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Archive for the ‘textos de pesquisa’ Category

Por Edson Struminski (Du Bois)

O Encontro Científico sobre Uso e Conservação de Montanhas foi um dos eventos que integrou a Primeira Semana Brasileira de Montanhismo que aconteceu no Rio de Janeiro, entre os dias 23 de abril e primeiro de maio deste ano.

Conforme comentei em uma postagem anterior neste blog, apresentei uma conferência que apresenta dados sobre a produção científica desenvolvida no Brasil.

Os dados tem origem no site www.pesquisaemmontanha.wordpress, criado em janeiro de 2009 e que adapta a plataforma gratuita para blogs do wordpress na forma de um banco de dados que faz links com pesquisas já publicadas em outros meios eletrônicos. Normalmente um trabalho de “garimpagem” na internet é feito com o intuito de serem encontrados trabalhos que possam integrar o banco de dados do wordpress, muito embora os pesquisadores possam enviar espontaneamente também seus trabalhos para integrar esta base de dados.

O leitor interessado nas pesquisas encontra um título resumido, autores dos trabalhos, o resumo da pesquisa e algumas palavras-chave, juntamente com um link que permite o acesso ao trabalho integral.

Um resumo sobre a pesquisa em montanha no Brasil

No momento em que apresentei a conferência no Rio, o site Pesquisaemmontanha.wordpress apresentava 159 trabalhos linkados nas categorias: documentos de referência (12), relatórios técnicos (10), conjuntos de mapas (2) e conjunto de imagens (2), geralmente produzidos por instituições, além de documentos científicos (133), estes últimos produzidos por pesquisadores individualmente ou em grupos.

Em alguns casos os documentos de referência e os relatórios técnicos apresentam mais de uma pesquisa produzida sobre um tema determinado. É o caso, por exemplo, de planos de manejo ou de workshops sobre um parque em montanha, com vários trabalhos individuais agrupados nas mais diferentes áreas de conhecimento. Nestes casos, para fins estatísticos, os trabalhos foram desagrupados como produções individuais separadas, como de fato são, elevando a mais de 180 o número de pesquisas produzidas em montanha.

É possível perceber que as grandes áreas de conhecimento estão representadas: ciências biológicas, humanas e geociências e muito embora fauna, flora e geologia sejam áreas tradicionais de pesquisa quando se imagina um ambiente natural como uma montanha, já existem 20 trabalhos na categoria “manejo”, que foram produzidos em trilhas ou em recuperação de áreas em montanha, havendo também um expressivo número (40) de pesquisas que tratam de aspectos sociais ligados à montanha.

A distribuição da pesquisa no Brasil

Em um país de dimensões continentais como o Brasil, com uma longa cadeia de montanhas paralela à costa atlântica, que vai do sul da Bahia ao norte do Rio Grande do Sul e mais inúmeras chapadas e afloramentos rochosos distribuídos no interior do país, já é uma discussão ultrapassada a que especula se existem ou não montanhas no Brasil.

Os trabalhos científicos das áreas de ciências biológicas, por exemplo, demonstram com muita clareza a transição de ambientes entre diferentes patamares altimétricos, além da presença de ecossistemas e de espécies da fauna e flora que só se explicam pela presença de um ambiente montanhoso ou de um afloramento rochoso. Os ecólogos descrevem ambientes de montanha pela presença, por exemplo, de florestas altomontanas, campos de altitude ou vegetações rupestres, juntamente com espécies endêmicas de montanhas, ou seja, que só ocorrem nestes ambientes específicos.

Estas espécies representam uma nova fronteira do conhecimento que está sendo aberta porque mais pesquisadores estão se aventurando em montanhas. Em parte pela presença destes ambientes diferenciados, foi possível detectar também usos particulares, alvo dos estudos das ciências humanas.

Foi possível identificar produção científica em montanhas em mais de 80 instituições de treze estados brasileiros, incluindo alguns do nordeste e envolvendo mais de 300 pesquisadores. No entanto, 57% da pesquisa é produzida em dois estados: Rio de Janeiro e Paraná. São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul somam mais 41%. A UFPR é a instituição do país com mais trabalhos publicados, seguida da UFRJ. Quatro grupos de pesquisa, com temáticas relacionadas a estes assuntos estão na base de dados do CNPq. Todos recentes, criados a partir de 2008 no Rio e Paraná.

Assim, estes estados do sul e sudeste do Brasil concentram, com suas universidades e instituições de pesquisa, a produção nesta temática no país. Provavelmente isto se deve à melhor estrutura das instituições de pesquisa destes estados, acesso mais facilitado às montanhas e, o que não é desprezível, tradição em montanhismo e na escalada, atividades que aparecem estudadas em mais de 60 trabalhos (estudos sobre trilhas em montanhas aparecem em outras 15 pesquisas).  Certamente não por acaso, estes estados reivindiquem maior antiguidade na prática do montanhismo no país.

A produção disponível na internet é, obviamente, recente. O trabalho mais antigo disponibilizado na rede data de 1984. A partir do ano 2000 nota-se um crescimento no número de trabalhos disponibilizados, mas ainda é um crescimento irregular, o que pode significar que a pesquisa ainda está em fase de florescimento, com muitos trabalhos sendo produzidos em um período, seguidos de temporadas sem produção. Provavelmente os grupos de pesquisa, todos recentes, ainda não puderam imprimir regularidade na produção neste setor. Aliás, me parece que ainda não existe uma linha de financiamento específica para estes ambientes.

Acredito que alguns temas de pesquisa em montanhas provavelmente irão adquirir importância nos próximos anos. São eles: instabilidade de encostas, manejo de UCs em montanhas, aquecimento global e montanhas, turismo, biodiversidade de espécies e de ecossistemas montanhosos.

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Estudo avalia a capacidade de resistir a incêndios da vegetação do parque com as montanhas mais altas do Paraná.

Por: Edson Struminski (Du Bois)

 A lembrança ainda fresca dos incêndios (incluindo cicatrizes na paisagem) que de forma tão trágica ocorreram no Parque Estadual Pico Paraná em 2007 e 2008, motivou a execução de um trabalho que pudesse prevenir, minimizar ou, ao menos, entender por que ocorreram estes incêndios nas montanhas mais altas do Paraná. Este trabalho foi desenvolvido entre os meses de julho e setembro deste ano de 2009 sob os auspícios do Instituto Ambiental do Paraná.

Percorrer a região com as montanhas mais belas do Estado, a estudo, prazer ou lazer, (na verdade todas estas coisas junto), representa um privilégio inigualável, todos sabem disto. Um certo número delas não visitava havia mais de uma década, um pequeno número delas eu ainda não conhecia. Então mapear o risco de incêndios nesta região surgiu como uma oportunidade de refazer o roteiro destas montanhas, ampliar e atualizar minha leitura montanhística da região, mas também representou uma grande responsabilidade, pois significa contribuir para proteger um pouco das paisagens notáveis desta região.

