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Archive for março \26\UTC 2008

Edson Struminski (Du Bois) 

Passados dois meses após o início do projeto de recuperação ambiental e de trilhas nos Mananciais da Serra, torna-se quase inevitável, pelo menos para mim, uma comparação entre aquilo que temos feito no Anhangava, montanha que adotei como moradia há quinze anos e o que estamos fazendo no morro do Canal, uma das trilhas do projeto.

Conheci o Anhangava em 1979 (mais ou menos na mesma época visitei pela primeira vez o morro do Canal) e cheguei a assistir dois incêndios devastadores nesta montanha, o último em 1985, durante uma missa da paróquia da região. Até 1986 era área de extração de granito, com um monte de estradas mal feitas. O município de Quatro Barras, onde fica o morro, chegou a ser conhecido como “capital da pedra”, dentro da Região Metropolitana de Curitiba, título duvidoso, que só esconde o carimbo de “área degradada”, conforme o jargão técnico. Esta conotação mudou com o tempo. Por conta da ampliação da preocupação ambiental governamental, aliada à nossa presença ali, após 1992, o lugar ganhou um status de parque estadual (2002), algo que ainda é pouco mais que um simples papel dentro da papelama geral do Estado, mas que funciona na prática pela ação dos moradores locais, de inúmeros montanhistas e de algum funcionário governamental mais abnegado. No entanto, o simples fato de dar um passeio por ali me faz recordar que o lugar segue sendo um laboratório de idéias, onde é possível experimentar concepções de manejo de áreas naturais que são ensinadas como teoria nas escolas e universidades. Já para mim ele é uma espécie de grande quintalzão. Daí a razão de eu ter um carinho especial pelo lugar.

Os pés do morro do Canal também sofreram, ainda que muito menos, com a mineração e também, eu deduzo, com um grande incêndio há uns 40 anos atrás. O morro foi incluído recentemente (2007) na ampliação do Parque Estadual do Marumbi, também outro papel. Na prática são também montanhistas e um que outro morador local que zelam pela conservação do local. Piraquara, cidade onde fica o morro, é conhecida como “capital das águas”, título real, mas de valor duvidoso para seus munícipes. Neste momento uma terceira grande represa está sendo construída no município.

Voltemos ao Anhangava. O que existe basicamente ali é ainda um esforço bastante individual dos moradores locais e de montanhistas, frente à indiferença da população tradicional, embora a gente perceba que eventualmente estejamos sensibilizando as pessoas, principalmente os visitantes. Já no morro do Canal existe um certo interesse turístico municipal. A criação de um projeto para recuperar trilhas é uma demanda local, ainda que a recuperação ambiental e os cuidados com o manejo do lugar partam mais da sensibilidade e da percepção de nós montanhistas.

No Anhangava, os moradores, alguns deles meus vizinhos, entenderam desde cedo e na pele a importância de proteger o lugar de incêndios. Neste sentido o Anhangava tem apresentado algumas soluções práticas e replicáveis, como um módulo de combate a incêndios, que construímos no terreno de um de nossos vizinhos e que consiste em uma pequena casinha onde estão armazenados objetos importantes para atender a emergências deste tipo e que suprem 4 equipes de campo de seis pessoas. Isto significa que está sempre à mão um conjunto com pá, cortadeira, enxada, abafador, foice e facão, além de óculos, luvas, apitos, uma bomba costal e pronto socorro. Existe ainda uma torre que foi também doada e que acaba sendo usada para visualizar focos de incêndios.  

Agora um módulo destes foi montado no morro do Canal e vai acabar atendendo a emergências mais imediatas na região. Como no Anhangava, vai contar ainda com uma maca para atender a algum eventual acidente na montanha.

Muitas das idéias sobre calçamento das trilhas acabaram também surgindo no Anhangava. Usar material de pedreiras abandonadas, pranchões de madeira, placas de pedra do próprio local, são práticas comuns no Anhangava. Degraus de ferro vieram do Marumbi. Soluções bem boladas para substituir as tenebrosas correntes de ferro que tinham por lá.

Em um certo sentido o Anhangava é exemplar porque muitas destas iniciativas vieram da criatividade dos moradores locais, que convivem com situações que vão muito além daquelas comuns em fins de semana. Isto faz com que o lugar tenha esta singularidade interessante. Seus atuais moradores são os principais atores no sentido da proteção do lugar, algo que ainda não existe em tal intensidade em nenhuma outra montanha do Paraná.

