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Archive for janeiro \30\UTC 2009

Tucum, natureza e paisagem

Por Edson Struminski (Du Bois)

O Tucum um belo cume em forma de meia laranja, é uma destas montanhas da Serra do Mar paranaense que tinham uma aura particular, para mim, em função de uma velha fotografia tirada, imagino eu, nos anos 40 do século passado.
Nesta foto, em preto e branco, veem-se dois homens, um sentado em uma pedra e outro de pé ao seu lado, no cume do Tucum (ou Camapuã, que é o cume vizinho), avistando-se atrás um profundo vale e ao final, por um efeito ótico, as montanhas que fazem o conjunto do Pico Paraná agrupadas de um modo que dão a impressão de uma verticalidade inexpugnável. Um desafio assustador para aqueles homens, com aspecto mais de mateiros rústicos do que de montanhistas como conhecemos hoje (um deles está com uma carabina para caçar o que comer no caminho). Eram, provavelmente, as pessoas que estavam abrindo as trilhas naquela região em torno dos anos 40 e 50.
Em 1991 finalmente conheci este cume na volta de uma investida à maior montanha da região, o Siririca, o qual exigia, na época, uma difícil pernada através do vale do rio Samambaia, por um trajeto conhecido por “caminho do Professor”, ou seja, uma varação de bambuzais onde eventualmente podíamos encontrar traços da passagem de alguma pessoa na forma de um galho cortado por algum passante anterior. Passados tantos anos, simplesmente o local continuava não tendo frequência suficiente para uma trilha se manter no local. Eram tão poucos os visitantes deste trajeto que a trilha desaparecia após alguns meses de abandono.
Passei pelo caminho do Professor apenas mais duas vezes, em 92 e 93, curiosamente vindo no sentido contrário do normal, após escalar as paredes do Agudo do Cotia e do próprio Siririca, história que já contei por aqui. Até aquelas duas ocasiões, o acesso ao Siririca ainda mantinha-se com a dificuldade original, sem uma trilha praticável, exigindo um esforço adicional de nós para evitar os trechos mais fechados por bambus. Com isto, em um certo sentido, a aventura da escalada daquelas grandes paredes que havíamos feito ganhava um aspecto ainda mais representativo, o de uma aventura plena na natureza, sem grampos nas paredes ou trilhas para facilitar o acesso ou a saída daquelas montanhas.
