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Archive for setembro \29\UTC 2008

Montanhismo sem preconceito

Por Edson Struminski (Du Bois)

 

 

Uma montanhista carioca, leitora dos textos deste blog, depois de puxar minha orelha por um artigo que eu escrevi aqui sobre montanhismo feminino, bastante incompleto, claro e no qual eu mais provocava as pessoas do que trazia respostas prontas ou opiniões pessoais, me pergunta quando irei ao Rio conhecer o montanhismo sem preconceito praticado por lá. Respondi educadamente e no mesmo tom bem humorado que no momento não poderia fazer esta viagem, muito embora eu não tenha descartado, de modo algum, a possibilidade de praticar esta modalidade esportiva no Rio de Janeiro, mas que por ora, afirmei, estaria procurando praticar no Paraná.

Depois disto fiquei imaginando o que seria, para mim ou para outras pessoas a prática de um montanhismo sem preconceitos. Nossa sociedade é muito preconceituosa sobre quase tudo e a este respeito quase não se pensa ou se reflete, apenas se passa adiante. Muitos destes preconceitos são formados a partir de conceitos morais (ou seja, formam-se conceitos prévios, ou pré conceitos) sobre o que é certo e o que é errado, o que é verdadeiro ou falso, o que é bonito ou feio, algo que naturalmente muda com o tempo. Por outro lado, se alguns destes preconceitos surgem por um motivo muito bem definido (medo de se contaminar com uma doença), outros atravessam gerações e sequer sabemos de onde vem. Será  que talvez de Portugal, com Cabral e suas caras velas? Aliás, existem preconceitos contra portugueses, piadas bobas sobre portugueses, que nos legaram um país enorme e uma língua única para falar.

A lista de preconceitos é grande: a cor da pele, o tipo de sobrenome que a pessoa carrega, sua religião, quanto dinheiro tem no bolso, se a pessoa já passou dos quarenta anos ou não, se é homem ou mulher fazendo algo “exclusivo” ou “reservado” ao outro sexo, se são pessoas com grandes diferenças de idade namorando, tudo isto é motivo de preconceito. Poderia acrescentar outras coisas: se você tem uns quilos a mais ou a menos que a “média”, se você tem aids, é cego ou anda de cadeira de rodas. Se você mora na zona norte e não na zona sul. Se é nordestino em São Paulo, argentino no Brasil ou latino nos Estados Unidos, tudo isto é motivo de preconceito. As pessoas sofrem de preconceito até pelo que elas trazem de bom para a sociedade ou por aquilo que elas podem fazer de melhor. Seja um catador de papel na rua, seja um doutor recém formado em um curso de excelência de nossas universidades. Ambos podem não conseguir um emprego com um pouco mais de dignidade muitas vezes por preconceito. Enfim esta lista pode se tornar enorme. Assim, de um modo paradoxal, nós que somos muitas vezes preconceituosos, acabamos estando sujeitos ao preconceito em algum momento da vida. Por isto o melhor mesmo era não ter nem sofrer nenhum tipo de preconceito, pois isto só causa atraso em nossas vidas, pode se voltar contra nós.

É preciso muita sensibilidade para lidar com o assunto preconceito. Pois a linha entre o que é preconceito e o que não é costuma ser tênue e flutuante. Nos dias atuais o racismo cada vez encontra menos espaço e o comportamento homossexual deixou de ser visto como uma “doença” e passou a ser considerado como uma opção pessoal dos indivíduos. Ponto para a sociedade. Por outro lado a nossa sociedade não é tão liberal a ponto de admitir normalidade na pedofilia ou em uma doutrina social como o nazismo e está cada vez dando menos espaço para os fumantes. Existe então um preconceito com estas formas de pensar e agir? Isto poderia ser um sinal de existem “preconceitos bons”?

 

Existem preconceitos no montanhismo?

 

Todo este preâmbulo foi necessário para comentar que eu entendo que nós montanhistas estamos inseridos dentro desta sociedade maior e somos frutos dela. Deste modo certamente trazemos muitos destes preconceitos conosco. Assim comentando a frase desta amiga, provavelmente o montanhismo não é praticado totalmente sem preconceitos em lugar nenhum. Mesmo assim a montanha segue sendo para mim, o terreno da liberdade, espaço onde muitos destes preconceitos, por si só, simplesmente não conseguem prosperar, ou pelo menos não viram uma unanimidade.

