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Archive for outubro \23\UTC 2008

Por Edson Struminski (Du Bois)

 

Tempos atrás rodou uma discussão interessante na lista da FEPAM. Discutia-se a manutenção ou retirada definitiva de um abrigo de pedra inacabado no caminho do Pico Paraná, maior montanha do Estado. Alguns argumentaram pela retirada e reaproveitamento das pedras nas trilhas erodidas. Outros pela manutenção desta construção, pois ela representa um marco histórico naquela montanha. Eu (que participei das tentativas de construção deste e de outros abrigos) argumentei que o abrigo tanto pode representar o esforço legítimo de um grupo organizado de montanhistas, como uma prova do fiasco de um projeto construtivo e de falta de empenho deste mesmo grupo, dependendo do posto de vista abordado. Um historiador explicou que manter uma ruína não é a única forma de se preservar a história. Teve gente que sugeriu que a paisagem não ganhava nada, outros que mesmo em ruínas o abrigo cumpria sua função (de abrigo) quando a coisa apertava e não se tem para onde correr. Houve alguns que disseram que a discussão era boba e inútil, provavelmente não percebendo o potencial deste assunto. Finalmente, saiu uma posição oficial, acatada pela FEPAM, de que o abrigo não seria retirado em função do interesse do Estado em preservar a “memória” do montanhismo.

Vamos agora fazer um “flash” para olhar um livro de 1935 publicado na Alemanha, uma espécie de “manual de escalada” ou coisa parecida (1). O texto em escrita gótica é difícil, mas as fotos são de ótima qualidade. Escaladores e escaladoras em um curso básico, outros fazendo um bivaque, outros na neve, um grupo fazendo um resgate em rocha, um guia e uma cliente, o pessoal reunido em um refúgio nas montanhas, etc. Um pouco do universo de escalada daquela turma, naquele período. Todas as fotos são interessantes. Uma em especial, pois mostra um escalador com o equipo padrão de escalada. Uma dúzia de mosquetões de aço, alguns poucos grampos de fenda, um martelo e um estribo de madeira com cordelete, só. Tudo pendurado no próprio nó de encordamento, o laís de guia, hoje em desuso.

Quatro itens, tudo muito simples e frugal. A frugalidade aparece ainda na roupa dos escaladores, uma espécie de uniforminho de escalador, tudo meio igual, nada de valorização da estética, tudo pela praticidade. Claro, se formos lembrar que o mundo, na época, estava em uma escancarada corrida armamentista em torno do domínio de territórios e de recursos materiais, fica a sensação de “contra-cultura” por parte destes montanhistas. Lionel Terray, um montanhismo do período, chega a apresentar restrições ao próprio militarismo que estava em voga naquele momento (2). Com isto, o montanhismo parece realmente uma espécie de cultura à parte, uma rejeição romântica ao mundo racional, violento e industrial em que aquelas pessoas logo estariam mergulhadas.

Tenho uma certa afinidade com estes montanhistas que parecem tão distantes no tempo. Assim como eles, no início da minha formação de montanhista o calçado que eu usava para escalar (kichute) também era o mesmo da caminhada. O encordamento era no “couro”, o rapel também. Barracas e fogareiros eram tão grandes que eram inviáveis de carregar. O bivaque, no pelo, era a regra. Nossas vias novas eram sempre abertas com grampos fixos, de ferro, não se cogitava em fazer de outra maneira. Cheguei a usar os tais mosquetões de aço e estribos caseiros. Sonhávamos em consumir, em ser materialistas, mas parecia outro mundo, muito distante. No nosso mundo ainda tínhamos de nos contentar em ser simples e frugais.

A materialidade e o materialismo do nosso esporte era incrivelmente restrita pela falta de materiais. Carregávamos muito peso e poucas coisas. Abríamos trilhas e colocávamos grampos, eram os sinais da nossa passagem. Chamávamos isto de “conquistas”. A materialidade estava ali então. Nas trilhas e nos grampos colocados nas paredes. A materialidade era então sonhar com um abrigo de pedra para que não morrêssemos de frio na montanha. Havia, então, uma percepção de que “ir para a montanha”, envolvia um considerável sacrifício: frio, molhadeira, comida de baixa qualidade e fria. Horas andando com mochilas toscas e calçados inadequados.

Hoje vivemos uma contradição em termos, um estranhamento. Há uma grita para que se retire tudo que represente a cultura humana, tudo que macule a montanha, a própria materialidade do montanhismo: grampos velhos em fendas, símbolos religiosos em cumes, ruínas, refúgios, etc. As próprias trilhas tem de ser cada vez mais camufladas para que não afetem a paisagem. Nossa presença material tem de ser cada vez mais discreta, até as roupas tem de ser discretas, para que os outros visitantes não nos vejam, assim prega o Pegaleve (3). Por outro lado nossa cultura materialista é cada vez mais incisiva e cada vez nos torna mais dependente dela. As mochilas são mais confortáveis e hoje carregamos, possivelmente, mais coisas diminutas e, quicá, mais peso, que quando comecei a escalar. Nossas barracas são muito fortes e, com isto, podemos prescindir de velhos abrigos pouco higiênicos e impactantes na paisagem. Hoje podemos nos dar ao luxo de dispensar estes anacrônicos refúgios de montanha, alguns construídos com enorme sacrifício e ainda funcionais, mas onde não temos privacidade e onde somos obrigados a uma sociabilidade forçada.

