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Archive for agosto \10\UTC 2011

Sob o céu de Tacuarembó

Por Edson Struminski (Du Bois)

Meu filho mais novo está com 12 anos e passou boa parte da vida dele em chácaras em volta de Curitiba. Nos últimos dois ou tres anos, porém, pela necessidade de estar mais perto da escola, ele foi morar em Campo Largo, a uns 15 km da capital paranaense. Com isto ele virou um urbaninho, em uma cidade que não tem lá muitas opções a oferecer a ele, que tem muita vivacidade e inteligência.

Ele é muito ligado a mim e eu a ele, mas hoje é um menino da internet, que oferece a ele a oportunidade de ter seu blog, MSN, facebook e sei lá mais o que. Um mundo virtual, enfim, muito bem explorado por um garoto vivaz como ele. Morando longe eu não posso estar diariamente com ele.

Como eu teria uns 10 dias de folga, pensei em fazer uma viagem diferente com este garoto, algo que unisse diversas experiências: uma viagem de avião (que está relativamente barato), uma bicada em um país vizinho, um pouco de ambientes urbanos, um pouco de ambientes naturais, um pouco de aventura. Na medida do possível algo novo para mim também, embora  a prioridade do passeio fosse para ele.

10 dias. Bem, o roteiro mais interessante me pareceu um avião até Porto Alegre, um ônibus até Santana do Livramento, daí passeios pela região e depois uma internada no Uruguaizinho, até onde conseguíssemos ir.

Com 10 dias anda-se muito no Uruguai, um país que é possível atravessar em 10 horas, mas também pode ser pouco tempo para se conhecer seus detalhes, pois as atrações podem estar escondidas e as informações distantes.

Cerros chatos

Em Livramento encontramos nossas companhias de viagem, Miriam, que tem sido minha parceira em muitos e belos passeios e Sofia sua filha, que tem 16 anos e com sua paciência zen seria uma espécie de babá, amiga e consultora de assuntos fronteiriços, free shopistas e gastronômicos do Tui, pois os dois adoram comer aquelas comidas horrorosas de adolescentes. Por outro lado eu confiava na inteligência do Tui e na sua capacidade de comunicação, que o torna um garoto expansivo e interessante de conversar.

Mas também seria importante que a viagem não ficasse só no gafanhotismo dos free shops de Rivera (cidade uruguaia geminada com Livramento) e em suas engordativas pizzas quadradas (uma especialidade uruguaia). Um dos meus objetivos era conhecer o potencial de escalada de um local próximo a Livramento, o Cerro Palomas, um morro testemunho de basalto, com topo plano e paredes verticais, um tipo de formação rochosa que aparece também no Uruguaizinho adentro.

Então arrastamos os adolescentes preguiçosos morro acima, apenas para constatar que sim, o lugar tem um potencial a ser desenvolvido, com muitas paredes, para iniciantes e veteranos, desportivos, etc, muito embora a fixação de proteções  venha a exigir algo mais do que improvisações para rappeis,  como furos profundos e alguma cola química. Claro que depois os reclamões adoraram o passeio, que foi inédito e diferente para todos… Depois disto fomos a um complexo eólico (Cerro Chato),  que aproveita o incansável vento Minuano para gerar energia limpa para a região. As gigantescas torres de energia proporcionam uma visão futurista em meio à neblina…

Uruguai em poucas horas

Tacuarembó, no Uruguai, é a terra natal da maior estrela do tango argentino, Carlos Gardel, assim este uruguaio, argentino, cidadão do mundo na verdade, ganhou um pequeno e bonito museu em plena zona rural deste departamento uruguaio, que guarda a memória e alimenta um pouco o patriotismo dos uruguaios, algo que naquele momento em que estivemos por lá estava em alta por conta de uma competição de futebol, a Copa América, que por sorte foi ganha por eles,  o que garantia uma dose menor de mal humor e eventual simpatia com estrangeiros por parte dos habitantes do país.

Na verdade foi ali em Tacuarembó que eu comecei a entender um pouco mais isto, a discrição dos habitantes do país, um relativo desinteresse pelo mundo exterior e até mesmo um certo mal humor por parte dos habitantes.