Nunca mais voltei ao cume do Tucum após aquela única vez. Na verdade, como em tantas vezes nas três décadas da minha vida de montanhista, a forma como fizemos aquelas escaladas e como defendíamos a forma de fazê-las, também foi motivo de polêmica no estreito mundinho montanhístico paranaense, pois havia, na época, um grupo reabrindo as trilhas na região, algo que no nosso entender era desnecessário, pois estávamos mostrando, na prática, que podia-se transitar por aquelas montanhas sem trilhas, de uma forma mais ética, apenas aprimorando nosso “faro” montanhístico. Entendíamos que as trilhas iriam domesticar a experiência do selvagem e o montanhismo como um todo perderia com isto. Enfim, havia uma encruzilhada, uma chance história de se optar por um uso que privilegiasse a natureza em si, ou pela paisagem construída pela mão humana. Mas a nossa tese foi derrotada.
Infelizmente, naquela época pré-internet, as discussões aconteciam de forma muito limitada e entre poucas pessoas, assim eu entendo hoje que a reabertura destas trilhas para um público mais amplo não foi plenamente discutida no meio montanhístico, pois ainda havia espaço para uma discussão ética mais elaborada no montanhismo. Claro que olhando com a distância do tempo, percebo que as pessoas com quem discutíamos tinham sido doutrinadas para pensar daquela maneira (como continuam sendo doutrinados muitos dos novos praticantes do montanhismo), mas não eram mal intencionadas e sim apenas “vítimas das más leituras”, como se diz no meio literário.
Passaram-se os anos e acabei recebendo notícias indiretas sobre o Tucum e seus cumes antecessores, o Pedra Branca, o Camacuã e o Camapuã. Os dois últimos foram invadidos por Pinus, uma árvore exótica (norte americana) usada para reflorestamentos. O Pedra Branca foi incendiado no ano passado (passei alguns dias no combate ao fogo). Já a trilha de acesso ao Tucum havia se consolidado em 15 anos e reduzira a aventura de subida a esta montanha a um trajeto de 2 a 2 horas e meia.
Em contrapartida ouvi notícias interessantes. Rafael Zenni, que é montanhista e engenheiro florestal acabou coordenando um trabalho de corte de Pinus recentemente no local. Isto deu um alívio extra para a natureza destas montanhas.
A trilha do Tucum continuou sendo foco de curiosidade para mim. Por uma destas voltas do destino, há algum tempo atrás acabei sendo revisor ad hoc de trabalhos de um estudante de mestrado que publicou na revista do curso de engenharia florestal da UFPR artigos cujos títulos já explicam tudo: “Erosão causada pela prática do montanhismo na trilha para os picos Camapuã e Tucum” (1) e “Fragilidade ambiental nos picos Camacuã, Camapuã e Tucum” (2). Durante a leitura dos trabalhos ficou claro uma associação entre fragilidade ambiental, declividade desta trilha, intensidade de uso e erosão.
Assim, percebi que em questão de aproximadamente uma década e meia, uma região que eu tinha por selvagem tornou-se foco de consideráveis problemas ambientais: áreas incendiadas, invadidas por uma espécie vegetal exótica e foco de erosões geradas por uma trilha aberta por membros da chamada “comunidade montanhista” paranaense.

