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Archive for abril \26\UTC 2011

Por Edson Struminski (Du Bois)

Prudentópolis, no centro sul do Estado do Paraná, tem muitas originalidades: seus imigrantes ucranianos com sua origem eslava ainda presente no sotaque pronunciado e em suas belas crianças loiras. A religiosidade desta gente manifestada, em plena páscoa cristã, no colorido das roupas e nas tradições mantidas no Brasil, como as pessankas e as toalhas com delicados bordados, suas manifestações culturais (1,2 e 3), que eu já tive oportunidade de conhecer em outras ocasiões. Há algo diferente também nos faxinais, um sistema de uso da terra onde os animais de criação ficam soltos em áreas florestais comunitárias e que fazem parte da tradição da paisagem rural desta região.

Para mim é sobretudo curioso andar por este pedaço do Paraná, um pequeno pedaço do Brasil, onde meus nomes de família (Doniak, Struminski), com mais consoantes que vogais, não soam estranho para as pessoas.

Estamos em plena sexta-feira santa, as igrejas estão cheias, mas o comércio está fechado, então não é possível encontrar informações com facilidade. Não existem muitas placas. Mas isto não chega a ser um problema. Consigo alguma informação com um grupo de motoqueiros em um posto de gasolina e depois entro na rota das cachoeiras, uma estrada com alguns trechos asfaltados e, na maior parte, chão batido, mas a estrada está boa.

Passo com Miriam, minha companheira nesta viagem, por um pouco de tudo isto: faxinais, crianças loiras, rios revoltos, quando vamos a caminho de mais uma das originalidades notáveis deste lugar, as inúmeras cachoeiras, saltos, quedas d’água e corredeiras dos rios da região, que segundo a propaganda oficial da cidade, são dezenas. Consigo identificar a entrada de um faxinal (Barra Bonita), pelos mata-burros, trilhos assentados no chão que evitam a saída dos animais para as áreas agrícolas. Neste trecho, a prefeitura construiu um pequeno espaço para desfrute no rio São João (Recanto do Cassiano), um local para fazer um lanche. Um antigo tronco de pinheiro está sendo lentamente desmanchado pela água do rio. Virou uma escultura, um tipo de natureza morta, com os nós de pinho bem saltados no que restou da madeira. Alguns dos pesados nós, já soltos no rio, começam uma lenta viagem rio abaixo. Capturo um deles para levar para minha casa no Anhangava.

A 23 quilômetros do centro de Prudentópolis, encontramos uma chácara onde fica a entrada do salto São João. Os moradores, que mantém um pequeno e agradável restaurante e estão construindo uma pousada, ajudam a reforçar o ar bucólico desta área rural. Curiosamente a simpatia das pessoas e a tranquilidade das plantações de feijão contrastam com a força e energia do salto do rio São João, que despenca mais de 80 metros de um degrau de basalto e no qual chegamos após uma pequena trilha.

Neste ponto, ali mesmo no salto, é como se estivéssemos assistindo a própria formação do relevo do planeta, já que o salto está “regredindo”, que é como os geólogos definem este movimento de recuo do rio em relação a esta imensa capa de basalto. Assim, o salto recua e o que vemos à frente dele é um cânion de tirar o fôlego, uma grande bacia circular com paredes verticais de basalto negro, um nível de pedimentos logo abaixo, formado pelas pedras desprendidas das paredes e diversas formas de vegetação que aos poucos vão colonizando as rochas, a partir do leito revolto do rio.

Tamanha é a beleza do contraste entre o verde da vegetação e a pedra escura que vem a mim aquela sensação de visualizar um tipo de beleza primitiva, que já não é de se esperar em uma região intensamente colonizada como o sul do Paraná. Mas está ali e é real e é, talvez, a maior originalidade desta terra…

Acabo não resistindo e armo um rapel para tentar a sorte nas agarras deste basalto, para ver o cânion por dentro. Há quantos anos não escalo no basalto, penso, então chegou a hora de voltar.

