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Archive for the ‘resenhas’ Category

Por Edson Struminski (Du Bois)

Até os anos 1990 eram raros os títulos no mercado editorial brasileiro voltados para temas de montanha ou montanhismo escritos em português e quando apareciam às vezes eram tão toscos que não valiam o investimento neles. Geralmente quem tinha interesse em se aperfeiçoar procurava títulos em inglês ou espanhol, que apresentavam uma didática mais elaborada e atualizada. Nesta era pré-internet, estes livros importados podiam ser conseguidos, com algum esforço, em algumas livrarias ou (no meu caso), faziam parte dos gastos que, mesmo em detrimento de algum equipamento, eu fazia quando viajava a algum de nossos vizinhos de continente.

Um dos livros mais didáticos que tive oportunidade de adquirir, em Curitiba mesmo e consultar muitas vezes, foi escrito em alemão, uma lingua que compreendo muito pouco. O fato é que Alpine Felstechnik, de Pit Schubert, um livro de bolso do fim dos anos 1980, é tão amplo, completo e bem ilustrado que dispensa até o entendimento profundo desta lingua. Continua sendo um livro que consulto até hoje.

O livro de Pit Schubert é de certa forma um clássico, por demonstrar o que um livro que se pretende didático em montanhismo tem de apresentar, ou seja, uma sequencia evolutiva de técnicas e procedimentos, do básico ao avançado, variedade de assuntos, recomendações importantes, tudo recheado com muitas, muitas ilustrações.

Escale melhor e com mais segurança, uma resenha

Didática é a receita também de “Escale melhor e com mais segurança”, segunda edição de um manual de técnica de escalada e montanhismo escrito por Flavio e Cintia Daflon, do Rio de Janeiro. 

Um livro estilo “manual de escalada” escrito no Brasil, por montanhistas brasileiros, revela, de certa forma, uma fase diferente do amadurecimento deste esporte no Brasil, pois já dispomos de vários títulos, em português, de montanhistas que contam suas aventuras, ou livros que são roteiros de viagem em montanhas ou guias de escalada de determinados locais, ou ainda que apresentam montanhas como resultado de algum estudo científico.

Assim, um livro deste gênero necessita igualmente de um amadurecimento pessoal e não apenas do esporte no local  onde o livro foi produzido, algo que pode ser entendido como plenamente satisfeito no caso de Flavio e Cintia e do Rio de Janeiro, assim, as observações que farei a respeito deste livro visam apenas o aperfeiçoamento para uma edição posterior.

“Escale melhor” inicia com um histórico do montanhismo mundial e outro brasileiro, ou melhor regional, pois o Rio de Janeiro e, em particular, a cidade do Rio é tratada com mais detalhes neste capítulo, o que de certa forma simplifica em demasia a complexidade do crescimento do esporte no Brasil. É um capítulo importante mas, de certa forma, pouco instrutivo para um leitor de São Paulo, do interior do rio Grande do Sul ou do Ceará.  As histórias regionais ou locais estão sendo contadas hoje em guias de escalada ou mesmo na internet e nem sempre terão relação direta com aquilo que é contado no capítulo inicial deste livro.

Os capítulos seguintes tratam de aspectos básicos e importantes para o iniciante em escalada.  Há um capítulo sobre modalidades de escalada que é bem adequado, embora o leitor possa ser induzido a ficar com a impressão de que a escalada em Big Wall seja apenas realizada em artificial.

O capítulo sobre equipamentos é um desafio, devido à constante inovação neste setor, exigindo, dos autores, a tarefa adicional de decidir sobre o que é “modismo” em matéria de equipamentos novos e o que é permanente. De modo geral os autores se saíram bem, mas este seria também um bom local para apresentar equipamentos nacionais inovadores que já atendem, há muitos anos, os escaladores brasileiros, como chapeletas de aço inox de aba simples e dupla (para rapel), que inexplicavelmente estão ausentes no livro, cadeirinhas e calçados de escalada, entre tantos outros equipamentos nacionais que já atendem padrões de qualidade bem exigentes, ou que no mínimo mereceriam uma avaliação comparativa em um manual do estilo “Escale melhor”.