VOLTA AO TUCUM

Após o vexaminoso incêndio no Pedra Branca, cujo combate foi feito de forma que me pareceu excessivamente desleixada por bombeiros e montanhistas (dentro, é claro, da minha ótica de conhecedor da ecologia da Floresta Atlântica) tive necessidade de voltar a subir o Tucum. Algo me dizia assim: “suba esta montanha de novo antes que um novo incêndio a destrua, ou antes que ela fique novamente entupida de Pinus”.
Como estava com uma pequena sombra de dúvida sob o risco de subir esta montanha sozinho, acabei escolhendo um parceiro para este passeio em quem pudesse confiar. Este parceiro foi Hebert Sato, que tem uma qualidade rara dentro do montanhismo paranaense, é uma pessoa generosa com a montanha.
Escolhemos uma sexta feira do início de janeiro para este passeio e um horário de início de caminhada (6 horas) em que não esperávamos encontrar ninguém na montanha, o que de fato aconteceu, assim seria possível observar da forma mais neutra possível o que, de fato, havia sido feito ou não naquela montanha.
É interessante que quando você anda muitos anos em trilhas já consegue interpretar um padrão de uso deste tipo de trajeto com base em indicadores sutis. O tipo de lixo ou objeto perdido na trilha. A forma como as pessoas contornam ou vencem obstáculos, fogueiras, erosões ou algum eventual trabalho preventivo de degradação da trilha. Até mesmo os locais onde as pessoas pisam nos dizem muito sobre o perfil dos visitantes. Se as pessoas tem medo de uma rampa molhada e preferem pisotear a vegetação é sinal evidente da falta de prática e de insegurança do visitante.
De imediato ficou claro que a parte inicial do “caminho do Professor”, virou o “trecho 1 da trilha do Tucum”, ou seja, as pessoas, em sua maioria, sobem a montanha alta mais acessível da região (Camapuã), pelo caminho mais curto, acampam (existem várias áreas pisoteadas por acampamentos), curtem a paisagem e fazem assaltos à montanha mais próxima, o Tucum, onde existe um Livro de Cume com o registro dos passantes, naturalmente deslumbrados pela paisagem. Indiretamente esta percepção é comprovada pelo que eu li nos trabalhos publicados na revista Floresta e em sites da internet. De certa forma o Tucum e uma outra conhecida montanha próxima, o Pico Paraná, viraram points excursionistas, lugar este que era ocupado pelo Marumbi até os anos 1990, quando da implantação daquele parque com regras e restrições, como a proibição de acampar no alto das montanhas. Este tipo de point é hoje alimentado pelo componente moderno internético, do qual falarei mais adiante.
No Livro de Cume do Tucum aparecem registros de excursionistas e de, por assim dizer, montanhistas. No entanto, com exceção do trabalho com os Pinus do Zenni, não foi possível perceber nenhuma atividade ambiental relevante de conservação desta trilha, que já apresenta sinais de notável degradação ambiental, particularmente nos trechos com campos de altitude, vegetação extremamente frágil e facilmente afetada pelo pisoteio. Nos locais onde a declividade aumenta, a erosão da trilha simplesmente expôs a rocha e as pessoas abriram trilhas paralelas, algo que está marcando indelevelmente a paisagem.
Me espantou ver que as pessoas, particularmente as que se dizem montanhistas, simplesmente não usem o material disponível nas beiras das trilhas, como troncos ou pedras para realizar pequenas contenções ou calçamentos que evitariam a propagação da erosão nelas e a formação destas famigeradas trilhas paralelas, ou mesmo que não arranquem os Pinus filhotes que persistem nestas montanhas, ou ainda não controlem os bambus que podem provocar novos incêndios. Tudo isto diz respeito a temas fartamente debatidos nos meios montanhísticos. Assim, me parece que tem faltado generosidade aos montanhistas que frequentam este lugar apenas como uma forma de lazer despreocupada ou descompromissada, que é o que se lê no livro de cume do Tucum.
Generosidade é em certa medida o que Sato e eu acabamos praticando no lugar. Além de curtir o visual espetacular da montanha, acabamos gastando um tempo considerável tentando melhorar as trilhas, contendo bambus, coletando lixo e, principalmente, tentando completar o trabalho ambiental de Zenni, cortando rebrotas de Pinus ou mudas novas desta árvore invasora que vão continuar aparecendo ali por um bom tempo. Atividades que de um jeito ou de outro terão de continuar acontecendo por muitos anos e que dependerão de pessoas generosas para existir. Não há como escapar disto.

