Feeds:
Posts
Comentários

Archive for maio \30\UTC 2009

Cartas amazônicas 2

Por Edson Struminski (Du Bois)

Fazia um tempo considerável que eu não enfrentava uma longa viagem de trem, um meio de transporte que tornou-se fora de moda e incomum, assim foi um pouco surpreendente constatar que meu acesso até o sudeste do Pará, a partir de São Luis no Maranhão, seria feito através de uma viagem que consumiria 16 horas em um confiável trem de passageiros da Estrada de Ferro Carajás.

A partir de fins de abril esta região deveria estar já atravessando um período de estiagem, mas não foi o que aconteceu, assim a paisagem é um sem fim de áreas inundadas, com estradas interrompidas (a própria ferrovia seria interrompida dias depois, ainda que em um nível bem menor que as estradas de rodagem), casas embaixo d´água e pessoas circulando em canoas entre o interior do Maranhão e a região de Carajás no Pará.

É com chuva que chegamos em Parauapebas, fincada na província mineral de Carajás, tida como uma das maiores do mundo. A lenda (moderna) diz que algumas décadas atrás um grupo de engenheiros voava de helicóptero sobre algumas montanhas, quando a bússola do aparelho ficou maluca. Estavam em cima de enormes jazidas de ferro. Outra história conta que a vegetação diferente no topo da Serra dos Carajás (canga ferrífera) é que indicou o surgimento de algo a mais no subsolo.

O fato é que anos depois descobriram-se outros minerais: níquel, cobre, ou mesmo o ouro, a persistente miragem da Amazônia que atraiu montes de garimpeiros. Esta fase mais pioneira passou, mas mesmo assim Pebas hoje, com 21 anos, continua sofrendo uma invasão populacional, tendo hoje mais de 160 mil habitantes. Com isto é muito difícil encontrar um paraense pelas ruas. Uma típica cidade de imigrantes, onde o sotaque nordestino é o mais comum, mas, como seria de se esperar, existe muita gente do sudeste e mesmo do sul do país. O nosso grupo recém chegado apenas aumenta esta profusão de sotaques. Na verdade Pebas é uma cidade cosmopolita. Pessoas de diversos países passam por aqui e o espanhol ou o inglês não são difíceis de se ouvir.

A mineração em grande escala com todas suas exigências, rigores e gigantismos é o motor do crescimento deste lugar. Se uma nova cidade, uma nova ferrovia ou mesmo uma nova fábrica de alfinetes é montada na China, os chineses compram ferro. Com isto Pebas cresce, quase que na mesma escala chinesa. Mas ela cresce desordenadamente e é obrigada a planejar seu futuro ao mesmo tempo em que ele acontece.

É uma cidade jovem, com um movimento, uma agitação um pouco violenta e perturbadora ou mesmo uma riqueza, bem pouco típicas de uma cidade de interior, algo que eu sinceramente não esperava encontrar na Amazônia. Talvez seja a cidade do Brasil onde eu mais vi daquelas camionetonas 4 x 4 na rua. Na verdade existem muitas Amazônias e como já ocorreu no Brasil em regiões que começam a apresentar uma dinâmica econômica grande, já existe até um movimento para a separação do Pará e criação de um novo estado, o Carajás, algo que provavelmente veremos nos telejornais daqui a algum tempo.

Outra coisa surpreendente e que foge ao lugar comum que sabemos sobre a Amazônia é a paisagem. Nada daquela planície a perder de vista. Faço um vôo de helicóptero e percebo um relevo em geral montanhoso até onde a vista alcança. Pela manhã não é incomum uma neblina típica de regiões montanhosas e um certo friozinho. Viajando pelas estradas, em alguns momentos tenho a impressão de estar andando em paisagens conhecidas como as do interior de Minas, Petrópolis ou do montanhoso litoral do Paraná. É verdade que as montanhas aqui não são altas mas existem aqui e ali escarpas de arenito, ou coisa semelhante, que dariam belos setores esportivos, afloramentos de granito com paredes de seus 50 metrinhos e boulderes espalhados por vários lugares, além de pequenas grutas e ambientes de altitude (canga ferrífera).