Por outro lado, o grande diferencial que o projeto do morro do Canal tem, pelo menos durante o tempo que estiver sendo financiado, é o fato de que existe uma equipe profissional dedicada ao trabalho de recuperação de trilhas e de proteção ambiental. São “profissionais de trilhas”, se é que podemos cunhar assim esta nova ocupação. Montanhistas dedicados a criar soluções práticas para problemas que a aparecem no dia-a-dia da montanha. Objetivos e metas de trabalho claras. Isto faz com que o tempo de resolução de problemas, informal no Anhangava, arraste-se e soluções adiem-se. Já no morro do Canal tivemos praticamente em um mês um problema grave de risco de incêndios eliminado (através do corte radical dos bambus na beira da trilha, uma espécie nativa, mas oportunista), mais uns dois meses e um calçamento robusto e praticamente incorporado ao local estará concluído. São coisas com que eu sonho há anos no Anhangava e que dependem, talvez, de algumas dezenas de mutirões ao longo de décadas para concretizarem-se. 

Idéias para o futuro 

Vejam então, montanhistas de todo o Brasil, vocês tem feito enormes esforços voluntários. Eu tenho sido voluntário. Horas de escalada e de caminhadas nas montanhas trocadas por tarefas muitas vezes enfadonhas como carregar pedras, cavar buracos, colocar pedras em buracos, etc, etc. Será que isto realmente tem sido útil? Será que está trazendo todo o resultado que queremos?

Já escrevi sobre o Programa Adote uma Montanha aqui no blog. De suas virtudes e suas limitações. Entendo que um programa deste envolve, como resultados, também o despertar da cidadania. Contratar uma equipe profissional é bom, entretanto priva as pessoas de participar das soluções dos problemas em comum.

Por outro lado, me parece que um trabalho empresarial neste sentido não só é desejável como também é cada vez mais necessário. O voluntarismo tem restrições. Uma delas é de pessoal especializado e devidamente motivado para executar tarefas, algo que em uma estrutura empresarial é obrigatório.

Imagino e agora compartilho com vocês leitores, que um modelo híbrido vai acabar aparecendo. Clubes, federações, etc, montando projetos, correndo atrás de recursos, contratando pessoas especializadas e ao mesmo tempo, incluindo voluntários em algumas atividades estratégicas, onde a quantidade de pessoas possa fazer a diferença. O que vocês leitores acham disto?    

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Edson Struminski (Du Bois) 

Isto não é de hoje. As pessoas, muitas pessoas, sejam leigos, iniciantes na escalada, ou mesmo aqueles que parecem “prontos” para dar um passo adiante no mundo da montanha (geralmente querem repetir uma escalada que eu fiz não sei aonde, ou alguma coisa muito difícil), começam a me fazer perguntas sobre aspectos do montanhismo, que geram outras perguntas e assim por diante, como uma bola de neve. Geralmente, à medida que esta curiosidade natural avança, as respostas vão ficando cada vez mais vagas e abstratas, cada vez menos dependentes de um exercício racional, de lógica clássica, daquela que herdamos dos gregos antigos, que aprendemos na escola e que supostamente estaria aí para esclarecer tudo e todos  e nos fornecer a verdade.

Isto sugere que o montanhismo tenha seus mistérios, ou que eu ou outros veteranos guardemos um conhecimento superior ou intangível, o que eu não concordo em absoluto, pois, na verdade, o que eu percebo, é que existem certos conhecimentos que não necessariamente poderão ser compreendidos apenas através de jogos de perguntas e respostas objetivas, croquis de vias e informações e sim somente com um maior envolvimento e aprofundamento no mundo da montanha. Aliás receber um monte de respostas prontas nem sempre significa que estaremos mais esclarecidos, apenas mais informados, mesmo porque não ter todas as respostas prontas não é necessariamente ruim para a evolução de uma pessoa, principalmente para aqueles que querem algo a mais.

Tudo isto não significa que um montanhista, como eu ou como vários outros com alguns anos de vivência no assunto, seja necessariamente impermeável à uma investigação comum e genérica sobre o assunto, apenas significa que existem espaços dentro desta vivência humana chamada montanhismo, que simplesmente ficarão obscuros aos não iniciados. Não tenho aqui a pretensão de esclarecer estes, supostos mistérios, até porque tudo o que eu escrevi nos três parágrafos anteriores anularia qualquer esforço meu devido à abstração do tema.

Mas eu gostaria de deixar para vocês a possibilidade de pensarem sobre o assunto, vislumbrarem as possibilidades intrínsecas a um maior envolvimento e aprofundamento com o montanhismo e refletirem sobre o assunto, até mesmo para encontrarem respostas para perguntas altamente filosóficas e inevitáveis como “o que estou fazendo aqui?” “Isto que estou fazendo me levará a um maior autoconhecimento, será que vale a pena?” 

O mundo tridimensional 

Começarei com a primeira constatação que eu vejo no universo da montanha e que afeta a totalidade dos praticantes, principalmente da escalada, que é a da tridimensionalidade. Parece estranho e banal falar isto, afinal vivemos em um mundo tridimensional, certo?