Existem muitas pedras soltas e um limo característico na rocha. A corda não chega até o fim do degrau, então verifico as possibilidades e escolho uma linha para subir a partir de um degrau existente na rocha. Passeio pela pedra, fendas, fissuras, agarras, tudo um pouco instável na verticalidade. Tudo sugerindo que ninguém passou por ali antes, naquelas agarras, naquelas fissuras. Uma agarra quebra, pendulo e vou parar no meio da cachoeira! Este banho me tranqüiliza um pouco, alivia o calor do momento.

Na verdade é tudo um pouco estranho, estar sozinho pendurado nesta pedra, não ter contato visual com ninguém, ouvir o rugido da cachoeira o tempo todo, um rugido tão forte que sequer é possível escutar o ruído das pedras que caem.

Acabo esta escalada um pouco exausto, feliz em rever a Miriam que pacientemente me esperava, mas sobretudo feliz de ter passado por ali, de ter me tornado um pouco mais experiente e certo de que valeu a pena. Valerá a pena abrir vias nos basaltos desta região, como alguns poucos meninos estão fazendo (4). Vale a pena a paisagem espetacular, o sofrimento, o medo, a aventura tão original…

 Veja mais:

 (1) http://www.pessanka.com.br/

(2) http://pessanka.wordpress.com/

(3) http://www.pessoal.utfpr.edu.br/zasycki/

(4) http://tradfriends.com/2011/04/26/a-face-sudoeste-do-pico-agudo/

 

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Por Edson Struminski (Du Bois)

Já tive oportunidade de fazer parte de várias listas de discussão, acadêmicas, de montanhismo, etc, que circulam na internet. De algum modo, me parece, as pessoas tem de estar discutindo o tempo todo, todos os assuntos, como em um jogo de ping pong,  nivelar as conversas, talvez,,,.

Talvez pela sua falta de compromisso com um projeto específico ou com algo a ser executado que envolva prazos, verbas, etc, as mais virulentas me parecem ser as listas de discussão de montanhismo, muito embora o exemplo que citarei a seguir tenha a ver com a de um grupo do conselho gestor de um parque estadual do qual participo (mas que na verdade engloba algumas montanhas aqui da Serra do Mar e envolve instituições e pessoas ligadas ao montanhismo).

Dias atrás um rapaz ligado a um clube de montanhismo fez uma observação infeliz sobre um assunto banal relativo à manutenção de um dos caminhos do parque e foi muito criticado, massacrado até, exageradamente. Porém, mesmo reconhecendo o erro as coisas não pararam por aí, pois outra pessoa, também ligada ao mesmo clube de montanhismo reacendeu, com outro comentário maniqueísta, o mesmo tipo de discussão que descambou em nova saraivada de comentários onde algumas pessoas depreciavam as outras. Não chegou a haver uma conclusão sobre o assunto, não houve ganhadores ou perdedores, não houve moderação que levasse a um compromisso na melhoria do diálogo.

Curiosamente neste momento estava estudando a Teoria dos Jogos e encontrei algo ali, na matemática dos jogos, que pode ajudar a explicar o comportamento daquelas pessoas. Vou expor isto aqui, pedindo, de antemão, desculpas aos matemáticos pelas eventuais falhas de raciocínio que poderei cometer.

A Teoria dos Jogos

A Teoria dos Jogos fala sobre escolhas racionais que os jogadores são obrigados a fazer para otimizar seus ganhos, ou, pelo menos, para minimizar seus prejuízos. Pastore Mello (1) comenta que ela começou a ser desenvolvida nos anos 50 do século passado por alguns matemáticos, com destaque para John Nash, que muitos de vocês devem conhecer do filme de 2001, “Uma mente brilhante”, de Ron Howard, disponível em DVD. Nash era um matemático talentoso, mas tinha um grave problema mental que atrapalhou sua carreira acadêmica (basicamente o tema explorado, até em excesso, pelo filme), mas chegou a ganhar um premio Nobel, exatamente pela contribuição científica da Teoria dos Jogos, que, descobriu-se, ao longo do tempo, tinha aplicações na biologia, na economia, no Big Brother, em relações interpessoais, ou mesmo na diplomacia, que eu considero ser o caso das listas de discussão, ou seja, em ambientes onde existe uma escolha entre competir ou cooperar.