O rio Parauapebas se encaixa em meio a estas montanhas, formando belas corredeiras ou inundando áreas planas em momentos de chuvaradas.

O que infelizmente não nos surpreende é a forma como a Floresta Amazônica vem sendo tratada por aqui. Rodamos cerca de 100 km por lugares cujos nomes estranhos acabam se tornando familiares para nós, como Canaã dos Carajás, Mozartinópolis (nada a ver com o compositor clássico), Serra Sul, Racha Placa ou Cedere (um assentamento rural do tempo dos militares) e o que vemos basicamente são pastagens e áreas florestais degradadas. O gado já avança para cima dos morros. E apesar de algumas boas rodovias asfaltadas, o mais comum mesmo são estradões com enormes atoleiros e pontes que parecem improváveis de se passar. Daí o porque de tantas camionetes 4 x 4, elas mesmas de vez em quando entalam no lamaçal, que seriam um paraíso para os bobalhões urbanos sulistas que gostam de carros traçados e atoleiros, mas um transtorno para quem está no meio de um trabalho, ou para quem vive aqui, como constatamos ao longo dos dias.

Nestes lugares, a imagem da Amazônia devastada corresponde exatamente ao que vemos na televisão, o tal “arco do desmatamento”: pastos, árvores queimadas, erosões já aparecendo, com a honrosa exceção da Floresta Nacional (FLONA) dos Carajás, uma área federal que ainda mantém uma vistosa floresta em meio a morros empinados. Fora dela sobram capoeiras, algumas palmeiras como o Buriti ou o Babaçu e árvores enormes como a Castanheira do Pará nas fazendas, testemunhos isolados da devastação. Além disso, volta e meia tropeça-se em algum garimpo perdido. A miragem amazônica do ouro cobrando também uma cota de devastação.

Além do voo, havíamos feito no primeiro dia em Pebas uma visita até um zoo botânico que existe na FLONA dos Carajás, em meio às montanhas, o que serviu como ambientação para quem iria andar por aqui. Além de várias árvores identificadas, encontramos também animais da região. Alguns inclusive soltos pelas alamedas do zoo, como o veado ou o a anta, nenhum deles se importando muito com a presença dos visitantes. O zoo tem também um considerável número de espécies de vistosos psitacídeos (papagaios, araras), como aliás, a maioria dos zoos tem, só que aqui, no caso, os animais são os mesmos que encontramos na vizinhança. De qualquer forma, especial atenção acabamos dando para as cobras, pois elas são muito maiores do que as que acostumamos encontrar na Floresta Atlântica. Porém, avaliando o estado de devastação que a região de Pebas já alcançou não esperava encontrar nenhum animal em nossas andanças pelo campo.

Mas não foi assim. Eis que andando em estradas rurais e trilhas, do nada somos surpreendidos aqui e acolá por corujas, gaviões enormes, papagaios, pela bela arará-canindé ou pela mais espetacular ainda arara-azul, que por si só paga a passagem até a Amazônia. Mas ir até a Amazônia e não trombar com a lendária jibóia é como ir a Roma e não ver o Papa. Nada assustador (ela não é venenosa), mas realmente é um bichão, com vários metros de comprimento. Já a surucucu pico-de-jaca é muito venenosa e ágil. Com esta não deu para ficar de ora veja.

Assim, os animais, alguns deles, se adaptam a esta nova natureza criada pelos humanos. Em parte isto é tranqüilizador, em parte apenas sugere uma condição estranha de convívio do homem com a natureza do lugar. Os animais que suportam o convívio com o ser humano sobrevivem. E os demais? Isto sugere uma repetição de cenas que já se viu no restante do Brasil.

Resta, é claro, aquela Amazônia da grande floresta. O que será que se pode ver nela?

Read Full Post »

Cartas amazônicas 1

Por Edson Struminski (Du Bois)

Parece um pouco estranho falar sobre a região amazônica com um texto que se inicia na cidade de São Luis, capital do Maranhão, já que o lugar comum, coloca esta cidade e este estado no Nordeste, região brasileira que lembra muito pouco chuvas e florestas densas, mas esta é uma das surpresas a respeito da Amazônia, pois o fato é que ela é uma região tão vasta que extrapola a própria delimitação geográfica, aquela que aprendemos na escola.