De início, posso dizer que aquilo que encontrei a respeito de teoria sobre incêndios florestais não me satisfez muito. A teoria tradicional não assimila bem a variedade de ambientes que encontramos em diferentes montanhas e como elas reagem ao fogo: florestas de baixa e média encosta, florestas de altitude, ou diferentes formações herbáceas de altitude: campos úmidos, secos, rupestres (arenito), rupícolas (granito), etc.

Na verdade esta teoria é bastante utilitarista. Pastagens, agricultura, reflorestamentos, etc, são priorizados pelo valor econômico que possuem, assim ambientes naturais ficam um pouco na berlinda, quando se trata de proteção contra incêndios.

Então, o jeito foi voltar para a escola. No meu caso a Escola de Florestas da UFPR. Bibliotecas, conversas com professores e colegas, muitas leituras (veja abaixo algumas das referências, de 1 a 7). Meu problema era menos entender como combater incêndios, algo que a prática muito já me ensinou e também a muitos montanhistas, do que em entender a capacidade de florestas e campos de altitude de resistir a eles, algo que tem o potencial de mudar equipamentos, técnicas e principalmente estratégias. Este entendimento começaria a surgir como um quebra cabeças que eu iria montando a partir da laboriosa contribuição de meus colegas engenheiros, que deixaram teses, dissertações e estudos sobre florestas e campos de altitude, incêndios, impactos ambientais em montanhas, etc.

À medida que fui assimilando este conhecimento me senti mais à vontade e mesmo necessidade de ir olhar para as montanhas com os olhos de quem tinha absorvido toda esta teoria e queria vê-la no lugar. Após elaborar um mapa de vegetação (as fotos aéreas disponíveis ainda são da década de 1980), base do mapa de risco de incêndios, projetei alguns pontos de visita, tanto na base das montanhas como em algumas das trilhas de altitude, para atualizar o mapa e conferir as condições do terreno.

 Investidas

 Junto com Vanessa Ariati, uma estudante de biologia da PUC-PR que está realizando um estudo botânico no pico Caratuva (uma das montanhas do parque, justamente a que incendiou em 2007) e com um funcionário do Instituto Ambiental do Paraná, realizei uma primeira investida aos pés do Pico Paraná, na chamada janela do rio Cotia (onde inicia a trilha que leva às escaladas do pico Ibitirati), um local degradado, mas com potencial para receber alguma estrutura de combate a incêndios e também a um local que eu não conhecia, a usina de energia Capivari-Cachoeira, que pertence à companhia de energia paranaense e que faz divisa com o parque. Neste último local fomos surpreendidos pela existência de um grupo de emergências, com pessoal treinado para incêndios e atendimento a acidentes. Um ponto favorável para a região.

Com Vanessa fiz uma segunda investida de tres dias no eixo da trilha do Pico Paraná (incluindo a participação em um resgate circunstancial de uma turista), com ascensões ao Getúlio Vargas, Caratuva (montanhas que sofreram o incêndio de 2007), PP, Itapiroca e ao belíssimo Taipabuçu.

Também fizemos uma laboriosa e cansativa investida no eixo da trilha Camapuã-Tucum, Cerro Verde-Siririca (dois dias), com volta pelo “caminho do Professor” (um dia). No início desta trilha encontra-se o Pedra Branca, montanha que também incendiou, em 2008. O cansaço foi compensado pelo tempo aberto e pela beleza e tranqüilidade destas montanhas.

No Getúlio e no Caratuva fizemos uma avaliação do incêndio de 2007 e dos impactos da instalação de antenas e de outros cacarecos no cume desta última montanha. Com isto, aos poucos, foi possível montar as peças do quebra cabeças do fogo nas montanhas.

 Percepções sobre a ecologia de incêndios em montanha.

 A intenção deste artigo foi apresentar uma breve conclusão sobre o que estudamos e vimos em termos de incêndios em montanhas aqui para o Paraná. Penso que parte disto vale para qualquer montanha tropical.

A percepção de quem visita o parque do PP com os olhos voltados não apenas para a paisagem e sim para o uso público, particularmente no que diz respeito ao risco que esta visitação traz ao ambiente natural (via incêndios) é, hoje, um tanto quanto desalentadora.

O visitante dos picos Tucum, Siririca, etc, inicia seu passeio por uma trilha com a sinistra paisagem do morro Pedra Branca queimado no seu lado direito.  A trilha circula em meio a uma vegetação arbórea, mas que visivelmente sofreu em um passado não muito distante (20 anos) com incêndios. Bambus e altas taquaras em grande quantidade despejam grande quantidade de folhas e gravetos secos na beira da trilha. Trata-se, igualmente, de um ambiente propício a um incêndio florestal de superfície, como aliás foi o início do incêndio ocorrido em 2008.

Também a vegetação do início da trilha que dá acesso ao Pico Paraná, é basicamente secundária, porém herbácea e arbustiva (samambaiais, bambusais, gramíneas, arbustos) resultante de incêndios anteriores e recentes no pico Getúlio. Ela queima fácil, muito embora ela volte rapidamente ao estágio herbáceo, quando sofre um incêndio, particularmente em altitudes menores. De qualquer modo, a possibilidade de ocorrência de um novo incêndio é alta nesta trilha, uma questão de tempo, tendo em vista a alta visitação que esta região recebe.

 Algumas conclusões

 Algumas das trilhas deste parque estadual, mesmo algumas que não são assim tão visitadas, estão em péssimo estado de conservação, com erosões, deslizamentos, lama, áreas de instabilidade, degraus de ferro arrancados, degradação da vegetação, espécies invasoras, lixo, áreas de acampamentos em excesso, mas principalmente tem problemas com vegetação passível de ocasionar novos incêndios, este sim, um problema com impacto duradouro no parque. Algumas montanhas tem passivos ambientais gerados pela construção de antenas de comunicação (Caratuva, Siririca). Mas toda esta longa lista é relativamente fácil de resolver. Alguns recursos financeiros, materiais e pessoal com vontade de trabalhar dão conta destes problemas localizados, em tempo relativamente curto (com base na minha experiência no assunto estimo um ano ou dois). Uma antena desativada, por exemplo, pode simplesmente ser desmontada e levada embora de helicóptero.

Já o dano causado por um incêndio tem um efeito muito mais duradouro no ambiente. A recuperação natural pode acontecer (ou não) em uma escala de tempo muito superior a que estamos acostumados na nossa escala humana (centenas de anos?). O próprio tempo de formação destes ambientes de altitude extrapola o período que a civilização humana levou para chegar ao estágio atual nesta região.