Cada via nova que abrimos nos obriga a carregar uma incrível “árvore de Natal” de equipamentos que visam restringir e substituir a colocação de grampos. Chamamos a isto de “escalada limpa” e, sem dúvida, do ponto de vista da paisagem da montanha onde estamos, da via que fazemos, esta escalada é realmente limpa. Consideramos, inclusive, escalar assim como superior, eticamente falando, que o método antigo, que demoradamente colocava grampos fixos a cada 5 metros. Assim, reduzimos o impacto na paisagem que contemplamos, mas ignoramos, ou fingimos ignorar, que um impacto considerável terá de acontecer em algum outro local (água, minerais, combustíveis, etc), com insumos que tem de ser retirados para produzir o equipamento que estamos usando. Possivelmente uma montanha em Minas Gerais terá de ser arrasada, para, digamos, atender a produção mundial de friends do ano que vem.

Domenico de Masi, sociólogo italiano comenta em um livro (4) que em um mundo “pós-industrial” que estaria se desenhando, as atividades produtivas seriam mais de caráter intelectual, a busca pelos bens materiais seria mais reduzida, haveria mais tempo para atividades que misturariam esporte, estudo e trabalho. Com mais tempo livre, as pessoas se dedicariam a atividades mais relevantes que o mero acúmulo de coisas. Seria um mundo menos material, em que as pessoas teriam mais tempo para atividades criativas, como o montanhismo, que é um exemplo que ele mesmo cita. A frugalidade do futuro, que ele desenha, seria diferente daquela do livro de 1935, pois haverá uma valorização cada vez maior da intelectualidade, da tecnologia e da estética, que economizam tempo, dão conforto e alegria. O mundo industrial e do trabalho, mecanizante e degradante da natureza e das pessoas, ficaria para o passado ou restrito a poucos lugares do mundo, a certas populações e periferias, digamos, a esta tal montanha de Minas de onde teria de ser extraído o alumínio para os friends dos escaladores e a algumas fundições e indústrias na China onde ele seria processado e produzido. No entanto, eu imagino que mesmo para migrar para o mundo virtual e intelectual, este mundo de “ócio criativo”, como ele chama, será necessário uma enorme quantidade de energia e estruturas.

Entretanto, mesmo com o otimismo de Domenico de Masi, vejo que este será um mundo em que qualquer atividade humana ainda será incrível e indelevelmente marcada pelo materialismo e seguramente seria hipocrisia afirmar que nós montanhistas estamos assim tão preocupados com estes efeitos do materialismo.  Para o bem ou para o mal, o fato é que uma pessoa que pode dedicar parte do seu tempo livre ao montanhismo já faz parte de uma parcela privilegiada da população humana, aquela que pode se dar ao luxo de executar uma atividade criativa no seu tempo livre. Isto é verdade ou não?

Assim, como a materialidade de nossas ações está começando a se tornar invisível aos nossos olhos, provavelmente nós teremos de gastar um tempo muito maior do que o atual, para aprimorar nossos valores éticos em relação aos problemas que irão aparecer. Mas esta seria, segundo este autor, uma maneira melhor de empregar nosso tempo, do que apenas corrigindo danos de nossas ações inconseqüentes.

Neste sentido, o predomínio ou a persistência de uma ética de montanhismo sem reflexão e sem aprimoramento pode ser prejudicial à montanha. Estranhamente eu tenho que conviver com a incômoda sensação de que a colocação de um grampo, que pode durar 30 ou 40 anos, em uma fenda, coisa que eu normalmente não faço e provavelmente nunca mais farei, pode ser, mesmo assim, menos impactante ao planeta, do que produzir não sei quantas peças de duralumínio que eu e outros escaladores teríamos de usar no mesmo lugar ao longo deste mesmo período. Do mesmo modo, é constrangedor constatar que um único refúgio de montanha, bem feito, poderia substituir algumas dezenas de barracas espalhadas ao longo de muitos ambientes frágeis.

Como seria de se esperar, não existe uma resposta pronta para este dilema. A leitura de livros como o de Domenico de Masi é, neste sentido, instigante e recomendável. Criatividade é a palavra chave do livro. Temos que usar a criatividade, evitar os preciosismos, fazer com que nosso materialismo não chegue a afetar a materialidade da nossa presença nas montanhas e não chegue ao ponto de afetar até mesmo nossas montanhas. Ser criativos para que as respostas óbvias demais não nos ceguem.

 

MAIS LEITURAS:

 

(1)     BRUCKMANN, F. Der Menfch am Berg. Ag. München, 1935.

 

(2)     TERRAY, L. Os conquistadores do inútil. Lisboa: Editorial Verbo, V.1, 1977.

 

(3)     CEU, WWF. Montanhismo de Mínimo Impacto. Revista Headwall, São Paulo, no 8, novembro/dezembro 2003.

 

(4)     DE MASI, D. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Ed. Sextante, 2000.

 

 

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