Assim, mais de um terço do Maranhão tem (ou tinha) áreas com florestas como as da Amazônia. Então é em meio a nuvens fechadas e quase nenhum sol que eu aterriso nesta cidade.

Estou aqui fazendo parte de uma equipe grande de especialistas em temas ambientais, o que por si só conta muito sobre o que nos juntou em São Luis e mais a frente nos unirá em outro ponto da Amazônia. São pessoas oriundas de várias partes do Brasil. Alguns são de cidades bem conhecidas, como Curitiba, Brasília, Belém, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Goiania, Belo Horizonte, mas outros vem também de cidades das quais alguns de vocês talvez estejam ouvindo falar pela primeira vez, como Viçosa em Minas Gerais, Lusiania (Goiás), Bebedouro (São Paulo) ou Araguaía no Tocantins.

São especialistas em fauna, flora, geologia, geomorfologia, sociologia, mateiros, técnicos em segurança, enfim, aquele leque de profissões que qualquer estudo sério sobre a Floresta Amazônica demanda hoje em dia.

 Mas antes vou falar um pouco sobre São Luis. Existe uma singularidade muito sutil, que é a que diz respeito à sua fundação. Luis era o nome de um rei francês e ele deu seu nome a uma cidade que inaugurava um pretenso projeto de uma França equatorial a muitos quilômetros da civilizada Europa nos anos 1600. Mas como aconteceu com tantos outros colonizadores pretensiosos (holandeses, ingleses, espanhóis), que tentaram a sorte no Brasil, o que acabou realmente se consolidando em São Luis foi mesmo a paciência, a perseverança e até mesmo, como diria Sergio Buarque de Holanda, um certo pragmatismo e desleixo portugueses, frente a uma natureza tão estranha para os europeus.

Portanto é em São Luis, uma estranha ambigüidade de Amazônia nordestina, de uma França portuguesa que começo esta viagem sobre a Amazônia. É a partir desta cidade que começarei a descobrir algo sobre as diferenças e sobre o que temos em comum com pedaços do Brasil que dificilmente vemos aparecer nos jornais e programas de TV.

Começo pelas pessoas, pelos ludovinenses, que possuem alguns linguajares próprios, ou mesmo inconfundíveis traços indígenas no rosto. Nas pessoas já é possível perceber uma certa proximidade com a Amazônia, com o norte do país. Afora isto, não há e nem poderia haver maiores diferenças entre os maranhenses e todo este grupo que vem dos mais diferentes lugares do Brasil. Em São Luis as pessoas trabalham, frequentam escolas, fazem compras em supermercados de coisas mais ou menos parecidas com as coisas compradas em outras cidades Brasil afora.

Além disso, como seria de se imaginar, São Luis, como capital de um estado, tem seu lado “Brasília”, moderno, bem definido. Como toda cidade de um certo porte no Brasil, o que mais vemos por todos os lados são grandes avenidas, prédios luxuosos prontos ou em construção, automóveis, correrias urbanas. Não há muitos mistérios nesta parte da cidade. Poucas calçadas, muitos carros. Carros amontoados em calçadas. Andando neste setor moderno, é preciso uma certa sutileza, como uma cobra atropelada na rua, ou pelo contrário, um evento amazônico, como um chuva copiosa, rápida e espantosa, destas de inundar cidades, o que realmente aconteceu em alguns dos dias em que aqui estive, para que eu perceba que estou na Amazônia.

As chuvas reviram a cidade pelo avesso, espalham o lixo abandonado pelas ruas, destroem estruturas antigas e avenidas modernas. Principalmente põem a nu a falta de planejamento e de previdência humanas. Isto, não representa nenhum desmerecimento particular para esta cidade, apenas, de certa forma, mostra o que São Luis tem em comum com a grande maioria das cidades brasileiras, o desleixo a que se refere Buarque de Holanda.