A vegetação secundária ou oportunista (samambaiais, bambuzais) está em contato com áreas de florestas e campos de altitude. Nestas áreas, a ocorrência de incêndios acaba tendo impactos irreversíveis, como parece ser o caso do pico Caratuva. De modo geral as florestas de altitude, apesar do seu aspecto de antigas e duráveis, são extremamente frágeis, pois dependem exclusivamente da reciclagem das folhas que caem das próprias árvores (húmus), para se nutrir. O solo, basicamente orgânico retém pouca umidade em certas épocas do ano (períodos de estiagens sazonais), mas as árvores são resistentes a estas sazonalidades. Porém, caso ocorra um incêndio (como de fato ocorreu), o solo é queimado (incêndio subterrâneo), as árvores perdem a sustentação e ocorre uma instabilidade geral no ambiente. O efeito é devastador. Então, no caso de florestas de altitude não existe a menor dúvida. O incêndio é fatal, destrutivo e pode até mesmo se tornar um dano irreversível. As áreas em que as trilhas atravessam as faces norte e oeste das montanha são as piores situações de risco de incêndios, além é claro, dos acampamentos. Mas o risco é geral, pois um raio ou um balão podem cair longe destes pontos.

De modo geral um incêndio será um pouco menos desastroso para as formações de campos de altitude. Estas formações não são uniformes (podem existir arbustos, bambus, bromélias, etc) e nem sempre correspondem a aquela imagem de “campos” com a qual estamos acostumados. Dentro da variedade de campos, existem ambientes mais propensos a colonizarem locais permanentemente secos e outros permanentemente úmidos, além de campos em ambientes intermediários (sem considerar aí a florística). As espécies que colonizam estes ambientes podem ser diferentes e naturalmente o comportamento do fogo será diferente. Existe uma chance maior de sobrevivência por parte de algumas espécies em caso de incêndio em campos de altitude, dependendo da quantidade de umidade que consigam reter no solo abaixo deles, mas nem todas as espécies suportarão bem o fogo. O mais provável é que o campo de altitude fique mais semelhante e a um empobrecido “pasto de altitude”, caso sofra queimadas (caso do pico Getúlio).

De qualquer modo, como são ambientes altamente especializados e frágeis, não há nenhuma evidência científica de que o fogo seja recomendado como instrumento de manejo em nenhum dos dois casos. A respeito disto pode-se ler uma interessante polêmica na internet. (8).

Como recomendações gerais para este parque está a orientação dos visitantes, o manejo (corte de samambaias e bambus) nas margens da trilha (para favorecer o crescimento de vegetação florestal) e a formação de brigadistas, com fundamentos em ecologia de montanha.

Também recomendo o acompanhamento meteorológico. A retirada de alguns equipamentos inservíveis no cume do Caratuva e a instalação de uma estação meteorológica pode ser uma opção interessante para o parque. Da mesma forma estou sugerindo a construção de uma casa de combate a incêndios e apoio a resgates no pico Getúlio, nos moldes das existentes no morro do Canal e Anhangava. Neste local pode ser feito um armazenamento de água para rescaldos.

 Anualmente ocorre, de forma natural, um fenômeno simples e importante nas florestas de altitude: as árvores renovam as folhas. Folhas velhas caem, se acumulam no solo, decompõem-se lentamente e liberam nutrientes para as próprias árvores. Este fenômeno ocorre no fim do inverno e início da primavera, época em que o calor aumenta no hemisfério sul e em que pode ocorrer uma estiagem eventual. Esta combinação de grande quantidade de material seco no solo, mais temperaturas subindo, mais secas eventuais, junto com um “plus” adicional nas faces norte e oeste (além é claro da visitação desregrada das “temporadas de montanha”), foram determinantes para os incêndios anteriores.

Conhecer isto é fundamental para prevenir novos incêndios.

 Mais sobre ecologia de altitude:

 (1) ROCHA, M. do R.L. Caracterização fitossociológica e pedológica de uma Floresta Ombrófila Densa Altomontana no Parque Estadual Pico do Marumbi, Morretes, PR. Curitiba, 1999.Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná.

 (2) SCHEER, M.B. & MOCOCHINSKI, A.Y. Florística vascular da Floresta Ombrófila Densa Altomontana de quatro serras no Paraná. In: São Paulo, Biota Neotropical, FAPESP, n. 9(2), 2009, p. 1 -19.

 (3) STRUMINSKI. E.   Parque Estadual Pico do Marumbi, caracterização ambiental e delimitação de áreas de risco. Curitiba, 1996. Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná. 112 p.

 (4) PORTES, M.C.G.O. Deposição de serrapilheira e decomposição foliar em Floresta Ombrófila Densa Altomontana, morro do Anhangava, Serra da Baitaca, Quatro Barras, PR. Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná.Curitiba, 2000.

 (5) KOEHLER, A. Floresta Ombrófila Densa Altomontana: aspectos florísticos e estruturais do componente arbóreo em diferentes trechos da Serra do Mar, PR. Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2001.

(6) MOCOCHINSKI, A. Y.; SCHEER , M. B. Campos de altitude na serra do mar paranaense: aspectos florísticos. In:  FLORESTA, Curitiba, PR, v. 38, n. 4, p. 625-640, out./dez. 2008.

 (7) TRAMUJAS, A de P. A Vegetação de Campos de Altitude (Áreas de Refúgio) no Maciço Ibitiraquiri – Serra do Mar no Estado do Paraná. Curitiba, 2000. Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná.

 (8) RIBEIRO, K. T. Campos, fogo e gado, considerações sobre o artigo de Pedro Hauck “origens dos campos de altitude”. In:  http://www.altamontanha.com/colunas.asp?NewsID=1425.  Acesso em  26/5/2009 .

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Por Edson Struminski (Du Bois)

 

No início do mês de agosto de 2008 concluí-se o projeto de recuperação ambiental e de manejo de trilhas nos Mananciais da Serra, um belo lugar situado aos pés da Serra do Mar paranaense, a 35 km de Curitiba, capital paranaense.

Os trabalhos envolveram três trilhas e uma estrada centenária e foi realizado com o intuito de valorizar o potencial turístico natural e histórico desta região, a partir da implantação de um sistema de trilhas com características conservacionistas e sustentáveis. Em um certo sentido tratou-se de um trabalho pioneiro no Estado do Paraná, pois, como comenta Costa et al. (1), atualmente especialistas (ecólogos, biólogos, geógrafos, engenheiros florestais, etc.) detém conhecimentos que transformam a abertura de trilhas em um trabalho científico, pedagógico e até mesmo paisagístico e, de fato, foi o que aconteceu no local, a partir de um projeto elaborado em 2006 (2).

O sistema implantado no local substitui trilhas e estradas que encontravam-se em estado de abandono ou com manutenção precária ou inadequada, sendo, em alguns casos, geradoras de passivos ambientais ou causadoras de graves problemas ambientais na região.

