, ONGs organizadas e setor governamental cobrando o que tem de ser feito pela Amazônia. Se tudo der certo quem sabe começaremos a assistir os brasileiros começando a tomar pé da sua maior floresta, algo que vai deixar muito estrangeiro embasbacado.

 Vermelho

No sul do Pará já não chove mais como da primeira vez em que aqui estive. O calor é forte e desagradável, gera um desgaste ao caminhar. As estradas antes barrentas hoje estão poeirentas, um pó vermelho, repleto de minério de ferro.

Paramos perto de um boteco chamado de “Água Boa”, mais adiante em meio a pastagens e capoeiras fica uma escarpa avermelhada.

Subimos por meio desta vegetação intrincada, que lembra mais algumas regiões do nordeste onde andei anos atrás. O calor do dia é desestimulante, a vegetação é difícil de ultrapassar, a visualização é precária. Passadas duas horas estamos aos pés de um maravilhoso arenito avermelhado, de uns 40 metros. Admiro o lugar, imaginando vias desportivas cheias de gente escalando.

Busco um caminho para ultrapassar este degrau. Um dos companheiros de caminhada fica para trás, assustado com o ambiente vertical. Chego ao cume com outro parceiro, um rapaz de Araguaína, Tocantins. Esta escarpa de Água Boa é o final da Serra do Buriti, um dos prolongamentos da Serra de Carajás. Dali conseguimos avistar a paisagem por aproximadamente uns 100 km. Tons de vermelho, verde e azul…

 Curiosidades sobre o Pará

SBPC. Em audiência realizada em Belém, criadores, frigoríficos e ruralistas criticam ambientalistas e MPF. Jornal da Ciência, e-mail 3797, de 03 de Julho de 2009.

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