NATUREZA X PAISAGEM

Hoje a paisagem destas montanhas está indelevelmente marcada pelas trilhas e suas variantes, que existem nestes locais. Assim, em um certo sentido nós temos um estranho círculo vicioso. As pessoas da nova geração, excursionistas ou montanhistas, sobem estas montanhas por trilhas mal feitas que degradam estas mesmas montanhas e tomam isto como parâmetro único para acessar estes e outros locais por abrir, talvez por não saber fazer diferente, por falta de imaginação, sei lá. Tive contato com algumas pessoas da nova geração do montanhismo no ano de 2008, até andei com algumas delas. Elas continuam sendo doutrinadas com a mesma lógica e com os mesmos preconceitos com que se doutrinavam as pessoas quando eu comecei, há 30 anos atrás ou mais tempo ainda no passado…
Tudo isto, lógica, raciocínio, preconceitos, são alimentados pela internet (um grupo de 5 pessoas que subiu no sábado, chegou lá a partir de informações da internet), um componente moderno e pouco crítico que muitas vezes apenas incentiva o uso destes lugares pela paisagem que apresentam.
Se fossemos levar ao extremo, seria perfeitamente possível fazer um BBB em cima do Tucum com a tecnologia disponível e alimentar os sites bobinhos e egocêntricos já existentes, nos quais até mesmo erros de interpretação ambiental e de conduta em ambientes naturais são propagados. O anacrônico lema excursionista citado em um destes blogs “não deixe nada além de pegadas, não mate nada além do tempo, etc”, entra em contradição com a vegetação pisoteada dos cumes ou morta nas inúmeras trilhas paralelas. A surrada subida do Tucum virou um pouco bbb (boa, bonita e barata), Isto terá um péssimo efeito pedagógico para as futuras gerações. Além disso, previsivelmente o Tucum virou também parte de roteiros turísticos comerciais, como pode-se ver na internet.
É claro que é possível encontrar aspectos positivos nas matérias vinculadas na rede. Minimamente os grupos, sejam eles de excursionistas ou de clubes de montanha são obrigados a se esforçar um pouco e com isto compartilham algo que mantém o espírito de grupo, o famoso “um por todos e todos por um” dos mosqueteiros, em meio a um pouco de cansaço e um pouco de chuva, geralmente superestimados.
Mas eu confesso que não vi nada que diferenciasse o discurso de montanhistas e excursionistas nestas matérias. São lugares comuns que apenas mostram uma ahistoricidade, ou seja, uma falta de noção da história mais remota ou mais recente do lugar, uma falta de noção a respeito do ambiente que freqüentam, afinal o que significa realmente um “campo de altitude”, um pasto igual ao que o pessoal planta para as vacas? O que significam os bambus em que alguns se enroscam na trilha? O que significa a própria trilha? Eu pergunto então, que tipo de montanhismo é este que se constrói dentro de uma perspectiva ahistórica, alienada? Como manter um montanhismo saudável sem a noção do significado das disputas éticas que estavam em torno desta montanha, da preciosidade do ambiente natural das montanhas?
Nos anos 90 alguns entre nós tínhamos feito uma opção clara pela prática do montanhismo nesta região com base em critérios naturalistas. O que estava em jogo, para nós na época, era a execução sim, de escaladas e caminhadas de alto nível, mas que mesmo assim, conservassem a natureza do local. Não interferissem em seus processos evolutivos naturais (como a erosão ou o pisoteio, por exemplo, interferem), não interferissem na fragilidade ambiental latente destes locais.
Mas eu devo reconhecer que ainda que mais bela, era uma opção ética extremamente limitada, pois somente alguns montanhistas mais preparados poderiam acessar estas montanhas. Em contrapartida, as montanhas seriam melhor conservadas. Por outro lado, as próximas gerações teriam a chance de se defrontar com um autêntica aventura na natureza, do começo ao fim. Mas eu percebi que a chamada “comunidade montanhista paranaense” optou, ativamente ou por omissão, pela reabertura de trilhas na região, optou não pela natureza em si, mas pela paisagem construída. Tudo isto facilita o acesso das pessoas, facilita o meu acesso. Mas eu pergunto, será que valeu a pena?
Hoje a comunidade montanhista paranaense tem nas mãos um grande abacaxi, adotar, recuperar e manter mais um grupo extenso de trilhas em mais um ponto da Serra do Mar.

LEITURA ADICIONAL

(1) VASHCHENKO, Y.; BIONDI, D.;FAVARETTO, N. Erosão causada pela prática do montanhismo na trilha para os picos Camapuã e Tucum, Campina Grande do Sul (PR). Curitiba: FUPEF. Revista Floresta, Vol. 38, n 1. P 71 a 88. 2008.

(2) VASHCHENKO, Y.; BIONDI, D.;FAVARETTO, N. Fragilidade ambiental nos picos Camacuã, Camapuã e Tucum Campina Grande do Sul (PR). Curitiba: FUPEF. Revista Floresta, Vol. 37, n 2. P 201 a 216. 2007.

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Por Edson Struminski (Du Bois)

Esta pergunta e suas variantes (quem vai cuidar do morro tal? Ou quem vai cuidar do parque tal?), tem sido pano de fundo de uma discussão que ocorre, no momento em que escrevo este artigo, na lista da FEPAM. Há um certo consenso entre os montanhistas sobre alguns assuntos, adapte-os ao seu Estado:

As instituições ambientais existentes no Estado do Paraná (no Brasil em geral) são ineficientes para cuidar das montanhas.

Os parques são de papel (parques origamis é o termo usado).