Com a melhora do leito das trilhas mediante diques,  calçamentos rústicos e outros apoios, o visitante terá a opção de utilizar trilhas em melhores condições, evitando naturalmente assaltar as margens destes caminhos. As erosões e excessos laterais foram, em grande parte desativadas e, naturalmente começarão a ser colonizadas pela vegetação nativa, resultando em um avanço das margens dos caminhos. Da mesma forma, ao se implantar um calçamento e/ou um leito de trilha definido, as larguras média e máximas das trilhas serão menos vulneráveis ao efeito “sazonal” do aumento da visitação em feriados e períodos invernais, quando mais pessoas frequentam a região e a vegetação encontra-se em fase vegetativa, portanto, mais vulnerável.

 

A TRILHA DO MORRO DO CANAL

 

A trilha do morro do Canal merece um comentário à parte, em função de ser bastante procurada pelos montanhistas que freqüentam os setores de escalada existentes neste lugar. Ao longo desta trilha formaram-se diversos locais onde a passagem dos visitantes levou a remoção da vegetação e a movimentos de massa (deslizamentos) que expuseram o substrato rochoso. Ao longo dos anos soluções improvisadas foram realizadas com o intuito de diminuir o risco para os visitantes, como a colocação de cordas, as quais foram substituídas por apoios metálicos, pois constatou-se que os visitantes continuavam utilizando as laterais das áreas deslizadas para apoio, algo que continuava mantendo o ciclo de destruição da vegetação e remoção do solo da margem da trilha e, em última análise, ampliando a área degradada pela trilha.

Nem todos os visitantes do  local são montanhistas com prática em terrenos declivosos, ou possuem a condição física ideal para esta atividade, assim, estes equipamentos conduzem, com segurança os visitantes pelo centro das rampas, evitando o desgaste das laterais da trilha

A instalação de equipamentos fixos como degraus e correntes em ambientes de montanha é motivo de polêmica entre a comunidade de montanhistas. Uma parcela mais purista destes esportistas defende não só a não instalação destes equipamentos, como a sua retirada em montanhas onde já estejam instalados. Este pensamento parte do princípio de que se uma pessoa não é plenamente habilitada para caminhar em uma montanha, então não deveriam ser instalados equipamentos para facilitar sua ascensão. Já no extremo oposto estão aqueles que defendem a democratização do acesso aos locais montanhosos, justificando a instalação de qualquer facilidades com o argumento de ampliação da base social do esporte.

Ambos os argumentos tem falhas e méritos. Segundo Nuñez (3), a banalização atual dos perigos da montanha cria uma falsa atmosfera de segurança, que favorece certas atitudes despreocupadas e irresponsáveis. Para este comentarista,  o número de pessoas que vez ou outra se expõe, sem saber, a riscos desnecessários é incrível e alarmantemente grande, gerando a necessidade de resgates que provocam danos ambientais e expõe os próprios resgatistas a riscos adicionais. Porém, a utilização de escadas de ferro e correntes, mais segura quando o tempo está aberto, pode se tornar, conforme  Schubert (3), um risco com o tempo tempestuoso, pois este tipo de equipamento de segurança pode tornar-se um para-raios por sua menor resistência elétrica, gerando risco adicional para os visitantes da montanha em tempo chuvoso.

Todos estes fatos foram pesados, sendo que neste projeto, procurou-se conciliar a proteção dos recursos naturais com a segurança dos visitantes, através da instalação de novos equipamentos de segurança, o que, obviamente minimiza, mas não elimina de todo a possibilidade de acidentes. De qualquer forma, entende-se que o turismo em massa não é compatível com um ambiente de montanha tropical, como o do morro do Canal e que a visitação desta montanha, certamente uma experiência interessante, deve ocorrer com um mínimo de orientação. Tudo isto significa que a gestão futura de uma área deste tipo terá de ser cada vez mais cuidadosa.

De qualquer modo, no sentido de evitar esta banalização que foi comentada acima, foram deixados locais onde o visitante poderá experimentar a sensação e a dificuldade da ascensão de uma montanha, sem ter de correr riscos desnecessários, além de serem realizadas  algumas medidas preventivas, como o calçamento em pontos com erosão, a colocação de sinalização na forma de fitas plásticas de cor amarela, que foi implantada para orientar o visitante na subida e descida da trilha, bem como a instalação de uma placa com uma série de informações de caráter educativo/orientativo no início da trilha do morro do Canal.

 

ALGUMAS CONCLUSÕES FINAIS

 

Entendeu-se que este projeto deveria executar mais do que meras obras de engenharia civil, recuperar áreas degradadas ou apenas adequar trilhas para uso turístico. Desde o início ficou claro que deveria ser importante gerar também ganhos sociais e ambientais (e não impactos ambientais, como é comum na implantação de qualquer projeto) que, inclusive, ultrapassassem o limitado período de execução do projeto (6 meses). A maior parte dos recursos do projeto foi gasta no comércio local e quase 90 % dos trabalhadores eram da região, alguns pertencentes a famílias com longa tradição em trabalhos de campo na região.

Além da recuperação de áreas erodidas,  o manejo das trilhas apoiou-se também em técnicas e conhecimentos recentes de manejo florestal, que supõe o manejo de borda destas trilhas e estradas, envolvendo o corte de vegetação de caráter oportunista que aparece naturalmente em áreas de borda sujeitas a insolação intensa, caso das bambusáceas e da samambaia (Pteridium aquilinum), o que vem irá permitir o aparecimento de espécies florestais que deverão ocupar estes espaços.

Estas medidas deverão refletir-se positivamente na forma de aumento da biodiversidade florestal na borda das trilhas, redução de risco de incêndios, melhoria da possibilidade de trânsito para a fauna local e também na captura de carbono por parte desta borda florestal. Isto significa gerar um ativo ambiental para a empresa contratante do projeto (Sanepar), na forma de carbono capturado que futuramente poderá ser medido em uma área de aproximadamente 100 mil metros quadrados, correspondente a cerca de 10 metros laterais manejados em aproximadamente 10 km de trilhas e estradas da região. Na verdade, embora pouco evidente, este ganho ambiental é de longe o principal e mais longo benefício que o projeto deixará na região.

Conforme foi proposto no diagnóstico realizado nestas trilhas em 2006 (2), sugeriu-se que a liberação para o público das trilhas manejadas neste projeto ocorra apenas após um período de seis meses a um ano após a finalização dos trabalhos, após o período em que ocorre o  aumento de material combustível pela seca deste tipo de vegetação.

Este período inicial de pousio é necessário para que os materiais combustíveis gerados pelos cortes de espécies oportunistas sejam decompostos naturalmente, para que haja controle de rebrotas  e para que o processo de sucessão natural (via mudas ou banco de sementes já disponíveis no local), estimule a ocupação gradativa das áreas manejadas por espécies arbóreas, que irão sombrear e umedecer as bordas da trilha, reduzindo assim o risco de incêndio. Também é um período importante para que haja acomodação natural do calçamento colocado em algumas trilhas.