Os capítulos sobre nós, encordamentos, asseguramento e descida (rapel) são bem simples, instrutivos e satisfatórios para o leitor iniciante no tema. Da mesma forma, o capítulo que apresenta as técnicas de escalada são voltados para suprir as necessidades deste leitor iniciante.

Os capítulos mais substanciais deste manual são aqueles que tratam de técnicas mais avançadas e que permitem verificar o conhecimento dos autores sobre o tema e, de certa forma, estimular os leitores a buscar mais informações. É o caso dos temas, “guiando”, “auto-resgate” e “escalada artificial”, tratados em capítulos, em geral, bem escritos e bem ilustrados.

O livro conta ainda com capítulos igualmente bem escritos sobre treinamento e alimentação (nutrição), escritos por especialistas, o que acrescenta mais densidade a temas, que note-se, são bem vastos. Proteção contra acidentes também é outro tema que por si só vale o livro inteiro. O capítulo sobre meio ambiente e ética é na verdade uma compilação de códigos de conduta em montanha, não havendo nenhuma informação relevante sobre ecossistemas de montanha. Há também uma apresentação, inevitável eu diria, sobre as diferentes escalas de graduação de escaladas vigentes no mundo e no Brasil.

Sugestões para uma futura edição 

Como comentei no início desta resenha, na fase atual do amadurecimento do montanhismo no Brasil ainda são necessários grandes manuais de escalada como este, que procuram abarcar todo o universo do conhecimento do montanhismo nacional em uma só publicação.  Com isto temas de diferentes importâncias para os diferentes estágios que os montanhistas se encontram (iniciante, intermediário, veterano) acabam recebendo um tratamento mais ou menos uniforme, ou ocupando um número similar de páginas. Por exemplo, temas de interesse típico de iniciantes (técnicas básicas de escalada) dividem seu espaço com  técnicas de escalada artificial, que já são temas interessantes para escaladores mais avançados.

Para as próximas edições, que espero que possam continuar acontecendo, sugiro que todo o livro passe por uma revisão formal antes de ser impresso, para melhorar sua organização, evitando que assuntos que só são tratados no final, sejam referidos de passagem no meio do livro, por exemplo o grau de exposição das vias, o que pode confundir o leitor.  Também qualquer sugestão de leitura citadas nos capítulos deveria ser apresentada como bibliografia recomendada no final. Este tipo de revisão é feita por editoras ou profissionais da área.

Alguns temas tratados no atual manual estão defasados ou incompletos (história do montanhismo) ou ausentes (meio ambiente de montanha) e necessitariam de uma apresentação muito mais extensa, feita por profissionais da área, ou então, deveriam ser simplesmente excluídos, pois não chegam a ser fundamentais para uma publicação que se destina a melhorar a capacidade de uma pessoa de escalar melhor e com mais segurança. São temas que podem ser buscados em outras fontes.

Com isto tudo ressalto que Flávio e Cintia Daflon demonstram grande capacidade e vocação didática ao publicar um livro ambicioso e valioso como este e que como comentei, é válido no momento atual do montanhismo e da escalada no Brasil. É um livro muito recomendável, portanto.

Penso que a tendência futura é que grandes manuais cedam espaços para publicações menores, onde o potencial didático encontre espaço cada vez mais. Basta lembrar da coleção de pequenos manuais da Editora Desnivel da Espanha, cada um tratando de um assunto  diferente, como ancoragens de escalada, rapel, montagem de muro de escalada caseiro, etc. Neste sentido Flávio e Cintia já estão bem à frente.

Recomendo a leitura!