Os programas estatais aplicados nas montanhas, como o recém falecido Pró-Atlântica no Paraná, devem ter feito um grande sucesso agora que voltaram para Marte de onde vieram, mas deixaram um rastro de destruição ambiental por onde passaram, um paradoxo, portanto.

As ONGs, clubes de montanha em particular, montanhistas em especial, tem dado duro, muito duro, através do Adote uma Montanha, ou similares, para tapar os buracos desta ineficiência toda. Batalham pelos parques, até quando os origamis queimam. São até mesmo bombeiros voluntários e voluntariosos.

Tudo o que escrevi acima, consenso, acho, entre os montanhistas, é verdade, meia verdade ou mentira, vocês escolhem, marquem V (verdadeiro) ou F (falso) naquelas que quiserem.

O fato é que eu gostaria que vocês leitores refletissem sobre um dado numérico. Digamos que por uma graça do Espírito Santo o governador do Estado do Paraná (ou de qualquer estado) resolvesse criar um novo programa próatlântica (cuja maior novidade seria ortográfica, não ter o hífen) que trouxesse, de novo, um cofrinho bem grande de dinheiro para a Serra do Mar, para as montanhas. Digamos que triplicasse, quintuplicasse, octuplicasse o número de funcionários do órgão ambiental (que atende o estado inteiro). Isto bastaria para cuidar dos 500 mil hectares das montanhas da Floresta Atlântica, ou de qualquer área ainda conservada no Brasil? É pouco provável. Teríamos mais alguns jipões circulando e mais alguns trailers do Zé Colmeia (uma novidade aqui no Paraná no lugar das sedes de parques) encostados em alguns pés de morros para contar o número de visitantes que aparecem.

No entanto, mesmo que ganhassem isto tudo, me parece que os orgãos ambientais não seriam de todo avessos a financiar projetos sólidos que impliquem na conservação das montanhas, projetos bem construídos, politicamente bem articulados. Existem pessoas idôneas e sensíveis com quem conversar nos órgãos ambientais e no meio político. Será que as instituições de montanhismo tem apresentado estes projetos, tem feito estas conversas no nível necessário, tem se articulado?

Muito do que instituições públicas fazem, dizem respeito a processos administrativos (quanto mais gente mais processos), assim, com mais gente, na melhor das hipóteses, teriam um pouco mais de agilidade burocrática, na pior o contrário. Eles não podem fazer milagres. Já os projetos estatais, como alguns feitos pelo Pró Atlântica no Paraná padecem de “vícios de método”. São fadados ao fracasso (mais detalhes ler na minha tese de doutorado), embora isto deva ir mudando ao longo dos anos. 30 anos é o meu prognóstico, período em que a síndrome de comando e controle estatal ceder lugar para uma gestão participativa nas unidades de conservação públicas. Isto está previsto na legislação. Será que as instituições de montanhismo tem se preocupado realmente em fazer valer esta parte da legislação?

Por outro lado, chamo a atenção para o fato de que muitas empresas (segundo setor) já estão em uma fase mais avançada da gestão ambiental. A primeira fase é o pagamento de multas de danos. A segunda é a remediação e gerenciamento de impactos. A terceira é a prevenção de impactos e gerenciamento de projetos de responsabilidade social e ambiental. Na discussão da FEPAM percebi que alguns montanhistas tem asco ao falar em empresas. Mas o fato é que quando aplicam bons projetos elas aliviam o Estado, são exemplo para parceiros potenciais e não motivo para vômitos coletivos.

Assim como já tive oportunidade de trabalhar em projetos patrocinados elo governo, no ano de 2008 tive a oportunidade de executar um projeto empresarial deste tipo em uma região chamada de Mananciais da Serra, já comentado aqui no blog. Para alguns montanhistas o que fizemos foi apenas recuperar algumas trilhas para a comodidade deles. Na prática induzimos a empresa de saneamento do Estado a tomar gosto por um projeto deste terceiro tipo. Foi um projeto inovador e, diante disto, foi muito significativa a falta de visão de alguns montanhistas que criticaram detalhes superficiais do projeto, mas não viram o todo.

