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Archive for abril \29\UTC 2010

Personagens dos arenitos

Por Edson Struminski (Du Bois).

É uma quinta-feira e recebo uma ligação com o prefixo 012. Algum lugar de São Paulo, penso. É o Eliseu (Eliseu Frechou, do jornal Mountain Voices), que naquele jeitão curto e grosso dele me diz: “Tô indo aí na sexta, pra ver os arenitos, então vamu no fim de semana fotografar tal coisa, fazer tal coisa, etc, etc,…”, enfim, o espertalhão já montou toda minha agenda.

No sábado às 7 da manhã lá vem o sujeito bater na minha casa, no morro Anhangava (em Quatro Barras, na porção leste da Região Metropolitana de Curitiba). E eu com uma baita vontade de ficar no morrinho, dormir um pouco mais…

Mas o Eliseu está longe de ser um chato que gruda na gente. Ele já seria um “herói da resistência do montanhismo brasileiro”, apenas por manter, fazem longos 19 anos, um informativo de montanha que segue sendo a referência impressa do que acontece nas montanhas brasileiras. Além disso, o sujeito é um montanhista de verdade, bom escalador e acostumado com enroscos, a quem eu conheço há bem estes 19 anos. Então andar com ele é, por si só, um privilégio. De quebra, catamos em Campo Largo (no lado oeste da Região Metropolitana de Curitiba), dois outros personagens que são os próprios “senhores do arenito” no mundo da escalada, que são o Ed (Edmilson Padilha, da Conquista) e o Val (Valdecir Machado), uma dupla sertaneja que faz sucesso em vários arraiais de arenito da região, ou seja, são responsáveis pela abertura de vários setores de arenito e, com isto, estão girando a bússola da escalada para o interior do Estado do Paraná, como estes lugares que visitaríamos com o Eliseu. Aliás, com o próprio Ed tinha ido dias atrás dar uma corrida de fim de tarde no Setor 1, o mais próximo de Campo Largo, além de já ter ido algumas vezes ao Setor 3, quase todo para escaladas em móvel.

Porém, mais do que escalar, o que importava para mim, neste passeio, era entender o que passava na cabeça destes personagens e de outras pessoas que encontraríamos ao longo da viagem, quando escalavam ou pensavam em abrir um setor novo de escaladas nos arenitos paranaenses.

Setor Curucaca

Curucaca é uma ave, um papagaio que costuma fazer ninhos nos platôs do arenito. O Setor Curucaca é um setor de escaladas fortes, negativas, de graduação alta, que reflete bem o estágio atual que a escalada tem alcançado neste tipo de rocha. Não é um setor particularmente popular, apesar de que naquele dia em questão estava bastante frequentado.

Aos poucos vou entendendo o trabalho de meu amigo Eliseu e vou também podendo contribuir um pouco mais com ele. Eliseu está produzindo uma matéria sobre os arenitos para o Mountain Voices, mas também está coletando depoimentos para um blog que ele mantém no ESPN, além de produzir fotos e realizar uma filmagem para um documentário. Então ele faz um pouco de tudo, conversa, fotografa, escala e filma os demais escaladores, em um padrão que exige cuidados como excesso ou falta de luz, sombras, objetos que poluam o fundo das imagens. Tudo bastante rápido e profissional, ao contrário daquela falta de compromisso que temos quando fazemos nossos vídeos caseiros. Na medida em que Eliseu coleta o depoimento de Ed e Val na forma de vídeo e, para minha surpresa, de mim mesmo, vou percebendo a importância do seu trabalho. Me dou conta, um pouco constrangido, que depois de mais de 30 anos escalando, fiz pouquíssimos depoimentos deste tipo e que na casa de um sujeito de São Bento de Sapucaí, interior de São Paulo vai se acumulando, de forma espontânea, registros da história do montanhismo, felizmente bem tratados.