Se a modernidade, para o bem ou para o mal, hoje nivela São Luis com qualquer outra grande cidade brasileira, sua raiz, como seria de se esperar, fica por conta da parte mais antiga da cidade, que deve ter uns duzentos anos. Restam poucos vestígios dos tempos coloniais, até porque os portugueses não se esmeraram em construir nada muito duradouro nos tempos em que eram os donos do pedaço, que dirá os franceses, que por aqui parece que só deixaram o nome (consta que um dos mais badalados destinos turísticos dos franceses nos últimos anos tem sido esta cidade brasileira, particularmente em 2009 que é o ano conjunto Brasil-França).

A São Luis antiga é quase toda do tempo do Império, com toda aquela pompa típica deste período: pedra, madeiras maciças, ferro. Materiais da época. Ruas estreitas com calçamento irregular subindo ladeiras. A particularidade da cidade corre por conta de um detalhe que faz a sua fama: as casas e construções são quase todas decoradas externamente com azulejos. Alguns realmente bonitos, o que gera um conjunto harmonioso e atraente. É bastante evidente que os azulejos não são apenas traços superficiais da cidade. Eles dão o tom e a alma a este lugar. Estão nos sinaleiros, nos prédios modernos, no artesanato. A cidade tem carinho por seus azulejos e isto é realmente importante para o modo de vida das pessoas. Entender que as pessoas demonstram esta forma de carinho nas suas moradas é algo que escapa ao mero afã turístico por artesanatos e outras quinquiliarias.

Parte da cidade antiga é do tempo do início da república. É muito visível a mudança psicológica que os (na época) novos donos do poder quiseram imprimir à população, através da construção de um centro cívico com a arquitetura que estava na moda na época, o neoclássico. Tudo muito bonito e artificialmente harmonioso. Neste ponto São Luis se assemelha novamente com qualquer outra cidade brasileira que passou pelo mesmo processo de transição império-república, ou seja, a maioria das cidades brasileiras mais antigas.

Foi um período de rejeição de tudo o que era lembrança da colônia, do império, ou seja, de tudo o que os republicanos viam como atraso do país: empirismo urbano, escravidão, poder público fraco e atrelado à igreja, falta de ciência e de engenharia. Aliás, foi no período republicano que São Luis virou capital de estado, status que antes pertencia à outra cidade vizinha. Alcântara.

Alcântara

Com uma hora de barco (catamarã, um barco leve que usa motor e velas) chega-se a Alcântara, antiga capital do Maranhão. A cidade tem um impressionante conjunto arquitetônico e respira história, nos barcos, nas ruas de pedras irregulares, nas muitas construções amontoadas, muitas em ruínas, outras tantas ainda em uso pela população, quase toda descendente de escravos que se revoltou após o fim da escravidão. Episódio este, aliás, que gerou a decadência desta cidade pois os senhores de escravos simplesmente deram no pé e fundaram uma nova capital em São Luis.

Um pequeno museu na cidade procura manter viva as informações que dão sentido a esta história toda. Existem pequenas preciosidades que integram a história na paisagem e acaba sendo possível entender o mundo que as pessoas que lá vivem herdaram.

Alcântara convive também com o supra sumo da modernidade. No município está instalada uma base de lançamento de foguetes da aeronáutica. Esta base ocupa nada menos que metade da área rural do município e isto gera uma porção de conflitos por uso do solo, algo que parece estar longe de ser resolvido.

Por outro lado é visível que a região ainda tem o ambiente natural bem conservado, pelo menos quanto a aquilo que sobrou de séculos de uso do solo na colônia e no Império. Na entrada da cidade ainda encontra-se um mangue muito bem conservado com uma ave extremamente bela que já é rara em muito lugares: o guará.

Em Alcântara eu me defronto com aquela característica que sempre é apontada como o lugar comum da Amazônia, o calor abafado. Será que ele será meu parceiro no resto da minha viagem pela Amazônia?

Tanto Alcântara como São Luis são cidades ligadas ao mar. No passado eram os produtos da escravidão que saiam pelo mar de Alcântara, hoje são os turistas que vem ver sua riqueza imperial. Já São Luis ganhou um ultra movimentado porto internacional (que transporta minérios em navios gigantescos). O porto é o fim de uma linha que começa algumas centenas de quilômetros antes, no Pará, na Serra dos Carajás, em plena floresta amazônica. É para lá que eu vou agora.

Read Full Post »