Não obstante este fato, existe grande potencial para este tipo de trabalho com empresas privadas, que usam áreas em montanhas para ferrovias, rodovias, oleodutos, linhas de alta tensão. Existem empresas que possuem áreas em montanhas: mineradoras, reflorestadoras, faculdades, colégios. Cabe um pouco a cada um agir coordenadamente para viabilizar projetos com estas empresas.

Chegamos então ao terceiro setor. Eu não sou o terceiro setor. Você que está lendo agora não é o terceiro setor. Podemos ir combater voluntariamente um incêndio na montanha, participar de um mutirão para recuperar uma trilha, cortar um Pinus invasor de uma área natural. Isto é voluntarismo. Entretanto continuamos sendo apenas indivíduos. Posso individualmente escrever um projeto, mas isto ainda é pouco sem instituições sérias e idôneas por trás.

Como indivíduo eu posso participar de instituições como um clube de montanha e através desta instituição perguntar, como em 1983, com 21 anos de idade, no Congresso Pró Implantação do Parque Marumbi: quem vai cuidar da Serra do Mar? Ou retomar esta pergunta através de uma dissertação de mestrado pela universidade ou de um projeto através de uma ONG, do Estado ou de uma empresa.

Como indivíduos podemos ser radicais, reacionários, conservadores, liberais, etc. Mas quando isto acontece com instituições raramente há progressos. Como indivíduos podemos ser acolhidos, ou ignorados e rejeitados por estas instituições quando elas não são verdadeiramente democráticas. Por outro lado, muitas pessoas nos prestam regularmente o favor de nos lembrar de que como indivíduos, podemos realmente ser dispensáveis nas discussões sobre a conservação das montanhas, ou mesmo sobre o montanhismo, pois podemos incomodar muita gente. Mas este não é o caso das instituições que tem papeis distintos, pois idealmente devem conter a diversidade de pensamentos e promover consensos democráticos, que aproveitariam os aspectos inovadores dos excessos.

Podemos mudar de um lugar para outro, já as instituições tem caráter permanente, mesmo que mudem de endereço. Então eu lembro que pessoas que se reúnem, ainda que de forma transitória, em clubes ou federações que tem como emblema as montanhas herdam e assumem uma responsabilidade histórica com esta tal pergunta que não cala, tema deste artigo, mesmo que não queiram.

Este compromisso não muda mesmo que o montanhismo praticado por pessoas pertencentes a estas instituições pareça muitas vezes vazio, como podemos ler nos vários relatos que circulam aos baldes na internet. As pessoas que integram clubes e federações continuam, mesmo sem se dar conta, representando o terceiro setor e uma tradição conservacionista, um ideal de conservação das montanhas. Individualmente podemos nos dar ao luxo de mudar de ideias várias vezes e até esquecer este ideal, as instituições precisam manter uma ideologia mais coerente, caso contrário perdem a credibilidade junto à sociedade.

Para aliviar um pouco esta responsabilidade, eu lembro que existem outras instituições que são parceiras potenciais na proteção das montanhas e a quem já recorremos no passado. A OAB, Institutos de Engenharia, a SBPC, o CREA, conselhos de classe (biologia, geografia), que tem lá seus departamentos de meio ambiente, são terceiro setor. Fundações de empresas ou das universidades também. Estas instituições tem recursos que os montanhistas não tem. Circulam em esferas com potencial de influenciar governos na aplicação de recursos. Instituições conversam oficialmente, promovem debates, geram documentos, influenciam políticas públicas, geram fundos públicos que aí sim, viabilizam projetos. Assim, se hoje as instituições que mais se ressentem da ausência de uma política pública para as montanhas são aquelas ligadas ao montanhismo, então cabe a elas dar a partida para implantá-la. É preciso um pouco mais de esforço, de generosidade. Os parceiros aparecem.

Então, quem vai cuidar das montanhas?

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