Na verdade acho muito atraente a prática do montanhismo até pela possibilidade que ele nós dá de quebrar alguns preconceitos. De tempos em tempos surge algo novo que rompe os preconceitos e deixam uma enxurrada de gente nova entrar. Esta gente nova, com sua energia, mexe com nossos preconceitos, mas por outro lado, podem trazer alguns novos com os quais temos que lidar.

Lembro que quando comecei (1979) tinham as caminhadas em trilhas e a escalada em rocha, tanto natural como artificial, mas sempre com grampos fixos. Tudo era um tanto restrito e limitado e feito basicamente com o kichutão saudoso, um calçado tosco mas polivamente. Mas se hoje você fosse escalar ou caminhar de kichute seria ridicularizado, o que não deixaria de ser um preconceito com um calçado que tantos serviços prestou ao esporte.

Com o tempo ficou visível que as escaladas artificiais tornaram-se mais difíceis, isto porque surgiram equipamentos móveis que permitiram que esta escalada ficasse limpa de equipamentos fixos (clean climbing). Na verdade as escaladas em natural também ficaram mais limpas, mais clean. Além disso, no Rio o André Ilha começou a difundir a idéia, vinda de centros europeus e americanos, de que vias em artificial podiam ser feitas em livre (free climbing), ou de forma natural (1). Em paralelo a isto começou a fabricação, no Paraná, de calçados mais compatíveis com este tipo de escalada que se queria fazer. Estes dois fatos romperam qualquer tipo de preconceito com relação à evolução da escalada.

Neste mesmo tempo surgiram os boulderes. Eu já tive a oportunidade de comentar, na revista Headwall (2) que o boulder significou para muitas pessoas, uma extraordinária experiência de democracia na escalada. Em primeiro lugar o boulder possibilitou que um número maior de pessoas pudesse frequentar as montanhas e praticar uma atividade de alta performance, em espaços públicos (não pagos), com um mínimo de equipamento, como um calçado de qualidade e um saco de magnésio, muitas vezes compartilhado.

O boulder rompeu a estrutura hierarquizada, formal, tradicional e até certo ponto preconceituosa do montanhismo, na qual haviam o clube e os associados, o veterano e o novato, o guia e o segundo, o instrutor e o aluno. O aprendizado passou a ser compartilhado de forma criativa e (idealmente) não competitiva. O boulder permitiu também a difusão de conceitos relativamente abstratos como a graduação de dificuldade dos lances, pois a troca de experiências sempre pôde ser feita rapidamente.

No meu entender, a principal contribuição da prática do boulder foi combinar então este ambiente esportivo democrático com uma forma de escalada livre coexistindo harmoniosamente em ambientes naturais, gerando com isto uma ética de escalada naturalista, até então inexistente, cujos efeitos duradouros podem ser sentidos até hoje, dos campos-escolas até as big walls abertas por adeptos desta ética de escalada.

Calçados melhores permitiram também que o boulder se tornasse um trampolim para muitos escaladores fazerem a escalada em solo (sem corda). Mais raro, porém ainda assim de importância significativa foi a constatação de que alguns escaladores também desenvolveram técnicas seguras para escaladas em solitário (com corda), algo que em alguns círculos mais conservadores do montanhismo era visto de forma preconceituosa antigamente.

A meu ver o boulder rompeu com muito da elitização e do preconceito na escalada e claro, quanto mais as pessoas praticam, mais elas colhem este tipo de benefício indireto.

Anos depois apareceu a escalada desportiva e seus campeonatos. Um paroxismo de máxima dificuldade com o máximo de segurança. Um tipo de escalada mais elitista, mas que mesmo assim tende a se tornar cada vez mais popular, pois elimina muito do risco subjetivo e objetivo da escalada. Além disto o que conta na esportiva é a performance atlética. Então, para competir importa que a pessoa seja atleta e ponto final. Isto está se disseminando pelo Brasil afora, assim como a idéia da competição, que muitos de nós consideram como algo execrável dentro da “pureza” do esporte. Bobagem, é claro, preconceito. Muitas competições existiram a ainda existem dentro do montanhismo, elas apenas ficam camufladas dentro de um ideal de cooperação que desdenha a existência do preconceito. Na esportiva a competição apenas é mais explícita e sobressaem os melhores.