 Mas se as pessoas são completamente acostumadas a conviver com duas dimensões planas desde o início da vida, que são o comprimento e a largura, será que podemos dizer o mesmo da altura? O que uma mãe zelosa diz ao ver um filho subindo em uma árvore ou andando em cima de um muro? No mundo das pessoas comuns a dimensão vertical é, assim, associada primeiramente ao risco de um acidente e consequentemente gera medo, por conta do efeito da gravidade que potencializa os danos de uma queda. Isto gera uma curiosa contradição, as pessoas se tornam muitas vezes descuidadas com o plano e a maioria dos acidentes em que as pessoas são envolvidas ocorrem nas duas dimensões planas (como, por exemplo, acidentes de carro), que é onde a maioria vive.

 O fato é que as pessoas não se deslocam na vertical. Máquinas como elevadores ou escadas rolantes fazem com que planos carreguem elas para cima e para baixo. Deslocar-se na vertical por conta própria (escadas) associa este esforço ao desconforto físico. As pessoas simplesmente não gostam da dimensão vertical.

Pessoas que exploram a dimensão vertical como alguns trabalhadores de altura e esportistas da verticalidade, vivem, então em um mundo diferente, o mundo do risco, do medo, do desconforto. Como querer que sentimentos tão desagradáveis se tornem palatáveis para a maioria das pessoas? Com isto, vocês, montanhistas, sempre serão vistos como seres estranhos para o resto da humanidade. Vivem em mundo à parte, seu prazer inverte à escala de valores da humanidade. Acostumem-se a isto. 

O mundo transcedental  

Um segundo tema que quero apresentar aqui é derivado do primeiro. Se as pessoas comuns não querem risco, medo, ou desconforto no seu dia-a-dia, o que dizer se aliado a isto estiver ainda a possibilidade de praticar uma atividade que conscientemente possa acabar com a vida, por assim dizer, prematuramente, apenas por um, digamos, prazer momentâneo?As pessoas comuns, ou até mesmo aqueles que ainda não atingiram um estágio de maturidade dentro do montanhismo acabam enxergando esta possibilidade com muitas reservas. Podem chocar-se com este fato quando ele inadvertidamente se apresenta em suas vidas, por mais que o fim de uma vida seja seu único fato previsível. Mas afinal do que estamos falando aqui? Um escalador em solo (sem corda) ou uma cordada em uma parede altamente arriscada fatalmente estão em uma atividade perigosa, cuja única alternativa será fazer tudo direito, contar com a sorte de que os elementos naturais sejam favoráveis e, digamos, sobreviver. Como se sobreviver já não fosse suficientemente difícil para a maioria dos mortais comuns. Mas, eu digo, eles não estão praticando um prazer momentâneo ou superficial.

Aqui chegamos ao nível de abstração de que eu falei no início. Posso contar de mim, das minhas experiências, da minha perspectiva sobre este assunto. Posso assistir a uma palestra bacana de algum figurão do montanhismo sobre estes assuntos. Posso ouvir outras pessoas. Mas até que ponto estas experiências individuais abstratas farão sentido para a maioria das pessoas? Até que ponto estas experiências pessoais farão sentido no mundo do montanhismo? Serão meras necessidades de afagos de ego ou o individualismo extremo de um montanhista segue sendo uma opção filosófica aceitável dentro de um mundo massificado, onde o que cada vez mais conta é a “visão da sociedade”, a opção sociológica aceitável?

Lembro-me do olhar aparentemente vago mas cheio de significados da amiga Roberta Nunes quando voltou da Groenlândia. Ela havia visto algo, belo ou terrível, tocado o infinito, feito uma transição. Atingido uma perfeição. Atingido um ponto de não retorno. O mesmo ponto que eu havia atingido décadas atrás, durante uma desastrada abertura de uma via em solitário, no Marumbi, da qual posso dizer apenas que sobrevivi. Só Deus é perfeito, aprendemos. Mas se somos à imagem e semelhança de Deus não podemos também ser perfeitos, mesmo que por instantes, por aquele instante solando no Pico Paraná, quando a via normal desapareceu e só sobrou como opção aquele teto com uma agarra molhada? Ser um pouco Deus e depois rir de si mesmo. Ser um pouco perfeito e depois passar fome na montanha, sentir a limitação do corpo humano. Nestas horas o montanhismo deixa de ser apenas uma mera coleção de vias. Existe algo mais.

Quando Roberta desapareceu, pouco tempo depois, tenho certeza de que foi tranquila. Tinha visto a perfeição, o infinito, tudo. Aquilo que eu via no olhar profundo dela fazia sentido para mim.Tudo isto parece a vocês muito vago? Tudo isto é muito abstrato?

Então eu digo, a riqueza de uma experiência humana pode estar nesta abstração e não no seu mundo material, no seu currículo de montanhista. Toda uma riqueza de uma vida inteira em um olhar abstrato, mas cheio de significados.

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