Também é importante relembrar que de acordo com experiências de manejo já realizadas, o prazo para o completo desaparecimento ou redução substancial destas espécies oportunistas é dois anos, período em que  é recomendável a manutenção do controle de rebrotas das espécies oportunistas, por meio de corte seletivo. Mesmo assim permanece válida a observação de que um ciclo completo de recuperação para estas áreas demandará no mínimo cinco anos, período em que é importante monitorar eventuais focos de incêndio remanescentes, além de manter-se orientação e apoio aos visitantes, com relação a procedimentos seguros nas trilhas, a interpretação da natureza, do patrimônio histórico e das atividades de recuperação realizadas.

É recomendável, também, que, após a fase inicial de planejamento e a posterior de implantação, as áreas em recuperação sejam monitoradas, através de medições que acompanhem a evolução da erosão e a largura dos caminhos, de modo a verificar o  acerto dos trabalhos realizados ou a necessidade de eventuais correções.

Também deverá ser estabelecida uma capacidade de uso para as trilhas da região. Neste sentido Stankey et al. (4) apresentam uma reformulação do conceito de capacidade de carga recreacional, sendo que a ênfase primária deverá estar nas condições desejadas para uma determinada área, ao invés de quanto uso uma área poderá tolerar.

]Finalmente, é importante recomendar cautela no uso destes novos recursos criados nesta região. Ainda que, conforme Farrel (5) muitos problemas advindos do uso recreativo das áreas naturais não sejam conseqüência exatamente do número de pessoas envolvidas, mas do comportamento dos visitantes, do manejo dos recursos e da capacitação para administrar essas questões, é importante lembrar que tanto o setor público como o privado, estadual ou municipal ainda não possuem condições para promover ou explorar adequadamente o turismo nos Mananciais da Serra. Toda a estrutura exterior ao projeto implantado, que aqui representa apenas um produto turístico, ainda é precária. Será necessário formar guias, atendentes, pessoas especializadas em emergências. Serão necessárias pousadas, restaurantes, serviços adequados aos visitantes. Tentativas de massificar o uso deste recurso neste instante poderão ocasionar a perda dos ganhos obtidos.

Como o local onde estas trilhas foram manejadas encontram-se hoje dentro da ampliação de um parque estadual (Pico do Marumbi), existe grande possibilidade de que o manejo ali implantado reflita-se em benefícios duradouros. Um primeiro passo foi dado com este projeto.

 

 

 FONTES:

(1)    COSTA, S. M.; GAMA, S. V. G. & MOURA, J. R. S. As trilhas como unidade de análise ambiental: o caso do Maciço Gericinó-Mendanha (RJ). Anais do X Simpósio Brasileiro de Geografia Física Aplicada. Rio de Janeiro, RJ. 2003.

 

(2)    STRUMINSKI, E., BORGES, M.V.K., ALMEIDA, M.R.A., NUNES, T. & BUENO, J. Diagnóstico Ambiental de trilhas dos Mananciais da Serra – Piraquara – Pr; propostas de manejo. Associação Caiguava de Pesquisas, Ecotécnica, Sanepar. Curitiba, 2006.

 

(3)    SCHUBERT, P. Seguridad y riesgo, análisis y prevención de accidentes de escalada. Madrid, Ed Desnivel. 1996. 331 p.

 

(4)    STANKEY, G.H., COLE, D.N., LUCAS, R. C.; PETERSEN, M. E. & FRISSELL, S. S.The Limits of Acceptable Change (LAC) system for wilderness planning. Forest Service. United States Department of Agriculture. General Technical Report INT- 176, p 1-37, 1985.

 

(5)    FARREL, T.A.; Marion, J.L.; The Protected Area Visitor Impact Managent (PAVIM):A Simplified Process for Making Mangement Decisions. Journal of Sustainable Tourism. Vol. 10, No 1, 2.002. p. 31-49.

 

 

 

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Edson Struminski (Du Bois) 

Passados dois meses após o início do projeto de recuperação ambiental e de trilhas nos Mananciais da Serra, torna-se quase inevitável, pelo menos para mim, uma comparação entre aquilo que temos feito no Anhangava, montanha que adotei como moradia há quinze anos e o que estamos fazendo no morro do Canal, uma das trilhas do projeto.

Conheci o Anhangava em 1979 (mais ou menos na mesma época visitei pela primeira vez o morro do Canal) e cheguei a assistir dois incêndios devastadores nesta montanha, o último em 1985, durante uma missa da paróquia da região. Até 1986 era área de extração de granito, com um monte de estradas mal feitas. O município de Quatro Barras, onde fica o morro, chegou a ser conhecido como “capital da pedra”, dentro da Região Metropolitana de Curitiba, título duvidoso, que só esconde o carimbo de “área degradada”, conforme o jargão técnico. Esta conotação mudou com o tempo. Por conta da ampliação da preocupação ambiental governamental, aliada à nossa presença ali, após 1992, o lugar ganhou um status de parque estadual (2002), algo que ainda é pouco mais que um simples papel dentro da papelama geral do Estado, mas que funciona na prática pela ação dos moradores locais, de inúmeros montanhistas e de algum funcionário governamental mais abnegado. No entanto, o simples fato de dar um passeio por ali me faz recordar que o lugar segue sendo um laboratório de idéias, onde é possível experimentar concepções de manejo de áreas naturais que são ensinadas como teoria nas escolas e universidades. Já para mim ele é uma espécie de grande quintalzão. Daí a razão de eu ter um carinho especial pelo lugar.

Os pés do morro do Canal também sofreram, ainda que muito menos, com a mineração e também, eu deduzo, com um grande incêndio há uns 40 anos atrás. O morro foi incluído recentemente (2007) na ampliação do Parque Estadual do Marumbi, também outro papel. Na prática são também montanhistas e um que outro morador local que zelam pela conservação do local. Piraquara, cidade onde fica o morro, é conhecida como “capital das águas”, título real, mas de valor duvidoso para seus munícipes. Neste momento uma terceira grande represa está sendo construída no município.

Voltemos ao Anhangava. O que existe basicamente ali é ainda um esforço bastante individual dos moradores locais e de montanhistas, frente à indiferença da população tradicional, embora a gente perceba que eventualmente estejamos sensibilizando as pessoas, principalmente os visitantes. Já no morro do Canal existe um certo interesse turístico municipal. A criação de um projeto para recuperar trilhas é uma demanda local, ainda que a recuperação ambiental e os cuidados com o manejo do lugar partam mais da sensibilidade e da percepção de nós montanhistas.

No Anhangava, os moradores, alguns deles meus vizinhos, entenderam desde cedo e na pele a importância de proteger o lugar de incêndios. Neste sentido o Anhangava tem apresentado algumas soluções práticas e replicáveis, como um módulo de combate a incêndios, que construímos no terreno de um de nossos vizinhos e que consiste em uma pequena casinha onde estão armazenados objetos importantes para atender a emergências deste tipo e que suprem 4 equipes de campo de seis pessoas. Isto significa que está sempre à mão um conjunto com pá, cortadeira, enxada, abafador, foice e facão, além de óculos, luvas, apitos, uma bomba costal e pronto socorro. Existe ainda uma torre que foi também doada e que acaba sendo usada para visualizar focos de incêndios.  