A princípio, uma lista de discussão é, sobretudo, um jogo diplomático, no qual os jogadores tem oportunidade de fazer escolhas (jogadas) racionais, cujos resultados podem ser avaliados ao longo do tempo.  Nash concluiu que em jogos aleatórios, nos quais um jogador não sabe em que direção o outro jogador jogará, existia uma tendência do jogador agir individualmente e egoisticamente, buscando maximizar seu ganho, mesmo sabendo que poderia causar um grande prejuízo ao adversário, mas sem saber que poderia ser igualmente prejudicado (e vice-versa). Isto acontecia em detrimento de uma postura mais cooperativa, onde os jogadores poderiam decidir por ganhos menores (ou prejuízos menores), mas igualmente distribuídos. Ele chamou isto do “dilema do prisioneiro”, no qual alguém ou todos, sempre saem perdendo muito pela falta de cooperação. Assim, a crueldade deste raciocínio baseado apenas em interesses individuais consiste em que ele pode não conduzir à melhor solução para ninguém.

Basicamente foi o que vi na breve rodada da lista de discussão do conselho do parque. Apesar dos textos postados na lista de discussão refletirem posturas racionais, levaram a um resultado irracional de pessoas não cooperando! Algo que dever ser conhecido de muitos de vocês leitores.

Imaginemos agora uma situação (também comum em listas de discussão) de não cooperação inicial, mas prolongada em mais jogadas. Isto poderá levar a retaliações dos demais jogadores e a uma situação de desconfiança que se prolongaria por muito tempo. Chama-se esta situação de “dilema do prisioneiro iterado”, pois há uma continuação com inúmeras jogadas em que um ou mais jogadores, mesmo que mudassem para uma postura mais cooperativa, ainda sofreriam por conta da desconfiança dos demais, impossibilitando, por exemplo, a implantação de projetos, ou levando a rejeição de propostas em função desta desconfiança, algo comum nas discussões do conselho do parque.  Apesar de pouco favorável, mesmo nesta situação, Nash chegou a demonstrar um ponto onde escolhas racionais visando a cooperação poderiam conduzir a um ponto de equilíbrio, onde todos sairiam ganhando alguma coisa. O chamado “equilíbrio de Nash”.

Olho por olho

Para os matemáticos, uma estratégia que pode levar a este equilíbrio é a do “olho por olho” (“tit for tat“), que foi desenvolvida e apresentada em um torneio por Anatol Rapoport e que foi relatada no livro “A evolução da cooperação: o dilema do prisioneiro e a teoria de jogos” (1984), de Robert Axelrod. A estratégia consiste simplesmente em cooperar na primeira fase do jogo e depois disso escolher o que o oponente escolheu na rodada anterior. Se em algum momento o oponente decide não cooperar ou agredir, você também não coopera ou revida a agressão e assim por diante. A vantagem de se adotar uma estratégia assim é que o concorrente é que aparece como individualista e agressor inicialmente e não você.

Axelrod descobriu que quando se repetem estas rodadas durante um longo período de tempo com muitos jogadores, cada um com distintas estratégias, as estratégias “egoístas” tendiam a ser piores a longo prazo, enquanto que as estratégias “altruístas” eram melhores, (se for ser considerado unicamente o interesse próprio). Este parece ser o caso típico das listas de discussão.