O trabalho que Eliseu realiza é complexo, porque os depoimentos que ele coleta, por exemplo, terão de ser transcritos, os filmes editados, o roteiro que ele fez, transformado em uma ou mais matérias para blog, papel, etc. Existem poucas pessoas no Brasil com este nível de cuidado jornalístico dentro do montanhismo. Se for considerar que ele, além de tudo, ainda faz edição de DVDs, guias, do MV, mantém uma escola de escalada em São Bento do Sapucaí e arranja tempo e disposição para correr atrás de patrocinadores para escaladas e expedições no Brasil e fora dele, cuidar de filhos, etc, dá para imaginar o que é a vida deste paulista de 42 anos completados naquele fim de semana.

Já Ed e Val são os responsáveis diretos pela abertura, não só do Curucaca, como também de vários outros setores de arenito. Eliseu coleta o depoimento deles na forma de vídeo e, como o fim de semana é longo, eu próprio vou investigando, de forma mais discreta, o modus operandi deste pessoal. Como as paredes de arenito ficam muitas vezes escondidas pela vegetação ou enfurnadas em cânions, acabam exigindo um método particular para encontrar lugares novos. É o que faz Val, rodando por estradas rurais, conversando com as pessoas, pegando uma dica aqui e outra ali. Depois que se constata a viabilidade de um lugar, tem início a faina de abrir ou recuperar uma trilha, ajeitar bases de vias, escalar alguma via mais fácil, instalar uma parada, tentar várias linhas e colocar aquela multidão de chapas que a escalada desportiva exige. Um trabalho de descoberta, mas que pode roubar dias do simples ato prazeroso de ir escalar.

Buraco do Padre

No dia seguinte estamos em Ponta Grossa, na região do Buraco do Padre. A estrada para este lugar é muito arenosa e em parte do dia iríamos conviver com veículos atolados. Aliás iniciamos o dia tentando desencalhar um carro na chegada do setor e depois, já na volta, um caminhão encalhado trancaria a estrada. Por fim, ao driblar o caminhão por uma estrada de lavoura de soja teríamos que desencalhar o próprio carro do Eliseu.

Existe um punhado de setores na região do Buraco, além da belíssima e incomum cachoeira onde batizei um dos meus filhos. Todos estes lugares são bem acessíveis e não foi difícil encontrar um grupo grande e simpático de escaladores de Ponta Grossa, região onde a escalada vai aos poucos tomando impulso.

Talvez pela peculiaridade do arenito, que produz solos frágeis, já é visível a preocupação do pessoal que frequenta as paredes com a conservação dos lugares de escalada. Escuto isto em conversas espontâneas dos escaladores em relação à necessidade de formar “regras” de uso que não interfiram com a existência do lugar, ou mesmo de se organizar melhor. De qualquer modo, achei muito saudável ser surpreendido por este tipo de conversa enquanto as filmagens do Eliseu corriam contra o tempo.

 Os arenitos e o futuro da escalada no Paraná

Acompanhando o montanhismo há anos como estou, penso que se existe uma região no Estado que ainda tem grande potencial de crescimento na abertura de novos setores de escalada, esta região é o interior do Paraná, em particular nas linhas de escarpas de arenito e outras rochas existentes na região de Ponta Grossa e Londrina, onde aliás estive com o Ed e com o Val em um encontro em 2007. Obviamente ainda é possível a abertura de várias escaladas e mesmo alguns setores nos granitos da Serra do Mar paranaense, mas o potencial do arenito é consideravelmente maior.

Entretanto, para aqueles que sabem e conseguem fazer a ligação entre dois estilos de escalada tão diferentes, a desportiva dos arenitos e a de grandes paredes de granito da Serra do Mar, este pode ser o melhor dos mundos: aliar a escalada forte com a de resistência. Neste sentido o Paraná é privilegiado.

Depois de deixar Ed e Val em Campo Largo e a mim mesmo no Anhangava, lá se vai o Eliseu para sua curiosa, às vezes quixotesca, às vezes depreciada, às vezes polêmica, mas certamente muito importante, tarefa de registro do mundo da escalada no Brasil.

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