O tango é tão argentino quanto uruguaio. Mas o Uruguai não tem aquela abundância de terras e exuberância de paisagens como seus vizinhos Brasil e Argentina. A Argentina tem uma região de pampa enorme, uma cordilheira enorme com montanhas enormes e sua capital, Buenos Aires, fica na Europa, como todo mundo sabe e o Brasil, bom o Brasil é o maior país do mundo, melhor futebol do mundo, etc…

A população do Uruguai é a mesma que Curitiba, uma metrópole de tamanho médio brasileira e claramente a gente avista mais vacas, ovelhas ou até emas do que uruguaios. Tacuarembó, capital departamental tem algo como 50 mil habitantes,  a população que tinha Curitiba…, há 100 anos atrás.

Depois de algumas horas caminhando atrás de uma frustrada cachoeira, ouvindo constantes reclamações dos meninos, o que vi realmente foi o Uruguai, uma sucessão de coxilhas altas, vazias e ventosas, com rios discretos se encaixando em pequenos cânions. Nada muito impressionante para adolescentes, mas muito significativo se você quer entender o espírito de um povo criado em meio a um deserto verde com campos a perder de vista, com poucas cidades, poucas referências naturais e, um convite inegável à liberdade, a continuar andando sem preocupação com cercas, delimitações formais, ou mesmo fronteiras, o tal espírito gaucho, que é cultivado em tres países diferentes e que permeia o modo de pensar das pessoas da região.

E assim fomos atravessando o país. Pequenas cidades, rodovias vazias, poucas placas, muitas vacas.

Em Colonia del Sacramento, já no litoral uruguaio (Rio de la Plata), a menos de 50 km de Buenos Aires (avistada do outro lado do Plata), encontramos um museu que é uma espécie de play ground para colecionadores e todo o tipo de gente que fica alucinado com objetos como lápis e chaveiros, que é o Museo Arenas de Las Coleciones, mantido particularmente e com registro no Guiness por conta dos seus milhares de objetos, que foram particularmente fascinantes para nossas crianças, muito embora seja praticamente impossível ficar indiferente aos milhares de objetos, muitos deles lembrando minha própria infância (a coleção começou nos anos 50), que pudemos avistar ali.

Sacramento foi fundada em 1680 pelo império português. Tem um centro histórico belíssimo que é um Patrimônio da Humanidade reconhecido pela UNESCO. É a  cidade mais antiga do Uruguai. Seu centro histórico mostra um forte, com canhões antigos e um belo farol, de onde se pode avistar Buenos Aires, com quem o império português fez fronteira com o espanhol por um certo tempo. É uma pequena e charmosa cidade com atrativos para vários tipos de públicos. Tui e Sofia encontraram um ateliê de um fotógrafo de Porto Alegre muito talentoso e foi muito impressionante ver como o menino discutia detalhes da produção deste rapaz de igual para igual. Sofia ficou deslumbrada com as fotografias.

Estrelas em Tacuarembó

Foi ainda lá, em uma caminhada noturna, sob o céu estrelado de Tacuarembo, que encontrei uma metáfora viva do nosso papel e das nossas limitações como pais. O céu estrelado e limpo que avistamos convidava a um passeio para longe das comodidades da pequena pousada onde estávamos.

Logo nossos dois adolescentes se cansaram do passeio, do escuro e do frio e quiseram voltar.  Eu havia ajudado meu filho a comprar uma pequena lanterna de boa qualidade nos free shops de Rivera e disse que eles poderiam inaugurar a lanterninha e voltar sozinhos e assim eles fizeram, de braços dados, tropeçando nas pedras da estrada, um pouco inseguros. Eu fiquei iluminando o começo da caminhada deles, mas logo minha luz já foi insuficiente.

E assim são nossos filhos, podemos iluminar um pouco do caminho deles, mostrar uma direção entre tantas, dar algumas dicas, mas o caminho eles terão de fazer sozinhos, enfrentando, seguros ou não, os tropeços que virão. Eles tem olhares próprios para o mundo. Tem seu brilho próprio. Nossas estrelas não podem sufocar as deles.

Nestes dias que passamos na fronteira e no Uruguai nós formamos uma espécie de família ambulante. Uma combinação bonita que, com um pouco de bom humor, improvisação e paciência, no final, deu certo. Gostei muito.

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