Segundo Axelrod, quem praticava o olho por olho era melhor por alguns motivos. O primeiro era ser “amável”, isto é, começar cooperando e apenas parar de cooperar como resposta à não cooperação (ou agressão, fuga, etc) de outro jogador e assim nunca era o responsável por iniciar um ciclo de não cooperações mútuas. O segundo é que o olho por olho pode ser provocado, ao responder sempre o que faz o outro jogador. Castiga imediatamente o outro jogador se este não coopera ou agride, mas igualmente responde adequadamente se coopera de novo. Este comportamento claro e direto significa que o outro jogador pode entender facilmente a lógica por trás das ações de olho por olho, podendo portanto encontrar uma forma de trabalhar com ele produtivamente.

Desta forma,  para Axelrod, a estratégia vencedora não pode ser otimista cega, ingênua, exageradamente prestimosa ou sempre cooperativa. Uma estratégia não retaliadora “colabora sempre”, mas o matemático considerou como uma escolha má, pois estratégias oportunistas ou maldosas poderão explorar as fraquezas do colaboracionista.

Outra qualidade de uma estratégia vencedora deste tipo é ser capaz de perdoar, uma espécie de olho por olho com perdão, ainda que parcial. Embora retalie, perdoa ou torna a cooperar logo que o opositor para de agredir. Isto evita grandes sequências de vinganças em círculo vicioso, como a que eu vi na lista de discussão do parque.

A última qualidade é não ser invejosa, ou seja, não tentar fazer mais pontos (aprovar mais projetos, aparecer mais, se sobrepor mais, ganhar mais) que os opositores (isto é, uma estratégia “amável” nunca pode fazer mais pontos que o opositor). Esta é uma dificuldade grande, por exemplo, no conselho deste parque, pois algumas instituições trabalham muitas vezes contra o parque ou apenas visando benefício próprio, logo tem derrotas maiores também, mas por outro lado, reduzem a capacidade de cooperação das demais pela disseminação da desconfiança.

Axelrod atingiu a conclusão talvez utópica de que os indivíduos egoístas tenderão a ser cooperativos para poderem sobreviver “no jogo”, seja ele qual for. O fato é que uma das mais importantes conclusões matemáticas do estudo de Axelrod quanto a este problema é que os indivíduos cooperativos acabam com as melhores classificações. Em grupos, o altruismo, neste caso, pode ser um fator importante. Se o grupo for pequeno o comportamento positivo é o mais provável para encorajar os indivíduos no grupo para que continuem a cooperar.

Neste caso bastaria ser racional, justo e cooperativo e os problemas das listas de discussão, se acabariam, certo? Penso que não, pois estas características nem sempre estão presentes, ou mesmo encontramos racionalidades distintas, que não necessariamente são uniformes ou previsíveis em suas reações. Imagino que matematicamente se torna até mais simples prever o comportamento de racionalidades muito distintas interagindo junto, porém, no mundo real, o maniqueísmo, fundamentalismo religioso, interesses econômicos, podem fazer com que as pessoas tenham comportamentos pouco previsíveis, elas podem agir com mais de uma racionalidade.

Por outro lado, os matemáticos tem como mostrar em estatísticas simples que jogadores sem experiência ou mesmo com estas características que citei acima são mais propensos a ter resultados  invulgarmente muito bons ou muito ruins. Porém, algo que aconteceu comigo é que quando me tornei mais experiente neste tipo de jogo, aprendi a estimar a probabilidade de não cooperação (maniqueísmo, fundamentalismo, etc) dos outros, assim meu próprio comportamento passou a ser influenciado pela minha experiência desse comportamento externo. Passei a perceber quando uma discussão era apenas maniqueísta, moralista, irracional ou sem sentido e passei a me poupar mais, passei inclusive a planejar a hora de sair do jogo, fossem listas, conselhos ou outros ambientes de disputa. Acho hoje mais facilmente meu “equilíbrio de Nash”.

Leia mais em:

(1)  José Luiz Pastore Mello. Raciocínio, o Dilema do Prisioneiro: um exercício diplomático para o Big Brother. Discutindo Ciência. Ano 1, número 6

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