“Escale melhor e com mais segurança, manual de técnicas de escalada ”  segunda edição. 2010. Companhia da Escalada.

http://www.companhiadaescalada.com.br/livraria/escalemelhor/escalemelhor.htm

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Edson Struminski (Du Bois) 

O Marumbi é tido como um dos berços do montanhismo no Brasil, com mais de 100 anos de prática esportiva e uma reserva ecológica valiosa, mas o número de publicações de qualidade disponíveis para o público sobre este lugar é notavelmente baixo. Existem é claro, textos acadêmicos e técnicos e um livro anterior de minha autoria derivado de uma dissertação de mestrado, porém mais voltado para aspectos ambientais do Marumbi (1). Na verdade um véu sempre pareceu cobrir o universo da escalada no Marumbi. Sempre existiram “escaladas secretas”, “vias escondidas” e coisas do gênero que aparentemente serviam para desestimular os novatos, mas que na prática acabaram por relegar ao abandono o trabalho das gerações anteriores de montanhistas.

Este véu acaba de ser levantado agora pela notável publicação “Marumbi, guia de escalada e introdução à história do montanhismo paranaense” (2), onde o nosso dileto amigo José Luiz Hartmann, o “Chiquinho”, procura suprir tanto o aspecto tradicional do guia de escaladas, quanto a lacuna de apresentar ao público leigo um pouco da história do montanhismo no Paraná, em particular do Marumbi.

Com isto a publicação foge ao aspecto meramente utilitarista dos guias comuns e aparece como um livro de referência, particularmente em função do primoroso acabamento fotográfico, que mescla fotos convencionais de escaladas com fotos aéreas de grande distância, além de imagens antigas que dão um sabor adicional à publicação. Notável neste sentido é a didática comparação entre as vias “Incandescente” dos anos 90 e “Enferrujado”, do início dos 70, que marca, como o próprio Chiquinho ressalta no livro, a evolução da escalada em rocha nesta montanha, pois uma via é feita em livre e outra em artificial tipo “paliteiro”.

Com elegância, este tipo de comparação não é utilizado para desmerecer os escaladores antigos, mas apenas para demonstrar um pouco da ética atualmente vigente no Marumbi, que privilegia as vias em livre e com equipamento móvel. Chiquinho também inova ao introduzir na graduação das vias uma notação de passagens em vegetação (M1, M2 e M3), que refletem a nossa escalada mista tropical.

Particularmente verdadeira é, também, a constatação, feita pelo Chiquinho, da influência da abertura de vias no campo escola do Anhangava, que formou, a partir dos anos 80 toda uma geração de novos escaladores, que encontraram no Marumbi terreno farto para a abertura de grandes e pequenas paredes, pois até então as vias herdadas das gerações anteriores eram basicamente chaminés ou paliteiros artificiais. Esta constatação não deixa de embutir um desafio para as novas gerações de escaladores, encontrar novas linhas no Marumbi que já não tenham sido abertas como escaladas.

Como não poderia deixar de ser, boa parte do guia é portanto preenchido com estas escaladas que surgiram a partir daqueles anos e seguem até a atualidade. Não por acaso, o nome mais frequente e, na minha opinião, o do principal e mais importante escalador do Marumbi de todos os tempos é o do próprio Chiquinho, que com grande maturidade e humildade segue abrindo vias (as mais difíceis e as mais longas são dele) e em um gesto de extrema generosidade, se deu ao trabalho de recuperar várias das vias que estão citadas no guia, o que certamente tornará a prática da escalada muito mais prazerosa e segura para os que forem ao Marumbi a partir do próximo ano. 

(1)    STRUMINSKI. E.   Parque Estadual Pico do Marumbi. Curitiba: Editora da Universidade Federal do Paraná, 2001. 

(2)    HARTMANN, J.L. Marumbi, guia de escalada e introdução à história do montanhismo paranaense. Curitiba: Editora Marumby, 2007. 

CONTATOS COM O AUTOR José Luiz Hartmann: altoestilo@altoestilo.com 

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