Mesmo assim alguns tipos de escalada sofrem de preconceito. Já ouvi comentários de que chaminés, fissuras e aderências são “escaladas de velho”, um tipo de preconceito que dura até que alguém abra uma via nestas formas com um alto grau de dificuldade ou de complexidade. Daí as pessoas começam a prestar novamente atenção nelas.

Alguns tipos de escaladores sofrem de preconceito. Existe aquele sujeito que moureja a vida inteira no quarto grau e ninguém presta atenção nele. Existe quem comece a escalar com quarenta, cinqüenta anos e acaba ouvindo piadinhas bobas pelas costas. Novatos sofrem preconceito pelo pouco que sabem. Existem estranhas categorias e subdivisões como estas que eu estou comentando: escaladores esportivos, tradicionais, bigwallistas. Mas tudo isto não é o montanhismo?

Existem estranhas lendas: o calçado x é o melhor de todos (sempre e para todos?). O nó y é o mais indicado. A corda z não presta.

Bem e quanto às caminhadas. Se deixarmos o preconceito de lado também neste universo do montanhismo existe possibilidade de evolução, se entendermos por evolução fazer mais e melhor. Então hoje, por exemplo, não é mais necessário abrir trilhas ou clareiras para uma caminhada, por mais difícil que possa ser o trajeto. É possível fazer caminhadas com o mínimo de equipamento e máximo de qualidade. O mínimo de impacto e o máximo de interação com a natureza das montanhas, ou seja, as regras de mínimo impacto, quando assimiladas com bom senso, tornam a qualidade das caminhadas melhor. Qualquer lugar se torna acessível pois o acesso não compromete irremediavelmente a qualidade deste lugar, como acontecia antigamente com a abertura mal feita de trilhas. Na verdade, em alguns casos a própria trilha e tudo o que ela significa em termos simbólicos, se torna dispensável.

Também existe a possibilidade de praticar escalada na neve, no gelo, em alta montanha. Muita gente faz isto, muitos brasileiros. Um certo preconceito antigo dizia que isto era coisa também para velhos montanhistas, hoje isto mudou e cada vez é uma opção para todos, mas por motivos óbvios não se pratica isto no Rio de Janeiro ou no Brasil, embora certamente este seja um terreno em que nós brasileiros também temos algo a acrescentar.

Ainda existe e provavelmente ainda vai existir preconceito no montanhismo. Como dizia o saudoso humorista Stanislau Ponte Preta, o mundo é dos pobres de espírito. Assim, se você arma sua barraca comprada nas Casas Bahia ao lado de um sujeito com uma Nort Face, é provável que ele nem olhe para você. É provável que você seja automaticamente taxado de farofeiro, mesmo que você também taxe de “farofeiro” outro alguém que passe por você de uma forma menos “montanhística” e mais espalhafatosa na montanha, mas que em última análise está, como todos, apreciando a experiência de estar na montanha.

“Tem muita gente boa espalhada por este país”, como diz a música cantada pelo mineiro (como eu) Milton Nascimento. Assim o preconceito se torna apenas um peso a mais para carregar na mochila. Depois de alguns anos, que viraram décadas, escalando, tive de deixar muitos de meus preconceitos de lado e acabei reconhecendo que o montanhista mais completo que eu conheci não era um homem e sim uma mulher, a Roberta Nunes e que o escalador que eu vi escalando de forma mais bonita e elegante não foi nenhum alemão ou francês destes com nome difícil que aparecem em revistas bacanas de montanha e sim o brasileiríssimo Paulo Macaco. A eles rendo minhas homenagens. Infelizmente, por motivos diversos, nenhum deles pode estar mais escalando e nos ajudando a romper nossos preconceitos.

 

 

(1) André Ilha. Manifesto da Escalada Natural. Disponível em www….

 

(2) Struminski, E. Boulder, Paraná, Introdução.  Revista Headwall, no  6, de abril/maio/2003. P. 28

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