Agora um módulo destes foi montado no morro do Canal e vai acabar atendendo a emergências mais imediatas na região. Como no Anhangava, vai contar ainda com uma maca para atender a algum eventual acidente na montanha.

Muitas das idéias sobre calçamento das trilhas acabaram também surgindo no Anhangava. Usar material de pedreiras abandonadas, pranchões de madeira, placas de pedra do próprio local, são práticas comuns no Anhangava. Degraus de ferro vieram do Marumbi. Soluções bem boladas para substituir as tenebrosas correntes de ferro que tinham por lá.

Em um certo sentido o Anhangava é exemplar porque muitas destas iniciativas vieram da criatividade dos moradores locais, que convivem com situações que vão muito além daquelas comuns em fins de semana. Isto faz com que o lugar tenha esta singularidade interessante. Seus atuais moradores são os principais atores no sentido da proteção do lugar, algo que ainda não existe em tal intensidade em nenhuma outra montanha do Paraná.

Por outro lado, o grande diferencial que o projeto do morro do Canal tem, pelo menos durante o tempo que estiver sendo financiado, é o fato de que existe uma equipe profissional dedicada ao trabalho de recuperação de trilhas e de proteção ambiental. São “profissionais de trilhas”, se é que podemos cunhar assim esta nova ocupação. Montanhistas dedicados a criar soluções práticas para problemas que a aparecem no dia-a-dia da montanha. Objetivos e metas de trabalho claras. Isto faz com que o tempo de resolução de problemas, informal no Anhangava, arraste-se e soluções adiem-se. Já no morro do Canal tivemos praticamente em um mês um problema grave de risco de incêndios eliminado (através do corte radical dos bambus na beira da trilha, uma espécie nativa, mas oportunista), mais uns dois meses e um calçamento robusto e praticamente incorporado ao local estará concluído. São coisas com que eu sonho há anos no Anhangava e que dependem, talvez, de algumas dezenas de mutirões ao longo de décadas para concretizarem-se. 

Idéias para o futuro 

Vejam então, montanhistas de todo o Brasil, vocês tem feito enormes esforços voluntários. Eu tenho sido voluntário. Horas de escalada e de caminhadas nas montanhas trocadas por tarefas muitas vezes enfadonhas como carregar pedras, cavar buracos, colocar pedras em buracos, etc, etc. Será que isto realmente tem sido útil? Será que está trazendo todo o resultado que queremos?

Já escrevi sobre o Programa Adote uma Montanha aqui no blog. De suas virtudes e suas limitações. Entendo que um programa deste envolve, como resultados, também o despertar da cidadania. Contratar uma equipe profissional é bom, entretanto priva as pessoas de participar das soluções dos problemas em comum.

Por outro lado, me parece que um trabalho empresarial neste sentido não só é desejável como também é cada vez mais necessário. O voluntarismo tem restrições. Uma delas é de pessoal especializado e devidamente motivado para executar tarefas, algo que em uma estrutura empresarial é obrigatório.

Imagino e agora compartilho com vocês leitores, que um modelo híbrido vai acabar aparecendo. Clubes, federações, etc, montando projetos, correndo atrás de recursos, contratando pessoas especializadas e ao mesmo tempo, incluindo voluntários em algumas atividades estratégicas, onde a quantidade de pessoas possa fazer a diferença. O que vocês leitores acham disto?    

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Edson Struminski (Du Bois) 

A trilha do morro do Canal é um trajeto usado por montanhistas há muitos anos nesta montanha situada no fim da Serra do Marumbi. O pessoal da Associação Caiguava de Pesquisas faz parte do “Adote uma Montanha” e tem desenvolvido um trabalho profícuo de manutenção de trilhas nas montanhas desta região há alguns anos. Reconheço algumas originalidades muito interessantes neste trabalho como a construção de mini-pontes de madeira que transpõem buracos e também vi trabalhos inspirados em coisas que foram feitas no Anhangava e no Marumbi, como contenções de erosão com pedras e tábuas de madeira e degraus de ferro.

O Canal deve ter sofrido um tipo de incêndio forte e devastador há cerca de 30 ou 40 anos atrás. Os solos que sustentam a vegetação desta montanha são pobres e a recuperação é muito lenta. Espécies oportunistas como samambaias e bambus (até onde eu percebi são 4 espécies diferentes) ocuparam os espaços de luz disponíveis e apenas muito lentamente as árvores conseguem furar o bloqueio e buscar uma luz mais alto, acima dos bambus.

O que começamos a fazer no morro do Canal agora, tem algo destes trabalhos anteriores, mas também traz uma abordagem totalmente nova em se tratando de trilhas em montanha. Uma revolução em termos de ecologia de trilhas, se é que posso usar esta imagem.

De fato, é possível que muitos de vocês que eventualmente venham a andar nesta trilha agora, acabem ficando até mesmo chocados com o fato de que a trilha do morro do Canal está hoje aparentemente muito mais “aberta” do que o normal, ou pelo menos do que era conhecido como normal até o momento, ou seja, uma trilha com grande quantidade de vegetação que chegava mesmo a dificultar os movimentos.

Esta vegetação está sendo retirada das margens da trilha. Não toda a vegetação esclareça-se, apenas aquela que tem caráter oportunista e costuma gerar uma serrapilheira (resíduos vegetais) altamente inflamáveis e portanto com alto potencial para ocasionar incêndios.

Este trabalho tem nos trazido impressões surpreendentes. É comum estarmos executando o trabalho de corte de bambus e nos defrontarmos com uma muda de uma árvore importante, digamos uma canela  ou uma erva-mate, típicas deste ambiente de Floresta Atlântica e esta muda estar totalmente deformada pela falta de luz. Neste momento acabamos realizando um trato cultural qualquer (poda de galhos, escoramento) que provavelmente deverá ter resultados benéficos rápidos para esta árvore.

Na verdade estamos iniciando na beira da trilha um trabalho que deverá se refletir, cada vez mais, nos próximos anos neste lugar. Uma florestinha deverá ir gradativamente tomando o lugar do bambuzal e um “túnel de árvores” deverá ir acompanhando o excursionista montanha acima. Claro que o ideal seria não apenas ter uma estrutura, por assim dizer, artificial relacionada à vegetação, ou seja este túnel para as pessoas passarem. Mas no momento a trilha apresenta uma situação com efeito de borda muito acentuado. Se a gente conseguir inibir a ocorrência de incêndios nesta borda, a futura floresta, como um todo, desta montanha, irá se beneficiar.

A trilha do morro do Canal é bastante declivosa (em torno de 45o de inclinação). Trabalhos de calçamento começarão a ser feitos e este trajeto se tornará mais seguro e confortável, ou seja, dentro de certos parâmetros usuais em trilhas de alto tráfego.

Também devo dizer que sinto um enorme respeito pelos meus parceiros de trabalho nesta tarefa, todos montanhistas: Pajé e Fábio, moradores do morro do Canal, Tomi, meu vizinho aqui do morro do Anhangava e Daniel Lange, que adotou o Canal como segunda casa. Eles não só entenderam o espírito do trabalho como abraçaram a causa de recuperação desta trilha em particular (também trabalharam na trilha da Chaminé), como uma causa do montanhismo paranaense e em prol de uma montanha paranaense e não apenas como mais um trabalho remunerado a ser executado em um lugar difícil.

Andar com montanhistas executando um trabalho destes representa uma garantia de bons momentos. Vez por outra uma pausa para um mate ou para ver um boulder novo que alguém descobriu. Apreciar a abertura da paisagem ou usar a imaginação para fazer uma simulação da floresta futura.   

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Edson Struminski (Du Bois) 

Páginas dos Mananciais da Serra são posts que irão acompanhar o andamento de um inédito  projeto de recuperação de trilhas que começa a ser realizado na Serra da Melança, em Piraquara – Pr.

Localizada a poucos quilômetros de áreas densamente urbanizadas, a região montanhosa dos Mananciais da Serra, apresenta-se privilegiada por belezas naturais, por uma  rica biodiversidade (trata-se de uma zona de transição entre a Floresta Atlântica e a Floresta de pinheirais) e pela qualidade de seus mananciais hídricos, que tornou esta região, desde princípios do século XX, ponto de coleta para abastecer a cidade de Curitiba, capital paranaense. De fato, em 2008 completam-se 100 anos da captação de água nos Mananciais da Serra. Há todo um rico acervo histórico, nesta região, sobre esta captação centenária.

No início deste século, novas demandas surgiram para esta região. A beleza natural local, vem atraindo cada vez mais visitantes para estas montanhas em busca de belas paisagens e oportunidades de lazer. Entre os locais mais procurados estão trilhas no morro do Canal, estradas abandonadas em torno da represa Piraquara 1 e a antiga estrada do Carvalho, que leva até as primitivas captações de água.

O lugar tem potencial para caminhadas, escaladas, pesca e interpretação da natureza, mas suas trilhas já estavam apresentando sinais de que suas capacidades de suporte estavam próximas dos limites, podendo prejudicar a qualidade da visitação e a segurança dos visitantes. Um levantamento que realizamos em 2006(1) mostrou que existiam problemas de degradação ambiental, como erosões, deslizamentos, risco de incêndios, morte da vegetação e assoreamento de corpos d´água. 

O Projeto de Recuperação de Trilhas dos Mananciais da Serra 

Assim como ocorreu em outros locais turísticos naturais da Região Metropolitana de Curitiba, que começaram a sofrer com os mesmos problemas, nos Mananciais da Serra, estarão sendo feitos trabalhos com o objetivo de manter a qualidade da visitação, mas principalmente, de aumentar a capacidade de suporte (inclusive com ganhos ambientais) dos ambientes naturais existentes ao longo de 4 trilhas existentes na região.

Estes trabalhos baseiam-se no que está sendo chamado aqui de “ecologia de trilhas”(2), a interação entres seres vivos e o ambiente particular das trilhas e que envolve processos abióticos de dinâmica de vertentes (drenagem e controle de erosão) e bióticos (manejo de vegetação da borda), particularizados para as trilhas.

Os primeiros estudos sobre este assunto ocorreram pioneiramente no morro Anhangava (Quatro Barras), local similar aos Mananciais da Serra, a partir da década de 1990(3). Estes estudos, dos quais participei diretamente, acompanharam processos de instabilidade ambiental, como incêndios e seu controle e o manejo de trilhas naquela região(4). Também no Parque Estadual Pico do Marumbi, contíguo à região dos mananciais, realizei estudos(5) que indicaram áreas de instabilidade ambiental em trilhas, associados a movimentos de massa e a áreas sob risco de incêndios florestais. Hoje existem vários pesquisadores/montanhistas realizando estudos em trilhas na região serrana da Região Metropolitana de Curitiba. Pessoalmente estou orientando formal ou informalmente três pessoas.

Como comentei anteriormente, no caso das trilhas existentes nos Mananciais da Serra, foi inicialmente realizado um cuidadoso levantamento das características e problemas(1), em uma área sugerida pela Diretoria de Meio Ambiente da SANEPAR, empresa de saneamento do Paraná. Algumas destas trilhas receberam proposta para readequação de uso visando aproveitamento turístico, em atendimento a uma das 18 demandas sugeridas pelo Conselho Municipal de Turismo de Piraquara como compensação pelo impacto ambiental a ser causado pela implantação da barragem Piraquara II. 

Este trabalho foi realizada por uma equipe interdisciplinar formada por profissionais vinculados á ASSOCIAÇÃO CAIGUAVA DE PESQUISAS, além do apoio de técnicos do  Centro de Educação Ambiental (CEAM) dos Mananciais da Serra, orgão da SANEPAR. A partir de hoje, vocês leitores começarão a acompanhar este projeto, podendo sugerir idéias e alimentar as discussões que aparecerão no blog. 

BIBLIOGRAFIA 

(1) STRUMINSKI, E., BORGES, M.V.K., ALMEIDA, M.R.A., NUNES, T. & BUENO, J. Diagnóstico Ambiental de trilhas dos Mananciais da Serra – Piraquara – Pr; propostas de manejo. Associação Caiguava de Pesquisas, Ecotécnica, Sanepar. Curitiba, 2006.

 (2) STRUMINSKI, E., BORGES, M.V.K., ALMEIDA, M.R.A., NUNES, T. & BUENO, J. Diagnóstico Ambiental e identificação de potencial de uso de trilhas dos Mananciais da Serra –Pr. In: 1O Congresso Nacional de Planejamento e Manejo de Trilhas. Anais. Rio de Janeiro, 2006. 

(3) RODERJAN,C.V. &  STRUMINSKI, E. Caracterização e proposta de manejo da Serra da Baitaca – Quatro Barras – Pr. 2v. Curitiba: FUPEF/Fundação O Boticário de Proteção à Natureza, 1992. 

(4) STRUMINSKI, E. Proteção Florestal. In: Projeto Anhangava. Curitiba: SEMA/IAP, Instituto Gaia do Brasil, 1998. P. 42 – 45. 

(5) STRUMINSKI, E. Avaliação do estado de conservação de uma trilha do Conjunto Marumbi, Serra do Mar paranaense. In: II Congresso Nacional Sobre Essências Nativas. Anais. São Paulo: Instituto Florestal, 1992. p. 1094 – 1098. 

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RISCOS DE INCÊNDIOS 

Edson Struminski (Du Bois) 

Outro fenômeno importante a considerar na ecologia de trilhas são as condições em que a probabilidade de ocorrência de incêndios é maior.

Uma área florestal aberta, alterada (por clareiras, aberturas de estradas ou trilhas) ou rala, representa risco, pois permite penetração livre dos raios solares e do vento na borda (efeito de borda), com aumento na evaporação e na temperatura dos materiais combustíveis, além de permitir a propagação de espécies oportunistas nativas como as bambusáceas, cipós ou a samambaia (Pteridium aquilinum), ou mesmo de herbáceas exóticas como gramíneas, o que contribui para o maior potencial de propagação do fogo, conforme pode ser visto na figura.

É importante, pois relacionar características dos vegetais que aumentam a probabilidade de combustão, são elas: a folhagem e casca inflamáveis, a retenção desta folhagem e a altura escassa do vegetal, fazendo com que a folhagem sujeite-se a incêndios superficiais, que queimam todo o material combustível como folhas e galhos caídos, gramíneas ou arbustos, até 1,80 m de altura(1).

Dentro dos materiais combustíveis, são classificados de “materiais perigosos” as folhas, pequenos galhos de diâmetro igual ou inferior a 1 cm, gramíneas, líquens e musgos, todos em estado seco. Estes materiais, por apresentarem menor temperatura de ignição, facilitam o início do fogo e aceleram a propagação, queimando-se rapidamente com muito calor e chamas intensas(1).

Da mesma maneira, os “materiais semi-perigosos”, incluiriam galhos acima de 1 cm de diâmetro, troncos caídos, tocos, húmus e turfa, ou seja os materiais lenhosos ou em decomposição e que podem estar compactados, o que faz com que queimem lentamente. Estes materiais possuem ignição mais lenta e difícil, desenvolvendo porém intenso calor, podendo manter uma combustão latente, com risco de reiniciar incêndios dados como controlados(1).

Também o enraizamento superficial devido à natureza inerente das espécies ou das condições da localização (afloramento rochoso), incrementa a suscetibilidade ao dano pelo fogo, ocasionado por incêndio subterrâneo, que propaga-se através das camadas de húmus ou turfa existentes sobre o solo mineral e abaixo do piso da floresta. Árvores com sistema radicial fasciculado e superficial são mais danificadas pelo fogo. É importante lembrar que em regiões montanhosas, é das acumulações de húmus que provém os nutrientes para as árvores(1), como em certas tipologias da Floresta Atlântica das vertentes, onde o incêndio estende-se para baixo, chegando ao leito rochoso com resultados desastrosos e instabilidade ambiental(2), conforme aconteceu em 2007 no monte Caratuva. Árvores com grande altura, apresentando troncos com cascas espessas e isolantes, além de possuirem grande capacidade de rebrota, seriam, algumas das características naturais que previnem danos causados pelo fogo.

Incêndios recorrentes favorecem o desenvolvimento de vegetação arbustiva, com espécies com folhagem resistente, baixa em valor nutritivo e de decomposição baixa, sendo plantas que se transformam em dominantes depois de fortes e repetidos incêndios, caso, por exemplo, das bambusáceas, gramíneas ou samambaias.

Nestas regiões o solo deteriorado, sob a influência de um manto empobrecido, evolui até as condições em que não pode sustentar a vegetação florestal original, muito embora, possam surgir espécies que reconstruam o solo(3).

Além disso, árvores jovens, folhas e pequenos ramos, são facilmente danificadas ou mortas pelo fogo. Árvores com copas baixas, ou desrama natural lenta, apresentam mais material aderido ao tronco, sendo sujeitas ao incêndio de copa, quando a folhagem é consumida pelo fogo, com altas taxas de mortalidade das árvores(1). Estas características são próprias de arbustos, árvores jovens, de pequeno porte ou crescimento lento, como nas classificações tipológicas capoeirinha (vegetação da 2a fase da sucessão vegetal secundária) e floresta altomontana, típica do alto das montanhas(2).

Outra regra conhecida do comportamento do fogo é a que define a tendência de propagação mais rápida nos aclives e mais lenta nos declives. Assim, um incêndio em aclive acentuado se assemelha a um incêndio no plano com vento. À medida que a inclinação aumenta, a velocidade de propagação também aumenta.

Além disso, os  incêndios não se distribuem uniformemente nas áreas florestais. Existem locais onde sua probabilidade é mais frequente, caso das proximidades de vilas ou acampamentos, áreas de exploração mineral, margens de trilhas, estradas, linhas de energia ou telégrafo e margens de rios ou represas. Podem ser acrescentados a esta lista vegetação secundária nos primeiros estágios de sucessão ou de vegetação natural de campos. Por outro lado, existem locais onde raramente ocorrem incêndios. A determinação de áreas com potencial  de ocorrência de incêndios possibilita a adoção de medidas preventivas.

Também é interessante observar alguns dados sobre a ocorrência de incêndios no Brasil(1). Fumantes aparecem como responsáveis por 6,01 % dos incêndios, representando 1,24 % da área queimada; incendiários respondem por 33,88 % dos incêndios, contabilizando 10,94 % em área e os fogos de recreação, típicos de trilheiros, apesar de responsáveis por número menor de incêndios (12,57%), causaram dano em 19,51 % da área registrada neste levantamento. Os dados coletados mostraram também que a maioria dos incêndios florestais (77,54%) ocorreu entre os meses de agosto a novembro em praticamente todos os estados do país.

Dados mais específicos foram levantados pelo Projeto Anhangava, realizado na Serra do Mar em Quatro Barras-Pr. Dos 13 incêndios combatidos por aquele projeto entre 1995-98, não foi possível apurar a causa provável para apenas um, sendo que cinco foram relacionados a fogos para mineração. Constatou-se, porém que o maior número (7 incêndios) foi provocado por visitantes, sendo cinco em grandes feriados (sete de setembro ou primeiro de maio), dias de visitação intensa(4).  De modo geral estes incêndios foram classificados nas classes I e II, ou seja pequenos incêndios em áreas de no máximo 4 ha. Os incêndios de maior porte (classe III, até 40 ha em 1997 e 2003) ocorreram no morro Pão de Loth, vizinho ao Anhangava.  

 Veja mais em: 

(1) SOARES, R. V. Incêndios florestais, controle e uso do fogo. Curitiba: FUPEF, 1985. 

(2) STRUMINSKI. E.   Parque Estadual Pico do Marumbi, caracterização ambiental e delimitação de áreas de risco. Curitiba, 1996. Dissertação (Mestrado em Engenharia Florestal) – Setor de Ciências Agrárias, Universidade Federal do Paraná. 112 p. 

(3) NASCIMENTO, L.H.P. Combate a incêndios florestais. In: Curso de Guardas-parque. São José dos Pinhais: FBPN, 2001. P. 96 – 128. 

(4) STRUMINSKI, E. Proteção Florestal. In: Projeto Anhangava. Curitiba: SEMA/IAP, Instituto Gaia do Brasil, 1998. P. 42 – 45. 

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